sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Coração de Criança, Corpo de Mulher

Para você, Larissa, minha filhota adotada, a quem eu amo como filha!


Coração de criança,
Corpo de mulher.....
A mente cheia de medos, anseios, desejos,
O corpo cheio de querer, de fogo que não se apaga, bobagem...

A mente em dúvida, ardendo na ansiedade,
O corpo em dúvida, ardendo em desejo.
Ambos ardendo em vontade
De um novo dia,
De uma outra vida
De outra mão pousada em si,
De outro toque na pele clara,
De algum arrepio vindo do nada.....

Corpo de mulher, mente de menina,
Que brinca de ser feliz
E é, sempre que se lembra
Que já não brinca, vive....
Escolhe em dedos
Que príncipe levará sua virtude,
Sem permitir que sua virtude se toque.

No desenho pintado sob sua pele
Em suas costas,
Espalha-se a vontade, a cobiça....
Que preguiçosa arrasta-se no longilíneo corpo
E liberta-se, no toque dele
Que não era ele que tocava....

A mente sabe e mente, quando é  preciso
Para aquela mão ser de outro ser...
Ser daquele que a cobiça esconde
No desejo implícito do saber...

Acha-se feliz enquanto espanta-se,
Tenta encontrar a fonte de tanto prazer
Outros  nomes, outras mãos, outros toques
Serena, conforma-se e encontra-se
Com seus sonhos, as mãos do sonho,
Outras mãos, as mãos dos toques,
As mãos que negam viver.

Mãos que sabem das mentiras,
Dos devaneios, dos medos
Das aventuras, quem dera tantos nomes,
Daquilo que se sente, arremedos
De felicidade à qualquer toque
Ao ouvir seu nome à voz fraca,
Cheio de pouca coragem, de fome,
De viver, e ser quem se espera que seja....

A pele clara, os pelos curtos
O arrepio do primeiro contato.
A ânsia de viver tudo num segundo e tanto,
E logo terminar num mar e pranto
Nada do que esperava fora e fato,
Nada do que ansiava, alimentara a mão e a boca.

Tolo anseio ingênuo do todo
Que o amor encerra e guarda e alimenta e gera,
E ignora a data, e ao longe almeja,
Que se insinue de novo e à luz esgueira
Dando voltas e arrastando-se por sobre a pele
Esfregando-se ao desejo quente do corpo fraco
Alimente-se e volte ao pesadelo deste.

Cala-se ao rastejar banhado em suor
Lembra-se ser eminente.
Arde ao repetir o caminho da dor,
Que sozinho queima, se faz quente...
Lembra do arrepio, lembra da solidão
Que encerra o prazer da mão inexistente........
Tão feliz, não depende
Não implora, não sustenta...
Não explica o porquê da mão ausente,
Não reage ao versar da solidão presente
Seu corpo explode em paz e o corpo aguenta....
Porque  é feliz e nem sabe e sente.

Criança crescida neste corpo de mulher,
Alimenta-se da fome de outro corpo
Acinzenta-se a ferida d’alma escura,
E perdoa-se ao encontrar um outro porto.
Para atracar e buscar verdade nua
Para tentar uma nova cura....
Para ser feliz, de vez, mulher .......


Garota Exemplar – Review



Enquanto subiam os créditos na tela do cinema eu só conseguia pensar em uma coisa: que era um filme dos mais assustadores que vi nos últimos tempos. Não, não havia assistido a um filme com monstros, fantasmas, almas  de outro mundo. Havia assistido a um filme que, embora ficcional, estava encharcado de realidade até a raiz.
 
Desde a primeira cena, com um pensamento em off de um dos personagens principais até o seu encerramento, tudo o que consegui pensar naquele instante foi que David Fincher dirigiu uma obra assustadoramente cruel. E o fez com perfeição.


Não dá para falar do filme sem entregar demais o resultado final, mas irei comentar comedidamente, alertando para possíveis e inevitáveis spoilers. Se o leitor ainda não viu o filme, aconselho a parar por aqui, pois assim as reviravoltas ficarão mais interessantes.


Ben Affleck interpreta um marido que no dia do aniversário de quinto ano de seu casamento percebe que sua esposa sumiu de casa. A estória, no entanto, vai sendo contada ao espectador sob dois pontos de vista completamente diferentes, o do marido, através de diálogos, depoimentos e lembranças e o de sua esposa desaparecida, inicialmente através de um diário e a seguir, através desta, adquirindo voz própria.


