quarta-feira, 29 de abril de 2026

Recomeços.....

Eu tento, mas não sei se lembro quantos recomeços eu já tive. Dizem que piscianos são mais sensíveis,mais intuitívos, mais sonhadores.Pode ser, eu nunca estudei signos e datas de nascimentos. Mas, em verdade vos digo, a maioria dos piscianos que conheço são muito parecidos comigo. Fáceis de se enveredar por uma história. Comecei a me interessar por signos quando o Bruno já tinha alguma idade e manifestava comportamentos semelhantes a pessoas do mesmo signo. Comecei a notar semelhanças. Então comecei a observar taurinos, o signo do meu marido e as semelhanças apareceram. E depois comecei a observar piscianos. Como eu. Não sei nada científico sobre o assunto, mas na verdade existe uma enorme semelhança. Qualquer dia, se houver tempo, estudarei sobre os signos e suas influências. O que não consigo esquecer é da minha infância. Da minha adolescência. Da vida adulta. Tive uma infância muito difícil. Fui a primeira de tres filhos, com diferenças de quatro anos entre meu irmão e oito com minha irmã. Com sete e ele tres, ainda dormíamos em sofás cama na sala. Não sei se ele se lembra, mas cada vez que eu ouvia meus pais discutindo eu batia na parede que separava a sala do quarto. Eu tinha a impressão de estar salvando minha mãe, na época não sabia bem do quê, mas em verdade, ela ao me atender e me acalmar, acabava com a possível discussão. Nem sei quantas vezes fiz isto. Virou uma espécie, hoje eu entendo, de mecanismo de defesa para defendê-la. Hoje não consigo ouvir discussóes de vizinhos e passo mal. Não sei até onde meu irmão se lembra disto tudo. Meu pai era um homem exemplar no trabalho, trabalhou anos em várias empresas excelentes, um ótimo provedor e não tenho dúvida alguma que, do seu jeito, amava sua família. Só não conseguia demonstrar. Segundo minha mãe, ele vinha de uma família possessiva, onde sua mãe escolheu a gravata com que iria se casar e seu pai pulava a cerca toda a vez que podia. Hoje eu entendo, ele precisava mandar em alguém. E esse alguém fomos nós , a família que ele formou. Ele teve dura concorrência. Meu avô, pai de minha mãe, era o pai que eu queria para mim. Paciente, com tempo sobrando, era ele que nos ensinava a andar de bicicleta, empinar papagaios ( naquela época a gente ia no Ceret, onde não haviam quase postes de luz), era ele quem ensinava fazer balões com cola de farinha, ele nos deixava fazer tudo, ou quase tudo. Normal, em famílias normais. Um avô é feito para divertir, não para educar. Mas, meu pai,com todos os seus problemas psicológicos ( que hoje seriam facilmente tratados), sentia ciúme deste relacionamento. Lembro que em um dia dos pais, mamãe havia tricotado um colete para meu avô ( afinal era pai dela). Nós filhos, havíamos comprado uma gravata para meu pai, com algum sacrifício. E pela manhã, meu pai nos chamou de fajutos, hipócritas e picotou a gravata que ganhou de nós. Nunca mais consegui usar a palavra fajuto. Estou escrevendo ela pela primeira vez em anos. Uma vez chamei a policia para ele. Quando a polícia chegou, ele sentou-me no seu colo e me disse , apertando meu braço, para dizer que eu havia exagerado. Eu vivia roubando as balas da arma. Descobri a senha do cofre e tirava as balas e ele brigava com a familia inteira por minha causa. Guardei, até hoje, uma das balas desta arma. É uma espécie de lembrete de porque armas deviam ser proibídas. Cheguei a escrever uma carta para o Dr. Garbougine, para que fosse entregue ao advogado da família (Dr.Tércio), alertando sobre esta arma e meu medo de viver sobre o mesmo teto que ela. Fui entregue pelo próprio advogado. Em retrospectiva, não acho hoje que meu pai fosse capaz de tirar qualquer vida. Acho que ameaçar era a forma de ele ter o controle sobre uma família que considerava o avô mais pai do que ele.Acho que quando ele bebia ele perdia as amarras e se tornava o homem que gostaria de ter sido. Perdi a conta de quantas vezes ele bateu na minha mãe, mas ele nunca bateu com vontade em mim ou no meu irmão. Ele falava muito e fazia pouco, excessão