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sábado, 9 de maio de 2026
Dor e Alienação
Os últimos anos têm sido muito conturbados para mim. As últimas semanas também.Estou com duas pessoas a quem quero muito bem desenganadas pelos médicos, um meus netos cãezinhos aguardando um diagnóstico de nódulos benígnos ou malígnos ( diga-se de passagem um dos que eu mais me apeguei após a morte do meu marido), estou lidando com uma mudança muito grande na minha vida em diversos sentidos e, de repente percebi que não estou com medo dos rumos, estou com medo de sentir mais dor. Uma dor que parece que eu conheço minha vida toda, de um jeito ou de outro. Uma dor que me acompanha desde pequena, que eu cresci acreditando que fazia parte da vida da criança, do adolescente e do adulto,mas que eu não aguento mais viver.
Minha terapeuta até expressou alguma preocupação, mas ela sabe que se eu tivesse coragem, tiraria a minha vida sem pensar duas vezes. Mas, ela também sabe que eu não tenho esta coragem. Seja pelo medo da dor, de não dar certo e virar um fardo para os outros, por infringir dor a quem eu amo ou apenas por senti mais dor, eu não tenho esta coragem. Dito isto, admiro quem tenha, pois tirar a própria vida é um dos atos de mais coragem que se pode ter. Mas, é egoísta também. Seja por alguma culpa católica, seja por medo, seja por detestar ser um fardo, dificilmente faria isto a não ser em total desespero.
O fato é que tudo o quem vem acontecendo nas últimas semanas têm me despertado para alguma dose de realidade. Li em algum lugar há algum tempo atrás que a atriz Joanne Woodward levou dez anos para mexer nas coisas de Paul Newman depois que ele morreu, deixando até o carro dele parado na garagem como ele deixou ao falecer. Participei de um grupo de luto por quatro meses onde ouvi histórias muito parecidas com as minhas. Mulheres que não conseguiam seguir em frente, doar as roupas, mover os móveis da casa, mexer em nada após o falecimento dos seus maridos. Todas com casamentos como a de Joanne Woodward, com cerca de vinte ou mais anos, uma com o mesmo tempo de casada que eu tinha. Poucas doaram roupas e pertences, poucas saíram do lugar onde viviam, todas declaravam ter a mesma dificuldade que eu tenho: Mudança. Apagamento. Uma dor que imobiliza. O pavor de ter que encarar o que vem depois da mudança.
Não precisa ser um gênio ou ser psicóloga para saber o que me paralisa,mas é preciso ter coragem para assumir o que me paralisa.Éo medo da dor. É o pavor da mudança, da perda de controle. Eu sofro pela minha parente porque imagino o medo que a paralisa,todosanto dia frente ao cancer. Eu sofro pela mãe da minha amiga, porque sei o que está doendo nela, na família dela. Eu sofro pelo Bruce porque sei o que vai doer para meu filho e minha nora. E para mim, cujo convívio, embora não seja diário, mas foi a quem mais me apeguei quando Afonso partiu. Eu sofro pela perda cada vez maior da minha independência, eu sofro pelo que vem pela frente. Eu sofro porque não vou admitir a mim mesma ser um fardo para ninguém, mais do que já sou. Eu sofro porque estou com medo de qualquer coisa doer mais do que me doeu ver meu marido definhar por tres anos seguidos.
Estou cansada deste papo de coach, de ter que seguir em frente, de que Deus não te dá um fardo maior do que se pode carregar, de que eu sou forte e vou superar tudo, de que eu não sou a única que tem problemas.
Claro que não sou a única com problemas, todo mundo tem problemas. Mas, eu tinha quarenta e cinco anos quando passei uma noite na casa dos meus pais e petrifiquei quando ele, doente e incapacitado,caiu da cama e desandou a falar coisas que me impediram de me mover. Pensa que eu não sei? Eu fui covarde, eu fui sensível, eu fui incapaz. Eu sei todas as conversas que rondam aquela interminável noite. Supera o trauma. Sério que você está chorando? Claramente eu não superei os problemas com meu pai.
