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terça-feira, 2 de abril de 2013

FIC - ETERNO - Capítulo 2





"PARA QUEM AMA, NÃO SERÁ A AUSÊNCIA A MAIS CERTA, A MAIS EFICAZ, A MAIS INTENSA, A MAIS INDESTRUTÍVEL, A MAIS FIEL DAS PRESENÇAS?"
 
Marcel Proust


- Puxa, foi uma coisa tão emocionante, JJ certamente não esperava por tudo aquilo, foi uma cerimônia linda de se assistir, imagine para ela, que foi pega de surpresa! E a casa de David Rossi, nossa, que coisa mais incrível, aquele jardim, as flores.... Tudo estava tão lindo.....

Ele não conseguia acompanhar nada do que Beth estava dizendo. Ainda sentia o perfume dela, se lembrava do sorriso dela, ouvia o silêncio dela. Segurava o volante com as mesmas mãos que enlaçaram seu corpo horas antes. O corpo quente, macio. E fechava a mão em torno do volante roliço, como se conseguisse manter na memoria a maciez daquela mão. Até então, Emily Prentiss sempre fora um desejo inatingível, uma compulsão não permitida, que existia apenas entre todas aquelas outras coisas que desejava ter tido, ter sido, e não tivera, tampouco fora. 

Para seu infortúnio ou sua sorte, Jack demonstrara sinais de cansaço logo após dançarem e foi a deixa para, em seguida, irem embora. Seu filho adormecera em um sofá da sala de David e foi Penélope, saindo do toalete que avisou o pai que o filho pegara no sono. David chegou a oferecer para que o menino ficasse melhor acomodado em um quarto, mas para ele, a melhor das alternativas era encerrar por ali uma noite que tivera momentos para lá de perfeitos. E, na certeza de que não poderia prolongar a perfeição, era melhor apenas não alimentá-la. 

- Aaron.... O farol abriu.... - Ela elevou a voz  -  Aaron, o farol!

Ele engatou a marcha e atravessou o cruzamento. O pensamento distante. O perfume de Emily...

- Está tudo bem?


- Está, sou estou cansado, foi um final de semana e tanto.


- Jack está dormindo pesado. Acho que você vai escapar de dormir debaixo da mesa da sala esta noite... – Ela riu sua risada mais gostosa e de forma ainda meio divertida perguntou:  - Por que está virando aqui? Não vamos para sua casa?

Ele havia esquecido. Sequer passara pela sua cabeça. O carro dela estava em sua casa. Quando Jack pediu para que ela passasse a noite com eles, sentiu certo alívio. Era muito ruim em sua idade ter encontros furtivos, esperar o filho dormir para ter sexo, fazer sua namorada sair antes do seu menino acordar. Beth tinha sido definitivamente uma coisa boa em sua vida. Ela era uma companhia divertida, brincalhona, tinha paciência com seu filho e ele havia finalmente descoberto que não precisava ser infeliz a vida toda. Ele, apesar de encher-se de culpa, sentia-se bem ao lado dela. Tomara muito cuidado para não precipitar as coisas com Jack, depois de tudo o que o menino sofrera com a perda da mãe, mas não dava para empurrar seu filho para sua cunhada toda vez que queria dormir com sua namorada. Afinal, ele não estava perdidamente apaixonado, mas era bom levar uma vida mais ou menos normal de vez em quando, ter algo para lhe distrair dos tão escuros momentos de sua vida, mesmo que Beth nunca fosse ser Emily...

- Claro, você tem razão, havia esquecido...Me desculpe....

- Hotchner, tudo isto é só cansaço? Ou há algum outro problema?

Ele ainda estranhava ser chamado assim. Ela nunca usava seu primeiro nome. Sequer usava a habitual abreviatura de seu sobrenome. Sempre Hotchner. Tão diferente do tão costumeiro Aaron que passara anos ouvindo Haley dizer... No começo ele achou engraçado. Depois, deixou de se importar. 

- Claro, por que a pergunta?

- Não sei bem, você saiu diferente da festa, há alguma coisa lhe incomodando? 

