sábado, 9 de maio de 2026

Dor e Alienação

Os últimos anos têm sido muito conturbados para mim. As últimas semanas também.Estou com duas pessoas a quem quero muito bem desenganadas pelos médicos, um meus netos cãezinhos aguardando um diagnóstico de nódulos benígnos ou malígnos ( diga-se de passagem um dos que eu mais me apeguei após a morte do meu marido), estou lidando com uma mudança muito grande na minha vida em diversos sentidos e, de repente percebi que não estou com medo dos rumos, estou com medo de sentir mais dor. Uma dor que parece que eu conheço minha vida toda, de um jeito ou de outro. Uma dor que me acompanha desde pequena, que eu cresci acreditando que fazia parte da vida da criança, do adolescente e do adulto,mas que eu não aguento mais viver. Minha terapeuta até expressou alguma preocupação, mas ela sabe que se eu tivesse coragem, tiraria a minha vida sem pensar duas vezes. Mas, ela também sabe que eu não tenho esta coragem. Seja pelo medo da dor, de não dar certo e virar um fardo para os outros, por infringir dor a quem eu amo ou apenas por senti mais dor, eu não tenho esta coragem. Dito isto, admiro quem tenha, pois tirar a própria vida é um dos atos de mais coragem que se pode ter. Mas, é egoísta também. Seja por alguma culpa católica, seja por medo, seja por detestar ser um fardo, dificilmente faria isto a não ser em total desespero. O fato é que tudo o quem vem acontecendo nas últimas semanas têm me despertado para alguma dose de realidade. Li em algum lugar há algum tempo atrás que a atriz Joanne Woodward levou dez anos para mexer nas coisas de Paul Newman depois que ele morreu, deixando até o carro dele parado na garagem como ele deixou ao falecer. Participei de um grupo de luto por quatro meses onde ouvi histórias muito parecidas com as minhas. Mulheres que não conseguiam seguir em frente, doar as roupas, mover os móveis da casa, mexer em nada após o falecimento dos seus maridos. Todas com casamentos como a de Joanne Woodward, com cerca de vinte ou mais anos, uma com o mesmo tempo de casada que eu tinha. Poucas doaram roupas e pertences, poucas saíram do lugar onde viviam, todas declaravam ter a mesma dificuldade que eu tenho: Mudança. Apagamento. Uma dor que imobiliza. O pavor de ter que encarar o que vem depois da mudança. Não precisa ser um gênio ou ser psicóloga para saber o que me paralisa,mas é preciso ter coragem para assumir o que me paralisa.Éo medo da dor. É o pavor da mudança, da perda de controle. Eu sofro pela minha parente porque imagino o medo que a paralisa,todosanto dia frente ao cancer. Eu sofro pela mãe da minha amiga, porque sei o que está doendo nela, na família dela. Eu sofro pelo Bruce porque sei o que vai doer para meu filho e minha nora. E para mim, cujo convívio, embora não seja diário, mas foi a quem mais me apeguei quando Afonso partiu. Eu sofro pela perda cada vez maior da minha independência, eu sofro pelo que vem pela frente. Eu sofro porque não vou admitir a mim mesma ser um fardo para ninguém, mais do que já sou. Eu sofro porque estou com medo de qualquer coisa doer mais do que me doeu ver meu marido definhar por tres anos seguidos. Estou cansada deste papo de coach, de ter que seguir em frente, de que Deus não te dá um fardo maior do que se pode carregar, de que eu sou forte e vou superar tudo, de que eu não sou a única que tem problemas. Claro que não sou a única com problemas, todo mundo tem problemas. Mas, eu tinha quarenta e cinco anos quando passei uma noite na casa dos meus pais e petrifiquei quando ele, doente e incapacitado,caiu da cama e desandou a falar coisas que me impediram de me mover. Pensa que eu não sei? Eu fui covarde, eu fui sensível, eu fui incapaz. Eu sei todas as conversas que rondam aquela interminável noite. Supera o trauma. Sério que você está chorando? Claramente eu não superei os problemas com meu pai. Eu super admiro quem supera seus traumas, mas eu não consegui ser assim. E não acho que aos sessenta e quatro anos vou conseguir ser diferente. Talvez por isto a saúde mental desta meninada de hoje esteja toda ferrada. Porque dizem a eles engole o choro e todo mundo engole e posa de bonito nos Instagrams da vida e vida que segue. Eu engolimuito choro. Mas, nunca fiz cara de tudo bem. Eu tenho um amigo da época da faculdade, que se ler isto vai se lembrar, que era uma das pouquísimas pessoas que sabia parte dos meus problemas em casa, que dizia que eu era uma cristaleira, com as taças sempre batendo umas nas outras, balançando e tremendo, até o dia em que uma se partiria. E depois as demais. Pois é,querido ( não quero mencionar seu nome para não comprometê-lo, mas você sabe quem você é), levou apenas sessenta e quatro anos para as taças realmente começarem a se partir, uma atrás da outra. Cristaleira. Parece que estou ouvindo sua voz no banco do onibus. E nunca me senti tão próximo de uma definição como esta em cinquenta anos. Eu tenho muitos arrependimentos nesta vida, mas a opçao de ficar no apartamento para que o Afonso morresse aqui não é um. Não mexer em suas coisas após a sua morte também não é. Não ter encarado o diagnóstico do Parkinson de frente quando recebi a notícia sim. Devia ter procurado ajuda naquele instante, mas aí veio a Covid, as perdas, o primeiro AVC do Afonso, a crença de que eu poderia recupará-lo, o segundo AVC, os problemas finaneiros, a morte dele, o luto, a depressão. A necessidade de que eu havia superado para melhorar a convivência familiar, para poder continar trabalhando, porque disto dependia meu sustento. a gente aprende a fingir. Aliás, fiz isto mais da metade da minha vida, porque não agora. Mas, você tem um filho! Ele tem que dar suporte! Esta é clássica e estou muito acostumada a ouvi-la. Eu criei meu filho desde que ele conseguiu se entender por gente para ser um ente independente, para ter vida própria. Mesmo que tenha me revirado as entranhas quando o pai incentivava ele a seguir um cargo público, eu me contive. Dei minha opinião e respeitei a opção dele.Quando ele partiu para o Pará foi difícil,mas quando ele casou-se no Pará em plena pandemia ( por motivos práticos e burocráticos de benefícios, etc...), foi o fundo do poço pra mim. Respeitei, como sempre sua decisão, suas opções, mas não posso dizer o quanto doeu não estar