Nick Dunne é um escritor fracassado que é casado com Amy Elliot Dunne, garota rica, linda e um tanto romântica, cujo nome e uma vida fictícia fora usada pelos próprios pais para criar livros infantis de sucesso, que exploram sua imagem, livros estes que proporcionam a eles uma vida financeira bastante confortável. A imagem vendida pela obra ( Garota Exemplar), a leitura em off de seu diário, mais a expressão  angelical de Rosamund Pike nos faz crer na quase perfeição de Amy, a personagem.


Nick, um dia chega em sua casa e percebe que algo está errado. Sua esposa sumiu e sua casa está revirada. Ele chama a polícia, mas de cara percebemos que ele não está levando o desaparecimento da esposa muito a sério. Nick quase soa ridículo por ignorar inicialmente a importância do fato. Enquanto questionado pela detetive  Rhonda ( a eficiente Kim  Dickens), faz comentários jocosos que, adiante entenderemos como um quase alívio diante da situação. Compara o desaparecimento da esposa como um episódio de Lei e Ordem e se faz soar cômico diante da situação.  Mesmo quando tem que comunicar seus sogros, ainda assim acha que tudo não passa de um mal entendido. Quando a detetive encontra em sua gaveta “uma primeira pista”, esclarece que é um jogo entre marido e mulher, uma espécie de caça ao tesouro que praticam em suas bodas e ainda assim, não chega a preocupar-se.


Nick age com a tranquilidade de quem é inocente e não percebe o quanto tal comportamento irá prejudicá-lo. Ele tem uma irmã gêmea, Margot ( Carrie Conn) que lhe dá guarida e apoio. Mas, como eu disse, não se trata de um romance adocicado e, aos poucos, vamos descobrindo através do ponto de vista, ora do marido, ora da esposa, que o casamento não é aquele mar de rosas que dá o ar das graças logo no início da exibição.


  
Falar mais significa entregar uma estória cheia de reviravoltas e surpresas e este não é meu objetivo. No entanto, sem estragar  surpresa alguma, dá para falar sobre o circo da mídia. Ah, a mídia! Ando tão cheia do jornalismo sensacionalista que, ao assistir as cenas todas, senti-me nauseada.


Independente do resultado, o filme explora brilhantemente o circo de que se alimenta a mídia sedenta de manchetes escandalosas que alavanquem os números da audiência. A cena mais absurda acontece entre Nick e a âncora (excelente atuação de Nancy Grace) de um programa de “notícias”, quando ele questiona seu posicionamento. Este é o tipo de mídia que noticia, julga e condena em prol dos números e tal comportamento me remeteu de imediato ao caso da Escola Base, ocorrido em 1994 em São Paulo, onde seis pessoas, donos de uma escola infantil, foram erroneamente acusadas de pedofilia e tiveram suas vidas devastadas pelo acontecido. Embora provada a inocência, os donos da escola faliram e nunca mais conseguiram se reestabelecer. Os que não morreram, vivem até hoje como párias da sociedade. Nick vive seu pesadelo particular quando começa a se ver representado nestes programas, acusado por algo que, apenas ao final da trama, saberemos se o é.


Por outro lado, em certo ponto passamos a “ouvir” o ponto de vista de Amy, através da leitura de seu diário, em flashbacks, o que nos garante o privilégio da dúvida, até certo ponto da obra. Amy nos conta sobre o primeiro encontro, sobre o encantamento, sobre a magia de estar casada e ser feliz, sobre como manter seu casamento interessante fazendo uso da sensualidade e do sexo e enfim, sobre um casamento que cai na rotina e, em certo ponto, passa a ser tão tedioso e previsível que poderia provocar em seu parceiro/amante, o ódio necessário para que ele, por fim, a assassinasse. Em algum momento da trama, deixa de ser importante se há ou não um crime, pois o que passa a contar é a opinião popular, expressa através do aval de sua representante  pública, a apresentadora do programa ( uma espécie de Datena de saias).


