quinta-feira, 11 de outubro de 2012

FIC - DECISÕES - CAPÍTULO 6




“CRIAVA AS MAIS FALSAS DIFICULDADES PARA AQUELA COISA CLANDESTINA QUE SE CHAMAVA FELICIDADE...”

Clarice Lispector





Ele desceu na estação “Invalides” do Metrô e vários degraus acima deu de cara com o rio Sena. Sabia exatamente aonde ir, cada esquina onde virar, cada rua a atravessar. Não porque já conhecesse Paris, apenas porque nos últimos dias havia repassado cuidadosamente cada um dos detalhes não apenas de sua viagem, mas de sua programação como um todo.

Fazia uma tarde linda e um clima ainda pouco quente de início de primavera. Ele trazia nas mãos uma valise de tamanho médio e sua pasta de trabalho. Por um breve momento parou de pensar incessantemente no que aconteceria nas próximas horas apenas para contemplar o Sena. Foi rápido. Talvez porque não estivesse no clima, talvez porque fosse prático demais, era apenas um rio, cujas águas nem pareciam tão limpas assim. Dois barcos de turismo cruzavam suas águas turvas e ele tentou imaginar porque aquela cidade mexia tanto com o imaginário das pessoas. Seguiu caminhando pelo contorno do rio até que percebeu que aquele era o ponto onde devia atravessar. Estava há cerca de dez minutos do hotel que havia escolhido. Retomou seus pensamentos e imediatamente um mapa tomou conta de sua mente de novo. Caminhar por Paris parecia ser fácil. Havia ampla sinalização e as placas indicavam cada rua à sua frente. Optara desde que saíra de casa por um roteiro absolutamente comum, com nada que pudesse chamar a atenção.




Desde que entrara naquele avião não conseguira pensar em outra coisa senão refazer seus passos. A obsessão por ver Emily só era superada pela necessidade de mantê-la segura. Quando Sean chegou na casa de Jéssica, todas as instruções, tudo o que devia dizer a ele estava na ponta da língua. Que saísse de lá com Jack, que parasse com ele para abastecer seu próprio carro no posto de sempre, que fossem tomar um café da manhã nos locais onde sempre levava seu filho para passear e fosse com ele ao Zoológico. E sempre usando seus cartões de crédito. Que seguisse as rotinas que ele, Aaron, costumava usar com seu filho em um fim de semana normal. Odiava admitir, mas era um pai totalmente previsível. Esforçado, mas previsível. Voltou a frisar para Sean a necessidade de que ele seguisse tal rotina, caso estivesse sendo monitorado pelos cartões de crédito ou pela placa do carro, tornou a agradecer meio sem jeito ao seu irmão, mas de longe estava preparado para ouvir o comentário bem humorado daquele que parecia ser a ovelha negra da família.
 
- Então, meu irmão está apaixonado??? E eu que pensei que você tivesse vários órgãos, menos coração!!!! Fala aí, isto é sério?
 
Aaron nem conseguiu sorrir. Embora soubesse que seu irmão estivesse zombando dele, não deixava de ser verdade. Passara tanto tempo de sua vida perseguindo monstros que há muito não conseguia enxergar nada que não fosse sombrio à sua frente. Mesmo agora, apaixonado, pensara em tudo o que tivera que arquitetar para garantir a segurança da mulher que amava. Seria cômico, não fosse tão trágico. Estava prestes a admitir que estava amando e sua maior preocupação era que Sean não deixasse de usar seus cartões de crédito, que fosse visto em companhia de seu filho, que procurasse manter a sua rotina. De repente percebeu que tudo o que fazia tinha um quê de mais difícil. Não era como atravessar a rua e pagar um café para a mulher que amava. Não. Não Aaron Hotchner.




Nada em sua vida parecia ser simples, porque seria agora? De alguma forma que não sabia bem como explicar, sentia muita inveja de Sean. Suas grandes preocupações limitavam-se ao novo cardápio de primavera que seria lançado no princípio do mês e se o Insalato di Pepperoni Arrostiti iria agradar à clientela. Isto com certeza e alguma responsabilidade, não mataria ninguém. Fora isso, ao deixar seu trabalho, Sean seguia sorridente para seu pequeno, mas muito confortável apartamento, onde lhe aguardava a morena de olhos claros da vez, sedenta por sexo e diversão pelas oito horas seguintes. Sem compromissos, sem laços, sem dramas. Apenas cozinhar, conversar, amar e ser feliz. Porra, ele queria muito ser assim também. Mas não era.


Ouvir as estórias de seu irmão o deixava deprimido. Algumas pessoas nascem para semear e colher flores, outras para preparar o adubo que as permitem crescerem belas. Era assim que ele se sentia quando ouvia Sean falar. Ele preparava a merda para que seu irmão colhesse belas flores. E, o que era pior, ele gostava disto. Mais do que tudo, ele respirava isto. Não saberia viver, sabendo que existia por aí alguém ceifando vidas sem que ele estivesse fazendo algo a respeito. Sean, por sua vez, não se importava. Era como se, enquanto a infelicidade não batesse à sua porta, ela não existisse. Seu irmão tinha aquele pensamento mágico de que coisas ruins só acontecem com os outros. Daria tudo para ser como o caçula da família, mas estas coisas talham a nossa personalidade. São como nós, nos troncos das árvores. Nascem aleatórios, não escolhem onde ou como querem crescer. Ele não iria mudar agora. Amava seu irmão. E do fundo de seu coração, adorava vê-lo feliz. Mas, por Deus, como eram diferentes!!!!


- Sean, eu te agradeço, mesmo, muito, por tudo. Eu só quero que você entenda que a segurança de uma pessoa está em jogo.




- Ok, eu entendi maninho! Vou agir como se fosse você, ninguém nem vai perceber que se ausentou por um fim de semana. Serei você, vou fazer as coisas que você faria, levar Jack onde você levaria. Embora eu ache que meu sobrinho iria divertir-se mais se eu pudesse agir como Sean, não como Aaron, mas.... fique tranqüilo, não vou dar nenhuma mancada. Já entendi, e não vou perguntar. Esta mulher deve ser muito importante para você armar tudo isto, vou ficar na minha, mas você me deve levá-la para jantar em New York, assim que puder, combinado? Quero conhecer a mulher que fez meu irmão arquitetar tudo isto! Acima de tudo, quero conhecer a mulher que devolveu um coração ao meu irmão!!
 
Sorriu meio sem jeito e quando despediu-se de seu filho, ainda pode ouvir ao fundo Sean dizer que ia ser um fim de semana maneiro, mas preferiu ignorar o comentário, certo de que os sinais que ele havia feito para Jack, tripudiavam seu jeito tradicional de ser. Não podia pensar em tudo. Não podia controlar tudo. Deu um beijo em Jack, disse que o amava, despediu-se de Jéssica e de Sean e seguiu em frente, procurando não pensar no que havia deixado para trás.
 
Agora, cruzando os portões do Louvre, e seguindo em frente em seu objetivo, tentava se lembrar do que iria dizer a ela quando chegasse lá. Parecia um texto ruim de uma fotonovela barata, mas na verdade, cada uma das palavras que pretendia dizer fôra repetida exaustivamente nas últimas semanas por ele. O brilho dos seus olhos, a franqueza do seu sorriso, o quanto ela iluminava sua vida e aquecia seu coração. O tempo que perdera acreditando que não merecia ser feliz, o quanto ela merecia mais do que um homem como ele. Ele estava apaixonado, ela era a luz de sua vida e ela iria viver incógnita até que pegassem o desgraçado. Mas precisava saber que ele a amava. Mais que tudo. Há muito tempo.




Seus pensamentos o consumiram até que chegou à Rue du Gros Caillou. O Hotel Rive Gauche era um duas estrelas simples, mas bem aconchegante. Não fora por acaso que escolhera um hotel pouco chamativo. Quando das reservas, ele havia solicitado duas chaves, pagando pelo benefício, muito mais caro. Não queria nem um, nem outro, tendo que dar informações na recepção. O apartamento de número seis não havia sido escolhido por acaso. Pelas informações, de sua janela, via-se a Torre Eiffel e, embora ele não fosse um homem dado a esses detalhes, ele achou que ela gostaria do mimo.


Ele atravessou a recepção do hotel simples, desejando que o lugar agradasse ao gosto dela. Foi quando percebeu que não sabia nada sobre ela. Melhor, sabia que ela era capaz de atingir precisamente um alvo à vinte e dois metros de distância no estande de tiro, sabia que ela dava um gancho de direita como poucos homens seriam capaz de dar, sabia que podia contar com seu bom senso na produção de um perfil, sabia também que ela falava árabe, espanhol, italiano, russo e romeno. Sabia ainda que ela ficava linda em um vestido vermelho, que Derek Morgan tentara diversas vezes cruzar a linha, mas que não tivera sucesso ( comentário feito por cortesia de sua analista técnica, num dia, de pouca discrição de sua parte) e que toda a vez que ela sorria, ou, por descuido, tocasse nele sem querer, nos braços ou nos ombros, ou que sua voz enchesse o salão, ele não conseguia ignorar este efeito em seu corpo. Na verdade, era tudo o que sabia sobre ela. Agora, mais do que nunca, quando descobrira que ela se prestara a dormir com o inimigo para conspirar contra ele. Era verdade, estava apaixonado, mas sabia tão pouco sobre ela. Aquela morena de sorriso largo e olhos de pérola negra de quem ele nunca se esquecera mesmo depois de tantos anos. Sua ousadia em buscar uma reciprocidade que ele não podia oferecer.




Mesmo tanto tempo depois, ele ainda se lembrava de como ela parecia desafiá-lo. Aqueles olhos que o fizeram sentir-se culpado por pensar neles tão intensamente. Ele estava tão perto e sentia-se tão distante. O que ele tinha a oferecer a ela? Neste momento, então.... nada! Apenas isto! Nada...
Mas era tarde para mudar de idéia.