com o pai presente ali neste dia. Depois ele voltou, só que para Santa Teresa, que a gente achava uma benção até o pai ficar doente. Ele precisou tirar uma licença de um mes para me ajudar no hospital. Santa Teresa está longe de ser o Pará, mas provou-se após a morte do Afonso ser distante,não suficientemente perto para mim, que fiquei. Ele trabalha feito um condenado, está sempre cansado, há um custo enorme financeiro que eu sei que ele não pode arcar. Então, eu ouço com frequência: mas o Bruno é seu filho, tem que estar mais presente! Mas, como mãe, que ama o filho que criou, não quero ele mais presente. Significa que ele descansa menos, gasta mais e pega mais estradas para ir e voltar do que qualquer mãe não egoísta gostaria. Deixa ele em casa. Ele vem quando pode, mesmo que eu adorasse tê-lo por perto a todo instante. O mesmo ocorre com minhas melhores amigas, minha chamada rede de proteção. Prefiro me referir a elas como rede de proteção à distância. Se eu estiver hospitalizada eu vou deixar chamar uma delas. Caso contrário, cada uma tem sua vida. Nenhuma delas tem a vida fácil para me socorrer ou quebrar meus galhos quando eu necessito. Não vou permitir que ninguém deixe o filho, o trabalho, o marido, a casa para resolver meus problemas. Todas as opções do que acontece hoje foram tomadas por mim. Eu decidi acompanhar meu marido para longe da família. Eu decidi ficar aqui porque seria bom para todos ( meu filho, meu marido e eu), eu decidi ficar aqui quando ele ficou doente e depois quando ele faleceu. Boas ou ruins, e dependendo de circunstâncias que envolvem inventário e despesas com as quais não posso arcar, foram todas decisões minhas. Não posso culpar ninguém, ou responsabilizar ninguém pelas coisas que estou passando ou sentindo. Mas, nada disto elimina o medo. O medo do hoje, o medo principalmente do amanhã. O medo da dependência total, o medo de ter que fazer coisas com as quais não concordo por não poder decidir no futuro. E aí vem aquela coisa da lâmpada que acende na tua frente e diz:Bingo!Taí porque seu irmão te goza toda santa vez quevocê se despede na tua ida embora de São Paulo chorando ( mesmo tentando engulir o choro), taí porque está tão difícil encarar a morte eminente de uma prima ou da mãe de uma amiga, ou a possibilidade de perder o seu cãozinho neto. Taí porque você reza e chora toda a noite pela prima, pela mãe da amiga, pelo Bruce, por sua mãe com tanta idade, por seu filho que diz que vai pegar a estrada e depois liga dizendo que o carro quebrou no meio da viagem em um lugar sem possibilidade de socorro. Eu tenho medo. Medo do sofrimento da minga prima, medo do sofrimento da minha amiga, medo do meu sofrimento pelo Bruce, medo da minha mãe partir e eu não chegar a tempo, medo do meu filho, com o carro quebrado no meio do nada ser assaltado, ou coisa pior. Eu tenho medo de não dar conta, de quebrar com a dor, de ter que passar de novo por dores que me moldaram. Eu levei anos para me tornar independente. Eu levei anos para enfrentar meu pai ( no dia do meu casamento), eu levei anos para confiar em mim ( foi graças ao Afonso que eu voltei a dirigir aos trinta anos), para ter uma conta bancária só minha ( também graças ao Afonso), e, meio que de repente, eu perdi a fé em mim. Perdi a crença que sempre incuti em meu filho, em minhas amigas. De repente, eu hoje duvido das coisas que ouço ou vejo, não confio mais na minha memória, não posso esquecer a bengala ao sair de casa. Eu me olho no espelho e não me reconheço. Estou muito distante daquela mulher que decidia tudo por si mesma, que dirigia até tarde na rua, que teve funcionária que contruiu casa porque eu pagava em dia. Que, quando era cantada por alguém no trabalho mandava à merda porque tinha um marido que me valorizava em casa. Que levava o filho a noite tocar em um bar quando ele tinha banda e pedia uma cerveja enquanto ele tocava e o marido estava dormindo, apenas porque ele confiava que eu não iria me desviar por tão pouco. De repente, tudo mudou. E eu não sei mais quem sou. Não faço mais análise profissiográfica nas linhas de produção, não conduzo mais entrevistas de admissão ou demissão, não faço mais festas com maletinha, nem levo a festa aonde o cliente está. Com muito esforço estou pintando coisas que já não envolvem pestanas ou sombrancelhas, ou que sejam demasiado pequenas para eu não correr o risco de borrar tremendo, mesmo sob o efeito do prolopa e cia. Apenas desenhos maiores. E, em breve, eu sei, nem isto eu vou conseguir pintar. Me resta,para efeito de renda,continuar a ser síndica do prédio, algo que está sugando a minha alma. Meu marido nasceu para isto. Por este motivo foi síndico por onze anos. Lamentavelmente, parece que eu não nasci talhada para tal serviço. Estou tocando, porque é o que me resta como opção, mas sei que esta função tem seu preço e está sugando minha alma, e o pouco que me resta de vida.Não estou reclamamndo no sentido de ser ingrata, ainda bem que continuo na função, o que me garante mais uns meses de traquilidade, mas definitivamente não é uma opção definitiva. Até porque em um momento alguém vai tomar meu lugar. E assim, registro o acender da lâmpada que cristalizou minhas certezas nestas últimas semanas. Não acho que seja texto para que ninguém leia, mas ninguém mais lê meu blog há anos. Mas, precisava botar para fora meus pensamentos. Junto com meus últimos textos escritos, este agora faz mais sentido. Preciso trabalhar meu medo de sentir mais dor. Isto ficou cristalino para mim nos últimos dias.Preciso me preparar para uma hora qualquer perder minha mãe que está com oitenta e oito anos ( espero que chegue aos cem), preciso trabalhar meu medo deperder o Bruce, preciso trabalhar sobre o que dizer para minha amiga sobre a mãe dela ou sobre perder minha prima.Preciso trabalhar sobre quando eu não puder mais ser independente( hoje eu ainda consigo ser, graças a Deus). Preciso trabalhar o medo que sinto de tudo, desde o cheiro de feijão queimado no vizinho até meu filho ir e vir a Vitória em segurança. Sinto que é este medo que está me matando aos poucos. Ao menos, eu acho que me encontrei o que me atormenta. Já é um primeiro passo. O que virá depois, nem tenho ideia. Mas, encarar de frente o problema, parece ser um bom começo!