à minha mãe, que não tinha como se defender. Acho ,hoje, em perspectiva, que ele não precisava bater em nós, ele atingia aquilo que mais amávamos, minha mãe. Falo de mim e de meu irmão, porque minha irmã só veio quase nove anos depois. e até crescer o suficiente, já pegou meu pai, diferente. Ele já tinha percebido que os filhos estavam do lado da mãe, ele viu meu irmão aos quinze anos enfrenta-lo. Ele me viu vestida de noiva dizer que preferia entrar sozinha na igreja do que impedir a entrada de meu avô em meu casamento. Eu finalmente o enfrentei. Ele teve um AVC neste dia e minha mãe, na generosidade maior de uma mãe, impediu que eu soubesse até o final de minha lua de mel de uma semana. Minha infância e adolescência não foram fáceis. Minha infância traz lembranças nítidas de um pai bêbado deixando um copo de uma bebida qualquer cair balcão abaixo em uma varanda em Santos porque mamãe estava na praia de óculos escuros ( e podia estar olhando outros homens - contem ironia), até o momento em que, no final do segundo grau, "arranjei um estágio qualquer", que justificava eu pegar minha máquina de escrever Olivetti portátil, ganha do meu avô, colocar em uma sacola e tomar diversos ônibus até o Jardim Botânico, onde eu escrevia artigos que eu achava que seriam aceitos pela Folha da Vila Prudente. porque haviam sido escritos no orquidário da cidade. Eles aceitaram um. Tenho orgulho disto até hoje. Falava sobre a estação de metrô que iria derrubar nossa antiga casa na Emboaçava. Foi o único artigo que consegui publicar ( gratutitamtente, diga-se de passagem). A biblioteca virou meu refúgio. Quando percebi que ele tinha orgulho de uma aluna nota dez, passei a ir à bibilioteca, da Vila Prudente e do Distrital sempre que me sentia ameaçada. Hoje me sinto uma covarde, por ter deixado meus irmãos e minha mãe à mercê das suas bebedeiras. Mas, tive meus lucros. Com quinze anos ja tinha lido Madame Bovary, Guerra e Paz, todos os livros de Jorge Amado, tudo de Machado e muito, muito mais. Li em quatro anos o que quase se leva uma vida para ler. Metamorfose de Kafka,O Principe de Maquiavel, Aluísio Azevedo, e tantos outros. Quando li Angélica ( de Mdme Duprat) para falar a verdade, sequer entendi seu significado. Apenas depois de alguns anos, fui entender o que era uma prostituta. Quando li Zero, de Loyola Brandão fui tentar entender o que eram as ditaduras. Eu meio que aprendi na marra, sem querer. Para fugir das bebedeiras do eu pai eu lia. Lia o que era bom, o que recomendavam, o que era ruim também. Nem sempre tinha discernimento, naquela época, para saber o que era bom ou era ruim. Lembro da Dona Shirley. Era bibliotecária da Vila Prudente. Deve ter morrido há muitos anos. Mas era ótima para indicar livros. Agradeço a ela postumamente a me indicar Machado e Kafka.Jorge Amado e Emilé Zolá, entre muitos outros. Li entre os quatorze e os dezessete anos mais que qualquer auto didata. Ela era um farol, me indicando livros. Que Deus a tenha em um excelente lugar. Curiosamente, quase não me lembro da feições dela. Me lembro da voz. Poderosa, indicativa: - "você vai adorar isto!" Cada um deve influenciar de uma forma, imagino.Me lembro dela me indicando a Divina Comédia, de Dante. Ela me disse, talvez você não entenda agora, mas vai entender em algum momento. Ler e me esconder um uma biblioteca foi meu refúgio covarde. Larguei mão da minha mãe, dos meus irmãos, e me escondi.Confesso, tinha dificuldades em encara-lo. O Estudo era minha desculpa e minha forma de me esconder. Eu sabia, que ser uma aluna nota dez era seu calcanhar de Aquiles. E abusava dele. Uma forma covarde de viver um tempo mais longe da bebedeira, das ameaças, das injúrias. Quando ele ficou doente para valer, quando o médico proibiu a bebida, quando ele tomou um pouco de juízo ( só um pouco ), eu o perdoei. E fui escurraçada por isto. Sei que minha mae não me perdoa por isto, minha irmã também também não. Mas, gosto de pensar naquele ditado que quando a gente quer for se vingar é melhor cavar duas covas. Tive dó ele. Do que ele perdeu. Do