Eu super admiro quem supera seus traumas, mas eu não consegui ser assim. E não acho que aos sessenta e quatro anos vou conseguir ser diferente. Talvez por isto a saúde mental desta meninada de hoje esteja toda ferrada. Porque dizem a eles engole o choro e todo mundo engole e posa de bonito nos Instagrams da vida e vida que segue. Eu engolimuito choro. Mas, nunca fiz cara de tudo bem. Eu tenho um amigo da época da faculdade, que se ler isto vai se lembrar, que era uma das pouquísimas pessoas que sabia parte dos meus problemas em casa, que dizia que eu era uma cristaleira, com as taças sempre batendo umas nas outras, balançando e tremendo, até o dia em que uma se partiria. E depois as demais.
Pois é,querido ( não quero mencionar seu nome para não comprometê-lo, mas você sabe quem você é), levou apenas sessenta e quatro anos para as taças realmente começarem a se partir, uma atrás da outra. Cristaleira. Parece que estou ouvindo sua voz no banco do onibus. E nunca me senti tão próximo de uma definição como esta em cinquenta anos.
Eu tenho muitos arrependimentos nesta vida, mas a opçao de ficar no apartamento para que o Afonso morresse aqui não é um. Não mexer em suas coisas após a sua morte também não é. Não ter encarado o diagnóstico do Parkinson de frente quando recebi a notícia sim. Devia ter procurado ajuda naquele instante, mas aí veio a Covid, as perdas, o primeiro AVC do Afonso, a crença de que eu poderia recupará-lo, o segundo AVC, os problemas finaneiros, a morte dele, o luto, a depressão. A necessidade de que eu havia superado para melhorar a convivência familiar, para poder continar trabalhando, porque disto dependia meu sustento. a gente aprende a fingir. Aliás, fiz isto mais da metade da minha vida, porque não agora.
Mas, você tem um filho! Ele tem que dar suporte! Esta é clássica e estou muito acostumada a ouvi-la. Eu criei meu filho desde que ele conseguiu se entender por gente para ser um ente independente, para ter vida própria. Mesmo que tenha me revirado as entranhas quando o pai incentivava ele a seguir um cargo público, eu me contive. Dei minha opinião e respeitei a opção dele.Quando ele partiu para o Pará foi difícil,mas quando ele casou-se no Pará em plena pandemia ( por motivos práticos e burocráticos de benefícios, etc...), foi o fundo do poço pra mim. Respeitei, como sempre sua decisão, suas opções, mas não posso dizer o quanto doeu não estar com o pai presente ali neste dia. Depois ele voltou, só que para Santa Teresa, que a gente achava uma benção até o pai ficar doente. Ele precisou tirar uma licença de um mes para me ajudar no hospital. Santa Teresa está longe de ser o Pará, mas provou-se após a morte do Afonso ser distante,não suficientemente perto para mim, que fiquei. Ele trabalha feito um condenado, está sempre cansado, há um custo enorme financeiro que eu sei que ele não pode arcar. Então, eu ouço com frequência: mas o Bruno é seu filho, tem que estar mais presente! Mas, como mãe, que ama o filho que criou, não quero ele mais presente. Significa que ele descansa menos, gasta mais e pega mais estradas para ir e voltar do que qualquer mãe não egoísta gostaria. Deixa ele em casa. Ele vem quando pode, mesmo que eu adorasse tê-lo por perto a todo instante.
O mesmo ocorre com minhas melhores amigas, minha chamada rede de proteção. Prefiro me referir a elas como rede de proteção à distância. Se eu estiver hospitalizada eu vou deixar chamar uma delas. Caso contrário, cada uma tem sua vida. Nenhuma delas tem a vida fácil para me socorrer ou quebrar meus galhos quando eu necessito. Não vou permitir que ninguém deixe o filho, o trabalho, o marido, a casa para resolver meus problemas. Todas as opções do que acontece hoje foram tomadas por mim. Eu decidi acompanhar meu marido para longe da família. Eu decidi ficar aqui porque seria bom para todos ( meu filho, meu marido e eu), eu decidi ficar aqui quando ele ficou doente e depois quando ele faleceu. Boas ou ruins, e dependendo de circunstâncias que envolvem inventário e despesas com as quais não posso arcar, foram todas decisões minhas. Não posso culpar ninguém, ou responsabilizar ninguém pelas coisas que estou passando ou sentindo.
