quarta-feira, 2 de abril de 2025

Anistia?

 


Quem me conhece sabe que sou uma pessoa de bem, estudei, trabalhei, casei, eduquei filho, pago meus impostos, continuo fazendo jus ao título de honesta, de cidadã de bem.

Agora imaginem o seguinte: eu e outra dúzia de amigas, resolvemos visitar outro estado. Lá, depois de encher a cara, porque estamos muito felizes em nosso encontro, vamos ao Museu do Ipiranga em São Paulo e conseguimos, por inépcia da segurança ou esperteza nossa, esfaquear 7 vezes o famoso quadro de Pedro Américo, Independência ou Morte. De quebra, a gente consegue quebrar espelhos, escrivaninhas e sofás de valor histórico, inestimável. Tecnicamente estamos fazendo isto porque não há ninguém nos impedindo e para nós será uma aventura inesquecível, daquelas que rendem histórias aos filhos, netos, fotos no Instagram, no Facebook e uma chamada no Jornal Nacional, onde vão dizer que amigas bêbadas e felizes destruíram patrimônio público. 

Mas, tudo bem, somos mães de família, sem histórico policial, estamos empregadas, fazemos caridade e carregamos dentro de nós os conceitos bíblicos.. Quem não vai entender que apenas nos empolgamos, extrapolamos e merecemos uma chance de sermos perdoadas?


Dito isto, o que descrevi foi fato ocorrido em 8 de janeiro de 2023. Claro que não foi em São Paulo, foi no Palácio do Planalto, o quadro mencionado não era de Pedro Américo e sim As Mulatas, de Di Cavalcanti, não foram móveis do Império destruídos, mas um relógio do século 18, poltronas, sofás, escrivaninhas cujo valor histórico também é inestimável. Além, é claro, de um rastro de destruição, sujeira e ignorância sem precedentes. E nem estou mencionando uma tentativa fracassada de golpe, que não foi à frente graças a falta de apoio maciço do Exército.

Foram gastos cerca de dois milhões e duzentos mil reais para restaurar, além do quadro de Di Cavalcanti e do relógio de mesa, uma escultura de Bruno Giorgi, outra de Marta Minujin, quadros de Oswaldo de Teixeira, Frans Krajcberg, Dario Mecatti, Clóvis Graciano, além da recomposição de vidros, pisos e outros itens danificados.

Mas, você me conhece, sou uma vovó legal que se empolgou, que não tinha ideia das consequências e acho que naquele momento eu até tinha uma Bíblia dentro da minha bolsa. E me prenderam. Tão injustamente, justo eu, mãe dedicada de família. E aí eu pergunto: você me perdoa por destruir parte da história, pela baderna que armei, pelo meu entusiasmo e descontrole, mesmo que seja do dinheiro do seu imposto que está saindo o conserto dos danos?

Sabemos que o interesse na anistia não está em tirar a vovó Débora da cadeia porque foi irresponsável e inconsequente. No caso do 8 de janeiro a preocupação está em anistiar os medalhões, é evitar a prisão do ex presidente da República e seus asseclas. Os homens e mulheres de bem que roubaram de nós nossa bandeira para fazer dela parte desta palhaçada, fizeram isto a nós, que independente do partido ou preferência politica aceitamos o resultado das urnas e nos resignamos a torcer pelo país em qualquer cenário, porque temos filhos, netos,sobrinhos e afilhados por quem torcemos para que vivam em um Brasil mais justo, mais honesto, já que, claro, o futuro a eles pertence.

Há trinta e seis anos atrás eu estava na mesa de parto muito brava com as enfermeiras que, entre uma contração e outra, discutiam quem tinha matado Odete Roitman. O Bruno nasceu, para desespero da equipe, quase na hora da revelação. Ontem a novela estreou um remake discutindo preceitos éticos do povo brasileiro, seja do malandro que parece boa gente ao ricaço de uma elite muito especifica. O momento em que a novela estreia é muito oportuno. Nosso Congresso está sendo pressionado a aprovar a anistia a todos os envolvidos no episódio do golpe que não deu certo, e o povo mostrou, em passeatas de direita e de esquerda ocorridas nas últimas semanas que não está nem aí para o que vai acontecer. Com o preço do ovo e do café nas alturas, anistia não é pauta para o brasileiro neste momento. A grande maioria nem sabe sobre o que é anistiar alguém que fez algo muito errado. Com pouco dinheiro no bolso, o medo de lhe levarem o celular ( ou a vida) em um assalto, ou não conseguirem limpar o nome para lhe restaurar o crédito, é muito oportuno voltar a perguntar: vale qualquer coisa por dinheiro, status e poder?

Pelo caminhar da carruagem na Câmara e no Senado, esta pergunta tem a resposta de sempre, já vai para quinhentos e vinte e cinco anos... e contando..... 

E você, meu amigo, minha amiga, mandaria a vovó Débora para o xilindró por algum tempo? Se você é mesmo meu amigo, eu espero que sim, porque é um sinal de esperança ter um amigo ou amiga que pense assim... 


quarta-feira, 26 de março de 2025

Ressignificâncias

 


Estive há coisa de um mês e meio atrás com meus amigos Elaine, Jordano e o intrépido e sempre disposto a correr para qualquer lado Vicente, uma luz na minha vida de menos de dois anos de idade, no Convento da Penha, em Vila Velha. Ate o pé do convento pode-se ir de carro (embora muita gente suba pé), mas para chegar ao convento propriamente dito há uma enorme escadaria, de cerca de trezentos e sessenta e cinco degraus. Já prevendo isso, levei minha bengala, pois minha perna já não está me ajudando.

Subi, aproveitei para tirar fotos incríveis que são de tirar o fôlego dos turistas nos trezentos e sessenta graus de vista, assisti a missa no convento onde há muitos anos não ia e assim foi uma deliciosa manhã.