Ele poderia passar horas explicando a ela que o incomodava ter desperdiçado sua vida, que fizera tantas escolhas erradas que não sabia bem por onde começar para consertar, que sua consciência doía toda a vez que fazia amor com ela  pensando em outra mulher, que se achava um sujeito aproveitador, usando-a para satisfazer seus anseios, desejando alguém que não ela, tão boa criatura, que não merecia tamanha desonestidade. Deveria ser honrado e dizer sinceramente o quão maravilhoso era ter alguém que lhe fizesse tão bem, mas que, em seu íntimo, não era ela a mulher que amava. Canalha. Era como ele se sentia. Um covarde. Um homem de sua idade vivendo uma vida de faz de conta, temendo em suas noites ao lado dela chamar pelo nome errado, no auge do prazer gritar por um nome que não fosse o da mulher que partilhava sua cama.... Sentiu a mão pequena e quente tocar sua coxa, e quase envergonhou-se por gostar de sentir o calor que subia pela virilha. Ela não era Emily, nunca seria, mas esta escolha ele tinha feito há algum tempo, era tarde demais para lamentar-se. Ele percebeu a mão subindo e descendo sobre o tecido de gabardine escura em sua perna e seu corpo reagiu, sem qualquer pudor ou honestidade.

- Não, não há nada me incomodando.... Só.... Como eu disse, foi um longo final de semana... E, você tem razão, a cerimônia foi linda...

Ele trocou a marcha e aproveitou para colocar sua mão direita por sobre a mão de Beth em sua perna. Apesar da reação natural de seu corpo, ele não conseguia deixar de pensar naqueles poucos minutos dançando com Emily. 

- Beth...

- Você quer que eu pare?

- Vamos chegar em casa, sim?

Conformada, ela subiu vagarosamente a mão, permitindo-se brincar com cada centímetro de tecido encontrado pelo caminho até o braço, até alcançar sua nuca e perder seus dedos nos cabelos curtos dele, acariciando-o sutilmente, até pousar sua mão em seu ombro direito.

- David Rossi está dormindo com sua chefe?

- Como?

- David Rossi... Erin Strauss, é o nome dela, não é? Eles tem um caso?

- Como vou saber Beth? Não pergunto ao David com quem ele dorme... Por que você acha isto?

- O jeito como eles se olham... Uma mulher sabe... Tenho certeza que eles têm algo...

Ele sentiu-se intimidado pelo comentário. Ela saberia como ele olhava para Emily Prentiss? Ela teria percebido alguma coisa? Ele só queria chegar logo em casa. Era tudo o que queria. 

- Como assim, uma mulher sabe? Só por que dançaram juntos...

- Não, da forma como dançaram juntos...

- Você dançou com vários dos meus colegas esta noite e nem por isto eu vou achar que você está interessada em algum deles....

- Hotchner, você pode ser ótimo profiler para pegar bandidos, mas em termos de romance, você não entende nada.... ou faz que não entende....

Quando estacionou na vaga de garagem de seu edifício, não deixou tempo livre para mais comentários. Ela estava tentando dizer alguma coisa ou era sua consciência? Antes que ela pudesse desatar o cinto de segurança, ele já abrira a porta de trás do carro e  tomara o corpo exausto de seu filho em seu colo, cuidadosa e silenciosamente. Ela buscou em seu bolso a chave da porta e a abriu sem muito alarde. Ele ouviu-a perguntar baixinho se precisava de ajuda e balançou a cabeça negativamente. Foi direto para o quarto de Jack e na penumbra puxou a colcha que cobria a pequena cama. Seu filho, dormindo pesado, nem percebeu o pai a trocar-lhe as vestes de festa por um confortável pijama e lhe acomodar de forma aconchegante entre as cobertas forradas de estampas do Superman. Hotch ficou uns minutos a olhar para seu menino e em um instante foi inundado por inúmeras lembranças. Haley, as aulas de teatro, o seu casamento, seu menino sentindo falta de sua mãe,  as brincadeiras de Jack  com Beth no parque....

- Acha que ele vai dormir direto? - A voz vinha da porta, por trás dele, era baixa e curiosa.


- Acho que sim, ele está cansado, é tarde e ele brincou muito. – Hotch pousou carinhosamente um beijo na testa de Jack e afastou-se silenciosamente. - Venha, vamos nos deitar.

Já em seu quarto, Hotch sentou-se à beira da cama e pôs a cabeça entre as mãos. Estava cansado, confuso, frustrado. Ainda podia sentir o perfume dela no ar. A pequena mão parecia ainda estar entre seus dedos. Um encontro. Ela havia pedido um encontro. Que diabos ele achava que poderia acontecer?  Um encontro. Ele precisava pensar sobre isto. Precisava preparar-se para ouvi-la e ajudá-la no que fosse preciso, sem deixar transparecer seus sentimentos, sem fazer papel de bobo.

