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quarta-feira, 29 de abril de 2026
Recomeços.....
Eu tento, mas não sei se lembro quantos recomeços eu já tive. Dizem que piscianos são mais sensíveis,mais intuitívos, mais sonhadores.Pode ser, eu nunca estudei signos e datas de nascimentos. Mas, em verdade vos digo, a maioria dos piscianos que conheço são muito parecidos comigo. Fáceis de se enveredar por uma história. Comecei a me interessar por signos quando o Bruno já tinha alguma idade e manifestava comportamentos semelhantes a pessoas do mesmo signo. Comecei a notar semelhanças. Então comecei a observar taurinos, o signo do meu marido e as semelhanças apareceram. E depois comecei a observar piscianos. Como eu. Não sei nada científico sobre o assunto, mas na verdade existe uma enorme semelhança. Qualquer dia, se houver tempo, estudarei sobre os signos e suas influências.
O que não consigo esquecer é da minha infância. Da minha adolescência. Da vida adulta. Tive uma infância muito difícil. Fui a primeira de tres filhos, com diferenças de quatro anos entre meu irmão e oito com minha irmã. Com sete e ele tres, ainda dormíamos em sofás cama na sala. Não sei se ele se lembra, mas cada vez que eu ouvia meus pais discutindo eu batia na parede que separava a sala do quarto. Eu tinha a impressão de estar salvando minha mãe, na época não sabia bem do quê, mas em verdade, ela ao me atender e me acalmar, acabava com a possível discussão. Nem sei quantas vezes fiz isto. Virou uma espécie, hoje eu entendo, de mecanismo de defesa para defendê-la. Hoje não consigo ouvir discussóes de vizinhos e passo mal.
Não sei até onde meu irmão se lembra disto tudo. Meu pai era um homem exemplar no trabalho, trabalhou anos em várias empresas excelentes, um ótimo provedor e não tenho dúvida alguma que, do seu jeito, amava sua família. Só não conseguia demonstrar. Segundo minha mãe, ele vinha de uma família possessiva, onde sua mãe escolheu a gravata com que iria se casar e seu pai pulava a cerca toda a vez que podia. Hoje eu entendo, ele precisava mandar em alguém. E esse alguém fomos nós , a família que ele formou.
Ele teve dura concorrência. Meu avô, pai de minha mãe, era o pai que eu queria para mim. Paciente, com tempo sobrando, era ele que nos ensinava a andar de bicicleta, empinar papagaios ( naquela época a gente ia no Ceret, onde não haviam quase postes de luz), era ele quem ensinava fazer balões com cola de farinha, ele nos deixava fazer tudo, ou quase tudo. Normal, em famílias normais. Um avô é feito para divertir, não para educar.
Mas, meu pai,com todos os seus problemas psicológicos ( que hoje seriam facilmente tratados), sentia ciúme deste relacionamento. Lembro que em um dia dos pais, mamãe havia tricotado um colete para meu avô ( afinal era pai dela). Nós filhos, havíamos comprado uma gravata para meu pai, com algum sacrifício. E pela manhã, meu pai nos chamou de fajutos, hipócritas e picotou a gravata que ganhou de nós. Nunca mais consegui usar a palavra fajuto. Estou escrevendo ela pela primeira vez em anos.
Uma vez chamei a policia para ele. Quando a polícia chegou, ele sentou-me no seu colo e me disse , apertando meu braço, para dizer que eu havia exagerado.
Eu vivia roubando as balas da arma. Descobri a senha do cofre e tirava as balas e ele brigava com a familia inteira por minha causa. Guardei, até hoje, uma das balas desta arma. É uma espécie de lembrete de porque armas deviam ser proibídas.
Cheguei a escrever uma carta para o Dr. Garbougine, para que fosse entregue ao advogado da família (Dr.Tércio), alertando sobre esta arma e meu medo de viver sobre o mesmo teto que ela. Fui entregue pelo próprio advogado. Em retrospectiva, não acho hoje que meu pai fosse capaz de tirar qualquer vida. Acho que ameaçar era a forma de ele ter o controle sobre uma família que considerava o avô mais pai do que ele.Acho que quando ele bebia ele perdia as amarras e se tornava o homem que gostaria de ter sido.
Perdi a conta de quantas vezes ele bateu na minha mãe, mas ele nunca bateu com vontade em mim ou no meu irmão. Ele falava muito e fazia pouco, excessão à minha mãe, que não tinha como se defender. Acho ,hoje, em perspectiva, que ele não precisava bater em nós, ele atingia aquilo que mais amávamos, minha mãe. Falo de mim e de meu irmão, porque minha irmã só veio quase nove anos depois. e até crescer o suficiente, já pegou meu pai, diferente. Ele já tinha percebido que os filhos estavam do lado da mãe, ele viu meu irmão aos quinze anos enfrenta-lo. Ele me viu vestida de noiva dizer que preferia entrar sozinha na igreja do que impedir a entrada de meu avô em meu casamento. Eu finalmente o enfrentei. Ele teve um AVC neste dia e minha mãe, na generosidade maior de uma mãe, impediu que eu soubesse até o final de minha lua de mel de uma semana.