Semana passada, vindo da casa da Elaine onde comemoramos meus 6.3 anos de caminhada pela vida, ela comentou como tinha se arrependido de me convidar para aquele passeio, dadas as minhas condições físicas. Não sei se ela se convenceu, mas fui sincera em dizer que o passeio foi delicioso e que não sei quantas outras oportunidades terei para voltar lá.

Ontem, mexendo nas fotos que tiramos, para organiza-las no outro celular, olhei cada foto que eu tirei e que o Jordano tirou de nós. E fiquei pensando nas ressignificâncias que a vida nos propõe. 

Desde que vim morar em Vitorinha, há trinta e cinco anos atrás, perdi a conta das vezes que vim até o Convento com o Afonso, e, depois com o Bruno, fosse para admirar a vista, fosse para trazer um parente ou amigo para conhecer um lugar.

Quando nós mudamos para cá, tudo era novidade. Todos os parentes, meus pais, meus sogros, meus avós,  meus irmãos,  prováveis cunhados, tios, padrinhos, amigos, todos queriam nos visitar, saber que lugar meio fora do mapa era aquele para onde tínhamos nos mudado. Se hoje os capixabas ainda reclamam que quase não mencionam o Espírito Santo para nada, imaginem há mais de trinta anos atrás. Sim, Vitoria era uma capital, mas quase ninguém (meio como hoje) sabia onde era, como era. 



Eu saí de São Paulo após ser assaltada três vezes ( estes assaltos um dia vão render outra postagem), mas quando cheguei aqui em Vitoria tinha muito mato antes de se chegar até a areia e a gente deixava o carro aberto para pegar pão na padaria, entre outras pérolas. Eu entrava no mar as nove da noite sem medo de ser assaltada. Tinha uma faixa de meio metro ou menos entre o calçamento e o mar na Curva da Jurema e tenho foto para provar. Vitoria não o tinha destaque no mapa e viver em Vitoria era barato. Com o equivalente a sessenta reais você passava o dia na praia, almoçava peroá e tomava a cerveja mais gelada do universo. A gente ia na barraca do Batman, cara, quantas lembranças...

Mas, quando vinha visita, era roteiro obrigatório, Convento, peroá na Jurema ou no Batman, ver um navio no porto ao lado do carro na Beira Mar, visitar a ilha do Boi , pedir para o concierge do Hotel Senac deixar o "parente turista" tirar uma foto da praia privada e ir ao pier de Yemanjá para mais fotos. Para visitas mais íntimas, o roteiro incluía as três praias ( que dizem, foi privatizada), Setiba ou Guarapari. A depender da situação financeira, a gente ia a Meaípe comer moqueca (capixaba) com pé na areia do restaurante Meaípe ou comer só bolinho de aipim com carne seca na Tia Maria, que era o que dava para pagar. Aí entrava o famoso isopor com lanchinhos feitos em casa.

Não sei quantas fotos tenho tiradas do Convento da Penha. Com pais, avós, sogros, amigos, irmãos... Mas, estas tiradas com a Elaine, Jordano e Vicente há um mês foram especiais. 

Quando a novidade da nossa mudança passou, veio a vida. Meus parentes, os dele e amigos já conheciam tudo e só vinham matar saudades. Almoço em casa, ida ao supermercado para ajudar na despesa, levar o Bruno na escola, me ver de longe trabalhando com as crianças, montando as festas e salvando um punhado de coxinhas e brigadeiros para o final da tarde, depois da janta assistindo um filme enquanto eu fechava os saquinhos das lembrancinhas da festa do dia seguinte. O Bruno foi crescendo e já não vinha tanta gente assim visitar a gente. Viajar foi ficando mais caro e só minha mãe se atrevia a vir todo ano. E vinha para nós ver. Com o tempo foi ficando mais barato ir na praia meio quarteirão à frente e almoçar em casa. 

E assim acontece a vida, e sem imaginar, mesmo que com algum sacrifício, voltar ao Convento com Elaine e família resgatou-me lembranças que pensei serem impossíveis de resgatar. Ressignificâncias. Outro contexto, quase outra vida. Sem mais meu marido ao meu lado, longe do Bruno por força da distância, mas com um novo significado. Ao lado da amiga por quem a vida toda torci, junto do cara que ela escolheu para seguir sua jornada ( e pessoalmente acho que ela escolheu muito bem), junto do terremoto chamado Vicente com quem posso reviver todas as brincadeiras que fazia com meu filho e sobrinhos eu voltei a um lugar que achei que nunca mais visitaria.

Ressignificâncias... É o que tem para hoje! E é o que é a vida! Sou grata por ter revisitado um lugar que eu não voltaria a ver se não fosse seu convite, Elaine. Sou grata por rever esta vista linda de Vitória, vista lá de Vila Velha, de quase ver meu apartamento de lá. Sou grata pelo Vicente me permitir reviver, quase como uma avó, as doideras que vivi com meu filho. Sou grata!

Vivendo a gente aprende o significado de ressignificâncias. A gente aprende que o que passou fica em uma prateleira especial, mas que tem lugar também para o que está por vir. Que lembrar é fundamental, mas continuar construindo te mantém em pé, porque não há outra alternativa. É viver ou mau viver. Mas, viver, até segunda ordem, ou seja, até eu voltar para o Afonso, é a única opção. Ainda não encontrei o significado da minha vida pós Afonso, mas passagens como está que narrei ao lado da Elaine ajudam a me encontrar. Ter amigas como a Graci e a Klédina almoçando comigo no dia do meu aniversário também. 

Não está fácil achar este novo caminho da Débora, sem marido e com filho morando longe, mas existe uma benção chamada amigos que não nos deixam perder o rumo e vez por outra nos faz lembrar o real sentido da palavra ressignificar.

E sim, Elaine, eu subiria novamente o Convento em sua companhia. Só não me convide para escalar o Morro do Moreno. Eu te amo, mas aí já não tem joelho que aguente, hehehe!