- Você não vai mudar de roupa para deitar-se? 

Ele deu-se conta de que ela saíra do banheiro vestindo uma camiseta branca e uma calcinha minúscula.

Beth ajoelhou-se atrás dele sobre a cama. Os braços dela o envolviam e se espalhavam por toda a parte. Lábios quentes percorriam seu pescoço e a língua brincava com o lóbulo de sua orelha. Ele levantou-se enquanto ainda tinha domínio de seu corpo.

- Volto já!

- Eu não vou a lugar algum...

Ele ergueu-se lentamente guiando-se apenas pela claridade vinda da janela, apanhou um par de roupas limpas na primeira gaveta da cômoda e seguiu para o banheiro. Fechou a porta e encostou-se nela. Vislumbrou seu rosto no espelho instalado na parede oposta e teve vergonha em mirar-se nele. Seu corpo precisava de sexo. Mas não era com Beth que ele iria fazer amor nesta noite. Em quase nenhuma noite era, mas hoje seria diferente. Indecentemente diferente. Ele daria tudo para ao abrir seus olhos ver Emily sob seu corpo faminto. Ele precisava fazer apenas tudo como sempre fazia, apenas não podia dizer o nome errado... Era tudo tão.... como sempre....

Deus, aquilo precisava ter um fim. Ele não tinha a menor ideia sobre o que Emily queria falar com ele no dia seguinte. Mas uma ideia se formava sobre o que ele queria falar com ela. Ele precisava pensar sobre tudo aquilo. Mas, certamente, aquele não era o melhor momento para isto. 

Após terminar tudo o que fora fazer no banheiro, voltou para a cama e enfiou-se embaixo dos lençóis. Não demorou para que as mãos ávidas de Beth explorassem seu corpo como se fossem propriedade de direito. Ele virou-se e a abraçou carinhosamente, mas cheio de fome. Seus lábios estavam por toda a parte, e não demorou para que seu corpo reagisse como o esperado. Quando ele a penetrou, podia jurar que tentou manter-se honesto, mas sabia, bem lá no fundo, no pouco de razão que lhe sobrava, que estava fazendo amor com a mulher com quem partilhara um silêncio eterno naquela noite. Mais do que todas as noites, por tantos anos em sua vida, aquela noite, era Emily chamando por seu nome, não importava o quanto a razão lhe negasse a verdade.

Ambos alcançaram o prazer que buscavam. Ele só conseguia pensar no quanto estava sendo egoísta.

Ela só conseguia pensar por quanto tempo mais ela teria paciência. Afinal, ela nunca seria Emily....

**************************

Emily foi uma das últimas pessoas a sair da casa de David Rossi, como se quisesse aproveitar todos aqueles momentos o máximo que fosse possível. Graças a Deus tinha amigos incrivelmente divertidos. Dançar várias vezes com Reid, Kevin, Morgan e até com Rossi aplacou um pouco a dor de ver com seus próprios olhos aquilo que se recusava a crer. O homem que amara desde sempre estava formando uma nova família, estava feliz, e não era ela, novamente, a responsável por isto. Se por um lado ficava feliz por vê-lo bem disposto e mais amigável, por outro doía demais e ela estava cansada de sentir dor. Tudo o que passou com Doyle, ter suas feridas e seu passado expostos e escancarados, o exílio, o luto dos amigos, as explicações em sua volta, tudo aquilo sugara dela o que ela sempre tivera de melhor: sua capacidade de sobreviver a tudo, de superar, cedo aprendida pela necessidade de se adaptar a uma vida quase cigana, sem raízes profundas, à mercê do desejo de seus pais.

Não tinha mais vinte anos, não bastava mais um corte de cabelo rebelde, fumar escondido, afrontar e desafiar. Foi-se o tempo em que bater de frente era a solução para todos os seus problemas, ainda que criasse outros ainda maiores por isto. Estava cansada. Era hora de render-se e aceitar que morrera no dia em que Doyle a feriu. Com ela para Paris, partiu a confiança que seus melhores amigos tinham nela, partiu a estória que havia consolidado na Unidade de Análise Comportamental, partiu tudo o que havia pouco a pouco construído para aproximar-se de Aaron, sendo a presença discreta que o apoiava, quando ele nem sabia ao certo que precisava de apoio.