No entanto, quando empunhou sua chave e destravou a porta do apartamento de número seis do Hotel Rive Gauche, tudo aquilo parecia não ter mais importância. Respirou fundo, apoiou sua pouca bagagem no aparador da saleta na entrada, e foi até a janela. Quando afastou a cortina, vislumbrou aquilo que era o maior símbolo da França. A torre Eiffel surgia impávida pela janela, entre tons rosados de um fim de tarde de primavera. Agora, mesmo Aaron Hotchner e toda a sua obscuridão, não pareciam ser tão graves quanto a imponência de quilos de ferro fundido e séculos de história. Aquilo era Paris. Talvez o ar, talvez os arquétipos, talvez apenas a necessidade de ter uma segunda chance. Talvez ali ele pudesse apenas amar, sem lembrar, sem esquecer. Sem precisar ser quem era. Romantismos à parte, deixou a janela de lado e foi conferir o frigobar para descobrir que seu pedido havia sido atendido. Um Château Bel Air Bourdeaux 2009 . Em uma bandeja sobre o frigobar duas taças e algumas rosas vermelhas num vaso. Na mesa aparadora, uma cesta com frutas, alguns pães, manteiga e um tipo de patê. Tudo estava lá. Cada centavo de dólar cuidadosamente empregado no que havia sido solicitado. Ele olhou para o relógio. Ainda eram 17:10 PM. Restavam ainda alguns minutos.
E infinitos motivos para ele sair correndo dali. 
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Quando ela saiu da Gallerie Laffayete, empunhava duas sacolas de compras. Na Bon Marchê havia encontrado um vestido vermelho, lindo, de meia manga, com decote princesa que valorizava seu colo e um pequeno cinto que marcava sua cintura. Na Saint Honoré, havia encontrado o sapato de salto oito e meio vermelho, incrivelmente perfeito para combinar com seu vestido. Na saída da Gallerie, havia cruzado com um conjunto de colar e brincos com pequenas pérolas, que julgava feitos para a ocasião, além de um providencial par de meias nude sete oitavos. Emily voltou ao seu pequeno apartamento com suas sacolas e suas expectativas. Tomou seu banho e produziu-se para um evento. Olhou-se no espelho e julgou-se linda. E depois, perguntou-se o porquê. Quando pronta, cerca de uma hora antes do horário marcado, Emily, maquiada e produzida, sentiu-se ridícula. Como se isto fosse pouco, ainda teria que caminhar cerca de sete quadras vestida assim, para chegar ao seu destino. Olhou-se novamente no espelho. Era uma mulher bonita. Apesar dos seus quase quarenta anos, o tempo havia sido generoso com ela. No entanto, o que isso dizia a seu chefe? Que ela estava feliz? Que nada daquilo que havia acontecido tinha importância? Que ela estava tentando seduzi-lo? Deus, ela estava apavorada. Seu providencial instinto dizia que ela devia encontrá-lo vestindo jeans e camiseta e que passaria a mensagem: estou sobrevivendo. Mas, não era o que ela queria dizer naquele momento. Ela queria dizer, preciso de você, te amo e pronto. Nada mais simples. Nada mais complicado.

Ela estava na merda há muito tempo. Todas as decisões que tomara foram por necessidade, não por prazer. Ela abrira mão de quase tudo em sua vida. Então, simples assim, ela iria vestir o que tivesse vontade. Mesmo que isto parecesse ridículo, mesmo que desse a impressão errada. Olhou de novo no espelho e gostou do que viu. E orou intimamente para que Aaron Hotchner gostasse também.




Saiu equilibrando-se nos seus oito e meio centímetros de saltos e, ao chegar na calçada reconsiderou. Embora o fim de tarde estivesse lindo, talvez um táxi fosse uma alternativa mais coerente do que cruzar sete quarteirões vestida daquela forma. Graças a Deus, ela estava em Paris, não na Virgínia ou Nova York. Em menos de dois minutos um táxi parou ao seu sinal e ela entrou. Para o bem ou para o mal, Emily estava indo ao encontro de seu destino. E tudo o que ela desejava é que seu destino tivesse um único nome: Aaron.....


Quando ela saltou do táxi, faltavam ainda sete minutos para as dezoito horas. Ela pagou a conta e abriu a porta, dando de frente com uma simpática entrada do hotel simples, porém, gracioso. Um imponente bouganville todo florido enfeitava a entrada. Ela ajustou a roupa em seu corpo e apertou, pela décima vez, a chave entre seus dedos. Invadiu a recepção procurando por ele, mas, obviamente, ele não estava ali. O chamativo relógio sobre a mesa de entrada anunciava que faltavam cinco minutos para as dezoito horas, mas ela, claro, já sabia disto, depois de conferir seu relógio de pulso dezoito vezes nos últimos dez minutos. Olhou para todos os lados. Hábito que havia adquirido após os últimos eventos. Temia estar sendo seguida. 
Decidiu que, para apenas um lance de escada, não precisava tomar o elevador. Então, ela subiu. E caminhou o corredor em toda a sua extensão, até que o número seis surgisse. Ela colocou a chave na fechadura, temendo que ao vê-la ele a chamasse por Prentiss, temendo que a qualquer momento, tudo acabasse ali mesmo. Quando a chave virou e a porta se abriu, ela procurou manter-se calma. Afinal, não tinha porque ter expectativas. Deu três passos para dentro e viu seu chefe em pé, de costas, virado para uma janela, com a cortina afastada.




Em quase quarenta anos de vida, Emily Prentiss não tinha palavras. Pela primeira vez em sua vida, Emily Prentiss quis falar e não conseguiu. Ali estava ele. De costas, mas era ele. Seu terno indefectível, toda a sobriedade do momento, era sem dúvida o chefe do departamento de análise comportamental. Sentiu-se infame por ter acreditado que ali pudesse estar esperando por ela outro que não apenas o seu superior. Praguejou intimamente por seus sapatos de salto, seu vestido justo e provocante. Praguejou por seu par de brincos e seu cabelo ajeitado. Era apenas um encontro profissional e ela sentia-se vestida como uma prostituta, pronta para o abate. Odiou-se por ser tão crédula, mas bolas, nada havia lhe sobrado além de acreditar. Então, sem perder a pose, bateu a porta às suas costas e com o barulho, acreditou que ele se viraria para ela. Mas ele não se moveu.
Com o pouco que lhe restava de confiança, tentou articular alguma coisa que fizesse sentido, mas tudo o que conseguiu fazer sair foi:
 
- Senhor???

Como ele não emitira qualquer resposta, ela apenas repetiu o que já havia dito.

- Senhor???

Ele custou a virar-se. Muito. E quando o fez, foi lentamente. Quando pôde fitá-la de frente, ainda assim não falou. Ficou a admirá-la por um tempo que nenhum relógio poderia medir. Ele procurava ar para encher seus pulmões, ela procurava esconder seu constrangimento por estar vestida daquela forma. Nenhum dos dois encontrou palavras. Pareciam ter sidos minutos infinitos, mas, na verdade, foram apenas alguns instantes. E tudo que ela conseguia repetir era:

-Senhor???

-Prentiss, .... – ele deu dois passos em direção a ela, mas parou. – Como você está?

Ele a chamou por Prentiss! Tudo, menos isto! Deus, como ela havia se enganado. Não sabia onde por suas mãos, ela só queria sair correndo de lá.

- Sobrevivendo. Na verdade, eu estou bem....

Ele a fitou de cima a baixo. Ela estava linda. Era tudo com o que ele sempre sonhara e ele não conseguia se mover e quase não conseguia falar. Aquela era a tênue divisa entre ser feliz e pôr tudo a perder. E, mesmo não sabendo bem por onde começar, o que dizer, o fato era que aquele corpo coberto de vermelho deitara por terra o resto de profissionalismo que teimava em manter. Que diabos, era adulto, não estava arriscando tudo apenas por diversão. Ele precisava dizer alguma coisa. Onde estavam todas aquelas palavras que ele passara a semana toda ensaiando, decorando? Onde foram parar o elogio ao seu sorriso, a necessidade de tê-la em sua vida, o vinho que iria oferecer a ela?

- Bom, isto é bom.... As dores...bem....você tem se poupado?

Ela achou, por um instante, que por trás da feição impassível do bonito rosto moreno, alguma emoção se formara. Esperava a qualquer momento uma bronca, que ele iria lhe dizer o quanto fora imprudente agindo sozinha e que ela havia posto a todos em risco com sua teimosia. Mas ele perguntou qualquer coisa sobre sua saúde.

- Dói ainda, evito os analgésicos.... Tenho saído pouco....

Ele ouvia ela articular as palavras, mas elas faziam pouco sentido para ele. Ela ainda sentia dor? Ali, na luz suave que invadia a janela do quarto, ela parecia perfeita. E ele parecia um idiota. Ele precisava retomar o controle da situação, não que seu corpo naquele momento colaborasse com isto. Ele suava frio, suas mãos tremiam e seu amigo lá embaixo dava sinais de não querer mais se comportar.

- Eu precisava te ver.....
- Você disse que precisava me ver....

- O que você estava pensando? Que podia resolver tudo sozinha?
Não era o que ele queria dizer.... 

- O que você esperava que eu fizesse? Que os pusesse em risco?
Não era o que ela esperava responder.....


- Mas você podia correr todos os riscos? Você podia enfrentar tudo sem pedir nada a ninguém? Para que diabos somos uma equipe se não podemos confiar uns nos outros... - Ele foi aumentando seu tom de voz mais do que gostaria. – Você não pensou que poderíamos te ajudar, que você poderia se ferir, que todos iríamos sentir ...


Ela já quase não conseguia prestar a atenção no que ele dizia. Ele estava zangado, mas não parecia isto. Era quase como se estivesse magoado, quase como se estivesse com medo, e ela tentou interrompê-lo sem sucesso.


- Me desculpe se eu tomei a decisão que não era a que você gostaria que eu tivesse tomado, me desculpe pelos problemas que criei, eu não queria magoar o homem que eu amo...


- ...sua falta, não pensou nas pessoas que te amam, não pensou que eu não podia perder a mulher que eu amo?


As frases foram ditas juntas e seus olhos se buscaram, profundamente. Num único momento ambos tentaram absorver o que o outro havia dito.
No mesmo instante, estes olhos que até então buscavam compreensão, verteram toda luxúria e cobiça aprisionada por anos de espera e desejo. Ele caminhou em sua direção e parou tão próximo dela que ela podia ouvir seu coração bater.