 Obrigada amiga!



terça-feira, 18 de março de 2025

Passado E Presente

 


É engraçado, na minha idade, enxergar as coisas em perspectiva, ou melhor, sob outra perspectiva. 

Eu tenho muita dificuldade com podcasts( embora tenha feito parte de um por vários anos, em uma época em que isto não tinha virado uma febre e tudo era bem amador), tenho dificuldades em assistir vídeos no you tube, ouvir notícias em áudios de whatsapp. Comentei isto com a Elaine e a Klédina esta semana. Eu gosto de ler. A boa e velha bem escrita, com uso adequado do vernáculo. Um livro, um jornal, um editorial ou uma opinião em um veículo escrito. Eu me adaptei a tantas mudanças com os anos, justo  eu que fui do orelhão ao celular em trinta e tantos anos, que deixei de mandar cartoes de Natal, que prefiro falar a escrever no whatsapp, que fui da chave na fechadura à TAG que te abre a porta em um simples encostar do objeto no portão. Eu saí da boa e velha vitrola para o cd . Sai da máquina de escrever Olivetti para o computador, das moedas para o Pix, do táxi p o Uber ou similar. Mas, tem tres coisas que eu não consigo substituir, por mais absurdo que pareça: telefonar para um ou uma amiga no dia do aniversário, livros ou artigos escritos e ouvir música em discos e cds.

Telefonar para um aniversariante para mim não tem preço, colocar na minha entonação de voz , o meu verdadeiro prazer em desejar coisas boas para a pessoa do outro lado do aparelho é algo para o qual não encontro substituto a altura. Não me importa se a pessoa vai fazer a mesma coisa no meu aniversário, me importa eu me importar em ligar. Claro, às vezes fica impossível e mandar uma mensagem é a única alternativa. Mas, meu prazer não é o mesmo. 

Ler. Cheiro de livro novo é cheiro de céu. Faz algum tempo que não consigo comprar livros novos, ou mesmo ler um livro antigo, mas continuo ganhando alguns.. E se não são livros, são editoriais, crônicas, opiniões, prefiro ler a ouvir. Gostava de abrir o jornal e ler ele todinho. Gosto de furar bolhas e ler coisas fora do meu mundinho para ampliar minhas perspectiva de mundo. Gosto de ler sobre tudo, tipo a importância da farinha de rosca no bife a milanesa ou da chave de fenda na fórmula 1. Perdoem a brincadeira, mas a leitura mantém meu interesse pela vida vivo, ao contrário dos vídeos, onde eu não consigo "beber" cada palavra derramada no texto. O interessante é que podcasts e vídeos no Youtube dão muito mais comoções e visualizações. Ouvir é mais rápido, você pode ouvir enquanto lava louça ou dirige e também, na minha humilde opinião, o que você ouve  fica menos tempo martelando na sua cabeça. Se você lê com tempo e interesse pode digerir melhor um texto, pode amplificar seu entendimento no assunto. Mas, vivemos a era da quantidade, não da qualidade. Posso entender a lógica. A enxurrada de informações versus o tempo que temos.

Por último, usar um aplicativo de música. Começa que nem sei se o que eu gosto de ouvir eu encontraria nestes aplicativos. Sou muito eclética, mas muito exigente. Dei minha vitrola no auge dos cds e me arrependo até hoje,porque tenho discos incríveis em casa. Já, não consigo descrever o prazer de escolher um cd, uma música, sem precisar ouvir versões ou adaptações. Posso ouvir Billie Holiday, Plácido Domingo, Zeca Pagodinho, Johnny Mathis, Cartola, Os Cariocas, Chico Buarque, pegando o cd na mão, vendo a capa do cd, lendo o autor da música, o autor da letra, o ano da gravação , o ano que comprei ou ganhei e de quem  Eu sei, coisa de gente velha. Mas nunca vou descobrir se existe No Puede Ser, zarzuela espanhola na voz do Plácido no Spotify. Provavelmente não.

O fato é que envelhecer nos trás perspectivas diferentes da vida e se não acompanharmos as mudanças nos tornaremos pessoas presas a um passado que foi maravilhoso, mas que acabou. E nunca conseguiremos nos encaixar novamente no mundo. É normal achar que nossa época era mais legal, que a gente se divertia mais, que as pessoas eram mais legais. Para a gente, que viveu esta época. Se você quiser continuar pertencendo ao mundo tem que entender que a gente cresceu em um mundo misógino, homofóbico, racista e classista. E tudo bem. Foi o que nos ensinaram. Mas, o mundo hoje é outro, melhorou, as pessoas lutam para serem tratadas como iguais, porque são iguais, não porque nosso mundo era melhor, mas porque viemos de uma criação errada. Nossa época não tinha menos violência , tinha menos divulgação desta violência. As mulheres calavam quando eram agredidas ou desrespeitadas, roubavam-se os bancos, hoje roubam o celular porque é lá que o cara tem acesso ao banco. Perdi um amigo assassinado e outro para a Aids nos anos 80. Perdi outro em um racha de automóvel. Histórias q poderiam ter acontecido hoje . 

Os anos não melhoraram ou pioraram. A vida mudou. Tudo tornou-se mais público. Melhorou em vários aspectos, complicou em muitos outros. Mas é assim que a vida acontece, com mudanças, umas ótimas, outras nem tanto. Podemos nos prender ao passado, enviando pelo whatsapp vídeos com baleiros, filas para cantar o hino na escola  e banho de mangueira ou podemos apreciar as mudanças, escolhendo, enquanto nós é permitido, aceita-las ou não. 