sábado, 2 de maio de 2026

BRUCE

Bruce, eu te amo como um neto de verdade! Você tem quatro patas, mas é o que o destino quis que você fosse, um do meus netos, por quem eu tenho tanto amor, não fosse humano, fosse um cão, doce, querido e carinhoso. Mas, tenho que dizer, que hoje agradeço por não ter um neto humano. O mundo eu não reconheço mais como o meu mundo, a vida eu não reconheço mais como a minha vida. Por acaso, depois de escrever minha última crônica, lembro-me bem o que houve naquela noite, sem ter contado para ninguém. Depois de ter pulado a varanda de nossa casa, o portão de ferro, com enorme sacrifício, toquei em diversas campainhas na rua. Vizinhos de parede, vizinhos um pouco mais distantes. todos na viela 356, ou talvez , outro número que fiz questão de esquecer, da Rua Chamantá. Pedi por ajuda, pois meu pai ia matar minha mãe com uma faca e ninguém, ninguém, quis ajudar. Em briga de marido e mulher ninguém se mete, foi o que ouvi, de quem se despôs a falar. Outros apenas , por ouvir os gritos, apenas abriram um canto da cortina e a fecharam, como se nada tivesse acontecido. Foi preciso eu subir uma viela escura e vazia para pedir ajuda a uma amiga de escola, cujo pai também fazia coisas parecidas. A Norma, mãe da Ana Paula, chamou a polícia. Foi quando eu voltei para casa e meu pai bancou de bonzinho, comigo no colo, dizendo que era um engano. E o meu medo das consequências foi maior que o de denunciá-lo. Eu me calei. Devia ter uns treze anos. Talvez quatorze, mas não os quatorze de hoje em dia. Antigamente, a idade se manifestava de forma diferente. Quatorze eram os dez de hoje em dia. Minha amiga Ana Paula nunca mais falou comigo. Sei lá se porque chamei a mãe dela, se porque o pai dela era igual. Ela acabou por casar-se com meu vizinho de frente e as coisas desandaram de vez. Ela simplesmente me ignorava. Depois deste dia nunca mais chamei a polícia, mas não significa que ele deixou de nos ameaçar. Tenho uma foto aos treze anos, onde estou a segurar um tio,Marcílio,( futuramente meu padrinho de casamento) a continuar jogando detetive apenas para ele e sua esposa Wanda não nos deixarem sozinhos, com medo do que meu pai iria fazer na saída deles. Por sinal, a foto ficou bonita, qualquer hora , encontro ela. Não posso mais cobrar nada de minha mãe. Ela está com oitenta e oito anos, começou a viver a vida de verdade quando ficou viúva, viajou, aproveitou, e hoje está quase incapacitada. Meu irmão não gosta de falar sobre o assunto e minha irmã sequer viveu estes anos de terror. Ou seja,é quase como se não tivesse testemunhas do ocorrido, quase como se falasse sozinha. Mas sei bem, muito bem tudo o que aconteceu. Meu pai me deixou marcas das quais eu não consegui me livrar. E ainda assim, eu o perdoei. Em uma das últimas visitas na clínica onde ele foi internado ele me pediu um pedaço de bolo com chantily. Eu sabia que eram seus últimos dias , mas minha família ( mãe, irmão e irmã), obedecendo a uma ordem da clínica me proibiram de buscar o tal bolo na padaria. Eu não me perdôo por isto. Ele estava morrendo, não faria diferença comer ou não aquela fatia de bolo, mas fui voto vencido. Acharam que faria mais mal. Eu sabia que ele estava morrendo. Queria ter dado o bolo para ele. Mas, não me permitiram. Nunca me perdoei por isto. Por obedecer o que eles decidiram. Eu era uma visitante em São Paulo.Morava em Vitória. espécie de forasteira, que só vinha duas ou tres vezes ao ano a São Paulo. Já morava fora há anos, era como se minha opinião não valesse. Poucos dias depois ele entrou em coma e nunca mais pode provar o bolo que me pediu. Isto me atormenta até hoje. Nunca consegui esquecer. Neste período que ele esteve gravemente enfermo eu estive várias vezes em São Paulo. Estive com ele no dia dos Pais, mesmo ele estando em coma. No enterro dele tive uma crise, que não tive nem quando o meu marido faleceu. Chorei, gritei, ninguém entendeu. Acho que nunca consegui resolver meus problemas com meu pai. Não gritei, nem entrei em pânico quando Afonso se foi porque eu tinha tudo muito bem resolvido com ele. Nós nos amávamos e ele sabia disto, eu tenho certeza. Fiz por ele tudo o que me foi possível fazer. Com meu pai foi diferente. E acho que ninguém entendeu. Eu tinha muita coisa não resolvida com ele, não estava preparada para ee partir, sem resolver certas coisas. Tudo bem, acho que é assim que a gente aprende. Aprendi a dizer Eu te amo mais vezes, aprendi a reconhecer quando estava errada. Aprendi a não deixar para amanhã o que tem que se dizer hoje. Afonso foi reflexo disto, embora eu ainda ache que devesse estar alerta quando ele caiu e morreu. As coisas no mundo não são perfeitas. Gostaria que tivesse sido diferente com meu pai. Apesar de ter sido a que mais pastou com suas loucuras, ainda gostaria de ter tido mais tempo para dizer que conseguia entendê-lo. Gostaria de tê-lo decepcionado menos, e conversado mais, apesar de saber que ele não iria me ouvir. Perdôo meu pai, porque sou cheia de erros, muitos dos quais trouxe da aprendizagem com ele. Perdôo meu pai, porque não sou ninguém para julgar tudo o que ele viveu, apesar de tudo o que ele fez. Perdôo meu pai, porque também sou cheia de defeitos, e quem sou eu para julgar. Lamento por minha mãe. Mas, ela nunca vai entender isto. E também lamento por isto. É tarde demais para colocar as coisas em perspectiva. Só não consigo me perdoar. Afetei a vida do Afonso, do Bruno , da minha mãe, quiçá meu irmão. Afetei minha vida, mesmo se perceber, e hoje tenho dificuldades em admitir isto. Este é um pequeno recorte do que foi minha infância. Talvez por isto seja tão conplicado para mim lidar com a morte. E com o sofrimento. Talvez por isto esteja me doendo mais que o esperado a eminente morte da mãe de uma amiga que considero como filha. Talvez por isto eu esteja apavorada em viver a perda do Bruce, que apesar de ser um caozinho da minha nora e do meu filho, sempre passa alguns dias comigo e a quem eu me apeguei tanto. Medo da perda, do sofrimento, a culpa do que mais eu poderia ter feito por todo mundo que eu perco. Foi assim com meu avô, com minha avó, com meu pai. Foi assim com o Afonso. O que mais eu poderia ter feito por estas pessoas? O que mais eu ainda posso fazer pelo Bruce? Há como ajudar minha amiga a passar por tamanha dor? Há como nao sentir mais todas as dores desde que me conheço por gente? Acho que não. Tenho que enfrenta-las sozinha, porque cada qual ja tem suas proprias dores. Só lamento....

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Recomeços.....