- Eu não sei bem como você vai entender isto.....

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

FIC - DECISÕES - CAPÍTULO 5





"SOU O QUE QUERO SER, PORQUE POSSUO APENAS UMA VIDA E NELA SÓ TENHO UMA CHANCE DE FAZER O QUE QUERO. TENHO FELICIDADE O BASTANTE PARA FAZÊ-LA DOCE, DIFICULDADES PARA FAZÊ-LA FORTE, TRISTEZA PARA FAZÊ-LA HUMANA E ESPERANÇA SUFICIENTE PARA FAZÊ-LA FELIZ!”

Clarice Lispector



Ele montou uma verdadeira operação de guerra. Haviam se passado mês e meio e ninguém tivera notícias de Ian Doyle. O mesmo ele não poderia afirmar em contrário. Existia uma forte possibilidade de que o desgraçado os estivesse observando à distância - recursos para isto ele tinha - a fim de ter certeza de que Emily Prentiss havia sim, morrido de verdade. Se ele pretendia fazer algo muito arriscado, tinha que ser muito bem planejado. Não deveria haver margem para erros tolos, que pusessem a todos em risco, especialmente a mulher que amava.

Quando desligou o telefone nesta manhã, depois de falar com seu irmão, sentiu seu sangue ferver em suas veias, era como se estivesse planejando conquistar a primeira namorada. Tolice, já que era tudo o que ele conhecia sobre o assunto. Sua experiência neste campo era infinitamente menor do que o conhecimento que tinha sobre criminologia, psicopatologias, armamentos e táticas terroristas. Mas, por estranho que parecesse, metia mais medo que todas estas coisas junto. Ele não tinha se declarado a mulheres muitas vezes. Para ser sincero, fora uma vez e só. Além do que, ele estava apostando todos os dados em uma decisão que poderia tornar-se a mais desastrosa de sua vida, pessoal e profissionalmente.


Todas as grandes decisões de sua vida foram pautadas pela razão, pela coerência e pela lógica. Casara-se com a primeira mulher por quem se apaixonara muito jovem, dedicara-se a ela durante toda uma vida, sendo-lhe fiel e responsável. Só não fora o bastante porque quisera manter-se fiel também à sua outra paixão: o seu trabalho. Se não fora o suficiente, nunca fora por displicência, sempre apenas por querer ser correto e devotado à atividade que fazia com competência e lhe proporcionava bons proventos para dar à sua esposa e filho uma vida de conforto e regalias. Pecara porque nunca havia feito nada por impulso. Nunca jogara tudo para cima, nunca matara um dia de trabalho para levar sua esposa a um passeio no parque no meio de uma tarde de terça feira, não negara-se sequer a estar em viagem quando mais ela precisou dele, durante o parto de Jack. Faltara em aniversários dele, dela, perdera os primeiros passos de seu filho, as primeiras palavras. Ele era presente. Apenas não era presente nos momentos certos. Era quando podia ser, não quando queria que fosse. Não se permitira arroubos, e hoje pagava o preço de tal sobriedade. Perdera a mulher que amava, teria muito que explicar ao seu filho, trabalhava feito um obcecado, já passara dos quarenta havia tempo e se esgotavam as possibilidades para permitir-se ser feliz novamente.


Na verdade, sentiu-se meio idiota ao telefone, depois de quase implorar para que Sean o visitasse no próximo final de semana, em troca de passar algumas horas com seu filho e ter à sua disposição seu carro e todos os seus cartões de crédito. Seu irmão trabalhava aos finais de semana, sabia que não era má vontade de Sean, mas era sua única chance. Se perdesse essa oportunidade, ele não saberia mais onde encontrá-la. Era agora ou nunca.


Não sabia bem o que fazer, desde a noite no bar do hotel, onde rabiscara inúmeras palavras, até não ter mais papel à sua disposição. Como era difícil para ele escrever algo para Emily, que diria então falar pessoalmente! A quem ele estava enganando? Ela passara por tantos momentos difíceis, todas aquelas coisas que aconteceram e tudo o que queria era poder ter estado ao seu lado, conforta-la, fazê-la não sentir-se tão só. Todo o abandono a que fora largada, tantas pessoas a quem amava e de repente perceber-se sozinha, sem poder dizer sequer que existia. Não podia imaginar tudo o que ela estava passando. 


Há quase noventa dias lidava com uma pressão inominável. Era muito difícil ver o pesar na face de seus amigos e não poder confortá-los. Era difícil também lidar com Erin Strauss, que parecia somente pressionar, não se importando se ele estava ou não fazendo um bom trabalho com seus agentes. E ainda lhe empurrando uma estagiária que Rossi apoiava incondicionalmente ( nem quis questionar-se se seu amigo teria se envolvido sexualmente com uma estudante, pois quase somente isso explicava todo o apoio que ele dava a ela). E à noite, exausto, depois de colocar seu filho para dormir, na solidão de seu quarto, buscava conforto no que lhe restava das lembranças da mulher que amava, tentando se esquecer do sofrimento que vivera, lembrando-se apenas de seus olhos negros, de seu sorriso franco e da forma como lhe chamava de senhor. Com sorte, conseguia aliviar-se num prazer solitário, fugaz, que terminava quase sempre com ele lavando-se, cheio de culpa, sem poder se olhar no espelho do banheiro.

Isto tinha que acabar. Pelo bem ou pelo mal, isto tinha que ter um encerramento. Se ela iria sumir na vida, que ao menos soubesse que era amada, que roubava as horas de sono de um homem, que soubesse que nunca estaria sozinha. Talvez fosse algo muito egoísta, mas era algo que ele tinha que fazer. E fazer em segurança. 


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Ela acordou no meio da noite, meio assustada, meio ofegante, erguendo o corpo à meia altura, apenas o suficiente para desligar a televisão e ajeitar-se melhor em sua cama. Invadia-lhe pela cortina fina de voal perolado toda a claridade da noite de Paris. As luzes em nada lembravam a sobriedade das noites em seu apartamento na Virgínia. Vislumbrou o brilho que vinha da rua, mas lhe aquecia o coração outra imagem. Virou para o outro lado e pediu desesperadamente para voltar a sonhar o sonho do qual despertara, aquele do qual fazia parte um certo agente moreno que era responsável pela umidade que se acumulava entre suas coxas. Mas era tarde. Ela despertara e ele se fora. O sonho acabara mesmo antes de começar. Debateu-se de um lado para o outro em uma briga inglória com seus lençóis, até que percebeu que seu edredom havia caído aos pés da cama. 


Sentou-se puxando o pouco que restava de suas cobertas. Era assim todas as noites. Quando não tinha pesadelos com Doyle, tinha sonhos quentes com Hotch. Há noventa dias, suas noites se dividiam entre o que lhe fizera o mal e o que lhe faria o bem. E, ao despertar, a sensação era a mesma, nem com um, nem com outro tinha encerrado seus assuntos. Nem bem tivera sua justiça, nem bem tivera a oportunidade de dizer a Aaron Hotchner o que sentia por ele. E a partir de agora, não faria nem uma coisa, nem outra. Sumiria no mundo, sem sentir-se vingada, sem qualquer chance com o amor de sua vida.
 

Era mais fácil levantar-se. Andou um pouco pelo minúsculo apartamento, foi à cozinha, fez um chá. Sentou-se na pequena mesa ao lado da cama e resistiu à tentação de ligar a televisão novamente. Isso só tornaria seu adormecer mais difícil. Puxou a cortina e olhou um pouco pela janela. Um grupo de jovens boêmios fazia barulho caminhando pela Alameda Du Frest, como se nada no mundo fosse para eles mais importante do que ser feliz.


Ao virar-se por um momento, sentiu uma dor muito familiar nos últimos tempos, uma dor aguda e latejante que lhe assaltava sob a cicatriz que lhe marcara o corpo. Não queria ter que tomar outro comprimido.

Sorveu mais um gole do seu chá e brincou com a borda do envelope que a amiga lhe havia entregue. Talvez porque o que lhe esperava fosse um punhado de passaportes onde o nome que lia não fosse o que gostaria de ler, não apressou-se para verificá-los. Era difícil admitir que Ruth Messing era agora o nome pelo qual respondia e não precisava correr para vê-lo estampado em seus novos documentos. Até então, quando alguém a chamava por Ruth, demorava-se para responder, era algo com que ainda tinha que se acostumar.
Enquanto o chá lhe aquecia o estômago, Emily mirava a janela, virando o envelope distraidamente, várias vezes, como se fosse um brinquedo em suas mãos. Lhe divertia a forma como os jovens cambaleavam pelas ruas, tão inocentemente, como ela nunca mais iria caminhar. Eles entoavam alguma canção local e havia alguma graça em como eles produziam toda a aquela arruaça. Quando o líquido foi totalmente ingerido, ela pousou a xícara sobre a mesa e soltou o envelope displicentemente. Algumas coisas desarrumadas saltaram para fora do invólucro pardo, mas ela não importou-se com isto. Ajeitou-se na cama simples e buscou conforto no calor do edredom florido por sobre seu lençol e na imagem quente daqueles olhos escuros que pareciam morrer no infinito.




Seu último pensamento foi o mais dolorido. Talvez não voltasse a vê-lo. E, como Ruth ou como Emily, ela estava cansada de esperar pelo homem interessante e bonito que parecia desviar o olhar toda vez que era observado por ela. Aquele com quem sonhara os sonhos puros e os sonhos quentes e insanos, aquele que roubara seu coração aos pés de uma escadaria, há muitos anos atrás. Aquela havia sido uma outra vida. Em outro lugar, com outro nome. Adormeceu ao som dos jovens à sua janela, vivendo a vida que ela não iria mais viver, uma alegria que ela não iria mais experimentar. Adormeceu mais uma vez Emily para acordar de vez como Ruth Messing. 


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- Que espécie de idiota é você?

Ele não sabia o que responder. Sabia que o momento chegaria, mas não havia se preparado também para isto. Haviam acontecido tantas coisas, havia tanto a pensar, e ele deixou isto para depois, entre tantos problemas que já tinha a resolver. Tão mal terminara a ligação e fora comunicado de sua chegada. Quando ela invadiu sua sala, ele a examinou.

