sábado, 2 de maio de 2026

Bruce, eu te amo como um neto de verdade! Você tem quatro patas, mas é o que o destino quis que você fosse, um do meus netos, por quem eu tenho tanto amor, não fosse humano, fosse um cão, doce, querido e carinhoso. Mas, tenho que dizer, que hoje agradeço por não ter um neto humano. O mundo eu não reconheço mais como o meu mundo, a vida eu não reconheço mais como a minha vida. Por acaso, depois de escrever minha última crônica, lembro-me bem o que houve naquela noite, sem ter contado para ninguém. Depois de ter pulado a varanda de nossa casa, o portão de ferro, com enorme sacrifício, toquei em diversas campainhas na rua. Vizinhos de parede, vizinhos um pouco mais distantes. todos na viela 356, ou talvez , outro número que fiz questão de esquecer, da Rua Chamantá. Pedi por ajuda, pois meu pai ia matar minha mãe com uma faca e ninguém, ninguém, quis ajudar. Em briga de marido e mulher ninguém se mete, foi o que ouvi, de quem se despôs a falar. Outros apenas , por ouvir os gritos, apenas abriram um canto da cortina e a fecharam, como se nada tivesse acontecido. Foi preciso eu subir uma viela escura e vazia para pedir ajuda a uma amiga de escola, cujo pai também fazia coisas parecidas. A Norma, mãe da Ana Paula, chamou a polícia. Foi quando eu voltei para casa e meu pai bancou de bonzinho, comigo no colo, dizendo que era um engano. E o meu medo das consequências foi maior que o de denunciá-lo. Eu me calei. Devia ter uns treze anos. Talvez quatorze, mas não os quatorze de hoje em dia. Antigamente, a idade se manifestava de forma diferente. Quatorze eram os dez de hoje em dia. Minha amiga Ana Paula nunca mais falou comigo. Sei lá se porque chamei a mãe dela, se porque o pai dela era igual. Ela acabou por casar-se com meu vizinho de frente e as coisas desandaram de vez. Ela simplesmente me ignorava. Depois deste dia nunca mais chamei a polícia, mas não significa que ele deixou de nos ameaçar. Tenho uma foto aos treze anos, onde estou a segurar um tio,Marcílio,( futuramente meu padrinho de casamento) a continuar jogando detetive apenas para ele e sua esposa Wanda não nos deixarem sozinhos, com medo do que meu pai iria fazer na saída deles. Por sinal, a foto ficou bonita, qualquer hora , encontro ela. Não posso mais cobrar nada de minha mãe. Ela está com oitenta e oito anos, começou a viver a vida de verdade quando ficou viúva, viajou, aproveitou, e hoje está quase incapacitada. Meu irmão não gosta de falar sobre o assunto e minha irmã sequer viveu estes anos de terror. Ou seja,é quase como se não tivesse testemunhas do ocorrido, quase como se falasse sozinha. Mas sei bem, muito bem tudo o que aconteceu. Meu pai me deixou marcas das quais eu não consegui me livrar. E ainda assim, eu o perdoei. Em uma das últimas visitas na clínica onde ele foi internado ele me pediu um pedaço de bolo com chantily. Eu sabia que eram seus últimos dias , mas minha família ( mãe, irmão e irmã), obedecendo a uma ordem da clínica me proibiram de buscar o tal bolo na padaria. Eu não me perdôo por isto. Ele estava morrendo, não faria diferença comer ou não aquela fatia de bolo, mas fui voto vencido. Acharam que faria mais mal. Eu sabia que ele estava morrendo. Queria ter dado o bolo para ele. Mas, não me permitiram. Nunca me perdoei por isto. Por obedecer o que eles decidiram. Eu era uma visitante em São Paulo.Morava em Vitória. espécie de forasteira, que só vinha duas ou tres vezes ao ano a São Paulo. Já morava fora há anos, era como se minha opinião não valesse. Poucos dias depois ele entrou em coma e nunca mais pode provar o bolo que me pediu. Isto me atormenta até hoje. Nunca consegui esquecer. Neste período que ele esteve gravemente enfermo eu estive várias vezes em São Paulo. Estive com ele no dia dos Pais, mesmo ele estando em coma. No enterro dele tive uma crise, que não tive nem quando o meu marido faleceu. Chorei, gritei, ninguém entendeu. Acho que nunca consegui resolver meus problemas com meu pai. Não gritei, nem entrei em pânico quando Afonso se foi porque eu tinha tudo muito bem resolvido com ele. Nós nos amávamos e ele sabia disto, eu tenho certeza. Fiz por ele tudo o que me foi possível fazer. Com meu pai foi diferente. E acho que ninguém entendeu. Eu tinha muita coisa não resolvida com ele, não estava preparada para ee partir, sem resolver certas coisas. Tudo bem, acho que é assim que a gente aprende. Aprendi a dizer Eu te amo mais vezes, aprendi a reconhecer quando estava errada. Aprendi a não deixar para amanhã o que tem que se dizer hoje. Afonso foi reflexo disto, embora eu ainda ache que devesse estar alerta quando ele caiu e morreu. As coisas no mundo não são perfeitas. Gostaria que tivesse sido diferente com meu pai. Apesar de ter sido a que mais pastou com suas loucuras, ainda gostaria de ter tido mais tempo para dizer que conseguia entendê-lo. Gostaria de tê-lo decepcionado menos, e conversado mais, apesar de saber que ele não iria me ouvir. Perdôo meu pai, porque sou cheia de erros, muitos dos quais trouxe da aprendizagem com ele. Perdôo meu pai, porque não sou ninguém para julgar tudo o que ele viveu, apesar de tudo o que ele fez. Perdôo meu pai, porque também sou cheia de defeitos, e quem sou eu para julgar. Lamento por minha mãe. Mas, ela nunca vai entender isto. E também lamento por isto. É tarde demais para colocar as coisas em perspectiva. Só não consigo me perdoar. Afetei a vida do Afonso, do Bruno , da minha mãe, quiçá meu irmão. Afetei minha vida, mesmo se perceber, e hoje tenho dificuldades em admitir isto. Este é um pequeno recorte do que foi minha infância