Temos o poder de entender a história que aconteceu e a que nos foi contada. Temos o dever de saber a diferença entre o que aconteceu e o que o tiozão do WhatsApp nos quer fazer acreditar. Temos o privilégio de termos vivido uma época em que a violência era menor, mas que violência? A das ruas, nos assaltos e assassinatos ou as cometidas no Doi Codi com atrocidades e tortura por diferença de opiniões, a violência que, sempre velada era cometida contra homens e mulheres com cores de pele diferentes da minha, a violência contra o portador da Aids, a violência contra o sujeito na época chamado de travesti, a violência dos homens sobrepujando as esposas como propriedades? Será que o mundo mudou tanto assim, ou será que filtramos as lembranças que nos interessa lembrar e exaltar? 

Envelhecer, sob este ponto de vista é bom! Nos faz refletir sobre passado, presente, realidade e discurso de palanque. Ninguém aqui pode dizer que era feliz se não calçou os mocassins de quem caminhou por milhas sem fim. Simples assim....

quinta-feira, 13 de março de 2025

SOBRE AMIGOS ( MUITO) REAIS!

 


Eu saí com lágrimas nos olhos da sessão de terapia. Minha terapeuta só me fez lembrar o óbvio, mas ainda assim, para mim é tão difícil me sentir merecedora! Desde uns vinte anos atrás, mais ou menos, desde o texto do Meu Natal Em Julho, eu sei que criamos um grupo sólido e real de amigos, um dia imaginários, mas sempre muito reais.Foram muitos bifes a parmigiana ( minha mãe nunca me deixa esquecer que eram quarenta e seis bifes em assadeiras nos sofás da minha casa esperando por molho e forno), foram muitos faróis vermelhos ultrapassados para chegar antes do ônibus, foram travesseiros comprados para atender as visitas, foram cajuzinhos sem fim e brigadeiros de perder a conta, pavês de limão na madrugada, amigas chegando na noite sem eu ter nada na geladeira para oferecer, óculos consertado com durex, foram muitas as loucuras que fiz por estas meninas, ainda meninas, enquanto eu, de idade bem mais avançada, já mãe de um quase adolescente, ficava tentando convencer  meu marido que não seríamos assaltados por pessoas que eu só conhecia por computador.

Cada experiência fascinante que eu vivi com cada uma delas e deles!! Brincadeiras, fofocas, micos, risadas sem fim, comilança, choro, fotos que lotariam um pen drive hoje com uma facilidade incrível. E que houvesse assunto que nunca cabia em um encontro só! Decisões profissionais, perdas pessoais, grana, namorados, problemas pessoais, decisões, tudo passou pelos meus ouvidos, de um jeito ou de outro. Eu era a que ouvia, aconselhava, orientava, sem sequer imaginar o quanto eu dependeria de todas e todos eles para parar em pé um dia!

A vida é um moinho, dizia Cartola. E é mesmo! Sem qualquer pudor a vida me fez entender que eu, frente a tantos problemas inesperados precisasse, de um jeito ou de outro de cada uma daquelas pessoas, para conselhos, chacoalhões, ajuda financeira, carinhos, afetos, para me manter em pé!

A família está presente. O filho, a mãe, os irmãos, os cunhados e sobrinhos. Mas é aquele grupinho íntimo, que fez churrasco em dia de copa do mundo na casa do Fabiano, que comemorou aniversário da Marke no Outback, que me levou, combinado com Afonso para Coqueiral para fazer um niver surpresa ( surpresa mesmo  com direito até a chapeuzinho),que me trouxe uma banheira transparente  de sabonetes de presente que está até hoje no meu banheiro, para quem eu fazia bolo de coco molinho no meio porque ela gostava assim, para quem eu queimava a pestana para cozinhar sem leite por causa da intolerância, e quem eu chamava para trabalhar comigo, fazendo loucuras com as crianças e hoje me enche de orgulho pelo tanto que estudou e passou em tantos vestibulares, para quem eu fiz preces para engravidar, entre inúmeros outros causos que não mencionei aqui, são vocês que me fazem levantar pela manhã e seguir em frente. Sério! Sem demagogia alguma!

É quando eu me lembro daqueles memes dizendo que amigo você só reconhece quando tem dinheiro ou influência que eu sei que tenho que levantar pela manhã e seguir em frente. Não só pelo que o meu amado gostaria que eu fizesse, e por ele eu também seguiria em frente. Mas, dadas as circunstâncias, eu preciso de mais. Porque, desculpem a sinceridade, vivendo na casa onde vivemos por quase quarenta anos, onde Afonso está em cada cantinho, fazendo o trabalho que era dele como síndica, sentada na cadeira dele, usando o computador que ele usava para tomar as decisões que ele tomava, ouvindo frequentemente que: com o seu Afonso era diferente..., sinceramente, eu preciso de mais... eu preciso saber que se entrar em pânico eu tenho para quem ligar que não vai achar frescura, eu preciso saber que eu tenho para onde correr, eu vejo vida valendo a pena no sorriso do Vicente ou na graça do Ben, duas das fotos que se entrelaçam na minha cabeceira, junto com fotos do Afonso e do Bruno, porque estes dois meninos me lembram porque estou aqui.

Eu saí sim com lágrimas nos olhos da sessão, lembrando que dois dos meus últimos aniversários eu passei no hospital com o Afonso e um terceiro eu passei com minha amiga, o marido e Vicente, doido pela velinha que brilhava e não apagava. E Afonso se esforçando para parecer não estar sentindo dor, ou vontade de partir....

Este ano, as amigas que moram aqui toparam de primeira almoçarmos fora e depois tomarmos café na casa da mamãe de primeira viagem e Vicente com certeza vai apagar alguma velinha.

Tenho uma amiga, a quem tenho a honra de chamar de irmã há quarenta e cinco anos, a Solange. Somos meio alma gêmeas, mesmo que a gente fique meio ano sem se falar. Ela é um farol na escuridão.  Tenho outros amigos fora deste grupo alucinado do ESFILES a quem eu devo muito carinho e consideração, o Caio, o Javert, o Luis Antonio, o Carlos Eduardo, a Mariana, a Itamara, a Andréa, a Ana Paula, a Graça, a Paty, a Silvinha, a Cátia de Uruguaiana, não vou lembrar de todos, mas cada um do seu jeito, me ajuda a ter um motivo para sair da cama pela manhã. 