Eu tento, mas não sei se lembro quantos recomeços eu já tive. Dizem que piscianos são mais sensíveis,mais intuitívos, mais sonhadores.Pode ser, eu nunca estudei signos e datas de nascimentos. Mas, em verdade vos digo, a maioria dos piscianos que conheço são muito parecidos comigo. Fáceis de se enveredar por uma história. Comecei a me interessar por signos quando o Bruno já tinha alguma idade e manifestava comportamentos semelhantes a pessoas do mesmo signo. Comecei a notar semelhanças. Então comecei a observar taurinos, o signo do meu marido e as semelhanças apareceram. E depois comecei a observar piscianos. Como eu. Não sei nada científico sobre o assunto, mas na verdade existe uma enorme semelhança. Qualquer dia, se houver tempo, estudarei sobre os signos e suas influências. O que não consigo esquecer é da minha infância. Da minha adolescência. Da vida adulta. Tive uma infância muito difícil. Fui a primeira de tres filhos, com diferenças de quatro anos entre meu irmão e oito com minha irmã. Com sete e ele tres, ainda dormíamos em sofás cama na sala. Não sei se ele se lembra, mas cada vez que eu ouvia meus pais discutindo eu batia na parede que separava a sala do quarto. Eu tinha a impressão de estar salvando minha mãe, na época não sabia bem do quê, mas em verdade, ela ao me atender e me acalmar, acabava com a possível discussão. Nem sei quantas vezes fiz isto. Virou uma espécie, hoje eu entendo, de mecanismo de defesa para defendê-la. Hoje não consigo ouvir discussóes de vizinhos e passo mal. Não sei até onde meu irmão se lembra disto tudo. Meu pai era um homem exemplar no trabalho, trabalhou anos em várias empresas excelentes, um ótimo provedor e não tenho dúvida alguma que, do seu jeito, amava sua família. Só não conseguia demonstrar. Segundo minha mãe, ele vinha de uma família possessiva, onde sua mãe escolheu a gravata com que iria se casar e seu pai pulava a cerca toda a vez que podia. Hoje eu entendo, ele precisava mandar em alguém. E esse alguém fomos nós , a família que ele formou. Ele teve dura concorrência. Meu avô, pai de minha mãe, era o pai que eu queria para mim. Paciente, com tempo sobrando, era ele que nos ensinava a andar de bicicleta, empinar papagaios ( naquela época a gente ia no Ceret, onde não haviam quase postes de luz), era ele quem ensinava fazer balões com cola de farinha, ele nos deixava fazer tudo, ou quase tudo. Normal, em famílias normais. Um avô é feito para divertir, não para educar. Mas, meu pai,com todos os seus problemas psicológicos ( que hoje seriam facilmente tratados), sentia ciúme deste relacionamento. Lembro que em um dia dos pais, mamãe havia tricotado um colete para meu avô ( afinal era pai dela). Nós filhos, havíamos comprado uma gravata para meu pai, com algum sacrifício. E pela manhã, meu pai nos chamou de fajutos, hipócritas e picotou a gravata que ganhou de nós. Nunca mais consegui usar a palavra fajuto. Estou escrevendo ela pela primeira vez em anos. Uma vez chamei a policia para ele. Quando a polícia chegou, ele sentou-me no seu colo e me disse , apertando meu braço, para dizer que eu havia exagerado. Eu vivia roubando as balas da arma. Descobri a senha do cofre e tirava as balas e ele brigava com a familia inteira por minha causa. Guardei, até hoje, uma das balas desta arma. É uma espécie de lembrete de porque armas deviam ser proibídas. Cheguei a escrever uma carta para o Dr. Garbougine, para que fosse entregue ao advogado da família (Dr.Tércio), alertando sobre esta arma e meu medo de viver sobre o mesmo teto que ela. Fui entregue pelo próprio advogado. Em retrospectiva, não acho hoje que meu pai fosse capaz de tirar qualquer vida. Acho que ameaçar era a forma de ele ter o controle sobre uma família que considerava o avô mais pai do que ele.Acho que quando ele bebia ele perdia as amarras e se tornava o homem que gostaria de ter sido. Perdi a conta de quantas vezes ele bateu na minha mãe, mas ele nunca bateu com vontade em mim ou no meu irmão. Ele falava muito e fazia pouco, excessão à minha mãe, que não tinha como se defender. Acho ,hoje, em perspectiva, que ele não precisava bater em nós, ele atingia aquilo que mais amávamos, minha mãe. Falo de mim e de meu irmão, porque minha irmã só veio quase nove anos depois. e até crescer o suficiente, já pegou meu pai, diferente. Ele já tinha percebido que os filhos estavam do lado da mãe, ele viu meu irmão aos quinze anos enfrenta-lo. Ele me viu vestida de noiva dizer que preferia entrar sozinha na igreja do que impedir a entrada de meu avô em meu casamento. Eu finalmente o enfrentei. Ele teve um AVC neste dia e minha mãe, na generosidade maior de uma mãe, impediu que eu soubesse até o final de minha lua de mel de uma semana. Minha infância e adolescência não foram fáceis. Minha infância traz lembranças nítidas de um pai bêbado deixando um copo de uma bebida qualquer cair balcão abaixo em uma varanda em Santos porque mamãe estava na praia de óculos escuros ( e podia estar olhando outros homens - contem ironia), até o momento em que, no final do segundo grau, "arranjei um estágio qualquer", que justificava eu pegar minha máquina de escrever Olivetti portátil, ganha do meu avô, colocar em uma sacola e tomar diversos ônibus até o Jardim Botânico, onde eu escrevia artigos que eu achava que seriam aceitos pela Folha da Vila Prudente. porque haviam sido escritos no orquidário da cidade. Eles aceitaram um. Tenho orgulho disto até hoje. Falava sobre a estação de metrô que iria derrubar nossa antiga casa na Emboaçava. Foi o único artigo que consegui publicar ( gratutitamtente, diga-se de passagem). A biblioteca virou meu refúgio. Quando percebi que ele tinha orgulho de uma aluna nota dez, passei a ir à bibilioteca, da Vila Prudente e do Distrital sempre que me sentia ameaçada. Hoje me sinto uma covarde, por ter deixado meus irmãos e minha mãe à mercê das suas bebedeiras. Mas, tive meus lucros. Com quinze anos ja tinha lido Madame Bovary, Guerra e Paz, todos os livros de Jorge Amado, tudo de Machado e muito, muito mais. Li em quatro anos o que quase se leva uma vida para ler. Metamorfose de Kafka,O Principe de Maquiavel, Aluísio Azevedo, e tantos outros. Quando li Angélica ( de Mdme Duprat) para falar a verdade, sequer entendi seu significado. Apenas depois de alguns anos, fui entender o que era uma prostituta. Quando li Zero, de Loyola Brandão fui tentar entender o que eram as ditaduras. Eu meio que aprendi na marra, sem querer. Para fugir das bebedeiras do eu pai eu lia. Lia o que era bom, o que recomendavam, o que era ruim também. Nem sempre tinha discernimento, naquela época, para saber o que era bom ou era ruim. Lembro da Dona Shirley. Era bibliotecária da Vila Prudente. Deve ter morrido há muitos anos. Mas era ótima para indicar livros. Agradeço a ela postumamente a me indicar Machado e Kafka.Jorge Amado e Emilé Zolá, entre muitos outros. Li entre os quatorze e os dezessete anos mais que qualquer auto didata. Ela era um farol, me indicando livros. Que Deus a tenha em um excelente lugar. Curiosamente, quase não me lembro da feições dela. Me lembro da voz. Poderosa, indicativa: - "você vai adorar isto!" Cada um deve influenciar de uma forma, imagino.Me lembro dela me indicando a Divina Comédia, de Dante. Ela me disse, talvez você não entenda agora, mas vai entender em algum momento. Ler e me esconder um uma biblioteca foi meu refúgio covarde. Larguei mão da minha mãe, dos meus irmãos, e me escondi.Confesso, tinha dificuldades em encara-lo. O Estudo era minha desculpa e minha forma de me esconder. Eu sabia, que ser uma aluna nota dez era seu calcanhar de Aquiles. E abusava dele. Uma forma covarde de viver um tempo mais longe da bebedeira, das ameaças, das injúrias. Quando ele ficou doente para valer, quando o médico proibiu a bebida, quando ele tomou um pouco de juízo ( só um pouco ), eu o perdoei. E fui escurraçada por isto. Sei que minha mae não me perdoa por isto, minha irmã também também não. Mas, gosto de pensar naquele ditado que quando a gente quer for se vingar é melhor cavar duas covas. Tive dó ele. Do que ele perdeu. Do que ele poderia ter sido. Esta sou eu. Pago por isto até hoje. Sei que boa parte das coisas que carrego vem dos traumas do meu pai. A morte da mãe dele,o medo de dececioná-lo, o medo de morrer pelas mãos dele, são apenas algumas das coisas que vivi. Mas, também sei que boa parte do que divide esta família, entre eu e minha irmá é o fato dela não ter vivido o que eu e o meu irmão vivemos. Não sei bem como o meu irmão lidou com isto, é como um assunto proibido emm casa, mas eu tenho certeza que em mim deixou muitas marcas.Hoje, fazendo terapia, percebo que cada coisa que a gente vive deixa uma marca na gente, de alguma forma. Eu vivi muitas. Meu irmão adora meu pai, e talvez tenha deixado de lado seus defeitos Eu tento, mas não consigo. Eu sou a soma de todas as experiencias boas e ruins desta época. Quero crer que , de alguma forma isto me moldou. Por exemplo, o controle que quero exercer sobre as coisas. A dificuldade que eu tenho para conversar sobre o meu pai com meus irmãos depois que eu casei. O fato de eu ter me mudado para outro estado enquanto eles ainda lidavam com ele. Acho que tem tanta ferida por baixo dos panos, tem tanto rescentimento, tanta dor, porque eu o perdoei. E eles não. Eu não comsegui reagir, quando ele já estava com parkinson delirando, eu não consegui me mover na casa da minha mãe, quando ele caiu da cama, ninguém o tirou de lá até o amanhecer. Nunca vou conseguir me perdoar por isto. Tem tantan história na minha hitória...... No fundo , eu só queria acabar como o o Chuck, do filme. Queria desligr e acabar.Como um fio que você tira da tomada e não pode religar. É o que mais desejo. Apesar das saudades, não quero rever meu pai, meu marido, nem niguém. Só queria um fio que se rompe e acaba com a dor que a gente sente. Porque com tanta história, dói demais viver.....Tem muita hiswtória para consertar. E não sei se estou disposta a isto. Queria aquele frio, do filme do Chuck, que só desliga a gente para sempre.... É Egoísmo? Pode ser, mas não tenho hoje forças para começar tudo de novo.....

quarta-feira, 22 de abril de 2026

SAUDADE..........