Mas, nada disto elimina o medo. O medo do hoje, o medo principalmente do amanhã. O medo da dependência total, o medo de ter que fazer coisas com as quais não concordo por não poder decidir no futuro. E aí vem aquela coisa da lâmpada que acende na tua frente e diz:Bingo!Taí porque seu irmão te goza toda santa vez quevocê se despede na tua ida embora de São Paulo chorando ( mesmo tentando engulir o choro), taí porque está tão difícil encarar a morte eminente de uma prima ou da mãe de uma amiga, ou a possibilidade de perder o seu cãozinho neto. Taí porque você reza e chora toda a noite pela prima, pela mãe da amiga, pelo Bruce, por sua mãe com tanta idade, por seu filho que diz que vai pegar a estrada e depois liga dizendo que o carro quebrou no meio da viagem em um lugar sem possibilidade de socorro. Eu tenho medo. Medo do sofrimento da minga prima, medo do sofrimento da minha amiga, medo do meu sofrimento pelo Bruce, medo da minha mãe partir e eu não chegar a tempo, medo do meu filho, com o carro quebrado no meio do nada ser assaltado, ou coisa pior. Eu tenho medo de não dar conta, de quebrar com a dor, de ter que passar de novo por dores que me moldaram.
Eu levei anos para me tornar independente. Eu levei anos para enfrentar meu pai ( no dia do meu casamento), eu levei anos para confiar em mim ( foi graças ao Afonso que eu voltei a dirigir aos trinta anos), para ter uma conta bancária só minha ( também graças ao Afonso), e, meio que de repente, eu perdi a fé em mim. Perdi a crença que sempre incuti em meu filho, em minhas amigas. De repente, eu hoje duvido das coisas que ouço ou vejo, não confio mais na minha memória, não posso esquecer a bengala ao sair de casa.
Eu me olho no espelho e não me reconheço. Estou muito distante daquela mulher que decidia tudo por si mesma, que dirigia até tarde na rua, que teve funcionária que contruiu casa porque eu pagava em dia. Que, quando era cantada por alguém no trabalho mandava à merda porque tinha um marido que me valorizava em casa. Que levava o filho a noite tocar em um bar quando ele tinha banda e pedia uma cerveja enquanto ele tocava e o marido estava dormindo, apenas porque ele confiava que eu não iria me desviar por tão pouco.
De repente, tudo mudou. E eu não sei mais quem sou. Não faço mais análise profissiográfica nas linhas de produção, não conduzo mais entrevistas de admissão ou demissão, não faço mais festas com maletinha, nem levo a festa aonde o cliente está. Com muito esforço estou pintando coisas que já não envolvem pestanas ou sombrancelhas, ou que sejam demasiado pequenas para eu não correr o risco de borrar tremendo, mesmo sob o efeito do prolopa e cia. Apenas desenhos maiores. E, em breve, eu sei, nem isto eu vou conseguir pintar.
Me resta,para efeito de renda,continuar a ser síndica do prédio, algo que está sugando a minha alma. Meu marido nasceu para isto. Por este motivo foi síndico por onze anos. Lamentavelmente, parece que eu não nasci talhada para tal serviço. Estou tocando, porque é o que me resta como opção, mas sei que esta função tem seu preço e está sugando minha alma, e o pouco que me resta de vida.Não estou reclamamndo no sentido de ser ingrata, ainda bem que continuo na função, o que me garante mais uns meses de traquilidade, mas definitivamente não é uma opção definitiva. Até porque em um momento alguém vai tomar meu lugar.