E sempre acho que não mereço amigos assim. Amizade é uma via de mão dupla e eu sempre acho que fiz pouco para receber tanto. Minha terapeuta sabe ( e ela vai ler isto) que é o que eu acho.

Todos me ajudaram, de um jeito ou de outro. Não foi apenas uma perda. Foram três anos cuidando com todas as minhas forças do homem que eu amo. Dedicando toda a atenção possível àquele que foi meu companheiro maior, nos bons e principalmente nos maus momentos. Fazendo tudo o que eu fiz e faria mais mil vezes de novo, porque ao contrário do que muitos podem pensar, ele era minha paixão e fez tudo o que podia por mim. Não é pouca coisa, nos dias de hoje, dizer que tive um ótimo casamento, com um marido maravilhoso e que me faz falta todos os dias.

Então, sim, eu me pergunto porque tenho os melhores amigos. Os de muito perto, os mais distantes, os que ajudaram me levando um Big Mac à meia noite no hospital porque eu não tinha saído para comer (nunca vou esquecer disto garota, você sabe quem você é), os que deixavam mensagens que eu não conseguia responder, os que me ajudavam com a sopa dele quando eu não dava conta, nossa, não dá para enumerar tantos agrados e ajudas.

As orações, ah, as orações! Juro que podia sentir as orações como algo palpável no quarto quando mais precisei delas. Em qualquer que fosse o credo, eu as senti. E elas mantiveram  o Afonso ao meu lado por mais três anos, disto tenho absoluta certeza.

Não sei explicar isto. Merecer tantas bençãos por ter amigos tão verdadeiros. Não se trata de sair bem na foto. Se trata de estender a mão quando me encontrei em um abismo.  E eu tive isto mais do que qualquer ser humano possa desejar. Mesmo que eu ache que minha conta está no vermelho com tanta gente eu faço minha prece e agradeço. Se não foi nesta vida, em alguma vida devo ter merecido tanto apoio. Só posso agradecer. Mil vezes agradecer. E pensar em formas de retribuir ao mundo todo o carinho que me cercou nos últimos quatro anos. Deus permita que eu consiga! 

Obrigada a cada um, em especial àquela turminha que se escondia atrás dos carros com o saleiro e um guardanapo na mão. Vocês sabem do que estou falando! E um enorme obrigada á minha família, meu filho @Bruno e a querida @Carla, que nunca me faltaram!

Amo todos vocês! Do fundo do me coração!


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Os Prós e os Contra

 Envelhecer é um processo complexo. Viver uma vida cheia de experiências com família, muitos amigos, clientes e muitos conhecidos ao longo dos anos me fez aprender a não julgar. Sim, a primeira lição após os cinquenta foi: nunca julgue! 

O tempo me fez aprender muitas coisas. Uma delas eu aprendi por volta dos vinte e nove anos, quando me mudei de São Paulo para Vitoria: família, não importa a distância, é importante e é pra sempre, não importa o quão longe você esteja. A segunda coisa que aprendi cerca de dez anos depois é que amigos são uma família que você escolhe para fazer parte de sua vida e que tudo que você oferece hoje, um dia retorna.

Também aprendi que um relacionamento a dois, no meu caso, um casamento que durou quarenta anos, não se forja com bases fracas. Amor é fundamental, mas sexo saudável e criativo e bom para os dois, abrir mão do ciúme sem sentido, fazer o outro feliz em reciprocidade, ceder em  algumas coisas em detrimento do outro e estar presente nas horas difíceis, tudo isto faz parte de um relacionamento. Aceitar os defeitos de quem você ama, permitir que seu parceiro perdoe seus erros, tudo isto é uma construção. E que construção!

Quando as adversidades surgiram, depois de tantos problemas financeiros que eu julguei serem importantes, voltei a chorar, espernear, me revoltar, mas aceitei meu diagnóstico de Parkinson até que com certas serenidade.

Então veio a pandemia, o primeiro AVC do Afonso, os tantos meses de UTI, uma espécie de não sei bem o que fazer. E vem a vida te ensinar tudo de novo, a ressignificar conceitos, o que importa de fato. E você lembra de nunca julgar, porque ser julgada é muito ruim! 

Depois de três anos de luta contra a doença do homem que você ama a quatro décadas , ele apenas passa uma tarde e noite linda com você, cheio de amor e carinho, recordações e lembranças divertidas, e ele parte, sem mais, nem porquê. Chamam de melhora da morte. Não sei dar nome ao que aconteceu. Ele se foi, e eu fiquei, em um apartamento cheio de trinta e sete anos de recordações, assumindo para mim, por força da necessidade, o trabalho de síndica, que fora dele por onze anos. Além do meu próprio trabalho, claro. 

Passaram-se sete meses e estou em trabalho pela reeleição como síndica. Participei hoje de uma palestra que dizia que devemos seguir em frente diante da perda. Eu pensei em contestar, mas nem tive vontade. É fácil falar para ir em frente quando você não vive no mesmo lugar em que seu amor perdeu a vida.Hoje eu já consigo entrar na cozinha, mas ainda me dói permanecer por muito tempo no lugar onde ele caiu morto. Também é difícil me sentar no escritório e usar o computador, o mesmo que ele usou para ser síndico por onze anos. É fácil falar em seguir em frente quando se está de fora da situação. 

Eu não tenho opção. Com tantos gastos durante a doença do meu marido, só me resta continuar como síndica enquanto o inventário não se encerra e, talvez, sair do apartamento seja uma boa alternativa.