Com tomadas um tanto quanto claustrofóbicas ( com enquadramentos  muito próximos, sempre da cintura para cima) e iluminação sóbria quando enquadrando Nick, de forma a mostrar o quanto ele sente-se acuado, bem como com cenas abertas e muito bem iluminadas registrando a atividade jornalística, Gone Girl apresenta-se sem medo de parecer caricata, sem recear ser maniqueísta. Em algum momento, todo ou qualquer personagem parecerá ou será dúbio, terá nosso crédito ou nossa dúvida provável, deixará a zona de conforto para representar aquilo que ocorre no dia a dia: a imaculada opinião do telespectador. Chega a ser assustador, o quanto um depoimento mal interpretado pode influenciar uma decisão. Mas é assim que funciona a imprensa. Ela pode endeusar tanto quanto pode levar à forca qualquer cidadão de bem. E assim o faz.


Os demais méritos não podem ser descritos sem entregar o final do filme. Deixo para cada espectador a análise da obra, a opção do diretor, a decisão de optar por um final cheio de esperança. Ou não. Você, aí, que assistiu ao filme, como anda seu estado de espírito?


Não deixe de assistir Gone Girl. Certamente, um dos filmes que terão mais indicações e, quiçá, as mais merecidas de 2014. A propósito, faço aqui um mea culpa: Ben Affleck mais que dá conta do recado, passa de impostor a um  ser com credibilidade, e, ao contrário do que sempre disse de suas interpretações, surpreende,  junto de Rosamund Pike, num piscar de olhos.


Não deixe de assistir. À parte de ter um ótimo roteiro, ótimas interpretações, inclusive do elenco de suporte ( a detetive de Kim Dickens e o namorado apaixonado da época da escola de Neil Patrick Harris em especial), Garota Exemplar é um ótimo exercício de bom senso e equilíbrio, deixando para trás todas as opiniões  pré-concebidas, fazendo-nos pensar fora da caixa, fazendo-nos aceitar outros roteiros e opções.

Afinal, você pode opinar sem ser tendencioso?

Divirtam-se bastante!!!!!!!!!

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

How To Get Away With Murder – 1×01: Pilot - Review

 

“… Vaidade é definitivamente meu pecado favorito!” 



John Milton ( personagem de Al Pacino em “ O Advogado Do Diabo”) Esta frase retirada do filme de 1997, com direção de Taylor Hackford, com atuação brilhante de Al Pacino, Keanu Reeves e Charlize Theron diz muita coisa sobre o mundo dos advogados que a nova série de Shonda Rhimes pretende explorar. Advogados são profissionais tradicionalmente controversos, que vivem em um mundo obscuro onde o bem e o mal ganham contornos comprovadamente discutíveis. À mercê das leis, são conhecidos como personagens que contorcem argumentos até que eles se encaixem adequadamente ao interesse de quem por eles são defendidos.

O piloto da série abre mão logo de início de um artifício batido, mas comprovadamente eficaz, os flashforwards, ou, de maneira mais simples, de trechos da série passados em seu futuro, quem permitem que possamos saber algo do que nos espera adiante. É esperto jogar uma isca daquilo que será o mote da série, mesmo antes de nos apresentar aos personagens principais, pois já ganhamos de cara um enigma para resolver, mesmo que nada saibamos ainda sobre o show.

A princípio a série nos oferece um contraponto, o inquestionável conhecimento da advogada que também leciona para alunos primeiro anistas Annalise Keating versus o inocente desconhecimento do aluno meio perdido Wesley Gibbins. Aquilo que parece um cabo de guerra desonesto a favor da professora, vira habilmente a favor do aluno a partir do momento que nós descobrimos através de seu olhar que a mestra não é tão honesta / imaculada assim. É muito interessante o ponto de vista de Wes a confrontar uma espécie de anti herói de saias, um personagem que, como meros mortais,  tem um lado negro a acompanhar seu lado heróico.

Do ponto de vista didático, a professora apresenta um caso para que os alunos encontrem uma resposta mais eficaz do que o que ela propõe. Ela lança mão de uma espécie de competição cujo prêmio maior seria trabalhar ao seu lado durante a duração do curso, uma espécie de estágio.

Destacam-se por competência ou esperteza os alunos que às vistas de cenas futuras descobrimos enroscados às voltas de ocultar um corpo, o do professor de psicologia, que não por acaso, vem a ser o marido de Annalise. Nós o conhecemos ainda vivo durante um coquetel de apresentação de alunos, ao mesmo tempo em que descobrimos que nossa heroína às avessas trai seu marido com um investigador ligado ao caso que ela está defendendo no tribunal. Desta forma Shonda Rhimes, conhecida por suas tramas cheias de dramas, e intrigas ( vide seus sucessos com Greys Anatomy, Private Practice e Scandal) já deixa que irá trabalhar no limite da honestidade, explorando aquilo que vivemos no dia a dia, pessoas comuns que diante de dilemas pessoais tomam decisões nem sempre acertadas, dentro da lei, mas questionavelmente éticas.