que ele poderia ter sido. Esta sou eu. Pago por isto até hoje. Sei que boa parte das coisas que carrego vem dos traumas do meu pai. A morte da mãe dele,o medo de dececioná-lo, o medo de morrer pelas mãos dele, são apenas algumas das coisas que vivi. Mas, também sei que boa parte do que divide esta família, entre eu e minha irmá é o fato dela não ter vivido o que eu e o meu irmão vivemos. Não sei bem como o meu irmão lidou com isto, é como um assunto proibido emm casa, mas eu tenho certeza que em mim deixou muitas marcas.Hoje, fazendo terapia, percebo que cada coisa que a gente vive deixa uma marca na gente, de alguma forma. Eu vivi muitas. Meu irmão adora meu pai, e talvez tenha deixado de lado seus defeitos Eu tento, mas não consigo. Eu sou a soma de todas as experiencias boas e ruins desta época. Quero crer que , de alguma forma isto me moldou. Por exemplo, o controle que quero exercer sobre as coisas. A dificuldade que eu tenho para conversar sobre o meu pai com meus irmãos depois que eu casei. O fato de eu ter me mudado para outro estado enquanto eles ainda lidavam com ele. Acho que tem tanta ferida por baixo dos panos, tem tanto rescentimento, tanta dor, porque eu o perdoei. E eles não. Eu não comsegui reagir, quando ele já estava com parkinson delirando, eu não consegui me mover na casa da minha mãe, quando ele caiu da cama, ninguém o tirou de lá até o amanhecer. Nunca vou conseguir me perdoar por isto. Tem tantan história na minha hitória...... No fundo , eu só queria acabar como o o Chuck, do filme. Queria desligr e acabar.Como um fio que você tira da tomada e não pode religar. É o que mais desejo. Apesar das saudades, não quero rever meu pai, meu marido, nem niguém. Só queria um fio que se rompe e acaba com a dor que a gente sente. Porque com tanta história, dói demais viver.....Tem muita hiswtória para consertar. E não sei se estou disposta a isto. Queria aquele frio, do filme do Chuck, que só desliga a gente para sempre.... É Egoísmo? Pode ser, mas não tenho hoje forças para começar tudo de novo.....

quarta-feira, 22 de abril de 2026

SAUDADE..........

Oi, eu sou a Débora. Alguns me conhecem como a tia das festas, outros pela mãe do Bruno, um tanto pela mãezona do ESFILES. Alguns lembram de mim como aluna do Liceu Santa Cruz, outras como formanda da Metodista e muita gente apenas lembra de mim como quem faz os enxovais de bebê ou os panos de prato. Mas, também tenho sorte de ser lembrada como filha, irmã e amiga de muita gente. A vó torta do Vicente, a esposa do falecido Afonso ou simplesmente a síndica do Julieta. Muita gente acha que minha luz se apagou quando perdi meu marido, a luz da minha vida. Não deixa de ser verdade. Já faz mais de um ano e ainda não consegui me reerguer, me reinventar. Nas noites mais sombrias sem ele me lembro do tanto de gente que apostou que, por causa da diferença de idade, não duraria mais que um ano nosso casamento. Meu pai, inclusive. Durou quarenta e tantos, contando namoro e noivado. Teria durado mais se ele não tivesse partido. Até o padre que recusou abençoar nossas alianças por ele ser um homem divorciado disse que nosso casamento estava fadado ao fracasso aos olhos de Deus. Ainda bem que o Deus em que eu acredito não deve ser o mesmo que o guiou negando abençoar nossas alianças. Minha vida começou a mudar antes do Afonso ter o primeiro AVC. Recebi um precoce diagnóstico de Parkinson, não com muita surpresa, mas com muita frustração, já que papai morreu em decorrência de complicações da mesma doença. Depois veio a Covid, que para desespero meu e do meu amado, a doença tirou-lhe aquilo que ele mais prezava: o paladar. Só quem conheceu meu marido a fundo pode entender o que era para o Afonso perder o paladar. Um apreciador de alimentos. Um ótimo cozinheiro. Alguém que amava saborear. Foi o primeiro passo para a derrocada. Depois o primeiro AVC. Quatro meses de UTI, foi desenganado por médicos mais de uma vez, várias infecções, sepse,quase seis meses meses de recuperação em casa, antes do segundo AVC. Outro tanto de UTI, uma cirurgia para