Ela tirou os sapatos de salto alto, atirou o vestido na poltrona ao lado da janela do quarto e jogou-se na cama. Sérgio enroscou-se nela, como festejando sua volta ao lar.

- Então, amigo, o  que você acha de Londres? Um recomeço, novas oportunidades profissionais, quem sabe um novo amor. Gatos tem problemas com fuso horário? Não, aposto que não. O que você acha da ideia?

O gato continuou a enroscar-se nela mais e mais em troca dos carinhos que ela lhe fazia. A proposta de Clyde era realmente irrecusável e vinha no mais oportuno dos momentos. E Londres não era exatamente do outro lado do planeta. Bem, mais ou menos. Mas não era exatamente disto que se tratava? De distanciar-se?  De criar uma segunda chance? David havia lhe advertido para que pesasse tudo com calma e ouvisse seu coração. Era disto que se tratava. Seu coração lhe dizia para sair correndo dali porque não iria sobreviver de sonhos. Não poderia trabalhar diariamente com o homem de sua vida, ali, tão ao seu alcance e tão distante. Bastava. Bastava de interpretar como esperança cada sorriso discreto, cada aceno gentil, cada frase educada, como a que ele lhe dissera naquela noite. Bastava. Pela manhã, ela comunicaria a ele seu afastamento. Nada a faria voltar atrás.

Mas, até lá, sonharia com o abrigo daqueles braços, onde poderia viver uma vida inteira. Até lá, dançaria em seus sonhos a noite toda e ouviria mil vezes ele dizer a ela em tom baixo que ela estava linda ou algo assim. Faria amor com ele, como em quase todas as noites acontecia nos seus sonhos acordada. Enquanto não amanhecesse ele seria dela, seus lábios murmurariam coisas sem sentido algum, sua pele arderia sob o seu toque e no momento certo, ela gritaria seu nome. Até o amanhecer, ela se perderia no silêncio daquele momento tão perfeito que deveria ser eterno. Só até o amanhecer....

domingo, 10 de março de 2013

FIC - ETERNO - CAPÍTULO 1



“ETERNO É TUDO AQUILO QUE DURA UMA FRAÇÃO DE SEGUNDO, MAS COM TAMANHA INTENSIDADE, QUE SE ETERNIZA,  E NENHUMA FORÇA JAMAIS O RESGATA ”.

Carlos Drummond de Andrade


Ele nunca a havia tocado tão intimamente. Tampouco sentido sua respiração tão próxima.  E, no entanto, parecia conhecê-la por uma eternidade. O toque em sua pele quando lhe tomou a mão para dançar  foi o mais próximo conceito de felicidade de que se lembrava há anos. Ele pediu licença a Dave, que a tinha nos braços e quando a tocou, abriu um sorriso indisfarçável em seu rosto. Ela, radiante, lhe devolveu o sorriso e isto o fez sentir-se mais confortável.

- Não pensei que você dançasse. Você está sempre me surpreendendo!

- Apostou contra mim nisto também?                                                                                                                  
- Ora veja, você ainda não me perdoou pelo Triatlon! – Seu sorriso era encantador.

- Não é muito confortável que uma amiga não confie que você seja capaz de realizar algo pelo qual treinou tanto...

- Touché! Você tem razão, eu deveria saber que você nunca entra em nada para perder.

 Ele queria responder, mas estava perdido entre todas as sensações que surgiam por tê-la em seus braços naquele instante.

- Eu tenho amigos muito dedicados mesmo. Não é incrível o Rossi conseguir organizar uma festa destas em tão pouco tempo? E tivemos sorte! A noite está linda!

Ele sorriu timidamente para ela, a mão pequena e macia entre seus dedos, aproximou seu rosto àquela pele de marfim muito clara, os cabelos negros quase roçando em seus lábios e não pensou muito ao responder.

- Você só torna a noite ainda mais linda!

Ela sorriu de volta  meio encabulada e corou, mas não parecia totalmente desconfortável com o elogio.