Não haviam lágrimas em seu rosto, sequer parecia haver dor. Uma indignação imensa tomou conta daquela mulher, mais que qualquer outro sentimento. A rispidez da voz e a total despreocupação em ser gentil, combinavam com o que ele lembrava-se dela. Até para ofender-lhe ela parecia manter a pose.
- Você caça a escória da humanidade mundo afora e não consegue me localizar com alguns telefonemas? Sinceramente, agente especial Aaron Hotchner, você é uma decepção!
- Senhora, não sei o que dizer! Eu realmente tentei. Lhe deixei inúmeros recados, fiz contatos, ninguém sabia como encontra-la! Não havia tempo. Precisávamos providenciar o serviço fúnebre....

Ele de fato, não tinha nada de plausível para corroborar sua estória. Se tivesse mesmo agido como ela imaginava, nenhum adjetivo lhe cairia tão bem quanto idiota.

- Se serve de consolo, ninguém pode despedir-se. O caixão ficou lacrado. Desejo de sua filha.....

Hotch suava frio. Tinha mentido a tantos e há tanto tempo, mas nunca fora confrontado daquela forma.

Ouve um silêncio pesado e incomum entre Elizabeth Prentiss e Aaron Hotchner. Ela havia recusado o convite para sentar-se no sofá de couro escuro que ocupava a sala do agente e, ainda em pé à sua frente, olhava-o nos olhos, da forma mais profunda que alguém já o havia mirado.
Aqueles segundos pareceram durar uma eternidade. Ele só queria sair de lá, sair correndo, sair. Mas logo percebeu.
Uma mãe sabe. Uma mãe sempre sabe. Talvez porque a verdade estivesse estampada em seus olhos. Ou talvez porque a embaixadora não tivesse sido a mãe do ano, mas ainda assim, era mãe. Uma mãe sabe. Sempre.
Ele teve medo. Quase pânico. Se ela levantasse um único questionamento....
Ela, inteligente, quase pode ouvir uma súplica em seu olhar. Se não estivesse tão próxima dele, diria que estava chorando. Havia choro. Só não haviam lágrimas.
Foi uma troca de olhares de longas e francas palavras, apenas elas não puderam ser pronunciadas.

- Só cuide bem dela. – A frase foi quase inaudível, mas firme e assustadoramente calma.

Ela sequer estendeu-lhe a mão para um comprimento. Aquele olhar havia dito todas as coisas importantes que uma mãe precisa saber. Sua filha estava viva. Estava com problemas, mas estava bem. E havia um homem que a amava cuidando dela. Não era tudo o que ela como mãe gostaria de saber, mas afinal, era tudo o que ele poderia dizer naquele olhar e isto tinha ficado bem claro para ela.
Ela, já com a porta entreaberta, meio corpo no corredor, aumentando o tom de sua voz duas oitavas ainda voltou-se para ele.
- Agente Hotchner, apesar de tudo, agradeço suas investidas em me encontrar. Tenho certeza de que Emily encontrou aqui mais amor e carinho do que já teve em toda a sua vida profissional. – Ela deu dois passos à frente. – Tenho certeza de que todos vocês aqui a amavam. E eu agradeço a todos vocês por isto!





A frase foi ouvida por todos no grande salão. Ela pareceu ter a preocupação de esclarecer a quem quisesse ouvir que havia ficado magoada por não ter chegado a tempo, mas que entendia a situação.

Ele sentiu-se aliviado. Sua ampla experiência traçando perfis lhe dizia que mães têm um instinto próprio, uma coisa que nem toda a psicologia do mundo pode explicar. E ele agradecia por isto. Não havia tratado escrito em livro qualquer no planeta que pudesse resumir aquele encontro, mas as coisas não haviam se encerrado de forma tão ruim assim. Ele não seria de todo odiado, ela poderia dormir um pouco mais tranqüila à noite. Talvez ela, apesar dos pesares, não fosse uma mãe tão omissa assim.....
 

O médico havia sido bem específico, mas ela havia feito “ouvidos moucos”. Abrira mão de toda uma vida, não abriria mão do maldito café.
Kelly Olson tornara-se uma amiga no período em que a protegera. Estava no FBI havia dezessete anos e havia sido destacada para proteger Emily porque era a melhor no que fazia. Seu superior sabia disto e não pensara duas vezes antes de lhe indicar para a função, atendendo ao pedido especial feito pelo agente Aaron Hotchner, a quem devia um enorme favor. Durante os quase trinta dias que estiveram juntas, não tiveram muitas liberdades, toda a conversa poderia representar um risco, mas, de alguma forma, elas conseguiram superar as dificuldades e tornar aquelas horas menos entediantes. No último dia, antes de partir para Paris, Kelly havia surgido no quarto de Emily com uma caixa que chamava a atenção pelas dimensões.

- Não sou profiler, mas acho que você irá querer levar isto com você! Queria lhe dar algo que a fizesse se lembrar de mim com carinho, mas acho que trouxe algo que a fará lembrar-se de mim com muito amor, isto sim!

Dizem que o café lá fora é terrível, talvez isto ajude! Há nesta caixa uma boa quantidade de refis.....E dizem que é fácil encontrar reposição em qualquer lugar do mundo....a marca é famosa, isso deve ajudar....Eu ganhei há algum tempo, mas.... não tomo café. Sempre achei que um dia, teria alguma utilidade. É sua e espero que você a aproveite.


Agora, sentindo o cheiro inebriante de um café forte vindo do cômodo ao lado, Emily sentiu falta de Kelly. De suas coisas mesmo, não levara nada. Nunca voltara a seu apartamento. Kelly comprara para ela algumas mudas de roupa e três pares de sapato, uma bolsa barata e um par de brincos de gosto duvidoso, além de lhe entregar um bom par de euros.

- O resto você compra em Paris. Afinal, é a capital da moda, não?

Emily lembrou-se do comentário com um sorriso. Queria ter trazido Sérgio, mas isso era inviável. Kelly soubera que uma tal de Garcia cuidava de seu gato. Quando soubera da novidade, já podia imaginar seu pobre bichano empunhando laços e contas coloridas em seu corpo peludo. Sérgio com certeza sentiria falta de sua sobriedade.....

Quando as duas fatias de pão saltaram da torradeira, já havia saído do chuveiro. Fora um banho rápido, apenas para espantar o sono. Na verdade, hábito adquirido de Emily, não de Ruth. Embora preferisse o banho à noite, quando voltava de um dia difícil em seu trabalho, não dispensava uma chuveirada rápida pela manhã, para dissipar qualquer resquício de sonolência que pudesse lhe prejudicar o pensamento.
Enquanto degustava a torrada, procurava separar quais os medicamentos tinha que tomar pela manhã. Leite seria melhor. Mas era o café que tanto amava que iria conduzir os comprimidos ao seu organismo. Que diabos, Kelly havia acertado na mosca, a tal máquina era boa demais. E embora o café fosse infinitamente melhor do que estava acostumada a tomar no Bureau, era daquele café que sentia saudades....





Depois de ingerir sua mediação, ela lavou a xícara e o prato que usou, no banheiro fez sua higiene e logo em seguida sentou-se em frente da mesa pequena que se destacava pelo monte de coisas que se espalhavam por sobre ela agora. Precisava se organizar. Agora tinha documentos e recursos e precisava decidir se queria deixar Paris, ir para outro lugar. Manuseou todos os passaportes. Havia um passaporte em nome de Elle Standing. Outro em nome de Kayla Wordorf. Seu passaporte em nome de Ruth lhe conferia visto para vários países, inclusive países na América do Sul. Pensou na Argentina. Talvez fosse um bom lugar...Lembrara-se dele na juventude.... ficara lá por quase um ano. De tudo o que se lembrava daquele país, o que mais a marcara fora o tango. Aquela dança passional, que ela teimara em aprender para afrontar sua mãe. Águas passadas.....

Haviam três contas bancárias nos diferentes nomes a ela conferidos. Hotch não havia medido esforços para deixar-lhe confortável. Todas elas tinham um montante considerável para que pudesse viver com um conforto semelhante ao que tinha enquanto Emily.
Havia também um envelope de tamanho menor, que ela deixara para abrir no final. Não havia qualquer indicação do que ele continha. Era de fato, o único envelope lacrado e ela precisou rasgá-lo para ver seu conteúdo.
Dentro dele, uma chave e um papel pautado com inscrições em uma letra conhecida:

Hotel Rive Gauche – Rue du Gros Caillou,6 – April, 28 – 6PM.
Local seguro.
Preciso te ver.
Aaron 
 Ela nem sabia o que sentir. No início, uma imensa euforia. Depois veio a contestação. Claro que ele queria vê-la. Era sua responsabilidade. Não havia porque achar algo diferente. Ele era seu chefe. Estava se arriscando por ela. Tinham provavelmente muito o que conversar. Coisas técnicas, práticas. Coisas de protocolo. Era só. Não sabia porque havia se entusiasmado tanto. Ou sabia. Talvez arranjasse coragem para dizer a ele que precisava amá-lo como precisava de oxigênio para viver. Ou talvez simplesmente ouvisse o que ele tinha a dizer e, como sempre, apenas iria acatar suas ordens e adeus.

De alguma forma, seu dia ganhou um brilho especial. Fosse o que fosse que a esperava, burocracia, atos administrativos ou o diabo, ela iria ver Aaron Hotchner e, por si só, isso já coloria seu acinzentado dia. Vê-lo já era mais do que podia planejar acontecer, já era mais do que tinha direito em receber. Talvez os deuses não fossem todos assim, contra a sua felicidade.....Ele havia assinado Aaron... Não Hotch, mas Aaron... Ele nunca usava seu primeiro nome.... Não trabalhando....Bobagem.... Era só um nome, só um maldito papel, com um nome escrito. 


O que não a impediu de sonhar. Ela podia ser Ruth agora. Mas passaria o resto de sua mísera vida sonhando como Emily, os sonhos puros da casinha de cerca branca e os sonhos insanos que a levavam ao orgasmo com o mesmo homem, o moreno de olhos que pareciam morrer no infinito. 


Olhou novamente a data. Era dia 28. Eram nove e treze da manhã. Ele a esperava no final da tarde.
Definitivamente precisava comprar um vestido novo.