lhe colocar stents, outro tanto de sofrimento e enfim, uma recuperação parcial, que vista hoje em perspectiva, mais me parecia que ele vivia apenas para que eu não tivesse que sofrer com sua perda. Então o terceiro AVC o levou. Em casa. Depois de um dia maravilhoso de passeio que quase já não fazíamos e conversas no dia anterior cheio de lembranças, recordações e carinhos. Se eu tivesse que escolher uma memória para guardar antes de morrer, seria a dele, levantando com todo o sacrifício do sofá, para me cobrir o joelho, mal coberto por uma colcha, quando, pela exaustão, peguei no sono no sofá, dias antes de sua partida. Quando percebi , ele disse: não quero que você fique gelada….nunca consegui lavar aquela colcha…. Então, após sua partida, quase um ano depois, perdi um amigo querido, o Marcos, da época da escola, um músico incrível, aos cinquenta e poucos anos. Perdi uma amiga aos sessenta e oito de Covid e outra aos setenta com um enfarto fulminante. E agora estou lidando com uma parente muito querida com câncer, a mãe de uma destas minhas amigas que são como filha com uma doença que a levou a uma UTI e um outro ente querido com um tumor que pode ou não ser maligno. Fico me perguntando se isso é o que me restou. Ver quem eu amo ir embora, enquanto eu perco minha independência para uma doença que não tem cura. Tem coisas boas? Sim, claro. Vicente está cada vez mais lindo e esperto, mas eu já não tenho a saúde que deveria ter para carregá-lo no colo, correr atrás dele. Vejo amigas realizarem sonhos, parentes felizes, mas também vejo meu filho se afundar cada vez mais em trabalho e envelhecer um ano por mês, talvez por culpa minha, que repetia sem parar o mantra de seu avô Antonio, que dizia que o trabalho enobrece. Talvez porque ele precise apenas pagar suas contas e meu avô, coitado, não tenha nada a ver com isto. Mas eu e Afonso ensinamos a ele a nunca deixar a peteca cair, e, na verdade, hoje, não sei se fizemos o certo. Estou cansada de pessoas que dizem que tenho que seguir em frente, que tenho que fazer trabalho voluntário ( eu tenho dois trabalhos, por falta de um, nenhum voluntário porque tenho que pagar as contas ) , que eu tenho que rezar, que eu tenho que ser grata ( e sou muito, pois poucas pessoas têm a rede de apoio que eu tenho, em todos os sentidos), que eu não posso esmorecer e que eu já devia ter superado. Sábado meu time jogou mal e só o que eu queria era virar para ele e dizer: “que jogo de merda!”, mas ele não estava aqui. Depois, no dia seguinte, o time dele perdeu e eu queria dizer exatamente a mesma coisa, que é o que ele diria. Mas, ele não está aqui para ouvir ou falar. E tudo meio que perde o sentido, embora eu converse com seus retratos espalhados pela casa o tempo todo. Sábado fui a um aniversário e me peguei na frente de sua foto, perguntando se eu estava bem para o gosto dele, se não tinha baton demais….. Parece coisa de gente doida, mas não é. É o hábito. E todos sabem que o hábito faz o monge. O ser racional sabe de tudo isto. Que a morte faz parte da vida, que temos que seguir em frente, que sofrer não vai trazer ele de volta. Que ele odiaria saber que estou sofrendo assim. Mas, na maior parte do tempo, não é meu lado racional pensando, é meu lado emocional, aquele que chora, que sente saudades, que não quer enxergar uma vida sem prazeres, sem ele. ‘ Eu sei que hoje tem um monte de nomes para uma vida de “dependência, influencia”, ou qualquer outra expressão legal da moda. Mas, não é isso. Ele nunca mandou em mim ( se isso existiu, foi o contrário), nunca me definiu, nunca me moldou. Apenas havia uma parceria. Difícil hoje em dia. Destas em que a gente combina nunca dormir zangado um com o outro de jeito nenhum antes de resolver o problema. E, podem apostar, eu criava mais problemas do que ele, podem ter certeza. Ele era mais velho, mas eu era a mais ciumenta. Era eu que definia tudo e ele topava ou contornava tudo a tal ponto a me fazer crer que tinha sido ideia minha. Eu tinha gênio difícil, minha sogra nunca esteve errada, mas ele sabia como lidar