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quarta-feira, 22 de abril de 2026
SAUDADE..........
Oi, eu sou a Débora. Alguns me conhecem como a tia das festas, outros pela mãe do Bruno, um tanto pela mãezona do ESFILES. Alguns lembram de mim como aluna do Liceu Santa Cruz, outras como formanda da Metodista e muita gente apenas lembra de mim como quem faz os enxovais de bebê ou os panos de prato. Mas, também tenho sorte de ser lembrada como filha, irmã e amiga de muita gente. A vó torta do Vicente, a esposa do falecido Afonso ou simplesmente a síndica do Julieta.
Muita gente acha que minha luz se apagou quando perdi meu marido, a luz da minha vida. Não deixa de ser verdade. Já faz mais de um ano e ainda não consegui me reerguer, me reinventar. Nas noites mais sombrias sem ele me lembro do tanto de gente que apostou que, por causa da diferença de idade, não duraria mais que um ano nosso casamento. Meu pai, inclusive. Durou quarenta e tantos, contando namoro e noivado. Teria durado mais se ele não tivesse partido. Até o padre que recusou abençoar nossas alianças por ele ser um homem divorciado disse que nosso casamento estava fadado ao fracasso aos olhos de Deus. Ainda bem que o Deus em que eu acredito não deve ser o mesmo que o guiou negando abençoar nossas alianças.
Minha vida começou a mudar antes do Afonso ter o primeiro AVC. Recebi um precoce diagnóstico de Parkinson, não com muita surpresa, mas com muita frustração, já que papai morreu em decorrência de complicações da mesma doença. Depois veio a Covid, que para desespero meu e do meu amado, a doença tirou-lhe aquilo que ele mais prezava: o paladar. Só quem conheceu meu marido a fundo pode entender o que era para o Afonso perder o paladar. Um apreciador de alimentos. Um ótimo cozinheiro. Alguém que amava saborear. Foi o primeiro passo para a derrocada. Depois o primeiro AVC. Quatro meses de UTI, foi desenganado por médicos mais de uma vez, várias infecções, sepse,quase seis meses meses de recuperação em casa, antes do segundo AVC. Outro tanto de UTI, uma cirurgia para lhe colocar stents, outro tanto de sofrimento e enfim, uma recuperação parcial, que vista hoje em perspectiva, mais me parecia que ele vivia apenas para que eu não tivesse que sofrer com sua perda.
Então o terceiro AVC o levou. Em casa. Depois de um dia maravilhoso de passeio que quase já não fazíamos e conversas no dia anterior cheio de lembranças, recordações e carinhos. Se eu tivesse que escolher uma memória para guardar antes de morrer, seria a dele, levantando com todo o sacrifício do sofá, para me cobrir o joelho, mal coberto por uma colcha, quando, pela exaustão, peguei no sono no sofá, dias antes de sua partida. Quando percebi , ele disse: não quero que você fique gelada….nunca consegui lavar aquela colcha….
Então, após sua partida, quase um ano depois, perdi um amigo querido, o Marcos, da época da escola, um músico incrível, aos cinquenta e poucos anos. Perdi uma amiga aos sessenta e oito de Covid e outra aos setenta com um enfarto fulminante. E agora estou lidando com uma parente muito querida com câncer, a mãe de uma destas minhas amigas que são como filha com uma doença que a levou a uma UTI e um outro ente querido com um tumor que pode ou não ser maligno.
Fico me perguntando se isso é o que me restou. Ver quem eu amo ir embora, enquanto eu perco minha independência para uma doença que não tem cura. Tem coisas boas? Sim, claro. Vicente está cada vez mais lindo e esperto, mas eu já não tenho a saúde que deveria ter para carregá-lo no colo, correr atrás dele. Vejo amigas realizarem sonhos, parentes felizes, mas também vejo meu filho se afundar cada vez mais em trabalho e envelhecer um ano por mês, talvez por culpa minha, que repetia sem parar o mantra de seu avô Antonio, que dizia que o trabalho enobrece. Talvez porque ele precise apenas pagar suas contas e meu avô, coitado, não tenha nada a ver com isto. Mas eu e Afonso ensinamos a ele a nunca deixar a peteca cair, e, na verdade, hoje, não sei se fizemos o certo.
Estou cansada de pessoas que dizem que tenho que seguir em frente, que tenho que fazer trabalho voluntário ( eu tenho dois trabalhos, por falta de um, nenhum voluntário porque tenho que pagar as contas ) , que eu tenho que rezar, que eu tenho que ser grata ( e sou muito, pois poucas pessoas têm a rede de apoio que eu tenho, em todos os sentidos), que eu não posso esmorecer e que eu já devia ter superado. Sábado meu time jogou mal e só o que eu queria era virar para ele e dizer: “que jogo de merda!”, mas ele não estava aqui. Depois, no dia seguinte, o time dele perdeu e eu queria dizer exatamente a mesma coisa, que é o que ele diria. Mas, ele não está aqui para ouvir ou falar. E tudo meio que perde o sentido, embora eu converse com seus retratos espalhados pela casa o tempo todo. Sábado fui a um aniversário e me peguei na frente de sua foto, perguntando se eu estava bem para o gosto dele, se não tinha baton demais…..
