Agora imaginem o seguinte: eu e outra dúzia de amigas, resolvemos visitar outro estado. Lá, depois de encher a cara, porque estamos muito felizes em nosso encontro, vamos ao Museu do Ipiranga em São Paulo e conseguimos, por inépcia da segurança ou esperteza nossa, esfaquear 7 vezes o famoso quadro de Pedro Américo, Independência ou Morte. De quebra, a gente consegue quebrar espelhos, escrivaninhas e sofás de valor histórico, inestimável. Tecnicamente estamos fazendo isto porque não há ninguém nos impedindo e para nós será uma aventura inesquecível, daquelas que rendem histórias aos filhos, netos, fotos no Instagram, no Facebook e uma chamada no Jornal Nacional, onde vão dizer que amigas bêbadas e felizes destruíram patrimônio público.
Mas, tudo bem, somos mães de família, sem histórico policial, estamos empregadas, fazemos caridade e carregamos dentro de nós os conceitos bíblicos.. Quem não vai entender que apenas nos empolgamos, extrapolamos e merecemos uma chance de sermos perdoadas?
Dito isto, o que descrevi foi fato ocorrido em 8 de janeiro de 2023. Claro que não foi em São Paulo, foi no Palácio do Planalto, o quadro mencionado não era de Pedro Américo e sim As Mulatas, de Di Cavalcanti, não foram móveis do Império destruídos, mas um relógio do século 18, poltronas, sofás, escrivaninhas cujo valor histórico também é inestimável. Além, é claro, de um rastro de destruição, sujeira e ignorância sem precedentes. E nem estou mencionando uma tentativa fracassada de golpe, que não foi à frente graças a falta de apoio maciço do Exército.
Foram gastos cerca de dois milhões e duzentos mil reais para restaurar, além do quadro de Di Cavalcanti e do relógio de mesa, uma escultura de Bruno Giorgi, outra de Marta Minujin, quadros de Oswaldo de Teixeira, Frans Krajcberg, Dario Mecatti, Clóvis Graciano, além da recomposição de vidros, pisos e outros itens danificados.
Mas, você me conhece, sou uma vovó legal que se empolgou, que não tinha ideia das consequências e acho que naquele momento eu até tinha uma Bíblia dentro da minha bolsa. E me prenderam. Tão injustamente, justo eu, mãe dedicada de família. E aí eu pergunto: você me perdoa por destruir parte da história, pela baderna que armei, pelo meu entusiasmo e descontrole, mesmo que seja do dinheiro do seu imposto que está saindo o conserto dos danos?
Sabemos que o interesse na anistia não está em tirar a vovó Débora da cadeia porque foi irresponsável e inconsequente. No caso do 8 de janeiro a preocupação está em anistiar os medalhões, é evitar a prisão do ex presidente da República e seus asseclas. Os homens e mulheres de bem que roubaram de nós nossa bandeira para fazer dela parte desta palhaçada, fizeram isto a nós, que independente do partido ou preferência politica aceitamos o resultado das urnas e nos resignamos a torcer pelo país em qualquer cenário, porque temos filhos, netos,sobrinhos e afilhados por quem torcemos para que vivam em um Brasil mais justo, mais honesto, já que, claro, o futuro a eles pertence.
Há trinta e seis anos atrás eu estava na mesa de parto muito brava com as enfermeiras que, entre uma contração e outra, discutiam quem tinha matado Odete Roitman. O Bruno nasceu, para desespero da equipe, quase na hora da revelação. Ontem a novela estreou um remake discutindo preceitos éticos do povo brasileiro, seja do malandro que parece boa gente ao ricaço de uma elite muito especifica. O momento em que a novela estreia é muito oportuno. Nosso Congresso está sendo pressionado a aprovar a anistia a todos os envolvidos no episódio do golpe que não deu certo, e o povo mostrou, em passeatas de direita e de esquerda ocorridas nas últimas semanas que não está nem aí para o que vai acontecer. Com o preço do ovo e do café nas alturas, anistia não é pauta para o brasileiro neste momento. A grande maioria nem sabe sobre o que é anistiar alguém que fez algo muito errado. Com pouco dinheiro no bolso, o medo de lhe levarem o celular ( ou a vida) em um assalto, ou não conseguirem limpar o nome para lhe restaurar o crédito, é muito oportuno voltar a perguntar: vale qualquer coisa por dinheiro, status e poder?
Pelo caminhar da carruagem na Câmara e no Senado, esta pergunta tem a resposta de sempre, já vai para quinhentos e vinte e cinco anos... e contando.....
E você, meu amigo, minha amiga, mandaria a vovó Débora para o xilindró por algum tempo? Se você é mesmo meu amigo, eu espero que sim, porque é um sinal de esperança ter um amigo ou amiga que pense assim...