Oi, eu sou a Débora. Alguns me conhecem como a tia das festas, outros pela mãe do Bruno, um tanto pela mãezona do ESFILES. Alguns lembram de mim como aluna do Liceu Santa Cruz, outras como formanda da Metodista e muita gente apenas lembra de mim como quem faz os enxovais de bebê ou os panos de prato. Mas, também tenho sorte de ser lembrada como filha, irmã e amiga de muita gente. A vó torta do Vicente, a esposa do falecido Afonso ou simplesmente a síndica do Julieta. Muita gente acha que minha luz se apagou quando perdi meu marido, a luz da minha vida. Não deixa de ser verdade. Já faz mais de um ano e ainda não consegui me reerguer, me reinventar. Nas noites mais sombrias sem ele me lembro do tanto de gente que apostou que, por causa da diferença de idade, não duraria mais que um ano nosso casamento. Meu pai, inclusive. Durou quarenta e tantos, contando namoro e noivado. Teria durado mais se ele não tivesse partido. Até o padre que recusou abençoar nossas alianças por ele ser um homem divorciado disse que nosso casamento estava fadado ao fracasso aos olhos de Deus. Ainda bem que o Deus em que eu acredito não deve ser o mesmo que o guiou negando abençoar nossas alianças. Minha vida começou a mudar antes do Afonso ter o primeiro AVC. Recebi um precoce diagnóstico de Parkinson, não com muita surpresa, mas com muita frustração, já que papai morreu em decorrência de complicações da mesma doença. Depois veio a Covid, que para desespero meu e do meu amado, a doença tirou-lhe aquilo que ele mais prezava: o paladar. Só quem conheceu meu marido a fundo pode entender o que era para o Afonso perder o paladar. Um apreciador de alimentos. Um ótimo cozinheiro. Alguém que amava saborear. Foi o primeiro passo para a derrocada. Depois o primeiro AVC. Quatro meses de UTI, foi desenganado por médicos mais de uma vez, várias infecções, sepse,quase seis meses meses de recuperação em casa, antes do segundo AVC. Outro tanto de UTI, uma cirurgia para lhe colocar stents, outro tanto de sofrimento e enfim, uma recuperação parcial, que vista hoje em perspectiva, mais me parecia que ele vivia apenas para que eu não tivesse que sofrer com sua perda. Então o terceiro AVC o levou. Em casa. Depois de um dia maravilhoso de passeio que quase já não fazíamos e conversas no dia anterior cheio de lembranças, recordações e carinhos. Se eu tivesse que escolher uma memória para guardar antes de morrer, seria a dele, levantando com todo o sacrifício do sofá, para me cobrir o joelho, mal coberto por uma colcha, quando, pela exaustão, peguei no sono no sofá, dias antes de sua partida. Quando percebi , ele disse: não quero que você fique gelada….nunca consegui lavar aquela colcha…. Então, após sua partida, quase um ano depois, perdi um amigo querido, o Marcos, da época da escola, um músico incrível, aos cinquenta e poucos anos. Perdi uma amiga aos sessenta e oito de Covid e outra aos setenta com um enfarto fulminante. E agora estou lidando com uma parente muito querida com câncer, a mãe de uma destas minhas amigas que são como filha com uma doença que a levou a uma UTI e um outro ente querido com um tumor que pode ou não ser maligno. Fico me perguntando se isso é o que me restou. Ver quem eu amo ir embora, enquanto eu perco minha independência para uma doença que não tem cura. Tem coisas boas? Sim, claro. Vicente está cada vez mais lindo e esperto, mas eu já não tenho a saúde que deveria ter para carregá-lo no colo, correr atrás dele. Vejo amigas realizarem sonhos, parentes felizes, mas também vejo meu filho se afundar cada vez mais em trabalho e envelhecer um ano por mês, talvez por culpa minha, que repetia sem parar o mantra de seu avô Antonio, que dizia que o trabalho enobrece. Talvez porque ele precise apenas pagar suas contas e meu avô, coitado, não tenha nada a ver com isto. Mas eu e Afonso ensinamos a ele a nunca deixar a peteca cair, e, na verdade, hoje, não sei se fizemos o certo. Estou cansada de pessoas que dizem que tenho que seguir em frente, que tenho que fazer trabalho voluntário ( eu tenho dois trabalhos, por falta de um, nenhum voluntário porque tenho que pagar as contas ) , que eu tenho que rezar, que eu tenho que ser grata ( e sou muito, pois poucas pessoas têm a rede de apoio que eu tenho, em todos os sentidos), que eu não posso esmorecer e que eu já devia ter superado. Sábado meu time jogou mal e só o que eu queria era virar para ele e dizer: “que jogo de merda!”, mas ele não estava aqui. Depois, no dia seguinte, o time dele perdeu e eu queria dizer exatamente a mesma coisa, que é o que ele diria. Mas, ele não está aqui para ouvir ou falar. E tudo meio que perde o sentido, embora eu converse com seus retratos espalhados pela casa o tempo todo. Sábado fui a um aniversário e me peguei na frente de sua foto, perguntando se eu estava bem para o gosto dele, se não tinha baton demais….. Parece coisa de gente doida, mas não é. É o hábito. E todos sabem que o hábito faz o monge. O ser racional sabe de tudo isto. Que a morte faz parte da vida, que temos que seguir em frente, que sofrer não vai trazer ele de volta. Que ele odiaria saber que estou sofrendo assim. Mas, na maior parte do tempo, não é meu lado racional pensando, é meu lado emocional, aquele que chora, que sente saudades, que não quer enxergar uma vida sem prazeres, sem ele. ‘ Eu sei que hoje tem um monte de nomes para uma vida de “dependência, influencia”, ou qualquer outra expressão legal da moda. Mas, não é isso. Ele nunca mandou em mim ( se isso existiu, foi o contrário), nunca me definiu, nunca me moldou. Apenas havia uma parceria. Difícil hoje em dia. Destas em que a gente combina nunca dormir zangado um com o outro de jeito nenhum antes de resolver o problema. E, podem apostar, eu criava mais problemas do que ele, podem ter certeza. Ele era mais velho, mas eu era a mais ciumenta. Era eu que definia tudo e ele topava ou contornava tudo a tal ponto a me fazer crer que tinha sido ideia minha. Eu tinha gênio difícil, minha sogra nunca esteve errada, mas ele sabia como lidar comigo. Ele sabia como me levar. De repente, eu perdi tudo. Um concurso. Meu filho casou, mudou-se para longe, meu marido adoeceu, meu filho voltou, mas não para tão perto quanto eu precisaria. Eu perdi amigas na Covid, eu perdi meu marido logo depois. Meu filho já não tinha a disponibilidade de quando Afonso estava doente. Minha melhor amiga engravidou, quero crer que de tanto que eu rezei para isto acontecer, mas isto teve um preço. Eu já paguei este preço trinta e oito anos e pouco lá atrás. Outras amigas sempre estão presentes de alguma forma, mas, não é a mesma coisa. Sei que algumas não sabem mais o que fazer para me trazer alegria, mas nada ajuda. Por maior que seja o amor que elas tenham por mim, sou eu quem se deita a noite sozinha e diz boa noite para alguém que não está lá; são os pés dele que os meus procuram por baixo da colcha, é mão dele que eu não encontro quando quero me acalmar. Desisti de explicar. Continuo rezando e fazendo promessa para outra amiga engravidar. Mas, já não faço promessas para entender o que foi perder