A presença marcante de Viola Davis contrasta com a pouca experiência de seus atores/atrizes de apoio e isto acaba por ser positivo, refletindo-se no contexto do show. A controversa esperteza de Michaela Pratt ou de Lauren Castillo, bem como as sacadas de Asher Millstone são, tanto no território da interpretação, como na ficção, fichinha para a professora tarimbada e cheia de jogo de cintura, que deixa em aberto para o público que decidirá se ela deverá ser uma heroína para quem devemos torcer ou uma impostora a quem desprezaremos por toda a série.

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Do ponto de vista técnico, a série também acerta em cheio. Cheio de tomadas curtas e impactantes, a direção opta por uma fotografia que privilegia as tomadas futuras, de forma dinâmica e informativa, sem deixar dúvidas e no entanto sem mostrar demais. Os flashforwards um tanto quanto claustrofóbicos são necessários para causar impacto sem mostrar mais do que a estória no momento permite.
O piloto promete dois grandes triunfos: a estória, que deve se desenrolar aos poucos, demorando a explicar porque os escolhidos pela professora assassinaram seu marido e a interpretação pontual de Viola Davis, que dispensa apresentações. A atriz, que nos últimos anos vem obtendo diversas indicações a prêmios de destaque pelos mais variados papéis, cria aqui uma personagem forte, de discurso convincente, com arestas a serem aparadas, onde desta forma parece-se mais humana do que o esperado, e fazendo-nos acreditar que as pessoas podem ter boas intenções, mas isto não significa estar certa o tempo todo. Criando um personagem controverso, Shonda Rhimes extrai de Viola o seu máximo em termos de interpretação, uma espécie de vilã que aparentemente adoraremos odiar por várias temporadas. Ponto a favor da pós-edição, dinâmica e cheia de pequenos brindes ( como a inquisição do detetive ao mesmo tempo que exploramos sua relação com Annalise e a descoberta de que o o homem morto pelos alunos é Sam, o professor de psicologia, marido de nossa advogada mor). Nem precisa ser tão curioso assim para querer despertar nossa curiosidade para os próximos episódios.

Não foi um piloto sensacional, daqueles em que a gente perde o sono, mas foi competente o suficiente para querermos revisitar a série em seus próximos episódios para sabermos o que vem pela frente. Espero apenas que o roteiro seja inteligente o suficiente para não tornar uma obrigação apenas os excelentes desempenhos de Viola. A série tem gás para viver para além da interpretação da atriz principal. E,espero que a direção de fotografia  permaneça fiel à proposta inicial

Não se sabe ainda se esta será uma série procedural com arco de dois a três episódios ou uma estória com começo, meio e fim a cada temporada. De qualquer modo, acho que a elucidação do primeiro caso será fundamental para dar uma “cara”  ao show. Resta saber se será o que o público, neste momento, quer assistir.

Aguardando  ansiosa pelo próximo episódio. E vocês, o que acharam deste primeiro episódio?
Deixem seus comentários, gostaria de saber o que acharam….

Até a próxima pessoal!

terça-feira, 23 de setembro de 2014

SE.............



Meu tempo for curto,
Minha vontade for pouca...
Se meu desejo incerto,
Meu caminho inseguro...

Se meu pedido for injusto,
Se minha sina for esta...
Se minha vontade for insuficiente,
Se minha súplica for pouca....

Se meu momento passou,
Se meu destino for este,
Se nada me resta além disto,
Se tão pouco me basta....

Se era para ser e não foi,
Porque nunca foste o que eras...
Se minha palavra não supre,
Se meu perdão nunca chega....
Se era pecado e perdoei...
Mesmo sem poder, absolvi...
Se tinha poder e ignorei,
Se podia ver e quase ceguei....

Se a verdade me congelava,
Me dava poder e me censurava....
Entediava, mas negava....
Adormecia e tolerava......

Se pudesse mudar, eu mudava.....
Se pudesse gritar, eu gritava....
Se pudesse viver, eu vivia....
Se pudesse lutar, lutaria....
Como quem luta lutas antigas,
Como quem briga há tempos...
Como quem busca justiça,
Nas mãos feridas e mortas...
Como quem acredita e confia.....


