quarta-feira, 2 de abril de 2025

Anistia?

 


Quem me conhece sabe que sou uma pessoa de bem, estudei, trabalhei, casei, eduquei filho, pago meus impostos, continuo fazendo jus ao título de honesta, de cidadã de bem.

Agora imaginem o seguinte: eu e outra dúzia de amigas, resolvemos visitar outro estado. Lá, depois de encher a cara, porque estamos muito felizes em nosso encontro, vamos ao Museu do Ipiranga em São Paulo e conseguimos, por inépcia da segurança ou esperteza nossa, esfaquear 7 vezes o famoso quadro de Pedro Américo, Independência ou Morte. De quebra, a gente consegue quebrar espelhos, escrivaninhas e sofás de valor histórico, inestimável. Tecnicamente estamos fazendo isto porque não há ninguém nos impedindo e para nós será uma aventura inesquecível, daquelas que rendem histórias aos filhos, netos, fotos no Instagram, no Facebook e uma chamada no Jornal Nacional, onde vão dizer que amigas bêbadas e felizes destruíram patrimônio público. 

Mas, tudo bem, somos mães de família, sem histórico policial, estamos empregadas, fazemos caridade e carregamos dentro de nós os conceitos bíblicos.. Quem não vai entender que apenas nos empolgamos, extrapolamos e merecemos uma chance de sermos perdoadas?


Dito isto, o que descrevi foi fato ocorrido em 8 de janeiro de 2023. Claro que não foi em São Paulo, foi no Palácio do Planalto, o quadro mencionado não era de Pedro Américo e sim As Mulatas, de Di Cavalcanti, não foram móveis do Império destruídos, mas um relógio do século 18, poltronas, sofás, escrivaninhas cujo valor histórico também é inestimável. Além, é claro, de um rastro de destruição, sujeira e ignorância sem precedentes. E nem estou mencionando uma tentativa fracassada de golpe, que não foi à frente graças a falta de apoio maciço do Exército.

Foram gastos cerca de dois milhões e duzentos mil reais para restaurar, além do quadro de Di Cavalcanti e do relógio de mesa, uma escultura de Bruno Giorgi, outra de Marta Minujin, quadros de Oswaldo de Teixeira, Frans Krajcberg, Dario Mecatti, Clóvis Graciano, além da recomposição de vidros, pisos e outros itens danificados.

Mas, você me conhece, sou uma vovó legal que se empolgou, que não tinha ideia das consequências e acho que naquele momento eu até tinha uma Bíblia dentro da minha bolsa. E me prenderam. Tão injustamente, justo eu, mãe dedicada de família. E aí eu pergunto: você me perdoa por destruir parte da história, pela baderna que armei, pelo meu entusiasmo e descontrole, mesmo que seja do dinheiro do seu imposto que está saindo o conserto dos danos?

Sabemos que o interesse na anistia não está em tirar a vovó Débora da cadeia porque foi irresponsável e inconsequente. No caso do 8 de janeiro a preocupação está em anistiar os medalhões, é evitar a prisão do ex presidente da República e seus asseclas. Os homens e mulheres de bem que roubaram de nós nossa bandeira para fazer dela parte desta palhaçada, fizeram isto a nós, que independente do partido ou preferência politica aceitamos o resultado das urnas e nos resignamos a torcer pelo país em qualquer cenário, porque temos filhos, netos,sobrinhos e afilhados por quem torcemos para que vivam em um Brasil mais justo, mais honesto, já que, claro, o futuro a eles pertence.

Há trinta e seis anos atrás eu estava na mesa de parto muito brava com as enfermeiras que, entre uma contração e outra, discutiam quem tinha matado Odete Roitman. O Bruno nasceu, para desespero da equipe, quase na hora da revelação. Ontem a novela estreou um remake discutindo preceitos éticos do povo brasileiro, seja do malandro que parece boa gente ao ricaço de uma elite muito especifica. O momento em que a novela estreia é muito oportuno. Nosso Congresso está sendo pressionado a aprovar a anistia a todos os envolvidos no episódio do golpe que não deu certo, e o povo mostrou, em passeatas de direita e de esquerda ocorridas nas últimas semanas que não está nem aí para o que vai acontecer. Com o preço do ovo e do café nas alturas, anistia não é pauta para o brasileiro neste momento. A grande maioria nem sabe sobre o que é anistiar alguém que fez algo muito errado. Com pouco dinheiro no bolso, o medo de lhe levarem o celular ( ou a vida) em um assalto, ou não conseguirem limpar o nome para lhe restaurar o crédito, é muito oportuno voltar a perguntar: vale qualquer coisa por dinheiro, status e poder?

Pelo caminhar da carruagem na Câmara e no Senado, esta pergunta tem a resposta de sempre, já vai para quinhentos e vinte e cinco anos... e contando..... 

E você, meu amigo, minha amiga, mandaria a vovó Débora para o xilindró por algum tempo? Se você é mesmo meu amigo, eu espero que sim, porque é um sinal de esperança ter um amigo ou amiga que pense assim...