o Afonso. Todos dizem que tenho que aceitar e eu obedientemente tento. Acredito piamente que minha amiga vai engravidar (no sentido mais amplo da palavra) e ter o filho que sempre sonhou, mas já não consigo acreditar que posso viver, ser feliz, ter tesão pela vida ( também no sentido mais amplo da palavra), sem o Afonso. É como brincar num parquinho quando se é criança,,você acredita, acredita, acredita, até que não acredita mais. É mais ou menos isto. E você tem que reconstruir sua vida de quarenta e tantos anos sem sua alma gêmea, sem o cara que te dizia: tá errado, ou te dizia: vai em frente. Na verdade, sem ninguém. Seu filho tá cheio de outros problemas e você não quer atrapalhar, suas amigas, todas tem uma vida para gerenciar, e você também não quer atrapalhar. Sua família viveu tanto tempo longe de você, vivenciando sua existência através de posts e emojis, que eles mal te conhecem de verdade. Na verdade é difícil viver o luto quando você só tem sua psicóloga, disposta a ajudar quando for necessário. Ela ajuda, e como, mas não pode estar nas horas que você mais precisa, a noite, quando a maioria está dormindo e você está presa ao passado. Quando vai jantar e sem querer pisa no local onde Afonso caiu morto, Eu peço desculpas. Não é racional, mas eu peço. A maioria das coisas que eu faço não são racionais, mas eu faço. O luto das pessoas não é igual. Para alguns é mais fácil, para outros bem mais difícil. Talvez algumas pessoas não sintam tanta saudade, não tenham boas lembranças do casamento. Para outras o casamento talvez tenha sido uma benção, sem ninguém saber o porquê. Eu sempre tive a sensação de ter ganho na loteria. Todas ao mesmo tempo. Tive um marido à frente do seu tempo, que me ajudou horrores na maternidade, ( quando isto não era moda),que aceitou meu trabalho fora dos padrões, que respeitou meus desejos, que me ajudou enquanto pode e embarcou nas minhas loucuras. Ajudou na criação do meu filho quando eu não podia estar presente. Achava lindo tudo o que eu pintava e dava palpites na cor das fraldinhas quando podia. Este era o Afonso. A gente sempre discordava concordando. Ou concordava discordando. Mas, eu o respeitava. E ele a mim. Se eu voltasse no tempo, não exitaria em casar com ele novamente. Porque não existe esta coisa de alma gêmea. Existe respeito. Existe diálogo. Muitas vezes muito difícil. Muitas vezes quase impossível de haver. Mas, quando há amor, há. Você faz quase tudo quando há amor. Eu sei. Eu fiz. Ele também. E eu nunca esquecerei disto. É muito difícil passar por isto sozinha. Pouca gente te entende. Ir à praia ou ao teatro não muda teu sentimento de luto, de perda. Muda o local, não muda o que você sente. Você sorri, aquele sorriso que todos esperam de você, mas que não reflete teu sentimento. Você não quer desagradar quem te acompanhou, mas não quer dizer que você está feliz. E o que me deixa puta, é que pouquíssimas pessoas entendem o que estou sentindo. A maioria pensa: que legal, ela está seguindo em frente….. Não, eu não estou seguindo em frente. Eu estou tentando sobreviver. Um dia depois do outro. Por favor, parem de dizer que ele está melhor agora, que eu não estou vendo ele sofrer, que nós vivemos o que Deus achou que era o tempo certo. Parem de dizer que foi melhor assim, que eu fiz o que podia. Isto só me atormenta mais. Me deixem chorar quando eu tenho vontade, quando sinto saudades, me deixem lamentar a ida dele, sem a culpa de : “ele sofre lá em cima quando estou sofrendo aqui embaixo” Não sei o que tem lá em cima ou lá embaixo, mas não quero carregar a culpa dele estar sofrendo porque sinto sua falta. Meu Deus, aquele em que eu creio piamente, não vai punir meu amor porque sinto falta dele. Meu Deus, aquele por quem eu rogo, não vai puni-lo porque eu não aprendi ainda a viver sem meu Afonso. Não é nisto que eu creio. Meu marido há de estar descansando em paz, mesmo que eu ainda sinta falta dele, da sua carne, do seu espírito. Nem consigo imaginar o tanto de gente que vai me recriminar por tudo o que estou escrevendo, mas afinal, escrever acho que é meu único canal de desabafo. Lê quem quer. Quem não gosta ou não concorda, mude de leitura. Preciso por para fora toda esta tristeza,, que todos dizem que faz mal a ele, preciso por para fora toda esta solidão, toda esta falta de sentido que virou minha vida. Quer saber, danem-se os que não concordam, danem-se os que acham que estou errada, nenhum deles está passando o que estou passando sozinha agora. Danem-se! O Deus em que eu creio não me julga como os homens, o Deus em que eu creio é misericordioso, e há de me entender e não há de punir meu marido porque sinto falta dele. E se tiver que punir, que puna a mim, e não e ele..Eu não vou virar uma religiosa fanática aos sessenta e quatro anos. Eu vou continuar acreditando no que sempre acreditei: num Deus justo e honesto, que acredita no amor, que nos julga por nossos atos na Terra, que crê na caridade, na compaixão, no amor ao próximo, na planta que plantamos e regamos até virar uma árvore frondosa de amor e prosperidade. Foi nisto que sempre acreditei. Não vou mudar agora, porque perdi o amor da minha vida. Nós dois plantamos uma árvore frondosa e caridosa, amamos o próximo, fizemos o bem, dentro de todas as nossas possibilidades. Eu diria até demais .Deus há de entener a falta que sinto dele e ele deve estar no melhor lugar que for possível, pois foi um pai de quatro filhos incrível, foi um marido exemplar, um provedor sem questionamentos. Foi caridoso, mais até que a maioria, foi humano, como todo todo ser que habita este planeta. E eu sinto sim, falta dele. Me julguem. Se eu tiver que pagar, eu pago. Mas, não vou pagar de mártir, dizendo para todo mundo que não sinto falta dele porque isto não deixa ele evoluir. Sinto muito amor, se eu estiver errada, mas você sempre soube em que eu acreditava. Sinceramente, espero que você esteja bem, em um lugar de muita luz e paz, rindo das coisas muito absurdas que nós fizemos juntos para a maioria das pessoas ( como aquele piquenique com vinho nas taças e formigas no nosso entorno ou a escorregada na cachoeira que te fez perder os óculos...ou mesmo encher a piscina na varanda para o Bruno poder brincar…). Espero que se lembre das coisas boas. D Mesmo as coisas boas me fazem chorar. Você me conhece, eu sou assim. Pular a janela do quarto do hotel para o Bruno encontrar o fantasma, eu fazer empadinhas para 50 pessoas quando só nós íamos comer, mordermos a cenoura para o Bruno achar que o coelhinho tinha passado por lá, a saia cinza na noite de natal, o chapéu de flores no meu aniversário……….. Quanto mais escrevo, mais eu choro, então, vou parar por aqui. No meu mundo, você vqai ler isto aqui e vai acrescentar outra dúzia de cisas…..Espero estar certa. Eu me recuso a estar viúva. Você apenas foi viajar e não fomos juntos, como outras vezes. E não vai demorar a te reencontrar novamente. Tenho fé que você vai vir me buscar em breve. Saudades imensas, sem medo de você estar sofrendo. Louca para te reencontrar! Sempre te amei, te amo, sempre te amarei…. Dé