Como quem espera e não acha...
A razão que não tem razão....
O pedido não cede...
O desejo abdica......

Espera, óh! bendita crença,
Na palavra de quem crê....
Nas nuvens, nos pingos d’água, nas notas...
Nos incertos medos, nas lembranças....
Nas verdades implícitas, nas toadas surdas, aprazidas....
Nos medos absurdos, nos contrassensos,

Ah! Verdade escondida,
Quase desfalecida,
Perdida em ilusões.....
Mente quem nunca sente,
Que dói o que te mente,
Na palavra....
Inconsequente.....
Volta para mim, palavra inerte,
Ainda que solitária e insensível,
Acomoda minha paz no teu sossego,
Minha luz na tua calma,
Meu alívio no teu ser,
Imprudente.....

Desejo aquietar minha alma,
Uma sombra em teu anseio...
Minha mão alcança a tua
E abraça um perdão
Verdadeiro em meio....

Nada resta senão tua voz
A amenizar minha tortura,
A sonhar com o impossível,
A perdoar minha lisura,

Fracasso em meio ao pesadelo,
Lições a ver meio a candura
A perdoar quem nada teme,
A condenar quem nada jura...

E esconder medos a fim,
E estender medos em cura...
Saber que nada vive sim....
Se nada teme a sala escura.....

Senão jurar em si teus pesadelos,
Tua verdade encanta pela palavra.
Palavra em si que não comporta,
A verdade que em tese acomoda.

Ventos que carregam a verdade,
Verdade incômoda, mas lícita....
Desejo de viver quase covarde.....
Palavra lícita, quase fantasma,
Estigma, no entanto digno
De defender crença benigna......

Perdoa simples paixão,
Que nada encerra e
tudo encerra em teu desejo...
Nada ensina na nuvem escura,
Nada espera da nuvem clara....
Pede a Deus, mesmo que não haja Deus....
Pede que se faça rara,
Mesmo que se deite
E curve, mesmo que se implore,

Mesmo que se faça útil,
Mesmo que seja necessário,
Mesmo que chova anseios,
E ainda que seja difícil acreditar...

Faça brilhar mais que meu desejo,
Faça ser mais que minha voz,
Perdida num mosaico de motivos...

Faça ser muito mesmo que pareça pouco,
Faça ser aquilo que parece ser...
Faça ser o certo que parece o errado,
Uni o que está separado....

Tantas famílias em uma só.......
.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Legenda Ou Dublagem: Todos Queremos Ir Ao Cinema


Eu faço parte de um contingente de cinéfilos que aprendeu a amar o cinema na sua forma tradicional e mais pura, fazendo uso de legendas para assistir a filmes que não foram feitos em minha língua pátria. Desde muitos anos aprendi a assistir Paul Newman, Audrey Hepburn, Liz Taylor, Robert Redford e tantos outros falando em sua língua de origem, quando eu os assistia nas mágicas salas dos cineclubes de São Paulo, em uma época em que o lanterninha se encarregava em  manter a ordem e o silêncio no ambiente.

Eu sei, são anos demais, as coisas mudaram muito ( e não foram para melhor), mas alguns hábitos permanecem. Passado tanto tempo e tendo vindo de experiência tão gratificante, nego-me a ouvir George Clooney na imensa tela na sala escura soando a MacGyver ou  Nicole Kidman lembrando-me a voz da NannyMcPhee.Sei muito bem que os dubladores profissionais fazem o melhor trabalho possível, mas nada mais contundente para retirar você da imersão de uma cena do que a voz de um personagem te remeter a outro nada a ver com o filme que você está assistindo.

Na intenção de juntar pessoas que compartilham com meu desejo de terem a opção de assistirem filmes na versão legendada, de preferência em horários que não nos façam sair do cinema já no dia seguinte ( por que donos de salas de cinema acham que por gostarmos de legendas nos filmes somos todos notívagos ou desocupados?), disponibilizo este espaço para que as pessoas se sintam à vontade para relatarem suas experiências e deixarem aqui suas reclamações.