Parece coisa de gente doida, mas não é. É o hábito. E todos sabem que o hábito faz o monge. O ser racional sabe de tudo isto. Que a morte faz parte da vida, que temos que seguir em frente, que sofrer não vai trazer ele de volta. Que ele odiaria saber que estou sofrendo assim. Mas, na maior parte do tempo, não é meu lado racional pensando, é meu lado emocional, aquele que chora, que sente saudades, que não quer enxergar uma vida sem prazeres, sem ele.
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Eu sei que hoje tem um monte de nomes para uma vida de “dependência, influencia”, ou qualquer outra expressão legal da moda. Mas, não é isso. Ele nunca mandou em mim ( se isso existiu, foi o contrário), nunca me definiu, nunca me moldou. Apenas havia uma parceria. Difícil hoje em dia. Destas em que a gente combina nunca dormir zangado um com o outro de jeito nenhum antes de resolver o problema. E, podem apostar, eu criava mais problemas do que ele, podem ter certeza. Ele era mais velho, mas eu era a mais ciumenta. Era eu que definia tudo e ele topava ou contornava tudo a tal ponto a me fazer crer que tinha sido ideia minha. Eu tinha gênio difícil, minha sogra nunca esteve errada, mas ele sabia como lidar comigo. Ele sabia como me levar.
De repente, eu perdi tudo. Um concurso. Meu filho casou, mudou-se para longe, meu marido adoeceu, meu filho voltou, mas não para tão perto quanto eu precisaria. Eu perdi amigas na Covid, eu perdi meu marido logo depois. Meu filho já não tinha a disponibilidade de quando Afonso estava doente. Minha melhor amiga engravidou, quero crer que de tanto que eu rezei para isto acontecer, mas isto teve um preço. Eu já paguei este preço trinta e oito anos e pouco lá atrás. Outras amigas sempre estão presentes de alguma forma, mas, não é a mesma coisa. Sei que algumas não sabem mais o que fazer para me trazer alegria, mas nada ajuda. Por maior que seja o amor que elas tenham por mim, sou eu quem se deita a noite sozinha e diz boa noite para alguém que não está lá; são os pés dele que os meus procuram por baixo da colcha, é mão dele que eu não encontro quando quero me acalmar.
Desisti de explicar. Continuo rezando e fazendo promessa para outra amiga engravidar. Mas, já não faço promessas para entender o que foi perder o Afonso. Todos dizem que tenho que aceitar e eu obedientemente tento. Acredito piamente que minha amiga vai engravidar (no sentido mais amplo da palavra) e ter o filho que sempre sonhou, mas já não consigo acreditar que posso viver, ser feliz, ter tesão pela vida ( também no sentido mais amplo da palavra), sem o Afonso.
É como brincar num parquinho quando se é criança,,você acredita, acredita, acredita, até que não acredita mais. É mais ou menos isto. E você tem que reconstruir sua vida de quarenta e tantos anos sem sua alma gêmea, sem o cara que te dizia: tá errado, ou te dizia: vai em frente. Na verdade, sem ninguém. Seu filho tá cheio de outros problemas e você não quer atrapalhar, suas amigas, todas tem uma vida para gerenciar, e você também não quer atrapalhar. Sua família viveu tanto tempo longe de você, vivenciando sua existência através de posts e emojis, que eles mal te conhecem de verdade.
Na verdade é difícil viver o luto quando você só tem sua psicóloga, disposta a ajudar quando for necessário. Ela ajuda, e como, mas não pode estar nas horas que você mais precisa, a noite, quando a maioria está dormindo e você está presa ao passado. Quando vai jantar e sem querer pisa no local onde Afonso caiu morto, Eu peço desculpas. Não é racional, mas eu peço. A maioria das coisas que eu faço não são racionais, mas eu faço.
O luto das pessoas não é igual. Para alguns é mais fácil, para outros bem mais difícil. Talvez algumas pessoas não sintam tanta saudade, não tenham boas lembranças do casamento. Para outras o casamento talvez tenha sido uma benção, sem ninguém saber o porquê.
Eu sempre tive a sensação de ter ganho na loteria. Todas ao mesmo tempo. Tive um marido à frente do seu tempo, que me ajudou horrores na maternidade, ( quando isto não era moda),que aceitou meu trabalho fora dos padrões, que respeitou meus desejos, que me ajudou enquanto pode e embarcou nas minhas loucuras. Ajudou na criação do meu filho quando eu não podia estar presente. Achava lindo tudo o que eu pintava e dava palpites na cor das fraldinhas quando podia.
Este era o Afonso. A gente sempre discordava concordando. Ou concordava discordando. Mas, eu o respeitava. E ele a mim. Se eu voltasse no tempo, não exitaria em casar com ele novamente. Porque não existe esta coisa de alma gêmea. Existe respeito. Existe diálogo. Muitas vezes muito difícil. Muitas vezes quase impossível de haver. Mas, quando há amor, há. Você faz quase tudo quando há amor. Eu sei. Eu fiz. Ele também. E eu nunca esquecerei disto.