FIC - DECISÕES - CAPÍTULO 4



“NÃO IMPORTA SE A ESTAÇÃO DO ANO MUDA....
SE O SÉCULO VIRA, SE O MILÊNIO É OUTRO.
SE A IDADE AUMENTA....
CONSERVA A VONTADE DE VIVER,
NÃO SE CHEGA A PARTE ALGUMA SEM ELA."

Fernando Pessoa





Foi muito difícil. Apesar de saber que JJ estava ao par das boas notícias, ele podia ver a dor estampada em seus olhos quando ela abraçou Reid. Ele teve que sair de lá. Simplesmente não sabia o que fazer com toda aquela dor. Não conseguia olhar nos olhos deles sem dizer: “Me desculpem por isso!”
Então, ele apenas saiu. Após uns momentos, compartilhando a dor instalada na sala, JJ foi até ele.
Teve que ser rápido. E discreto. E ela quase sorriu. 


- Ela vai ficar bem.
- Eu sei.


Havia muitas coisas que ele queria perguntar agora, mas JJ não poderia responder. Disse a única coisa cabível, no momento.
- Fique com eles. Eu não sei bem como lidar com isto.

A agente loira voltou para a sala de espera, onde encontrou todos ainda em comoção. Os olhares vazios, a falta de reação, uma sensação de o que fazer agora e então, a primeira voz interrompeu os murmúrios e lamentos.


- Eu quero vê-la. Eu preciso me despedir. Eu não me despedi dela. Eu preciso....


Jenniffer precisou pensar rápido. Reid, assim como todos, haveriam de querer se despedir...


- Eu pedi.... que o caixão ficasse lacrado....
- Mas, por que? O que há de errado em manter o caixão aberto....
- Morgan, ela me disse. Em uma de nossas conversas, certa vez, ela me disse que achava horrível pensar na idéia de ficar exposta, o corpo morto, e todos à sua volta se lamentando, se isso acontecesse, quando acontecesse. Não era o seu desejo. Devemos respeitar....

JJ pensou se seria perdoada pela mentira deslavada que estava contando agora. Mas, levando-se em conta a mentira maior que era dizer que ela estava morta, talvez aquilo não fosse tão ruim assim. 

 


Ela estava ali para resolver os problemas, tapar os buracos e Hotch contava com ela. Deus, ela teria tanto o que explicar quando aquilo se esclarecesse, mas por hora, era o que deveria ser feito.

Pouco a pouco, todos foram tomando seu rumo, precisavam de um banho, algumas horas de sono, algo quente no estômago. A vida seguiria, por difícil que parecesse, a vida seguiria.
Rossi bateu nos ombros de Hotch e perguntou se ele precisava de alguma coisa.

- Não, está tudo bem. Vou verificar com o hospital os procedimentos para liberar o corpo, providenciar funerária, translado, estas coisas.
- Alguém precisa avisar a família. Você sabe onde encontra-los?

Ele não tinha pensado na família. Na mãe de Emily. Elas não eram próximas, até onde sabia, não se falavam há muito tempo, mas não podia deixar que soubesse de uma coisa daquelas através de boatos, fofocas ou uma nota no jornal. Não tinha idéia do que fazer.


- Não, mas vou verificar isto também.
- Você vai ficar bem? Se quiser, posso ficar. - A voz de Rossi era arrastada, cansada e desgostosa, mas ainda indicava preocupação com o amigo.

- Vou. Vá descansar. Se eu precisar de algo, te aviso.
- Sabe, não tem problema se você precisar de um tempo. Eu sei como ela era importante para você...
Aaron Hotchner sentiu uma pontada de culpa. Não havia como explicar à David que ele iria ficar bem.
- Vá, David, vá descansar. Eu vou ficar bem...

Quando todos saíram, ele caminhou, subiu alguns lances de escada e mostrou sua credencial na entrada do corredor do terceiro andar do prédio de paredes claras e frias para um guarda que fazia a segurança geral do edifício. Olhou para a placa indicativa e, na porta do CTI, em um lugar que lembrava uma grande área de distribuição, com salas enfileiradas dos dois lados, não teve dificuldades para encontrar uma enfermeira que lhe indicasse onde estava internada a paciente de nome Ruth Messing.



- No box seis. Ou sete. Parece que ela deu entrada agora a pouco. Posso me informar melhor para o senhor....Pode me aguardar aqui, preciso fazer uma coisa, mas já volto para lhe ajudar... – A simpática moça de branco foi dizendo e se afastando enquanto equilibrava uma bandeja com alguns copos descartáveis e comprimidos distribuídos em três pequenos recipientes.

Sabia que não podia entrar. Sabia que não devia se aproximar. Mas precisava vê-la, apenas uma imagem, que lhe aquietasse o coração, algo mais que as afirmações de JJ. Vasculhou com o olhar cada vão de porta de forma longínqua. Olhou para a sua volta e percebeu que todos ali estavam preocupados com suas tarefas. Na verdade, sentia-se invisível aos olhos de quem ali trabalhava. Mais alguns passos e deteve-se em uma porta semi aberta, o corpo miúdo , um rosto conhecido. 

Ela parecia dormir. Devia estar sob efeito de sedativos. Seu semblante era terno e suave. O que o trouxe à realidade foi o esbarrão que tomou de um enfermeiro.

- Posso ajuda-lo?
- Estou procurando uma paciente....
- O senhor não deve ficar nesta área....Espere na recepção....
- Eu sei, eu estou procurando....
- Qual o nome?
- Esther.... alguma coisa....

O enfermeiro deteve-se nas fichas que estavam penduradas na pregadeira da área de atendimento.

- Não há nenhuma Esther aqui. Tem certeza que o nome é esse?
- Devo ter me enganado. Me desculpe.....

Quando deu de costas para o enfermeiro, deixou para trás centenas de palavras que gostaria de ter-lhe dito, deixou para trás a chance de dizer que a amava, deixou-a em segurança.....

*****************



Eram três e meia da madrugada, seu paletó estava debruçado sobre um banco ao seu lado. Ele ainda vestia a camisa branca, agora com as mangas displicentemente dobradas até a altura de seu cotovelo e sua gravata vermelha estava frouxa em seu pescoço. Todos haviam voltado para suas casas, mas ele não havia tomado o avião com eles. Estava ainda no bar do hotel, olhando para o copo de Johnnie Walker Red Label com algum gelo que derretia na mesa à sua frente. A despeito da pouca luz do bar, o efeito do álcool devia encher-lhe de sono, mas ele nunca estivera tão desperto. O que estava fazendo?? Havia tomado algumas decisões e esperava ter acertado. Simplesmente não podia mentir para a mãe de Emily. Então, estava decidido, preferia passar por idiota a passar por mentiroso. Tentara alguns canais propositalmente sem sucesso e garantira que assim seria. Poderia alegar que havia tentado encontrá-la, que havia deixado recados, embora, inequívocos, e sabia que jamais chegariam a ela. Seria mais fácil assim. Não conhecia Emily tão bem, mas teve a impressão de que esta seria a alternativa que ela teria preferido.

Emily. Que diabos, quando se descobrira apaixonado? Por que ele sempre tornava tudo tão difícil em sua vida? Sentia-se cansado.
Tomou outro gole da bebida, já meio que diluída no gelo derretido e decidiu que precisava fazer algo a respeito. Afinal ela iria sumir, talvez, quem sabe, para sempre, e ele nunca mais a veria. Teria perdido a oportunidade de dizer que a amava, que ela era a luz que o fazia enxergar na escuridão, teria perdido, pela segunda vez, a chance de ser feliz.

Abriu sua maleta sob o banco ao seu lado e a primeira coisa que viu, foi um arquivo, com a foto de Ian Doyle. Deus, se o pegasse vivo, bem, não seria a primeira vez. Sabia bem qual a sensação de matar com os próprios punhos. Não era agradável, mas se aplicava novamente.



Alcançou um bloco. Papel e caneta. Rabiscou uns desenhos estranhos no canto da página, mas na verdade, buscava palavras. Há muito tempo não escrevia nada de punho próprio para ninguém. Ele escreveu, riscou, começou de novo. Riscou e tentou de novo. Amassou diversas folhas.

-Emily....

*****************


Ela não aceitava isso....
A amiga foi falando, mas era difícil aceitar tudo aquilo. Como assim, parecer morta? Estar morta? Deixar de ser Emily Prentiss... Ruth Messing???? Não, isto estava tudo errado. JJ falava e ela sentia dor. Ela tentava acompanhar, JJ dizia que isto seria o melhor....Odiava Ian Doyle.... 

Quando JJ se despediu, ela não queria que a amiga se fosse. 

- Aguarde, eu farei contato..... Não tente falar comigo.... Eu te procuro.... Seu nome agora é Ruth.....Obedeça a enfermeira Kelly Olson.... Ela é uma agente.... Ela sabe o que fazer.... Emily, não podemos discutir isso.... Eles também precisam ficar em segurança....É o melhor a fazer.....Pense nos outros, Reid, Penélope, Derek..... Nós sabemos o que estamos fazendo..... Hotch....
- O que tem Hotch?
- Ele tem tudo sob controle.....
- Ele sabe?
- Somente ele.... e eu....
- E os outros?
- Emily, isto está sendo difícil..... Para todos.... Tente entender....
- Eu sei! Doyle iria atrás deles....
- Pois é, nós vamos pegá-lo, Hotch disse....
- Como ele está?
- Sofrendo por você....
- Eu não quero que ele sofra....
- Bem, acho que isto está fora do seu controle.....
- Eu não quero....
- Emily, ele sofre porque te ama, não ache que isto não o afeta.....
- Ele, o quê?



- Emily, olhe, o que eu vou dizer é estranho, mas acho que ele sofreu mais por você do que todos que acharam que você havia morrido.....Não conheço Hotch tanto assim, mas ele está apaixonado por você e não preciso ser profiler para adivinhar isso. Talvez ele morra sem admitir, mas o fato é que ele precisou tomar uma série de decisões a respeito disto e acho que ele está tentando fazer o seu melhor....Faça o que ele te pede.... Aceite, é o melhor.... Eu juro, farei contato. Você não ficará sozinha.... Eu prometo. Mas agora eu tenho que ir.... Acredite em mim, eu ficarei em contato....