E assim, registro o acender da lâmpada que cristalizou minhas certezas nestas últimas semanas. Não acho que seja texto para que ninguém leia, mas ninguém mais lê meu blog há anos. Mas, precisava botar para fora meus pensamentos. Junto com meus últimos textos escritos, este agora faz mais sentido. Preciso trabalhar meu medo de sentir mais dor. Isto ficou cristalino para mim nos últimos dias.Preciso me preparar para uma hora qualquer perder minha mãe que está com oitenta e oito anos ( espero que chegue aos cem), preciso trabalhar meu medo deperder o Bruce, preciso trabalhar sobre o que dizer para minha amiga sobre a mãe dela ou sobre perder minha prima.Preciso trabalhar sobre quando eu não puder mais ser independente( hoje eu ainda consigo ser, graças a Deus). Preciso trabalhar o medo que sinto de tudo, desde o cheiro de feijão queimado no vizinho até meu filho ir e vir a Vitória em segurança. Sinto que é este medo que está me matando aos poucos.
Ao menos, eu acho que me encontrei o que me atormenta. Já é um primeiro passo. O que virá depois, nem tenho ideia. Mas, encarar de frente o problema, parece ser um bom começo!
sábado, 2 de maio de 2026
BRUCE
Bruce, eu te amo como um neto de verdade! Você tem quatro patas, mas é o que o destino quis que você fosse, um do meus netos, por quem eu tenho tanto amor, não fosse humano, fosse um cão, doce, querido e carinhoso.
Mas, tenho que dizer, que hoje agradeço por não ter um neto humano. O mundo eu não reconheço mais como o meu mundo, a vida eu não reconheço mais como a minha vida. Por acaso, depois de escrever minha última crônica, lembro-me bem o que houve naquela noite, sem ter contado para ninguém.
Depois de ter pulado a varanda de nossa casa, o portão de ferro, com enorme sacrifício, toquei em diversas campainhas na rua. Vizinhos de parede, vizinhos um pouco mais distantes. todos na viela 356, ou talvez , outro número que fiz questão de esquecer, da Rua Chamantá. Pedi por ajuda, pois meu pai ia matar minha mãe com uma faca e ninguém, ninguém, quis ajudar. Em briga de marido e mulher ninguém se mete, foi o que ouvi, de quem se despôs a falar. Outros apenas , por ouvir os gritos, apenas abriram um canto da cortina e a fecharam, como se nada tivesse acontecido.
Foi preciso eu subir uma viela escura e vazia para pedir ajuda a uma amiga de escola, cujo pai também fazia coisas parecidas. A Norma, mãe da Ana Paula, chamou a polícia. Foi quando eu voltei para casa e meu pai bancou de bonzinho, comigo no colo, dizendo que era um engano. E o meu medo das consequências foi maior que o de denunciá-lo. Eu me calei. Devia ter uns treze anos. Talvez quatorze, mas não os quatorze de hoje em dia. Antigamente, a idade se manifestava de forma diferente. Quatorze eram os dez de hoje em dia.
Minha amiga Ana Paula nunca mais falou comigo. Sei lá se porque chamei a mãe dela, se porque o pai dela era igual. Ela acabou por casar-se com meu vizinho de frente e as coisas desandaram de vez. Ela simplesmente me ignorava. Depois deste dia nunca mais chamei a polícia, mas não significa que ele deixou de nos ameaçar.
Tenho uma foto aos treze anos, onde estou a segurar um tio,Marcílio,( futuramente meu padrinho de casamento) a continuar jogando detetive apenas para ele e sua esposa Wanda não nos deixarem sozinhos, com medo do que meu pai iria fazer na saída deles. Por sinal, a foto ficou bonita, qualquer hora , encontro ela.
Não posso mais cobrar nada de minha mãe. Ela está com oitenta e oito anos, começou a viver a vida de verdade quando ficou viúva, viajou, aproveitou, e hoje está quase incapacitada. Meu irmão não gosta de falar sobre o assunto e minha irmã sequer viveu estes anos de terror. Ou seja,é quase como se não tivesse testemunhas do ocorrido, quase como se falasse sozinha. Mas sei bem, muito bem tudo o que aconteceu.