Por ser uma criatura teimosa que ainda acredita que reclamar vale a pena, ponho-me aqui à disposição para relatar aos donos destas mesmas salas o quanto há de pessoas descontentes com a situação ( a cada 25 ou 30 emails referentes à mesma sala e mesmo filme me comprometo a enviar email ao gerente da sala relatando os descontentamentos e encaminhando as reclamações). Não sou ingênua a ponto de acreditar que por mandar a eles meia dúzia de emails poderemos reverter a situação, mas acho que fazer barulho ainda é algo que funciona. Pensei que talvez, se tiver 30 pessoas reclamando da mesma sala, com o mesmo filme, já é um número legal para começar a incomodar.

Para isso conto com vocês, que preferem assistir filmes legendados em horários que não os transformem em abóboras. Relatem aqui os filmes que foram privados de legendas ou exibidos legendados após às 22 horas. Se houver um número grande o suficiente montarei um blog para administrar estas reclamações e postar estatísticas. Enquanto não souber se haverá adesão, manterei este tópico do meu humilde blog sempre dando "UP", para que os interessados possam postar com facilidade.

Pode não dar em nada ou pode nos surpreender e chamar a atenção o suficiente para ajudar a alguns, aqui e ali a assistirem seus filmes da forma que mais preferem: apreciando a interpretação de cada ator ou atriz também através da vocalização.

Por enquanto só registrarei reclamações do Espírito Santo ( resido em Vitória), Rio de Janeiro e São Paulo. Se sentir que há interesse para outros estados, poderemos considerar. Pessoas interessadas em divulgar ou ajudar a manter o tópico serão bem vindas.

Conto com vocês!

Grande abraço!

Débora Gutierrez R.Clemente


A Geração EU


Ou selfie, se você preferir usar a língua inglesa. O nome não importa tanto quanto a importância que tem o estrago que ela irá causar na humanidade daqui para frente.

Quando foi que perdemos a noção de coletividade? Quando foi que resolvemos deixar em casa o coração para cruzar com crianças com fome e não nos comovermos ou vermos uma velhinha atravessar a rua com dificuldade e não ajudarmos? Quando foi que nos esquecemos de segurar a porta para o próximo ocupante do elevador ao sair dele ou de dizer bom dia ao porteiro porque estamos concentrados demais em dizer bom dia ao mundo pela rede social?

Aliás, este é um modo interessante de ver as coisas. Já escrevi em outra postagem minha no blog sobre o Mundo Encantado do Facebook (Ver aqui), onde todos são politicamente, ecologicamente e socialmente corretos, lindos, felizes e realizados. Salvam-se cãezinhos, bichinhos à beira da extinção,  amamos todos os que se foram, todos os que estão vivos, todos os que estão por nascer. O amor e a decência permeiam a timeline do Facebook feito abelha atrás de mel. Uma maravilha. Isso, claro, quando nos referimos a nós, seres intelectualmente completos, porque afinal estamos falando do EU. 

Mas parece que toda esta afetividade só existe para a primeira pessoa do singular, ou no máximo, quando se comenta alguma coisa postada por alguém íntimo, quando se enaltece a “fofura” alheia de alguém que sabem, também vai “encher nosso caminhão de areia”. Porque quando vão responder a uma postagem generalizada, quando vão deixar sua colaboração, opinativa ou não sobre algum fato, artigo publicado, quando o pronome pessoal vai de “EU” para “ELE, ELA ou ELES” a coisa muda de figura. Quase tão radicalmente quanto é absurda tanta felicidade plástica. 

Interessante acompanhar comentários  nos artigos. Observe. Vá lá. Faça seu exercício. Teste sua paciência... Pode ser qualquer assunto. Pare em um artigo sobre futebol. Ou sobre religião. Pode ser economia, política, celebridades, talvez algo sobre escolas, o ebola, crianças para adoção. Vamos, me ajude a escolher um tema. Cinema? Séries de tv. Música, compositores, jardins, a Bienal do Livro, o novo carro da Ford, você escolhe. Tanto faz. A geração Eu está pronta a ignorar ou detonar. Perceba. Ou você encontra uma série de “likes”, “curtidas”  e “coraçõezinhos”, acompanhados ou não de “OMG!”, “Adoro!”, “Né?”, “Concordo”, “Lindoooo”  e outras expressões tão monossilábicas quanto inférteis à uma saudável discussão ou a detonação é livre e irrestrita e, em geral, sem qualquer reflexão. Querem que a moça se dane porque certamente é puta, o artista lindo tá na cara que é gay, o ebola devia vir para o Brasil e matar todos os políticos, todos os torcedores de tal time são racistas, todos os compositores de bossa nova são comunistas, disseminam  o ódio a judeus, islâmicos, negros, brancos, amarelos, loiras, gordos, baixinhos, funkeiros, pobres, ricos, conservadores, liberais, corinthianos , palmeirenses, santistas e são-paulinos, ou seja, sobra para todo mundo.  À geração EU resta mesmo é achincalhar. Funciona assim, se não diz respeito a mim, não me interessa ou não é bom suficiente para que eu pare dois minutos antes de descarregar toda a raiva do mundo para avaliar se isto é mesmo necessário.

