terça-feira, 18 de março de 2025

Passado E Presente

 


É engraçado, na minha idade, enxergar as coisas em perspectiva, ou melhor, sob outra perspectiva. 

Eu tenho muita dificuldade com podcasts( embora tenha feito parte de um por vários anos, em uma época em que isto não tinha virado uma febre e tudo era bem amador), tenho dificuldades em assistir vídeos no you tube, ouvir notícias em áudios de whatsapp. Comentei isto com a Elaine e a Klédina esta semana. Eu gosto de ler. A boa e velha bem escrita, com uso adequado do vernáculo. Um livro, um jornal, um editorial ou uma opinião em um veículo escrito. Eu me adaptei a tantas mudanças com os anos, justo  eu que fui do orelhão ao celular em trinta e tantos anos, que deixei de mandar cartoes de Natal, que prefiro falar a escrever no whatsapp, que fui da chave na fechadura à TAG que te abre a porta em um simples encostar do objeto no portão. Eu saí da boa e velha vitrola para o cd . Sai da máquina de escrever Olivetti para o computador, das moedas para o Pix, do táxi p o Uber ou similar. Mas, tem tres coisas que eu não consigo substituir, por mais absurdo que pareça: telefonar para um ou uma amiga no dia do aniversário, livros ou artigos escritos e ouvir música em discos e cds.

Telefonar para um aniversariante para mim não tem preço, colocar na minha entonação de voz , o meu verdadeiro prazer em desejar coisas boas para a pessoa do outro lado do aparelho é algo para o qual não encontro substituto a altura. Não me importa se a pessoa vai fazer a mesma coisa no meu aniversário, me importa eu me importar em ligar. Claro, às vezes fica impossível e mandar uma mensagem é a única alternativa. Mas, meu prazer não é o mesmo. 

Ler. Cheiro de livro novo é cheiro de céu. Faz algum tempo que não consigo comprar livros novos, ou mesmo ler um livro antigo, mas continuo ganhando alguns.. E se não são livros, são editoriais, crônicas, opiniões, prefiro ler a ouvir. Gostava de abrir o jornal e ler ele todinho. Gosto de furar bolhas e ler coisas fora do meu mundinho para ampliar minhas perspectiva de mundo. Gosto de ler sobre tudo, tipo a importância da farinha de rosca no bife a milanesa ou da chave de fenda na fórmula 1. Perdoem a brincadeira, mas a leitura mantém meu interesse pela vida vivo, ao contrário dos vídeos, onde eu não consigo "beber" cada palavra derramada no texto. O interessante é que podcasts e vídeos no Youtube dão muito mais comoções e visualizações. Ouvir é mais rápido, você pode ouvir enquanto lava louça ou dirige e também, na minha humilde opinião, o que você ouve  fica menos tempo martelando na sua cabeça. Se você lê com tempo e interesse pode digerir melhor um texto, pode amplificar seu entendimento no assunto. Mas, vivemos a era da quantidade, não da qualidade. Posso entender a lógica. A enxurrada de informações versus o tempo que temos.

Por último, usar um aplicativo de música. Começa que nem sei se o que eu gosto de ouvir eu encontraria nestes aplicativos. Sou muito eclética, mas muito exigente. Dei minha vitrola no auge dos cds e me arrependo até hoje,porque tenho discos incríveis em casa. Já, não consigo descrever o prazer de escolher um cd, uma música, sem precisar ouvir versões ou adaptações. Posso ouvir Billie Holiday, Plácido Domingo, Zeca Pagodinho, Johnny Mathis, Cartola, Os Cariocas, Chico Buarque, pegando o cd na mão, vendo a capa do cd, lendo o autor da música, o autor da letra, o ano da gravação , o ano que comprei ou ganhei e de quem  Eu sei, coisa de gente velha. Mas nunca vou descobrir se existe No Puede Ser, zarzuela espanhola na voz do Plácido no Spotify. Provavelmente não.

O fato é que envelhecer nos trás perspectivas diferentes da vida e se não acompanharmos as mudanças nos tornaremos pessoas presas a um passado que foi maravilhoso, mas que acabou. E nunca conseguiremos nos encaixar novamente no mundo. É normal achar que nossa época era mais legal, que a gente se divertia mais, que as pessoas eram mais legais. Para a gente, que viveu esta época. Se você quiser continuar pertencendo ao mundo tem que entender que a gente cresceu em um mundo misógino, homofóbico, racista e classista. E tudo bem. Foi o que nos ensinaram. Mas, o mundo hoje é outro, melhorou, as pessoas lutam para serem tratadas como iguais, porque são iguais, não porque nosso mundo era melhor, mas porque viemos de uma criação errada. Nossa época não tinha menos violência , tinha menos divulgação desta violência. As mulheres calavam quando eram agredidas ou desrespeitadas, roubavam-se os bancos, hoje roubam o celular porque é lá que o cara tem acesso ao banco. Perdi um amigo assassinado e outro para a Aids nos anos 80. Perdi outro em um racha de automóvel. Histórias q poderiam ter acontecido hoje . 

Os anos não melhoraram ou pioraram. A vida mudou. Tudo tornou-se mais público. Melhorou em vários aspectos, complicou em muitos outros. Mas é assim que a vida acontece, com mudanças, umas ótimas, outras nem tanto. Podemos nos prender ao passado, enviando pelo whatsapp vídeos com baleiros, filas para cantar o hino na escola  e banho de mangueira ou podemos apreciar as mudanças, escolhendo, enquanto nós é permitido, aceita-las ou não. 

Temos o poder de entender a história que aconteceu e a que nos foi contada. Temos o dever de saber a diferença entre o que aconteceu e o que o tiozão do WhatsApp nos quer fazer acreditar. Temos o privilégio de termos vivido uma época em que a violência era menor, mas que violência? A das ruas, nos assaltos e assassinatos ou as cometidas no Doi Codi com atrocidades e tortura por diferença de opiniões, a violência que, sempre velada era cometida contra homens e mulheres com cores de pele diferentes da minha, a violência contra o portador da Aids, a violência contra o sujeito na época chamado de travesti, a violência dos homens sobrepujando as esposas como propriedades? Será que o mundo mudou tanto assim, ou será que filtramos as lembranças que nos interessa lembrar e exaltar? 

Envelhecer, sob este ponto de vista é bom! Nos faz refletir sobre passado, presente, realidade e discurso de palanque. Ninguém aqui pode dizer que era feliz se não calçou os mocassins de quem caminhou por milhas sem fim. Simples assim....

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