Agora, mais que nunca, não julgo ninguém. Por muitos anos repliquei um ditado indígena que dizia: "não julgue as milhas percorridas por alguém sem calçar seus mocassins". Era uma frase que, de ano para ano, eu replicava  na primeira folha da minha agenda de papel, desde muito jovem. Na verdade, acho que só, muitos anos depois, fui entender verdadeiramente este provérbio. Diria que a velhice, além de dores em tantos lugares, a falta de brilho na pele, as inconvenientes rugas, alguns cabelos brancos e a vantagem das meias entradas de cinema, lhe trás também uma melhor compreensão do que é viver, do que são os ganhos e  as perdas. A velhice ( e, dizem hoje que os sessenta e poucos são os novos cinquenta - mentira, não caia nesta, isto é para os poucos abastados e menos desgastados) trás sabedoria. Um pouco tarde, na minha humilde opinião. Vovó dizia que a gente devia saber aos trinta o que descobre aos sessenta e cinco. Ela estava coberta de razão. 

Talvez este seja o sentido da vida. Talvez eu tenha sido lerda para entende-la. Os primeiros anos de casada foram intensos, mas os mais bem aproveitados foram os últimos.

Eu teria feito algo diferente? Muitas coisas. Teria tido menos ciúme, teria guardado mais dinheiro para o futuro, teria ido mais vezes com o Afonso pescar e teria avançado mais sinais de trânsito com as amigas (entendedores entenderão). Mas, em resumo, teria feito o mesmo, talvez com mais intensidade. 

Espero ter feito meu marido muito feliz, mesmo quando o Corinthians jogava contra o Santos.  Espero termos criado um bom filho, apesar de todos os nossos problemas e que ele tenha aprendido que acentos e vírgulas são fundamentais. Espero ter feito a diferença na vida das amigas, com cajuzinhos, caronas e bons conselhos. Espero ter deixado minha mãe orgulhosa, de alguma forma e que ela sempre se lembre de mim como alguém que acredita na democracia, na verdade e na importância da cultura. Espero muito merecer tudo que recebi e recebo todos os dias, de todos os lugares, de todas as pessoas amigas, a quem só posso agradecer. 

É difícil se perceber envelhecendo. A vida toda eu vi a vida sob a ótica de uma jovem. Eu tinha um buffet infantil. Eu amava rolar no chão com as crianças, a melhor parte do meu trabalho era ser uma delas. Eu levava pescaria com água em uma bacia só para ver todo mundo molhado. Eu adorava fazer "pacotinhos" com meus sobrinhos que sempre acabavam em sessões de cócegas e muitas gargalhadas. Eu sempre fui de sentar no chão, de brincar de mímica aos cinquenta, de rir dos micos nas reuniões dos Esfiles, de morder cenoura para filho acreditar em coelho da Páscoa, de deixar me enrolarem em papel higiênico só porque me fazia feliz e, queria acreditar, faria aos outros felizes também. Eu brincava de colar carta de personagem na testa porque era divertido! E, se o Afonso estivesse aqui, ele diria que eu amava o Natal mais que o próprio Papai Noel, principalmente quando o Bruno e os sobrinhos eram ainda pequenos e acreditavam na magia do bom velhinho.

Eu não me recuso a envelhecer! Só não quero ser como a maioria. Mesmo sabendo que a doença avança, mesmo doendo todos os ossos para pegar o Vicente no colo, mesmo discutindo reformas de cento e setenta mil reais sem nunca ter sido uma expert em economia. Eu me recuso a ser uma senhorinha comportada, como as que estavam na reunião de hoje, falando de novelas e novenas. Eu quero continuar aos berros cantando Gil quando toca Realce, Lulu quando canta.. tudo o que ele canta, eu quero cantar Paralamas,  Capital Inicial, quero cantar Zé Ketty e sua Máscara Negra e Chico, tudo do Chico. Eu quero assistir o próximo Capitão América e ler o próximo livro da Claudia Lemes. 

O Afonso vai me entender, porque ela sabe com quem se casou. Ele sabe que ainda não tenho vontade de ir em uma festa ou fazer uma farra, mas que este dia vai chegar. Porque foi comigo que ele se casou. A doidinha, que topava tudo, que queria ser feliz e fazer ele feliz. Ele vai entender. Eu sei que vai. Não agora, onde a dor ainda aperta meu coração a todos instante, mas no momento certo. 

A velhice é uma merda. E uma benção! A gente começa a enxergar tudo com mais clareza, tudo faz mais sentido e mesmo que doam os arrependimentos, você consegue entender porque seguiu por um caminho e não por outro. Só te resta, ao fim da vida se perdoar e tentar seguir ajudando aonde pode, fazendo diferença onde é possível. 

A velhice é um saco. Mas, nem sei porque estou escrevendo isto. Todos vocês só vão entender isto quando chegar a hora. É por isto que ninguém paga por conselho......



quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Luto - Meu Primeiro Texto

 



Um dia tudo acaba. Palavras da minha analista, que me diz que escrever ajuda em tudo, até no processo do luto. As lágrimas me embaçam a visão de uma mulher mais nova que eu, que no início da primeira sessão me disse ter uma filha de quatro anos. Do nada ela me pergunta: - você acha que se tivesse tido mais filhos teria sido mais fácil, teria tido mais apoio? Eu enxugo as lágrimas e nego. Um filho apenas fez e faz tudo o que lhe é possível fazer, no limite do esperado. Nunca pensei em meu filho equilibrando pratos. Tendo que viver ( sua vida e seu próprio luto ) e resolver meus próprios problemas reais e emocionais. Ela me pede para sentar-me. Nem comecei a falar ainda mas as lágrimas me nublam a visão e só posso sentir a minha mão na aliança dele, que agora carrego em uma corrente em meu peito. Ela, a terapeuta a quem não irei dar nome, por motivos óbvios, me faz perguntas que respondo quase automaticamente. Quanto tempo de casada, quanto tempo de convivência, quantos filhos, o trabalho dele, o meu trabalho... chega um momento em  que quase consigo assistir de cima, como telespectadora, fora do meu próprio corpo aquele bem intencionado inquérito, onde as respostas saem meio de forma automática. Ela me oferece a caixa de lenços de papel e pela primeira vez percebo que estou chorando , como se nunca mais fosse cessar todo aquele líquido dos meus olhos. Naquele momento  não percebo que estou respondendo a todas as perguntas. Pareço ter uma espécie de arquivo que pela terapeuta foi desbloqueado, para que eu pudesse respondê-la sem sequer ouvir de fato  o que estava sendo perguntado. 