Meu pai me deixou marcas das quais eu não consegui me livrar. E ainda assim, eu o perdoei. Em uma das últimas visitas na clínica onde ele foi internado ele me pediu um pedaço de bolo com chantily. Eu sabia que eram seus últimos dias , mas minha família ( mãe, irmão e irmã), obedecendo a uma ordem da clínica me proibiram de buscar o tal bolo na padaria. Eu não me perdôo por isto. Ele estava morrendo, não faria diferença comer ou não aquela fatia de bolo, mas fui voto vencido. Acharam que faria mais mal. Eu sabia que ele estava morrendo. Queria ter dado o bolo para ele. Mas, não me permitiram. Nunca me perdoei por isto. Por obedecer o que eles decidiram. Eu era uma visitante em São Paulo.Morava em Vitória. espécie de forasteira, que só vinha duas ou tres vezes ao ano a São Paulo. Já morava fora há anos, era como se minha opinião não valesse.
Poucos dias depois ele entrou em coma e nunca mais pode provar o bolo que me pediu. Isto me atormenta até hoje. Nunca consegui esquecer. Neste período que ele esteve gravemente enfermo eu estive várias vezes em São Paulo. Estive com ele no dia dos Pais, mesmo ele estando em coma. No enterro dele tive uma crise, que não tive nem quando o meu marido faleceu. Chorei, gritei, ninguém entendeu. Acho que nunca consegui resolver meus problemas com meu pai. Não gritei, nem entrei em pânico quando Afonso se foi porque eu tinha tudo muito bem resolvido com ele. Nós nos amávamos e ele sabia disto, eu tenho certeza. Fiz por ele tudo o que me foi possível fazer.
Com meu pai foi diferente. E acho que ninguém entendeu. Eu tinha muita coisa não resolvida com ele, não estava preparada para ee partir, sem resolver certas coisas.
Tudo bem, acho que é assim que a gente aprende. Aprendi a dizer Eu te amo mais vezes, aprendi a reconhecer quando estava errada. Aprendi a não deixar para amanhã o que tem que se dizer hoje. Afonso foi reflexo disto, embora eu ainda ache que devesse estar alerta quando ele caiu e morreu. As coisas no mundo não são perfeitas.
Gostaria que tivesse sido diferente com meu pai. Apesar de ter sido a que mais pastou com suas loucuras, ainda gostaria de ter tido mais tempo para dizer que conseguia entendê-lo. Gostaria de tê-lo decepcionado menos, e conversado mais, apesar de saber que ele não iria me ouvir.
Perdôo meu pai, porque sou cheia de erros, muitos dos quais trouxe da aprendizagem com ele. Perdôo meu pai, porque não sou ninguém para julgar tudo o que ele viveu, apesar de tudo o que ele fez. Perdôo meu pai, porque também sou cheia de defeitos, e quem sou eu para julgar. Lamento por minha mãe. Mas, ela nunca vai entender isto. E também lamento por isto. É tarde demais para colocar as coisas em perspectiva.
Só não consigo me perdoar. Afetei a vida do Afonso, do Bruno , da minha mãe, quiçá meu irmão. Afetei minha vida, mesmo se perceber, e hoje tenho dificuldades em admitir isto.
Este é um pequeno recorte do que foi minha infância. Talvez por isto seja tão conplicado para mim lidar com a morte. E com o sofrimento. Talvez por isto esteja me doendo mais que o esperado a eminente morte da mãe de uma amiga que considero como filha. Talvez por isto eu esteja apavorada em viver a perda do Bruce, que apesar de ser um caozinho da minha nora e do meu filho, sempre passa alguns dias comigo e a quem eu me apeguei tanto. Medo da perda, do sofrimento, a culpa do que mais eu poderia ter feito por todo mundo que eu perco. Foi assim com meu avô, com minha avó, com meu pai. Foi assim com o Afonso. O que mais eu poderia ter feito por estas pessoas? O que mais eu ainda posso fazer pelo Bruce? Há como ajudar minha amiga a passar por tamanha dor? Há como nao sentir mais todas as dores desde que me conheço por gente? Acho que não. Tenho que enfrenta-las sozinha, porque cada qual ja tem suas proprias dores. Só lamento....
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