Era um pesadelo. Ela, Emily Prentiss, estava morta. Agora seria Ruth. Ruth Messing. Precisava acreditar no que sua amiga dizia. Precisava crer que não estaria sozinha, que JJ logo faria contato, que Hotch encontraria Ian Doyle. Que as coisas voltariam a ser como antes. Bem, nada voltaria a ser como antes. Ela tinha feito algumas opções em dado momento de sua vida e sabia os riscos que isto implicava. Sentia-se cheia de dor e cheia de raiva. Estava agradecida por ter sobrevivido, mas tinha a certeza de que viver como Ruth Messing seria doloroso. Estaria abrindo mão de seu trabalho, de seus amigos queridos, do homem que amava. Mas agora era tarde para lamentar. Gostaria de ter a certeza de que aquilo seria rápido e passageiro, mas na verdade, nem podia afirmar que não seria permanente. Existem vitórias que têm o sabor de derrotas. Aquele parecia ser um momento assim.


Após o enterro, Hotch pediu a JJ que reunisse a equipe, uma vez antes dela partir em definitivo. Queria certificar-se que teria o apoio de sua amiga para conversar com seus amigos e levar adiante aquela farsa.
Foi em um restaurante calmo e quase sem movimento que todos eles encontraram-se para dividir sua dor e compartilhar sua tristeza.

- Não vi a mãe de Emily no enterro. Você não teve notícias dela? – A voz de Rossi era contida e abafada, de quem não dormia direito há algum tempo.



- Deixei inúmeros recados, nenhum deve ter chegado à ela a tempo. Parece que ela está em algum país da Europa, em algum trabalho, não consegui uma informação confiável. Não podíamos ficar à espera de um contato seu....
- Bem, isto é triste... Levando-se em consideração que seus pais eram sua única família....
- Não, Penélope, nós éramos a sua família..... E não pudemos impedir tudo o que aconteceu....Não consigo aceitar isto...


A voz de Morgan estava dois tons abaixo do normal e não havia traço de revolta ou agitação, apenas uma infinita amargura.
Hotch sabia o que devia dizer, apenas não sabia por onde começar. Ele olhou para cada um de seus colegas, todos visivelmente abatidos com o fato e sentiu-se péssimo por não poder ajuda-los em quase nada naquele momento. Cabia a ele o papel de cobrar-lhes sanidade, de pedir-lhes para que voltassem às suas vidas e deixassem aquilo tudo para trás.

- O que aconteceu.... Não devia ter acontecido. Mas Emily fez algumas escolhas... Ela optou em omitir informações para poupar à nós, seus amigos, e isto teve um preço. Um preço alto, mas que lhe foi cobrado de forma impiedosa. Tudo o que aconteceu, nada pode ser mudado. Se algum de vocês achar que precisa de um tempo, de uma licença, eu entenderei. Mas, lembrem-se que ela fez de tudo para que nossas vidas não fossem afetadas. Todos temos o direito de ficarmos tristes, mas em nome de sua memória, não podemos estagnar nossas vidas. Não é o que Emily Prentiss esperaria de nenhum de nós.

Ele ainda pode ouvir alguns soluços, sentir secarem algumas lágrimas furtivas com o dorso das mãos e uns suspiros profundos quando, finalmente, ergueram um brinde à agente que nunca sairia de seus corações.

- À Emily Prentiss!

 

**************



Após um mês e meio sem ver nenhum rosto realmente conhecido, ela estava ansiosa por encontrar sua amiga. Ruth Messing iria encontrar Jennifer Jareau num café de pouco movimento nos arredores de Paris. O recado havia chegado conciso, sem muitas informações. Apenas data e local. Ela sabia que aquele poderia ser seu último contato com o mundo como Emily Prentiss. JJ havia lhe garantido no hospital que Hotch iria providenciar tudo o que fosse necessário para seu conforto, dinheiro, passaportes, documentos. Depois disto estaria por sua conta. Depois disto, apenas se um dia Ian Doyle fosse recapturado, Emily Prentiss voltaria à vida. Deus, odiava tudo o que estava acontecendo. Odiava lembrar-se de tudo o que estava abrindo mão.


Eram 19:30 horas, caminhava pelo final da Rue Ancienne Comédie e procurava por um Café, o Café Procope. Havia pouca gente no local, sentou-se e pediu café au laite e um duo au chocolat, afinal, precisava açucarar sua vida de alguma forma.
Quando JJ chegou, quase não a reconheceu. Os cabelos estavam bem mais curtos e a expressão mais sombria. O sobretudo e as botas também não eram algo que JJ esperava ver. Ela não se parecia com Emily. Talvez agora, se parecesse mais com Ruth. Quis lhe dar um abraço, mas teve receio de exceder-se. Não queria chamar a atenção. Apenas sentou-se à mesa pequena, disposta na calçada de pouco movimento.

- É bom te ver. Como você está?
- Sobrevivendo. Ainda sou a mesma Emily....
- Fisicamente?
- Tenho dores..... Elas não se vão tão fácil assim....
- Olhando para você.... fico feliz.... apesar de tudo.... você parece bem!
- Quem vê cara..... não vê coração! Como eles estão?
- Está sendo difícil! Todos se culpam de alguma forma! E Hotch se desespera, porque não pode dizer nada....
- Gostaria que tivesse sido diferente!



- Você sabe que pode contar conosco. Aqui tem três passaportes, vistos para vários países, contas bancárias, você movimenta como quiser. Procure não chamar a atenção. Nós vamos fazer contato. Há uma caixa postal, neste nome, se precisar falar com um de nós.....
Jennifer Jareau empurrou por sobre a mesa a pequena pilha de documentos dentro de um envelope pardo.
- Não será por muito tempo. Tenha paciência....

Tudo o que ela queria ter era paciência. Não sabia por onde começar, o que começar. Era meio que nascer novamente. Mas ela sabia que a amiga estava fazendo o que estava ao alcance.
- Aí dentro tem tudo o que você precisa. Hotch pediu que entregasse a você...
- Como ele está?
- Devastado. Feliz por saber que você sobreviveu, mas sofrendo porque não pode dizer nada aos outros e se sentindo culpado por não ter sido mais útil do que realmente foi.
- Ele não teve culpa...
- Eu sei, mas ele não sabe. Ele sempre se culpa por tudo.
- No hospital, você disse....
- Que ele te ama? Emily, você tem dúvidas???

Ela pegou o envelope que JJ lhe ofereceu na mesa e partiu. Era difícil se despedir e era péssima com despedidas. Seguiu pensando no que a amiga havia lhe dito.

Paris era linda. À noite, era linda demais. Não fossem as luzes e a Torre Eiffeil, ainda haveriam as alamedas de Saint Germain dês Pres, que faziam toda a noite ficar ainda mais bonita. O movimento dos Cafés, o vai e vem na Pont Du Celestine, La Vie Em Rose tocada em cada esquina, o som do acordeon. Caminhou bastante até chegar ao apartamento que estava ocupando no terceiro andar da Avenue Caprie.
Quando entrou, jogou por sobre a mesa o envelope e foi refrescar-se. Trocou de roupa, ligou a televisão instalada à frente de sua cama, abriu uma garrafa de água, tomou-a até a metade e jogou-se por sobre os travesseiros. O canal vinte e cinco falava algo sobre Sarkozy e sua belíssima Carla Bruni. Adormeceu antes de ver tudo o que estava dentro daquele envelope.....

FIC - DECISÕES - CAPÍTULO 3



” EXISTEM APENAS DOIS MODOS DE VIVER A VIDA: UM É COMO SE NADA FOSSE MILAGRE; O OUTRO É COMO SE TUDO FOSSE UM MILAGRE. EU ACREDITO NO ÚLTIMO!”

(Albert Einstein)




Ele tinha que manter-se concentrado. Precisava providenciar todas aquelas coisas acreditando que ela sobreviveria. A primeira coisa a fazer seria um contato com o responsável pelo Hospital onde ela estava sendo atendida. Para falar a verdade estava meio perdido. Quem fazia estas coisas era JJ. Desde que ela havia sido transferida todas estas formalidades estavam sendo divididas entre ele e Penélope Garcia. Mas naquele momento ele não podia contar com nenhuma das duas. Enquanto dirigia até o Hospital, entoava como um mantra o desejo de que ela sobrevivesse.

- Ela vai ficar bem! – Repetia e repetia a frase inúmeras vezes até que ela parecesse necessária ser ouvida para que pudesse respirar.
- Ela vai ficar bem! – Sentiu um arrepio. Era a mesma frase que repetia enquanto percorria o caminho de sua casa, no fatídico dia em que ouviu a única mulher que amara até então, morrer enquanto dirigia para salvá-la.

Precisava de um milagre. Ela estava tão ferida e parecia tão frágil. A imagem de Morgan ajoelhado ao lado dela não lhe saía da cabeça. Precisava acreditar em milagres. E ele não acreditava em milagres. Aquilo não estava acontecendo. Não de novo.

- Isto não vai se repetir. Ela vai ficar bem! – E enquanto dobrava esquinas e fazia ultrapassagens, pedia àquele a quem sempre recorria para que protegesse Emily e não permitisse que ela se fosse ainda.
Lembrou-se que, no afã de resolver aquela situação, havia deixado Rossi e toda a sua equipe para trás sem qualquer explicação. Bem, eles encontrariam uma outra forma de chegar ao hospital. As explicações ele deixaria para depois.
Quando encostou a SUV preta no estacionamento superior do Hospital Geral de Boston, seu telefone tocou.

- Ela deu entrada com vida, Hotch. Eles estão fazendo o possível. O estado é muito grave, mas estável. Mas meu acesso é limitado. 

Com um suspiro aliviado, agradeceu intimamente pela notícia não ser pior do que já era.

- Isto já é alguma coisa. Já estou aqui. Estou indo falar com o diretor geral. Pedir para que ela seja atendida sob sigilo.
- Você quer que eu me junte a você?
- Não, fique próxima dela. Me ponha ao par de toda informação. Algum médico te disse mais alguma coisa?
- Não, nada além de me mandarem aguardar.
- Ela te disse alguma coisa na ambulância?
- Não, a consciência dela parecia ir e voltar, não sei se ela me reconheceu.
- Certo, estou entrando, me ligue assim que souber de algo.
- Hotch!
- Fale....
- .....Estou com medo!
- Eu também, JJ, eu também...Eu...
- Como?
- ... não posso perdê-la!
Ele apenas completou a frase em pensamento.
- Reze, apenas reze.