comigo. Ele sabia como me levar. De repente, eu perdi tudo. Um concurso. Meu filho casou, mudou-se para longe, meu marido adoeceu, meu filho voltou, mas não para tão perto quanto eu precisaria. Eu perdi amigas na Covid, eu perdi meu marido logo depois. Meu filho já não tinha a disponibilidade de quando Afonso estava doente. Minha melhor amiga engravidou, quero crer que de tanto que eu rezei para isto acontecer, mas isto teve um preço. Eu já paguei este preço trinta e oito anos e pouco lá atrás. Outras amigas sempre estão presentes de alguma forma, mas, não é a mesma coisa. Sei que algumas não sabem mais o que fazer para me trazer alegria, mas nada ajuda. Por maior que seja o amor que elas tenham por mim, sou eu quem se deita a noite sozinha e diz boa noite para alguém que não está lá; são os pés dele que os meus procuram por baixo da colcha, é mão dele que eu não encontro quando quero me acalmar. Desisti de explicar. Continuo rezando e fazendo promessa para outra amiga engravidar. Mas, já não faço promessas para entender o que foi perder o Afonso. Todos dizem que tenho que aceitar e eu obedientemente tento. Acredito piamente que minha amiga vai engravidar (no sentido mais amplo da palavra) e ter o filho que sempre sonhou, mas já não consigo acreditar que posso viver, ser feliz, ter tesão pela vida ( também no sentido mais amplo da palavra), sem o Afonso. É como brincar num parquinho quando se é criança,,você acredita, acredita, acredita, até que não acredita mais. É mais ou menos isto. E você tem que reconstruir sua vida de quarenta e tantos anos sem sua alma gêmea, sem o cara que te dizia: tá errado, ou te dizia: vai em frente. Na verdade, sem ninguém. Seu filho tá cheio de outros problemas e você não quer atrapalhar, suas amigas, todas tem uma vida para gerenciar, e você também não quer atrapalhar. Sua família viveu tanto tempo longe de você, vivenciando sua existência através de posts e emojis, que eles mal te conhecem de verdade. Na verdade é difícil viver o luto quando você só tem sua psicóloga, disposta a ajudar quando for necessário. Ela ajuda, e como, mas não pode estar nas horas que você mais precisa, a noite, quando a maioria está dormindo e você está presa ao passado. Quando vai jantar e sem querer pisa no local onde Afonso caiu morto, Eu peço desculpas. Não é racional, mas eu peço. A maioria das coisas que eu faço não são racionais, mas eu faço. O luto das pessoas não é igual. Para alguns é mais fácil, para outros bem mais difícil. Talvez algumas pessoas não sintam tanta saudade, não tenham boas lembranças do casamento. Para outras o casamento talvez tenha sido uma benção, sem ninguém saber o porquê. Eu sempre tive a sensação de ter ganho na loteria. Todas ao mesmo tempo. Tive um marido à frente do seu tempo, que me ajudou horrores na maternidade, ( quando isto não era moda),que aceitou meu trabalho fora dos padrões, que respeitou meus desejos, que me ajudou enquanto pode e embarcou nas minhas loucuras. Ajudou na criação do meu filho quando eu não podia estar presente. Achava lindo tudo o que eu pintava e dava palpites na cor das fraldinhas quando podia. Este era o Afonso. A gente sempre discordava concordando. Ou concordava discordando. Mas, eu o respeitava. E ele a mim. Se eu voltasse no tempo, não exitaria em casar com ele novamente. Porque não existe esta coisa de alma gêmea. Existe respeito. Existe diálogo. Muitas vezes muito difícil. Muitas vezes quase impossível de haver. Mas, quando há amor, há. Você faz quase tudo quando há amor. Eu sei. Eu fiz. Ele também. E eu nunca esquecerei disto. É muito difícil passar por isto sozinha. Pouca gente te entende. Ir à praia ou ao teatro não muda teu sentimento de luto, de perda. Muda o local, não muda o que você sente. Você sorri, aquele sorriso que todos esperam de você, mas que não reflete teu sentimento. Você não quer desagradar quem te acompanhou, mas não quer dizer que você está feliz. E o que me deixa puta, é que pouquíssimas pessoas entendem o que estou sentindo. A maioria pensa: que legal, ela está seguindo em frente….. Não, eu