Todas as vezes, desde o princípio, quisera tocá-la. Da primeira vez, tantos anos atrás, havia sido apenas  a curiosidade.  Ele conhecera poucas mulheres, casara-se com a única namorada, ela era apenas uma novidade. Uma agradável e perigosa novidade. Ela era filha de uma embaixadora a quem prestava serviço e ele, um homem casado. Mas as poucas vezes em que esbarrara com ela, aqui e ali, foram suficientes para inquietar sua mente de homem fiel à esposa. Ela era como uma lufada de ar fresco a lhe tirar o bolor  arrefecido de sua vida constante e segura. Jovem, bonita, inteligente e perigosamente livre.  De várias maneiras, muito diferente da mulher por quem se apaixonara a alguns anos atrás. E, pela primeira vez, ele a deixou partir. Ignorou seus instintos e optou pelo que era mais seguro, a coisa certa a fazer. Sem uma tentativa, sem uma investida. Provavelmente, sem que ela mesma soubesse quem ele era ou o efeito que nele provocara.

Então, destino ou casualidade, passados tantos anos, quando o brilho de seus olhos era apenas uma vaga e agradável lembrança, ela voltou. Invadiu sua sala naquela manhã de quarta feira munida de uma caixa de pertences pessoais, muita determinação e um sorriso irresistível.  Ele amou vê-la ali na sua frente e todos aqueles velhos pensamentos retornaram. Mas havia tanto em jogo... Ela parecia vinda do nada, em um momento difícil para sua equipe. Além do mais, ele agora era pai. Precisava pensar e agir como tal. Não foi de surpreender, então, que resolvesse lidar com a situação tornando-se afastado, reticente e por vezes até indelicado. Suas dúvidas quanto a sua entrada na equipe sempre se sobrepunham aos seus sentimentos mais profundos. Sim, nos primeiros dias de convivência aquela mera curiosidade já se traduzia em sentimento. Quanto mais procurava obstinadamente tratá-la apenas como mais uma funcionária, mais prestava  atenção à sua presença. Não obstante tivesse que vê-la todos os dias, soube como manter-se distante das tentações. Era um luxo ao qual não podia se dar. Por todos os motivos do mundo.

Não demorou em aprender a separar as coisas de forma exemplar. Compartimentalizar. Anos depois a ouviu dizer a mesma palavra. Mas ele também era bom nisto. E seguiu em frente, ignorando os apelos de seu coração, não alimentando qualquer esperança ou desejo. No entanto, a prova contundente da fidelidade dela, refletida na preferência em demitir-se a delatá-lo, tornou-o ainda mais vulnerável aos seus encantos. Não ajudou também seu casamento estar indo a pique, nem sua esposa deixar sua casa levando com ela seu filho.

Ele amava sua esposa. Mas ela não era há muito tempo a mulher por quem se apaixonara. Tampouco ele o mesmo homem. O desgaste de uma relação onde era cobrado constantemente, por mais que se dedicasse, o atormentava. Ele tinha cometido muitos erros. Talvez não fosse mesmo um bom marido, talvez não estivesse presente tanto quanto deveria, mas o fato é que ela não lhe dava mais apoio. E embora tenham sido meses difíceis, chegou o momento em que teve que admitir para si próprio que lhe doía mais saber que tinha falhado no casamento do que propriamente a falta que sentia de sua esposa. Sentia falta de seu filho, sim. E da comodidade de chegar em casa e encontrar sempre alguém lhe esperando, de ter uma doce companhia para a sua volta ao lar depois de um caso. Sentia falta do barulho comum e rotineiro, das mesmas perguntas que ela fazia, de pegar seu menino no colo, sem ter que pedir permissão para isso. Com o passar do tempo, passou a sentir falta até das infinitas discussões sobre sua ausência em casa em detrimento de seu trabalho.

Sozinho em sua cama, era a voz de Emily que aos poucos lhe confortava na solidão, quando ele procurava se lembrar de como ela estava vestida ou de suas conversas com outros de seus funcionários. Pouco a pouco o que era uma vaga recordação diária passou a ser um alívio para seus dias atribulados e suas solitárias noites de amargura.

As coisas só pioraram quando Haley morreu. O peso da culpa, a necessidade em adaptar-se à nova condição de pai solteiro, as dificuldades em administrar seu trabalho após um baque tão violento, tudo isto devastou sua vida. E foi ela, com seu interesse e disposição em ajudá-lo que o confortou. Desde que fora agredido por Foyet e hospitalizado ela tinha lhe sido uma companhia fiel, o que, com o correr dos eventos só se intensificou. Ele tomou todas as precauções para não confundir sua solidariedade e amizade com algo mais, pois ela continuava sendo sua subordinada e sua retidão moral gritava a plenos pulmões para manter as coisas apenas neste nível. E agora isto. Ela estava em seus braços para uma dança. Apenas uma dança.