A geração Selfie ( vamos afinal acompanhá-los e sermos chiques, “Divas” talvez....) não tem tempo para nada. Está sempre atrapalhada, correndo e cansada, provavelmente de tanto ter visto os pais se matarem de trabalhar para que hoje eles fizessem parte de tal geração fundamental à existência da humanidade.  Eles estão sempre exaustos e nunca é justo não terem tempo ou disposição, pois afinal há tantos vídeos de zoação com cãezinhos e manés caindo de um barranco que eles nunca vão podem curtir. Também é uma crueldade da natureza não ter internet à disposição no trabalho porque ele vai ser o último a saber, ao final da noite, quem afinal foi o finalista do BBB ou o assassino da novela das oito ( aliás das nove, que por sinal, passa às dez horas). 

Tenho mesmo é que me apiedar de uma geração que vive achando seu chefe um “mala” porque cobra serviço pronto o tempo todo, seu professor um troglodita porque exige silêncio e respeito (??) em sala de aula, seu vizinho um chato porque vive reclamando que você ouve música alto demais, atrapalhando a todos da rua e por fim, seu pais, que não acham normal, você, com quatorze anos querer trazer seu namorado ( a) para dormir na sua casa, ou melhor dizendo, na sua cama. Aliás, preciso dizer, acho incrível e as lágrimas me escorrem pelos olhos quando leio uma jovem de treze anos dizendo que não vai mais correr atrás do bofe da vez.....

A geração Selfie gosta de textos curtos ( motivo pelo qual seus verdadeiros membros já deixaram este texto para trás há uns bons cinco ou seis  parágrafos atrás), pois não dá tempo para ler tanta coisa. É muita informação e ela precisa dar conta de tudo. Precisa ter visto o vídeo do goleiro sendo chamado de macaco, o outro vídeo da vizinha gravando atrocidades com o cãozinho, precisam sabem quem são as atrizes cujas fotos de nús vazaram na internet ( e provavelmente ver estas fotos). E, claro, vomitar umas bobagens sobre política e eleições, o assunto do momento. Então, é muito injusto ele não ter tempo para tanta atividade extra entre trabalho e estudo.

O problema desta geração é que, como tudo deve girar em torno de si, são eles próprios que definem o quanto precisam saber sobre outros assuntos para poder palpitar e ficar bem na fita. Neste quesito a geração “ Só Me Importo Comigo” se esmera. Basta um amigo postar uma bobagem sobre o candidato A,B,C ou D e ele sai compartilhando e destilando veneno. Pessoas atentas sabem o quão fácil é você propagar uma mentira na internet. Uma frase solta, uma foto manipulada, uma declaração “supostamente” dada, ouvida por um amigo de um parente do fulano de tal, e em meia hora isto toma uma proporção infundada. Mas, tanto faz, a geração EU só leu mesmo até a segunda frase e compartilhou porque o post já tinha umas tantas cinquenta curtidas.....


 Mas eu me apavoro mesmo quando leio um jovem desta geração postando a favor da ditadura. Pessoinhas que sequer tinham nascido quando esta barbaridade se abateu sobre este país. Quando leio coisas como: “- ...Os militar tem mesmo é que entrar quebrando tudo” (sic) ou “ Só a ditadura para dar jeito nesta porra....” (sic) – ( comentários extraídos do facebook) fico sem palavras para expressar minha indignação. A mocinha posta isto e três posts depois bota lá uma “selfie” de banheiro, fazendo biquinho, o rapaz faz a postagem e não demoro a ver um vídeo “gentil” do Danilo Gentilli, só falando coisas “gentis”..... OMG!!!!!!! ( o que é, também sei falar(???) como eles.....).


A geração EU está retratada em uma propaganda da Vodka Smirnoff, se você não viu (Ver Aqui) não perca, lá eles traduzem em imagens tudo o que eu tento dizer aqui. A geração EU quer mais é saber se seu SELFIE ficou perfeito, bem na fita, e que se dane o preço do petróleo ( não fui eu quem disse, foi o rapaz da propaganda.....).