domingo, 7 de dezembro de 2025

Jay Kelly - Ler o Filme Além do Galã

Assisti hoje na Netlix o tão criticado Jay Kelly, com George Clooney e Ben Stiller. Eu entendo que superficialmente pareça uma história de pobre menino rico, pois é a leitura primaria e mais óbvia. A Academia não gosta de histórias assim. Ela prefere histórias de superação, onde alguém, do nada, chega ao pico, dando enfase à meritocracia. Entendo esta visão. Dá muito ibope, porque dá enfase à superacao, incentiva a corrida ao impossivel e faz quem assiste sentir-se herói também, ja que se o personagem conseguiu, ele, telespectador, também pode. Ocorre que Jay Kelly nos da margem para outra interpretação também. Uma interpretação que me fez refletir e chorar ao final da exibição. Mais do que falar do bonitão cheio de dinheiro, sucesso e extremamente dependente de sua "entourage" até para amarrar os sapatos, o filme toca em um ponto muito comum a todos nós:o peso de nossas decisões tomadas em uma parte da vida que irá refletir futuramente, quando chegam os arrependimentos e nada do que possamos fazer pode mudar o que foi construido. Se Jay quis aproveitar a oportunidadede de sucesso quando ela se apresentou para ele e que ele agarrou com unhas e dentes, deixou para trás a oportunidade de ver suas filhas crescerem, afastou-se de seu pai e de bons amigos, sempre emendando um trabalho no outro. Com as filhas crescidas e donas de suas próprias vidas, o pai perto da finitude e empregados que cansaram- se de se dedicar a ele e suas exigências e necessidades, Jay se depara com as consequências de suas decisoes de vinte e tantos anos atrás.Está se sentindo sozinho, com ninguém íntimo o suficiente para dividir suas glórias. Interessante que seu empresário, o único que realmente é fiel e amigo a ponto de continuar ao seu lado, provavelmente estará vivendo o mesmo dilema futuramente, já que fica claro que ele também esta abrindo mão de sua familia em prol do amigo cuja imagem ele ajudou a construir. Ao final, ele observa como um presente, os fãs que assistem trechos de sua obra com um fascínio que serve de contra ponto às suas decisoes.Ele afinal, sacrificou muitas coisas em sua vida, mas, como dizia a saudosa Rita Lee, fez um monte de gente, que ele nem sabe quem é, feliz. O filme me fez refletir sobre minhas próprias decisoes, quando mudei-me de Estado e vim fazer minha vida em Vitorinha. Meu marido morreu, meu filho foi morar com a esposa em outra cidade, perdi o crecer dos meus sobrinhos, uma maior convivência com minha mãe e irmãos. Mas, curiosamente semana passada encontrei no Jardim da Penha a mãe de uma criança de quem eu fiz todas as festas de aniversario com meu pequeno buffet. Depois de saudosos abraços ela me mostrou a fota da Vitoria, hoje com vinte e nove anos e me disse que foram festas inesqueciveis (tanto que ela me contratou por dez anos seguidos). E nós despedimos, comigo tendo uma sensação de dever cumprido, de ter pertencido a alguma coisa na vida de alguém com meu trabalho. Por isto entendi tao claramente a sensação que Jay sentiu ao observar seus fãs, absortos naquela homenagem. Todo feito tem um preço e às vezes ele é pesado demais para carregar e impossivel de mudar suas consequências.Pena que boa parte da crítica só conseguiu absorver o lado "pobre menino rico" de George Clooney. Porque na vida real todos somos Jay Kelly! Ps.:nunca pensei que fosse dizer isto, mas Ben Stiller está cada vez melhor como atorde drama.Ele da um show como o empresário fiel e quase melhor amigo de George Clooney.

quinta-feira, 26 de junho de 2025

UM ANO


UM ANO



 Um ano. E ainda ouço você colocar a chave na fechadura, sinto suas mãos nas minhas, procuro seus pés para esquentar os meus nas noites mais frias. Um ano e ainda abaixo a tv achando que você vai reclamar das propagandas em tom mais alto, vou ao banheiro sem fazer barulho para não te acordar, me pego rindo quando demoro no mercado e você me dizia que eu " conversava " com a salsinha, a cebolinha. Me pego olhando se está na hora do seus remédios e não consigo pisar onde você caiu e morreu. Um ano e as pessoas falam como se tivesse passado uma década e eu tenho a sensação de que foi ontem. Esta semana, quando terminei de pintar uma fraldinha, minha primeira reação foi te procurar com os olhos e perguntar: e aí, ficou bom? e ouvir seus elogios e comentários. Não consigo falar quando mais preciso, porque tudo que tenho de novo para contar é para você! E você não está aqui para ouvir qualquer novidade, qualquer besteira, para rir de alguma patetada minha.Fico procurando o que é minha nova vida sem você e até tenho tentado aceitando convites para acompanhar a Kledina no teatro, indo visitar o Vicente, cumprindo minhas obrigações como a síndica que aprendeu tudo com você, mas é difícil no fim da noite não ter ao meu lado você implicando com algum filme, comemorando algum gol, xingando o juiz, falando do Verstaten ou me chamando para ver as enchentes de São Paulo no Datena. Até às coisas mais insuportáveis em você me fazem falta. Não sei quanto tempo leva para a tristeza virar saudade, não sei quanto tempo leva para parar de chorar, nem para parar de estender a mão para pegar na sua várias vezes ao dia. Talvez para algumas pessoas passe mais rápido. Para mim, que te amei a vida toda, que te admirei e brincava com as amigas dizendo que eu tinha casado com " o último homem bom da terra", talvez demore bem mais para passar. Mas, ontem, quando por acaso apareceu Johnny Mathis na tv cantando nossa música, nossos quarenta anos passaram pela minha mente nos quase três minutos que dura a musica. Os bailes, os inferninhos, os piqueniques, o casamento, o nascimento do Bruno, cada longa viagem feita para Sao Paulo de ônibus, depois de carro, os dias de praia, a piscina na varanda, o nosso orgulho quando o Bruno se formou na faculdade, na pós, no mestrado, tudo isto passou tao rápido, na música e nas nossas vidas. Dizem que a gente nao deve dizer isto, mas na verdade eu queria mais. Queria que voce continuasse me aquecendo a noite e eu pudesse lhe massagear mais as costas. Mas, na falta de ter mais de você ao meu lado, vou sempre agradecer por ter tido o melhor marido que uma uma mulher pode ter. Que onde voce estiver, voce possa ouvir aquele que voce gostava tanto e tanto, que me ensinou a gostar tambem! Alguém disse que a morte nao finda um relacionamento, apenas o deixa em suspenso, até que nos encontremos novamente. Rezo muito para que esta frase faça sentido. Eu, tua esposa, de minha parte continuo te amando, te admirando e sentindo muito sua falta! Com amor, Dé!

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Trump : Ninguém Está Mais Cantando na Chuva

 


Quando eu comecei a sair da infância para a adolescência me encantei com os filmes americanos, vistos no cinema ou na tv. Para mim, aquele lugar era um paraíso, eu achava que os músicos tocavam nas ruas, que as pessoas dançavam alegremente em todos os cantos, inclusive debaixo de chuva. O mundo que o cinema americano construiu na minha cabeça era mágico .

Obviamente que, ao adquirir maturidade, comecei a entender que a coisa não era beeeem assim. E filmes como Todos os Homens do Presidente, Questão de Honra, Nascido em 4 de Julho, Lincoln, entre muitos outros, me fizeram entender o orgulho que o americano, apesar de suas mazelas, tinha de seu país. Um lugar com apenas dois partidos, cuja corrupção era investigada e punida,  onde a liberdade de expressão era real, onde o povo podia escolher livremente seus representantes. Pois é, com mais maturidade ainda e muita leitura, compreendi que também não é beeeem assim. 

No Brasil, nos últimos anos, tão malhado pelas urnas eletrônicas, você aperta seus números e elege seus candidatos ( aviso aos que não me conhecem, sou avessa a teorias da conspiração, leia- se fraude em urnas). Nos EUA, nao é assim que funciona.