Minha infância e adolescência não foram fáceis. Minha infância traz lembranças nítidas de um pai bêbado deixando um copo de uma bebida qualquer cair balcão abaixo em uma varanda em Santos porque mamãe estava na praia de óculos escuros ( e podia estar olhando outros homens - contem ironia), até o momento em que, no final do segundo grau, "arranjei um estágio qualquer", que justificava eu pegar minha máquina de escrever Olivetti portátil, ganha do meu avô, colocar em uma sacola e tomar diversos ônibus até o Jardim Botânico, onde eu escrevia artigos que eu achava que seriam aceitos pela Folha da Vila Prudente. porque haviam sido escritos no orquidário da cidade. Eles aceitaram um. Tenho orgulho disto até hoje. Falava sobre a estação de metrô que iria derrubar nossa antiga casa na Emboaçava. Foi o único artigo que consegui publicar ( gratutitamtente, diga-se de passagem).
A biblioteca virou meu refúgio. Quando percebi que ele tinha orgulho de uma aluna nota dez, passei a ir à bibilioteca, da Vila Prudente e do Distrital sempre que me sentia ameaçada. Hoje me sinto uma covarde, por ter deixado meus irmãos e minha mãe à mercê das suas bebedeiras. Mas, tive meus lucros. Com quinze anos ja tinha lido Madame Bovary, Guerra e Paz, todos os livros de Jorge Amado, tudo de Machado e muito, muito mais. Li em quatro anos o que quase se leva uma vida para ler. Metamorfose de Kafka,O Principe de Maquiavel, Aluísio Azevedo, e tantos outros. Quando li Angélica ( de Mdme Duprat) para falar a verdade, sequer entendi seu significado. Apenas depois de alguns anos, fui entender o que era uma prostituta. Quando li Zero, de Loyola Brandão fui tentar entender o que eram as ditaduras. Eu meio que aprendi na marra, sem querer. Para fugir das bebedeiras do eu pai eu lia. Lia o que era bom, o que recomendavam, o que era ruim também. Nem sempre tinha discernimento, naquela época, para saber o que era bom ou era ruim.
Lembro da Dona Shirley. Era bibliotecária da Vila Prudente. Deve ter morrido há muitos anos. Mas era ótima para indicar livros. Agradeço a ela postumamente a me indicar Machado e Kafka.Jorge Amado e Emilé Zolá, entre muitos outros. Li entre os quatorze e os dezessete anos mais que qualquer auto didata. Ela era um farol, me indicando livros. Que Deus a tenha em um excelente lugar. Curiosamente, quase não me lembro da feições dela. Me lembro da voz. Poderosa, indicativa: - "você vai adorar isto!" Cada um deve influenciar de uma forma, imagino.Me lembro dela me indicando a Divina Comédia, de Dante. Ela me disse, talvez você não entenda agora, mas vai entender em algum momento.
Ler e me esconder um uma biblioteca foi meu refúgio covarde. Larguei mão da minha mãe, dos meus irmãos, e me escondi.Confesso, tinha dificuldades em encara-lo. O Estudo era minha desculpa e minha forma de me esconder. Eu sabia, que ser uma aluna nota dez era seu calcanhar de Aquiles. E abusava dele. Uma forma covarde de viver um tempo mais longe da bebedeira, das ameaças, das injúrias.
Quando ele ficou doente para valer, quando o médico proibiu a bebida, quando ele tomou um pouco de juízo ( só um pouco ), eu o perdoei. E fui escurraçada por isto. Sei que minha mae não me perdoa por isto, minha irmã também também não. Mas, gosto de pensar naquele ditado que quando a gente quer for se vingar é melhor cavar duas covas. Tive dó ele. Do que ele perdeu. Do que ele poderia ter sido. Esta sou eu. Pago por isto até hoje.
Sei que boa parte das coisas que carrego vem dos traumas do meu pai. A morte da mãe dele,o medo de dececioná-lo, o medo de morrer pelas mãos dele, são apenas algumas das coisas que vivi. Mas, também sei que boa parte do que divide esta família, entre eu e minha irmá é o fato dela não ter vivido o que eu e o meu irmão vivemos. Não sei bem como o meu irmão lidou com isto, é como um assunto proibido emm casa, mas eu tenho certeza que em mim deixou muitas marcas.Hoje, fazendo terapia, percebo que cada coisa que a gente vive deixa uma marca na gente, de alguma forma. Eu vivi muitas. Meu irmão adora meu pai, e talvez tenha deixado de lado seus defeitos Eu tento, mas não consigo. Eu sou a soma de todas as experiencias boas e ruins desta época.
Quero crer que , de alguma forma isto me moldou. Por exemplo, o controle que quero exercer sobre as coisas. A dificuldade que eu tenho para conversar sobre o meu pai com meus irmãos depois que eu casei. O fato de eu ter me mudado para outro estado enquanto eles ainda lidavam com ele. Acho que tem tanta ferida por baixo dos panos, tem tanto rescentimento, tanta dor, porque eu o perdoei. E eles não. Eu não comsegui reagir, quando ele já estava com parkinson delirando, eu não consegui me mover na casa da minha mãe, quando ele caiu da cama, ninguém o tirou de lá até o amanhecer. Nunca vou conseguir me perdoar por isto. Tem tantan história na minha hitória......
No fundo , eu só queria acabar como o o Chuck, do filme. Queria desligr e acabar.Como um fio que você tira da tomada e não pode religar. É o que mais desejo. Apesar das saudades, não quero rever meu pai, meu marido, nem niguém. Só queria um fio que se rompe e acaba com a dor que a gente sente. Porque com tanta história, dói demais viver.....Tem muita hiswtória para consertar. E não sei se estou disposta a isto. Queria aquele frio, do filme do Chuck, que só desliga a gente para sempre.... É Egoísmo? Pode ser, mas não tenho hoje forças para começar tudo de novo.....
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