não estou seguindo em frente. Eu estou tentando sobreviver. Um dia depois do outro. Por favor, parem de dizer que ele está melhor agora, que eu não estou vendo ele sofrer, que nós vivemos o que Deus achou que era o tempo certo. Parem de dizer que foi melhor assim, que eu fiz o que podia. Isto só me atormenta mais. Me deixem chorar quando eu tenho vontade, quando sinto saudades, me deixem lamentar a ida dele, sem a culpa de : “ele sofre lá em cima quando estou sofrendo aqui embaixo” Não sei o que tem lá em cima ou lá embaixo, mas não quero carregar a culpa dele estar sofrendo porque sinto sua falta. Meu Deus, aquele em que eu creio piamente, não vai punir meu amor porque sinto falta dele. Meu Deus, aquele por quem eu rogo, não vai puni-lo porque eu não aprendi ainda a viver sem meu Afonso. Não é nisto que eu creio. Meu marido há de estar descansando em paz, mesmo que eu ainda sinta falta dele, da sua carne, do seu espírito. Nem consigo imaginar o tanto de gente que vai me recriminar por tudo o que estou escrevendo, mas afinal, escrever acho que é meu único canal de desabafo. Lê quem quer. Quem não gosta ou não concorda, mude de leitura. Preciso por para fora toda esta tristeza,, que todos dizem que faz mal a ele, preciso por para fora toda esta solidão, toda esta falta de sentido que virou minha vida. Quer saber, danem-se os que não concordam, danem-se os que acham que estou errada, nenhum deles está passando o que estou passando sozinha agora. Danem-se! O Deus em que eu creio não me julga como os homens, o Deus em que eu creio é misericordioso, e há de me entender e não há de punir meu marido porque sinto falta dele. E se tiver que punir, que puna a mim, e não e ele..Eu não vou virar uma religiosa fanática aos sessenta e quatro anos. Eu vou continuar acreditando no que sempre acreditei: num Deus justo e honesto, que acredita no amor, que nos julga por nossos atos na Terra, que crê na caridade, na compaixão, no amor ao próximo, na planta que plantamos e regamos até virar uma árvore frondosa de amor e prosperidade. Foi nisto que sempre acreditei. Não vou mudar agora, porque perdi o amor da minha vida. Nós dois plantamos uma árvore frondosa e caridosa, amamos o próximo, fizemos o bem, dentro de todas as nossas possibilidades. Eu diria até demais .Deus há de entener a falta que sinto dele e ele deve estar no melhor lugar que for possível, pois foi um pai de quatro filhos incrível, foi um marido exemplar, um provedor sem questionamentos. Foi caridoso, mais até que a maioria, foi humano, como todo todo ser que habita este planeta. E eu sinto sim, falta dele. Me julguem. Se eu tiver que pagar, eu pago. Mas, não vou pagar de mártir, dizendo para todo mundo que não sinto falta dele porque isto não deixa ele evoluir. Sinto muito amor, se eu estiver errada, mas você sempre soube em que eu acreditava. Sinceramente, espero que você esteja bem, em um lugar de muita luz e paz, rindo das coisas muito absurdas que nós fizemos juntos para a maioria das pessoas ( como aquele piquenique com vinho nas taças e formigas no nosso entorno ou a escorregada na cachoeira que te fez perder os óculos...ou mesmo encher a piscina na varanda para o Bruno poder brincar…). Espero que se lembre das coisas boas. D Mesmo as coisas boas me fazem chorar. Você me conhece, eu sou assim. Pular a janela do quarto do hotel para o Bruno encontrar o fantasma, eu fazer empadinhas para 50 pessoas quando só nós íamos comer, mordermos a cenoura para o Bruno achar que o coelhinho tinha passado por lá, a saia cinza na noite de natal, o chapéu de flores no meu aniversário……….. Quanto mais escrevo, mais eu choro, então, vou parar por aqui. No meu mundo, você vqai ler isto aqui e vai acrescentar outra dúzia de cisas…..Espero estar certa. Eu me recuso a estar viúva. Você apenas foi viajar e não fomos juntos, como outras vezes. E não vai demorar a te reencontrar novamente. Tenho fé que você vai vir me buscar em breve. Saudades imensas, sem medo de você estar sofrendo. Louca para te reencontrar! Sempre te amei, te amo, sempre te amarei…. Dé