Em 2016, por exemplo, Hillary Clinton ganhou as eleições no número de votos populares. Ganhou, mas não levou. Porque, na prática, os votos vão para um Colégio Eleitoral formado por outras pessoas que vão decidir Estado por Estado suas preferências. Por isto é mais importante para eles ganharem em muitos estados, mesmo com um número menor de votos.

Podem dizer o que quiser que não vão me convencer de que o voto de lá é mais democrático que o daqui.

Dito isto, chegamos ao segundo mandato do Presidente Donald Trump. Na primeira eleição ele perdeu em votos, mas tornou-se presidente porque ganhou na maioria dos Estados, mesmo com menos votos individuais. No primeiro mandato já dava para perceber que espécie de administrador ele se configurava. Um representante da extrema direita, avesso a todos os avanços que a humanidade necessita. Contra a pauta ecológica, a favor de uma energia suja que está destruindo o mundo, contra os imigrantes, as minorias, os homossexuais, e a favor de uma agenda altamente protecionista.

Protagonizando um dos episódios mais deprimentes da história recente americana, recusou-se a aceitar a vitória de Joe Biden, pediu inúmeras recontagens de votos e insuflou parte do seu eleitorado radical  a uma invasão ao Capitólio.

E agora, Donald Trump, após um fraco governo de Joe Biden, retorna à cadeira da presidência americana, desta vez ganhando de lavada, com enorme apoio popular, visto que fez promessas para seu eleitorado que foram um grande fracasso no governo anterior, como os problemas de imigração e os investimentos milionários em agendas ecológicas, por exemplo.

Um Donald Trump, contaminado por um discurso anti tudo o que é razoável, como um sistema adequado de saúde popular, anti vacinas, anti proteção climática, anti democracia ( ele proibiu a participação de jornalistas de alguns veículos de imprensa de participarem de entrevistas porque se recusam ao óbvio - renomear o Canal do Panamá sem respaldo de qualquer entidade), anti imigrantes, inclusive os que já haviam recebido a promessa do Green Card no governo anterior, anti as manifestações estudantis a favor de Gaza, entre outras bizarrices, como proibir chuveiros com timer, porque " ele adora lavar seus cabelos sem pressa".

Além de desmontar sistemas que comprovadamente funcionam ( hoje soubemos que o segundo óbito de sarampo do país foi de uma criança não vacinada - como pode isso, meu Deus!), Donald Trump ambiciona destruir a reputação dos EUA como maior país democrata do mundo, perdido na mediocridade do seu ego e na não confiabilidade de sua palavra. Não acho que ele ligue muito para o que seus assessores e Secretários lhe orientem. Ele está ensandecido. Respaldado pela ampla votação, vinda muito de americanos meio sem opções, Trump um dia levantou-se achando Deus, prevendo que todos os paises do mundo iriam se curvar à sua vontade, sem não, nem porquê. " Vou anexar a Groelândia, o Canadá, vou mudar o nome do canal do Panamá, vou vender imigrantes venezuelanos para El Salvador, sejam bandidos ou não, qualquer engano não é problema meu. E vou taxar todo o mundo. A América grande outra vez! Danem- se todos no resto do planeta!

O problema de egos inflados é que eles não tem racionalidade suficiente para perceber seus erros. Quem não tem bala na agulha vai sim, lamber suas botas e negociar até os pêlos da sobrancelha. Mas, tem muito país com bala na agulha para dizer não é bem assim. E com este discurso, há dois meses Trump morde e assopra, impondo taxas e recuando, fazendo com que os mercados enlouqueçam e que  todo mundo pague o pato. Com Trump no comando é como dirigir na neblina, você nunca sabe o que está por vir à sua frente e isso desmonta a enorme confiabilidade que sempre foi característica do país que governa.

Em teoria, isto não deveria afetar a nós, réles mortais, como dizia meu antigo chefe. Mas, afeta. Ele acorda, diz que vai taxar a China em cento e tantos por cento e o mercado de ações derrete. Tá, e daí? Daí que o dólar sobe mais do que o seu já alto preço e o agro, assim como outras empresas, só trabalham com dólar. Quando o dólar sobe, sua gasolina sobe, seu pão sobe, sua carne sobe. Porque o mercado compra e vende pela base do dólar. Você vai pagar seu pão mais caro porque a farinha que o Brasil compra é paga em dólar. É mais complexo que isto, mas a explicação é suficiente para você entender porque Trump está enlouquecendo o mundo todo. 

Ah, mas e quem tem bala na agulha? Quem tem bala na agulha faz o que a China está fazendo, não voltando atrás nas retaliações, mantendo-se firme , sem negociações.

A equipe de Trump tem se apressado em afirmar que este vai e vem nas tarifas estava previsto e é estratégico. Pessoalmente, acho que a equipe está desesperada em apagar incêndios. Trump já disse que esperava retorno para negociação com a China até x horas de tal dia, depois disse que era a hora de passar a perna no adversário político e agora disse que ele e Xi Jinping são amigos e vão entrar em um acordo. Ou seja, qualquer bom entendedor sabe que ele está atirando para todos os lados. Seu ego não lhe permite admitir que errou e encontrou alguém que vai pagar para ver, sem negociação, ou, pelo menos, não sem fazê-lo suar bastante.

                


Hoje Trump anunciou que estuda suspender a distribuição cinematográfica para países que não se encaixem nos seus programas tarifários. A despeito de esquecer que um aumento inadequado de tarifas pode encarecer a vida do americano ( apenas a construção de um carro americano pode levar peças de até oito países, segundo li), Trump encaminha seu país para uma enorme recessão, uma quantidade significativa de desempregos e até os bilionários que apoiaram sua candidatura, como Elon Musk, imploram para que ele volte atrás na revisão tarifária. A globalização é um efeito sem volta. Além do mais, a enorme massa de mão de obra braçal ( para fábricas, setor hoteleiro, setor de restaurantes, entre inúmeros outros), sempre foi sustentada pelo povo que ele está mandando embora do seu país: imigrantes, na sua maioria latino americanos e asiáticos, gente acostumada a pegar no pesado dois e até três turnos por dia.

Não sei o que vai acontecer quando o americano médio tiver que suspender o consumo de morangos, abacates e melões que vem do México, ou do suco de laranja que vem da terra Brasilis. Não sei se vai prevalecer o bom senso ou o inflado ego do Presidente americano, mas sei que Trump conseguiu amedrontar as universidades ( berço das melhores mentes e grandes discussões) as grandes empresas de tecnologia, empresas de jornalismo, tudo na base da falta de incentivo econômico . Resta saber por quanto tempo estas instituições se recolherão por medo de represálias, por quanto tempo o povo americano vai engolir a recessão e se os demais países irão se reinventar em novas parcerias econômicas. O baralho não mudou suas cartas, mas os jogadores poderão dispor de suas cartas de uma forma que os americanos podem não gostar.

Quanto a suspensão das obras americanas ( filmes, séries..), se vier, vou lamentar por uma ou outra obra, mas no geral não me fará muita  diferença. Porque faz muito tempo que entendi que as orquestras nao tocam nas ruas, as pessoas não dançam nas calçadas e que presidentes acusados de assédio, corrupção e falta de responsabilidade dirigem um país que um dia admirei por uma confiabilidade que hoje já não existe mais.


Observação: a despeito de ter uma opinião política diferente da de Trump, minha crítica não vai na direção apenas na divergência de valores, mas, principalmente na discordância da condução do processo. Discordo enormemente de pessoas com opiniões radicais de direita, o que não significa não respeitar o direito a tais opiniões.