Na minha cabeça o que lembro são memórias diluídas, você caído entre a pia e o fogão, eu tentando aplicar massagem cardíaca e fazendo respiração boca a boca, e, para meu desespero, estou consciente demais para, apesar de seus movimentos involuntários, perceber seus olhos vazios, opacos e distantes, de quem, mesmo com as tentativas minhas e dos médicos do SAMU, já não estava entre nós. Eu soube que tinha te perdido no momento que entrei na cozinha. Os quase quarenta minutos de tentativas minhas e dos paramédicos só prolongaram aquilo que eu soube quando cobri sua boca com a minha para te jogar ar. Você já havia partido. O coração ainda batia, você de alguma forma ainda respirava, mas já não estava mais lá. Você morreu e, de alguma forma ainda é muito difícil verbalizar isto.

A mulher à minha frente percebe que estou longe dali e tenta me trazer de volta à sessão. Não se pode dizer que ela não tenha tentado. Eu acho. Porque na verdade me lembro muito pouco do que conversamos nesta primeira visita. Ela, enquanto eu enxugava as lágrimas, dizia que é muito mais difícil viver a perda no mesmo local onde vivemos a vida toda. Descobriu a América, ela, tadinha. Sem desmerecer seu empenho, só eu sei o que tem sido voltar todo final de tarde para nosso apartamento, sentindo como se você ainda estivesse sentado onde sentou-se por trinta e sete anos, seu lugar no sofá, seu lugar à mesa onde fazia as refeições, seu lugar onde dormia, por onde caminhava, à mesa do computador onde você trabalhava e onde hoje preciso me sentar para fazer o trabalho que era seu. Verdade seja dita, , não fosse sua rigorosa organização eu jamais estaria ocupando sua função como síndica. Há tantas pastas caprichosamente arquivadas no nosso computador que me espanto de você ter arquivado tudo, previsto tudo, deixado para mim um trabalho quase pronto de como administrar nosso prédio. Santa organização!

Eu desperto de meus devaneios quando a mulher à minha frente repete a pergunta, agora em um tom de voz mais elevado: "- Você sabia, soube, por três anos, que ele estava doente e era mais velho que você, não sabia? Não pensava nisto?"

Eu quis pular no pescoço da moça, adornado por alguma coisa dourada que me chamava a atenção, mas não achei que ela me entenderia. Levei mais de um minuto para responder sua pergunta. Sim, é evidente que eu sabia. O que não queria dizer que eu gostasse da possibilidade. Sempre dizia a ele que iríamos juntos, que não suportaria sua perda e ele ria de mim, me lembrando em sua sensatez que na vida não fazemos o que queremos , mas o quer era para ser. Quando ela mencionou nossa diferença de quase dezesseis anos de idade, viajei ao passado, uma viagem agridoce, onde me lembrava de nossa paixão aterradora e a reação das pessoas ao nosso redor. Meu pai me disse que estaria me deserdando ( como se isso mudasse alguma coisa - era fazer as coisas da forma tradicional para dar satisfações aos seus parentes e amigos ou aceitar que iríamos juntar nossas escovas de dente. Muito rapidamente ele percebeu que não estávamos brincando. Passados alguns anos, meu pai passou a nutrir por meu marido um carinho de pai para filho). Por outro lado me doía pensar que alguns parentes dele me viam como uma espécie de golpista, que só queria arrancar dele o que ele nem tinha e que iria lhe meter chifres na primeira oportunidade. Eu me aborrecia e ele dizia para não ligar, que um dia todos os seus parentes me veriam com outros olhos. Casei-me, com dezenas de pessoas apostando se meu casamento duraria um semestre, um ano ou cinco. Entre conhece-lo e casar-me foram quarenta e um anos. Nem o bendito padre de minha paróquia quis abençoar nossas alianças. Por ser desquitado, o padre, que deve estar mordendo a língua até hoje, recusou-se em abençoar nossas alianças  e disse que nossa união e todos os meus herdeiros seriam amaldiçoados. Para agradar gregos, e troianos de ambos os lados da família, casamos em uma Igreja Anglicana, com um padre de uma destas igrejas que não perguntam nada se você pagar o suficiente, usei branco, véu, grinalda, joguei o buquê para as amigas, meu pai bancou uma festa que não podia pagar, para mostrar aos seus amigos que a primeira filha tinha se casado conforme a tradição  e, no fim, depois de tantas concessões de ambos os lados, só nos importava o quanto nos amávamos um ao outro que quase doía, de tão real este amor.

Foi então, ainda entre lágrimas, que me lembrei o quanto a morte dele me doía em meu corpo também,  uma dor física, uma dor no peito que eu só sabia explicar como a dor de quando me apaixonei e que eu nunca consegui explicar, menos ainda agora, para ninguém. Me dói, me formiga os braços ao entrar na nossa cozinha, não consigo pisar aonde ele caiu e morreu. Me sinto como se estivesse pisando em cima dele. Não consigo dormir na nossa cama, porque por quarenta anos minha mão pousava sobre sua perna, em um gesto de carinho, que depois de sua doença, virou um gesto para lhe dizer que eu estava lá, que ele não precisava se preocupar.