É muito difícil passar por isto sozinha. Pouca gente te entende. Ir à praia ou ao teatro não muda teu sentimento de luto, de perda. Muda o local, não muda o que você sente. Você sorri, aquele sorriso que todos esperam de você, mas que não reflete teu sentimento. Você não quer desagradar quem te acompanhou, mas não quer dizer que você está feliz. E o que me deixa puta, é que pouquíssimas pessoas entendem o que estou sentindo. A maioria pensa: que legal, ela está seguindo em frente…..
Não, eu não estou seguindo em frente. Eu estou tentando sobreviver. Um dia depois do outro. Por favor, parem de dizer que ele está melhor agora, que eu não estou vendo ele sofrer, que nós vivemos o que Deus achou que era o tempo certo. Parem de dizer que foi melhor assim, que eu fiz o que podia. Isto só me atormenta mais. Me deixem chorar quando eu tenho vontade, quando sinto saudades, me deixem lamentar a ida dele, sem a culpa de : “ele sofre lá em cima quando estou sofrendo aqui embaixo” Não sei o que tem lá em cima ou lá embaixo, mas não quero carregar a culpa dele estar sofrendo porque sinto sua falta. Meu Deus, aquele em que eu creio piamente, não vai punir meu amor porque sinto falta dele. Meu Deus, aquele por quem eu rogo, não vai puni-lo porque eu não aprendi ainda a viver sem meu Afonso. Não é nisto que eu creio. Meu marido há de estar descansando em paz, mesmo que eu ainda sinta falta dele, da sua carne, do seu espírito.
Nem consigo imaginar o tanto de gente que vai me recriminar por tudo o que estou escrevendo, mas afinal, escrever acho que é meu único canal de desabafo. Lê quem quer. Quem não gosta ou não concorda, mude de leitura. Preciso por para fora toda esta tristeza,, que todos dizem que faz mal a ele, preciso por para fora toda esta solidão, toda esta falta de sentido que virou minha vida.
Quer saber, danem-se os que não concordam, danem-se os que acham que estou errada, nenhum deles está passando o que estou passando sozinha agora. Danem-se! O Deus em que eu creio não
me julga como os homens, o Deus em que eu creio é misericordioso, e há de me entender e não há de punir meu marido porque sinto falta dele. E se tiver que punir, que puna a mim, e não e ele..Eu não vou virar uma religiosa fanática aos sessenta e quatro anos. Eu vou continuar acreditando no que sempre acreditei: num Deus justo e honesto, que acredita no amor, que nos julga por nossos atos na Terra, que crê na caridade, na compaixão, no amor ao próximo, na planta que plantamos e regamos até virar uma árvore frondosa de amor e prosperidade. Foi nisto que sempre acreditei. Não vou mudar agora, porque perdi o amor da minha vida. Nós dois plantamos uma árvore frondosa e caridosa, amamos o próximo, fizemos o bem, dentro de todas as nossas possibilidades. Eu diria até demais .Deus há de entener a falta que sinto dele e ele deve estar no melhor lugar que for possível, pois foi um pai de quatro filhos incrível, foi um marido exemplar, um provedor sem questionamentos. Foi caridoso, mais até que a maioria, foi humano, como todo todo ser que habita este planeta. E eu sinto sim, falta dele. Me julguem. Se eu tiver que pagar, eu pago. Mas, não vou pagar de mártir, dizendo para todo mundo que não sinto falta dele porque isto não deixa ele evoluir. Sinto muito amor, se eu estiver errada, mas você sempre soube em que eu acreditava.
Sinceramente, espero que você esteja bem, em um lugar de muita luz e paz, rindo das coisas muito absurdas que nós fizemos juntos para a maioria das pessoas ( como aquele piquenique com vinho nas taças e formigas no nosso entorno ou a escorregada na cachoeira que te fez perder os óculos...ou mesmo encher a piscina na varanda para o Bruno poder brincar…). Espero que se lembre das coisas boas.
D
Mesmo as coisas boas me fazem chorar. Você me conhece, eu sou assim. Pular a janela do quarto do hotel para o Bruno encontrar o fantasma, eu fazer empadinhas para 50 pessoas quando só nós íamos comer, mordermos a cenoura para o Bruno achar que o coelhinho tinha passado por lá, a saia cinza na noite de natal, o chapéu de flores no meu aniversário………..
Quanto mais escrevo, mais eu choro, então, vou parar por aqui. No meu mundo, você vqai ler isto aqui e vai acrescentar outra dúzia de cisas…..Espero estar certa.
Eu me recuso a estar viúva. Você apenas foi viajar e não fomos juntos, como outras vezes. E não vai demorar a te reencontrar novamente. Tenho fé que você vai vir me buscar em breve.
Saudades imensas, sem medo de você estar sofrendo. Louca para te reencontrar!
Sempre te amei, te amo, sempre te amarei….
Dé
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