Após uma hora e meia de negociação com a direção do Hospital e arranjos administrativos, ele juntara-se ao grupo na sala de espera. Seus companheiros não ousaram questionar onde ele estivera por tanto tempo e ele não deu-se ao trabalho de arranjar uma desculpa. Apenas sentou-se em uma poltrona e permaneceu calado em companhia de outros tantos silêncios.

Passaram-se nove longas horas com ela em cirurgia e sem qualquer informação adicional. Jenniffer Jareau ligava esporadicamente para ele apenas para dizer que ainda não havia nada a dizer. Vez por outra alguém mudava de posição, suspirava fundo, enxugava lágrimas furtivas. Ninguém tinha disposição para conversar. De forma velada, cada um à sua maneira, passava em revista os últimos acontecimentos, seus medos, seus temores. Assustava a possibilidade da perda de alguém tão querido, assustava mais como de repente a morte lhes parecera tão presente, tão próxima.

Faziam isto dezenas de vezes em um ano, presenciavam olhares incrédulos, vazios, a falta de palavras, o choro compulsivo, a negação. Sabiam o quanto a morte trazia dor aos que ficavam, àqueles a quem era comunicada a perda, mas novamente aquela dor ameaçava a eles próprios. Todos ali haviam, de uma forma ou de outra, perdido pessoas que amavam, que lhes eram caras, mas aquilo era diferente. Fora com Emily, mas poderia ter sido com qualquer um deles. Quantos naquele grupo poderiam dar-se ao luxo de deitar-se em suas camas certos de que não havia na noite escura qualquer alma desejosa de vingança, seres cuja existência seria dedicada a torturar e matar aqueles que o haviam capturado. Nunca haviam se sentido tão frágeis. Logo agora, quando eles achavam que as feridas que Foyet havia aberto em Hotch e sua equipe estavam cicatrizando.


As lágrimas escorriam silenciosas pela face de Penélope e enquanto o braço vigoroso de Derek a amparava, ela não podia deixar de pensar nos inúmeros recados que havia deixado, espalhados por todos os seus números de telefone. Não tinha certeza se ela ouvira qualquer um deles, mas agora gostaria de pensar que sim. Sua menina, em seus momentos mais difíceis precisava saber que sua família não a abandonaria. Não queria pensar que ela poderia ter enfrentado tudo aquilo achando que estaria sozinha. Vieram-lhe à mente os momentos em que ela própria fora baleada e a horrível sensação de abandono, aqueles infinitos instantes em que você acredita que, por mais que pudesse gritar muito, muito alto, ninguém no mundo poderia ouví-la. E que maldade seria se sua última imagem fosse a de seu algoz. Aquele homem horrível que tanto a tinha maltratado. Às vezes, quando os pensamentos se tornavam muito dolorosos, suas lágrimas vinham acompanhadas de uns poucos soluços e um chiado curto, que logo procurava controlar quando sentia a mão grande, mas incrivelmente suave, do jovem negro em seu rosto a amparar o líquido que escapava de seus olhos.

A maturidade e a experiência não traziam conforto a um Rossi visivelmente abatido, mais do que fosse provável esperar. Todos estes anos não haviam lhe preparado o suficiente para a perda de uma vida de forma tão estúpida. Por mais óbvio que fosse o perfil de Emily, era difícil crer que ela se pusera em risco para poupá-los. Não que fosse difícil prever tal comportamento. Difícil era aceitá-lo. Passou em revista os momentos de pura alegria da agente morena e cheia de vida, que arejava o ambiente de trabalho com seus comentários inusitados e suas brincadeiras às vezes fora de hora. Lembrou-se do quão desconcertada ele a deixou, junto com seus amigos, quando os pegou traçando seu perfil a partir de uma sala semi pintada e um quadro de alto valor, entre seus pertences de recém chegado. Recordou da dolorosa conversa sobre o aborto da amiga, das horas difíceis que foram aquelas durante um caso tão pessoal. Foi inevitável também dirigir um olhar ao seu amigo, um misto de piedade e lamento, por saber o que ela significava para ele. O jeito sisudo e quase arrogante dele escondia um pedido de socorro pungente, uma urgência em ser feliz, que ele não sabia como lidar, visto que dizer que a amava era coisa impensável para o chefe da unidade. Quanto desperdício! Se houvesse alguma espécie de justiça divina, aquela não deveria ser a hora de sua amiga. 

Percebeu a menina que estava decidido a treinar sentada ao seu lado, olhar assustado, mais pelo inesperado da situação do que pelo vínculo com a agente Emily Prentiss. De certa forma sentiu alívio, pois ali não haveria sofrimento real, ela não fazia parte ainda daquela grande família.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo toque discreto do celular de Aaron Hotchner.
- JJ? – A voz de Rossi ecoou mais forte do que ele gostaria.
Ele olhou o visor e fez um sinal negativo com a cabeça.
- Não, do escritório. Com licença.
Em seguida levantou-se e dirigiu-se ao corredor lateral, que dava acesso à saída.

Seu coração pareceu parar de bater naquele instante. Sabia o que o aguardava do outro lado da linha, um recomeço ou o fim de tudo. Se tivesse opção, talvez não tivesse atendido. Não sabia se poderia se sustentar sobre as próprias pernas se a tivesse perdido.

- A cirurgia acabou. Ela está estável. Os danos foram contidos e ela deverá ter uma boa recuperação. O médico disse que as próximas quarenta e oito horas serão decisivas, mas ele não acredita que ela tenha dificuldades. 

Todas aquelas palavras foram ditas entre lágrimas e soluços vindos de uma amiga emocionada e aliviada. Todas aquelas palavras foram ouvidas sem que ele movesse um único músculo do rosto. Embora sentisse suas pernas moles e seu estômago em frangalhos e sua única vontade neste momento fosse a de soluçar como JJ fazia do outro lado da linha, ele tinha que se manter focado. De seu comportamento dependia a credibilidade de tudo o que viria a seguir. Ele nunca se sentira mais feliz na vida do que com que o ouvira agora, mas para ele, tudo aquilo estava apenas começando.

- O médico vai assinar o atestado de óbito e transferí-la para a unidade de terapia intensiva já com o novo nome, seguindo sua recomendação. Só dois enfermeiros e o anestesista, além do próprio médico vão saber o que aconteceu. E eles já foram instruídos pelo diretor do hospital a assinar o acordo de confidenciabilidade. Não sei que pauzinhos você mexeu, mas já chegou aqui uma agente que vai se passar por enfermeira e ficará com ela até que ela tenha alta. 

Aos poucos, ele foi processando toda a informação. Parecia um filme de enredo ruim cuja exibição ele gostaria de interromper.

- Ela deve acordar da anestesia a qualquer momento. Vou esperar para conversar com ela. Feito isto, deveremos dizer a eles......
De forma inconsciente ele olhou pelo vidro e fitou seus amigos. Aquilo seria difícil....
- Hotch, não há mesmo outra opção? Bem, sabe, isto irá destruí-los....

Ele sabia....

Quando olhou para Reid, que não conseguira articular qualquer palavra desde que chegara àquela sala, ou Garcia cujas lágrimas não paravam de escorrer pelo rosto, sentiu uma vontade desesperada de mudar de idéia.

- Não há outra forma, JJ. Faça o que tem que fazer. Nós não estamos em posição de escolher...
- Você tem razão. A segurança dela está em primeiro lugar.
- A deles também. Lembre-a disto.
Ele olhou novamente pelo vidro da divisória. Refletiu um instante se deveria ou não dizer mais alguma coisa.
- Diga também a ela... que eu sinto muito. Diga que nós vamos pegar o desgraçado e que ela vai voltar a ter uma vida normal.

Houve um silêncio mútuo. Ela não ousou perguntar por aquilo que parecia evidente ele querer dizer.

- Hotch...
- Diga também que ela não vai estar sozinha... Que quando for seguro, faremos contato. Que vamos providenciar o necessário para que ela fique confortável. E...
- Sim?
- Só JJ. Você sabe tudo o que deve dizer. Eu fico te aguardando junto ao grupo. E... JJ... Obrigado! Eu sei que para você isto também não será fácil. Mas tenha em mente que será o melhor para ela.

E ele desligou, cheio de outras coisas em mente para dizer à Emily Prentiss. Desligou sem ter a certeza de que todas essas coisas seriam ditas um dia. Desligou arrependido por ter esperado tanto, por ter tido receio de arriscar, por ter sido tão covarde. Por ter, como sempre, colocado a razão à frente da emoção. Gostaria muito de crer que um dia, todas aquelas palavras presas em sua garganta seriam ditas a ela, que deixaria de lado o que os outros iriam pensar, o que iriam dizer, o seu trabalho e a sua culpa e iria arriscar-se com a agente morena de sorriso largo e olhos de pérola negra de quem ele nunca se esquecera mesmo depois de tantos anos. Olhos que o miraram do topo de uma escada há tanto tempo atrás que ele quase não se lembrava ter sido nesta vida. Olhos que buscavam uma reciprocidade que ele não podia oferecer, que tentavam uma chance que ele não podia dar. Olhos que o fizeram sentir-se culpado por pensar neles tão intensamente, tendo ao seu lado na cama a mulher com quem se casara e com quem tinha responsabilidades.

Responsabilidade. Era o que se esperava dele. Ele precisava manter-se focado e voltar para seus amigos. Logo uma notícia iria atingí-los de frente e ele precisava estar por perto. Ele assistiria calado ao sofrimento que iria se abater sobre o time, iria presenciar a dor alastrar-se e nada poderia fazer para amenizar aquele sentimento de qualquer um deles. Esse seria o seu papel. Como sempre. O de manter-se com os pés no chão enquanto tudo ocorria à sua volta. Enquanto seus amigos esmurravam portas, cobriam-se de lágrimas ou lamentavam-se da forma naturalmente esperada, era sempre ele que mantinha o rosto impassível, o tom de voz equilibrado, o raciocínio coerente. Era ele quem engolia as lágrimas, abafava os gritos e que, muitas vezes por isso, era julgado insensível. Foram poucas as ocasiões em que deixara a emoção interferir em seus julgamentos e suas atitudes. Agora não seria uma delas. Ele estaria ali para eles, mas sabia o quanto aquilo seria difícil.
Respirou fundo, voltou para a saleta onde os outros se encontravam e sentou-se. Agradeceu em silêncio pelo milagre em que ele não acreditava. Ou talvez agora acreditasse.