Hoje durmo em uma cama de solteiro encostada na parede, e à noite ainda me pego procurando a perna dele para saber se está tudo bem. Se ouço um barulho em casa pergunto se ele precisa de mim, se troco de canal na TV e o som aumenta, eu corro para abaixar, porque o som alto pode acordá-lo. É tudo como se ele estivesse ainda aqui.

A sessão está terminando e eu a ouço dizer que eu devia externar meus pensamentos em um diário " - escrever sempre ajuda!"

Cá estou eu escrevendo sobre meus sentimentos e compartilhando com quase zero pessoas. Não que me faltem amigos. Muito pelo contrário, eles são muitos e têm me mantido em pé durante mais de três anos, das mais diversas maneiras. São minha rede de apoio e proteção. Meus amigos, minha família e a filha mais velha do meu Afonso, com quem me dou muito bem, têm me dado toda a força que eu preciso e ainda mais. E meu filho! O que dizer do meu filho, que nunca me falta, mesmo quando a distância se torna um empecilho!

Mas, na verdade, ninguém quer ler sobre  dor do outro. Cada um tem sua própria dor, cada um carrega seu próprio fardo. Então, escrevo e jogo no meu bom e velho blog, para quem quiser perder cinco ou dez minutos para dar uma lida. Talvez alguém se identifique, talvez ajude alguém que está caminhando sobre esta mesma trilha.

A propósito, já foram duas sessões. Não sou burra, mesmo tendo feito psicologia, sei que santo de casa não faz milagre e que deverão ser muitas sessões até que eu não precise mais de lenços de papel. Mas, apesar de toda a dor, de todas as dificuldades, sei que a terapeuta tem razão. Tudo acaba. Até a dor física que hoje é palpável um dia irá passar e se transformar apenas em uma saudade boa das loucuras que cometemos em nome do amor. Nós tivemos uma vida incrível e apesar de alguns dias brigarmos feito cão e gato, não sabíamos viver um sem o outro. Houve cumplicidade, houve compreensão, houve apoio, houve pic nic em cima de formigueiro, houve champanhe com sanduiche de mortadela, houve sexo como ninguém jamais fez e como os jovens de hoje jamais saberão como é ( palavras dele, mas que eu endosso), houve acalanto, houve dança na sala ao som de Emílio Santiago, bossa nova e Johnny Mathis, houve cartarmos juntos Guilherme Arantes e seu sol num despertar, brincando com a brisa, pois fomos mais românticos que a lua cheia!... houve segurada de barra contando moedas para comprar leite para o Bruno, houve desemprego, um enfarte aos quarenta e um anos, houve dias em que trabalhei vinte e tantas horas seguidas e você segurou lindamente a situação, nosso casamento teve de tudo um pouco e além. 

Só não me peça para aceitar você ir embora sem mim. Não era o nosso combinado e isso foi golpe baixo. E agora me resta aceitar existir sem você ai meu lado. Isto me soa tão injusto para um casal que passou tanta coisa junto! Você até ensaiou ir sem mim antes: ter um enfarto quando Bruno tinha nove meses não teve graça, nem ficar dez dias sentada nas escadas que davam acesso à UTI.do UNICOR. Tampouco quase morrer afogado para salvar a bola do Bruno em Meaípe. Ou cair na cachoeira e perder os óculos e me matar de susto. Mas, o que eu sempre te dizia: eu fico péssima de viúva, me recuso a ser uma. Por isto, hoje sou apenas uma mulher casada, cujo marido impaciente resolver mudar-se na minha  frente. Você sempre fez troça de mim por causa destas brincadeiras. 

Vou tentar continuar escrevendo minha lições de casa para a terapeuta. Não, ela não quer ler. Acho que ninguém quer, mas eu não me importo. Vou jogar no meu blog que, de forma geral, quase ninguém lê, sim, aquele blog onde segundo você eu postava as nossas indecências em forma de .fec... fic...você nunca acertava o nome. Ah, você era tão à frente do seu tempo em algumas coisas, mas tão antiquados para outras.. mas, sempre te compreendi, Era um pouco demais para alguém criado na década de quarenta. 

Continuo chorando, um choro onde os condôminos não enxergam as lágrimas, onde os amigos acham que estou melhorando e os parentes tem certeza de que é uma questão de tempo a dor passar. Minha doença avança calada e sem fazer muito alarde, mas logo não será mais tão fácil pintar ou me locomover e se houver justiça divina neste mundo, neste dia, ao invés de me render às fraldas ou à cadeira de rodas, nós tomaremos um atalho e você virá me buscar e nos encontraremos novamente. 

Te amo incondicionalmente como da primeira vez que te vi, como da última vez que te vi!

Tua sempre e sempre,

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Um Inesquecível Poema dor Dia - 4

                                       

Fernando Pessoa, quase uma unanimidade. Nascido em Lisboa ( 1888-1935), educado na África do Sul, escreveu em inglês e português, utilizou-se de heterônimos como Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro para escrever boa parte de sua marcante obra. Faleceu aos 36 anos. Tem muitos outros poemas muito conhecidos, mas este em especial marcou-me para sempre desde que o li pela primeira vez, também em minha juventude.

 Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho. 
Cada momento mudei. 
Continuamente me estranho. 
Nunca me vi nem acabei. 
De tanto ser, só tenho alma. 
Quem tem  alma não tem calma. 
Quem vê é só o que vê, 
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo, 
Torno-me eles e não eu. 
Cada meu sonho ou desejo 
É do que nasce e não meu. 
Sou minha própria paisagem; 
Assisto à minha passagem, 
Diverso, móbil e só, 
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo 
Como páginas, meu ser. 
O que segue não prevendo, 
O que passou a esquecer. 
Noto à margem do que li 
O que julguei que senti. 
Releio e digo:  "Fui  eu ?" 
Deus sabe, porque o escreveu. 
Fernando Pessoa