Claro, a geração EU tem exceções, como tudo na vida. Existem jovens desta geração que sabem que existe mais do que selfies de banheiro e comentários do Danilo Gentilli esperando por eles. Garotos e garotas que não se importam de ler mais do que dez parágrafos de um artigo e prezam todo o esforço que seus pais ou responsáveis fizeram para que eles estivessem aqui e pudessem ser parte de um futuro de responsa. Não são a maioria e nem se farão ouvir com facilidade, mas já nos fazem crer que existe uma luz no fim do túnel.

A geração EU reclama demais sem nunca ter lutado por um ideal de verdade, nunca saiu às ruas para exigir liberdade, sequer conferiu a fundo as aulas de história para saber como foi. A geração EU nunca “tirou linha”, expressão usada por nós mais velhos para a paquera, nunca soube o que é “cortejar” e com certeza jamais dançou juntinho, na espera de haver outro encontro, e mais outro e um terceiro para beijar na boca. Não vai saber jamais que a espera é melhor que o acontecido, que o desejo é maior quando as coisas são mais difíceis do que beijar na boca umas quatro ou cinco garotas por noite. Esta geração perdeu por entre os “amassos da vida” a sensação da conquista, a diversão do “correr atrás”....

Esta geração perdeu tanto..... E eu lamento muito pelo que eles estão perdendo.... Lamento que ao invés de ler Machado eles busquem o resumo da obra na internet para cumprir currículo escolar. Lamento que eles tenham trocado a única dose de cubra libre que podiam pagar no bailinho por nove ou dez doses de vodka que os deixarão entorpecidos e quase desmaiados ao fim da festa, incapazes de articularem palavras entre si. Lamento que tenham trocado as infindáveis conversas entre amigos na caminhada rumo à escola pelo ônibus, não sem estarem devidamente munidos de fones de ouvido, que os isolam do mundo real, e talvez de conhecer alguém interessante no meio do caminho ( conheci tanta gente amiga assim....).

Lamento que seja tão importante para todos o corpo e seu ideal inatingível, só permitido aos que a genética favorece ou aos que podem dar-se ao luxo de usufruir das benesses da academia, do spa, da alimentação correta e às vezes cara, dos absurdos impostos pelas revistas da editora Abril, das moças que acham que são inaceitáveis se tiverem quilinhos a mais.....

A geração Eu cuida mais do corpo do que da alma. Mais da estética do que do espírito. Mais da quantidade de likes do que da amizade sincera. Esta geração, do qual me orgulho em dizer que meu filho e boa parte de seus amigos são exceção, esmera-se em ter opinião sobre tudo sem conhecer nada. Arrisco-me, mesmo sabendo que ofenderei a muita gente, a dizer que é vazia e sem propósito ( não esqueçam, não é uma generalização, há exceções).

Não sou ninguém para dar lição de moral ou tentar mudar o rumo da humanidade. Mas, se alguns jovens da geração EU chegaram até aqui ( e meu coração me diz que alguns poucos chegaram) talvez haja esperança. Mesmo que poucos, se houverem alguns dispostos a refletir tudo o que foi dito, talvez a próxima geração venha diferente. Talvez as coisas não sejam mais tão fáceis e estes meninos não reclamem por ser o mundo todo injusto com eles. Talvez eles entendam que seus pais cansaram de andar de ônibus para lá e para cá e não morreram por isto. Talvez eles vejam que seus pais não tinham tempo para tudo o que queriam e por isto passaram a selecionar aquilo que mais valia a pena. Que lutaram e muito para ter hoje a liberdade que permite a seus filhos postar qualquer porcaria na internet sem ter a polícia na porta de sua casa.....

Eu sei, sou uma velha senhora que sonha, e sonha demais... Mas quem sabe por tudo isto, de alguma forma eu possa morrer, não sem antes conhecer a geração EU que virou a geração NÓS, porque seus pais leram um dia estas poucas linhas......

Em tempo: É provável que você conheça alguém que não é desta geração, mas que foi contaminado por ela, vociferando impropérios e culpando tudo e todos por suas próprias frustrações. Não se assuste: a geração EU sempre existiu, mas nunca com tanta força e propriedade como agora. Sempre há um babaca por aí achando que é só no seu quintal que os ratos brincam....