Então, só restava esperar.

FIC - DECISÕES - CAPÍTULO 2





"NADA É MAIS DIFÍCIL, E POR ISSO MAIS PRECIOSO, DO QUE SER CAPAZ DE DECIDIR.”

( Napoleão Bonaparte )





Foi a visão mais difícil que ele podia pensar em ter. Ela parecia estar um trapo. Ferida, sangrando, sofrendo, mas era Morgan quem tinha as mãos dela entre as suas. Queria se aproximar, afastá-lo dela, tomar suas mãos nas dele, dizer o quanto a amava e o quanto sentia por tudo aquilo. Mas não podia. O tempo era definitivo, e de seu aproveitamento surgiriam suas conseqüências.

Enquanto se aproximava a equipe de resgate, que lhe aplicava os essenciais primeiros socorros, buscou JJ com os olhos. Precisava falar com ela. Quando teve oportunidade, pegou-lhe pelo braço, já que relutava em se afastar da amiga, de acompanhar o desenrolar dos fatos.
- Lá fora, JJ. Agora.

Ela não entendeu porque qualquer coisa naquele momento poderia ser mais importante do que saber como sua amiga estava reagindo a todo o sofrimento. Mas era Hotch a lhe chamar. Ela sabia que devia ser algo muito importante.

Ele só teve alguns minutos e um coração dilacerado para decidir o que seria melhor para Emily, caso ela pudesse resistir. Certificou-se de que estavam a sós.
- Hotch, isto não pode esperar? Quero ficar perto dela!
- Não, JJ, não pode. E eu também quero você perto dela. É exatamente isto!
A moça olhou confusa para ele. Sempre desconfiou do quanto Emily significava para seu antigo chefe. Haviam rumores, palpites e fofocas sobre seus sentimentos pela agente morena que ele observava com olhares discretos, mas sempre mais demorados e que terminavam geralmente num desviar de olhos encabulado e uma frase de efeito. Se ele havia se apaixonado por ela, jamais iria admitir, mas isso não impedia que os demais percebessem o efeito que ela provocava nele.
- Doyle escapou...
- Eu percebi, mas acho que podemos nos focar nisto depois, Hotch....

- Não há depois JJ. Se ela sobreviver e ele souber disto, virá atrás dela novamente! Não sei se podemos pegá-lo antes de.....ele tentar matá-la de novo.....
- E....?
- E que eu quero garantir que ela desapareça por um tempo caso ela sobreviva. Quero você perto dela o tempo todo. Vou providenciar para que você tenha acesso a ela, caso ela fique consciente. Quero que explique a ela o que vai acontecer..... Nós diremos que ela está morta. Ninguém além de nós saberá! Isso nos garantirá tempo para capturá-lo definitivamente.
- Nós nem sabemos....
- Ela vai resistir, JJ. É a nossa Emily. Ela vai resistir! Tenha fé. E quando isto acontecer, quero você lá para explicar a ela a minha decisão. Ela não vai gostar, vai querer fazer as coisas da maneira dela e isto não pode acontecer. Ela vai te ouvir. Diga a ela que isto irá proteger a equipe, Garcia, Reid, Morgan... Isto a fará mudar de idéia......
- Não sei se entendi, você quer dizer a todos que Emily morreu?
- Só vai funcionar se for assim, JJ. De outra forma nós vamos colocá-la em risco.
- Isso vai matar todos eles....
- Eu sei....Eu sei....
- Hotch, deve haver outra forma......
- JJ, vá com ela na ambulância. Eles já estão saindo. Eu confio em você. Eu faço o resto. Tenho contatos, vou providenciar tudo o que for necessário. Diga a ela que será por pouco tempo. Eu juro, será por muito pouco tempo.

Suas mãos apertadas junto ao corpo se contraiam tanto que JJ pensou que ele iria se ferir com os próprios dedos. Ela sentiu pena dele. Sabia o que tal decisão acarretaria. Sentiu pena daquele homem que parecia que nunca na vida iria parar de sofrer.

- Vá com ela!
- Você quer... – ela não sabia bem como perguntar aquilo - ...quer que eu diga algo para ela? Quer dizer, você tem mais alguma coisa para dizer..... – JJ atrapalhou-se um pouco, estava invadindo um terreno perigoso.

- Não, vá. Eu te ligo. Vou te colocando ao par. Me avise assim que tiver um parecer médico. E.... JJ: ninguém, certo, ninguém, família, amigos ou não, somente eu e você deveremos saber como as coisas vão acontecer...
- Certo. Eu entendi. Vou indo....
Ela afastou-se um pouco e correu em direção à maca que estava sendo encaminhada à ambulância.
- JJ.....
Ela olhou para trás e o inquiriu com certa urgência.
-Nada, nada não..... Vá!

E Jennifer Jareau deixou para trás um homem devastado pelo fatos, mas, que ainda assim, procurava se manter profissional o suficiente para garantir que sua agente ficasse protegida. Era uma decisão arriscada a dele, ela sabia que se Emily resistisse a tantos ferimentos e sobrevivesse, iria protestar, contestar a decisão. Ainda assim, havia primeiro a necessidade de crer que ela resistiria. Isto agora, era o mais importante. E com este pensamento, entrou na ambulância que as levou à Emergência do Hospital Geral de Boston.


A consciência ia e voltava. Ouviu Morgan falando com ela, pedindo que resistisse. Pediu a ele que a deixasse partir. Estava tão cansada. Não era mentira. Estava exausta e o mais próximo do descanso para ela naquele momento era morrer. Tudo doía. Os sons iam e vinham. Achou que seria JJ com ela na ambulância. Devia estar delirando. JJ estava em Washington naquele momento. Não podia estar ali com ela. Havia tanto barulho e claridade. Será que não podiam apagar tudo aquilo? O que era aquele homem com fios em seu peito, gritando alguma coisa para outra pessoa? Haviam momentos de paz. Em que os ruídos cessavam e as luzes se apagavam. Eram bons momentos. Mas logo então começava tudo de novo.


Alguém dizia alguma coisa enquanto o carro onde estava dava solavancos, mas ela queria convencer-se de que havia feito a coisa certa. Deus, ela amava aquela família e poupá-los era um preço baixo a pagar se comparado a vê-los passar pelo que ela estava passando. E também havia Declan.... era bom saber que ele estava protegido, longe da influência de Doyle. Sim, tinha valido a pena.
Enquanto as pessoas à sua volta se debatiam e gritavam coisas que para ela não tinham sentido, uma lágrima veio aos olhos quando lembrou-se da mensagem de Penélope. Ela os queria longe de Doyle e eles a estavam procurando. Embora ela não pudesse esperar nada menos do que isto de sua equipe, lamentou tanto trabalho por nada. Sentia-se cansada demais para imaginar o sem número de explicações que teria que dar aos seus companheiros quando estivesse em condições. Deus, eles iriam ficar bravos com ela! E como! E mesmo sabendo que fez o que fez achando ser o melhor, não tinha certeza de que seus amigos veriam as coisas desta forma.
Era mesmo JJ ao lado dela na maca? Ela estava tentando lhe dizer algo? Se aquele paramédico parasse um pouco de dizer tantos números ao seu companheiro, ela talvez pudesse ter certeza de que JJ estava mesmo ali. As imagens iam e vinham. De repente sentiu um peso enorme no peito, como se lhe tivessem aplicado um choque. Sim, ela não estava delirando. Era JJ ao lado dela. Ela dizia coisas que não conseguia entender. Como sua amiga fora parar ali? Hotch podia ter ligado para ela. Hotch. O agente especial Aaron Hotchner. Aquele homem por quem vivera uma vida de espera. Seu grande arrependimento. As coisas que deveria ter-lhe dito. As coisas que deveria ter arriscado. Doyle..... Será que eles entenderiam que nunca foi amor? Será que eles entenderiam que foi pela missão... Ou talvez porque o homem que amava e não lhe saía da cabeça nunca seria seu. Agora, tanto fazia.






Viver com as conseqüências de suas decisões nunca havia sido difícil até que suas decisões afetassem as pessoas que amava. Pensando bem, seria bom se as pessoas com quem trabalhasse fossem apenas colegas com quem trocasse cartões de Natal. Não haveria tanto sofrimento. Não haveria envolvimento. Não haveria dor.
Num movimento meio sem consciência moveu sua mão direita até seu abdômen e sentiu o líquido quente e grudento espalhar-se por entre seus dedos. Vira sangue inúmeras vezes nas vítimas dos casos em que trabalhara, mas nunca o sentira de fato. Agora, aqui, sem luvas, na carne exposta, aquilo lhe parecia mais real do que gostaria que fosse. Um momento de paz e então agora parecia estar numa mesa, numa sala qualquer de hospital. Haviam muito mais pessoas à sua volta e ela só queria dormir.
Aos poucos, todas as coisas à sua volta pareceram estar se findando, os ruídos pareciam remotos, as luzes pareciam mais fracas, as vozes pareciam mais distantes. Se isso era morrer, talvez não fosse assim tão ruim. Não queria pensar nas coisas tristes, então não pensou em seus amigos chorando, lamentando sua morte. Tentou afastar de sua mente a imagem de Reid inconformado, de Morgan revoltado ou de Penélope inconsolável. Procurou se lembrar daquela tarde nas escadas da casa de verão de sua mãe, onde viu um certo agente de terno escuro e olhos brilhantes, que se esquivava dos seus olhares e cheio de responsabilidade ignorava a forma furtiva como era observado. Era aquela a imagem que queria manter viva como sendo a sua última. A imagem do único homem que amou de verdade. E por quem valeria a pena morrer.
E não pôde se lembrar de nada mais......