O seu perfume o inebriava. Ele aproximou ligeiramente o seu corpo ao corpo dela e institivamente procurou por Beth à sua volta. Ela estava dançando com Reid. Relaxou um pouco e procurou aproveitar o momento. Ele sentiu a mão dela subir e descer ligeiramente em suas costas por sobre seu paletó  e procurou usar de todo o seu controle para não fazer nada inapropriado.

Havia sido um erro. Ele soube desde o princípio. Um não. Dois. Dois erros. Deixá-la partir novamente e envolver-se com outra mulher. Quando ela foi ferida e quase morreu e ele decidiu afastá-la em seu exílio em Paris ele devia tê-la procurado. Ele deveria ter posto toda a sua integridade de lado e tê-la feito saber que ele a amava. E que ele estaria a vida toda ali para ela como ela estivera para ele e mais. Deveria ter, mesmo com discrição, para não comprometer toda a operação, dito alguma coisa, feito alguma coisa, deveria... deveria....    

Ele passou boa parte de sua existência desejando ter feito coisas que nunca fez. Ele tinha um péssimo timing para estas coisas. Ele pensava demais. Era responsável demais, comprometido demais. E, como sempre, no tempo errado. Era uma péssima hora para entregar-se ao prazer deslavado de dançar com Emily. Entre seus melhores amigos, na presença de seu filho e sua nova namorada. Péssima ideia.

Apertou ligeiramente a mão dele contra a sua.  A respiração calma dela o confortava. Ela estava novamente tendo maus dias? Ela tinha pedido um encontro? Um encontro. Ele quase não pôde acreditar quando ouviu as palavras. Ele era um idiota porque ela queria conversar e ele tinha se posto à disposição. Só isto. Ele havia iniciado isto. Provavelmente a única coisa certa que havia feito até então. Mas seu tolo coração estava em pulos com o que ela havia dito.

A música lenta embalava seus corpos e  seu arrependimento. Nada naquele momento perfeito poderia ser diferente. A proximidade com o seu corpo quente como nunca antes houvera acontecido ocultava dele, mesmo que por poucos minutos, a cruel realidade dos fatos. Mesmo que ele, em um momento de ousadia, resolvesse declarar-se e dizer a ela tudo o que de fato sentia já há tanto tempo, ainda havia outro grande problema. Que ele mesmo havia arrumado para si.

Ela não disse mais nada e ele também se calou. Foi como se o silêncio entre eles conspirasse para que aqueles minutos fossem perfeitos. Eternos. Recusou-se a acreditar que a qualquer momento a dança acabaria e ele voltaria à realidade. Tentou manter na memória do breve momento seu calor, seu perfume, sua voz, o pequeno e delicioso corpo moldado em seus braços e não ousou, em momento algum, olhar-lhe nos olhos. Quando Derek Morgan aproximou-se para tirá-la dele foi como se sentisse sua vida indo embora com ela. De forma alegre e educada ela agradeceu-lhe a dança e lentamente soltou-lhe a mão, como se também não quisesse partir. 


********************************************* 


Devia ter dito algo engraçado, pois David Rossi estava rindo. Ela não saberia repetir suas palavras, pois no momento o que ela conseguia ver era o amor de sua vida dançando com outra mulher. Isso, para não mencionar o fato de que a moça era bonita, simpática e segura de si. Era muito estranho vê-lo assim, com outra em seus braços. Ela não sabia dizer ao certo se eles estavam felizes. Mas a irritava ver que aquele sorriso nunca abandonava o rosto dela.

Era para ser ela. Não outra qualquer. Ela. Mas, agora não fazia mais diferença. Ela já havia tomado sua decisão. Todo o resto era passado. Quando o convite chegou, achou absurdo. Deixar sua equipe para trás. Sua vida. O seu amor de todo o sempre. Mas bastaram algumas horas e umas poucas reflexões para acreditar que aquilo era um presente. Uma chance de recomeçar. De curar suas feridas e reescrever sua história. Tudo agora se encaixava. A distância lhe faria bem. Um novo desafio profissional. Quem sabe um dia, um outro amor.... Amanhã, amanhã iriam conversar. E ela iria lhe dizer que estava partindo. Com toda a certeza ele lhe diria que ela faria muita falta por lá, mas que uma mudança lhe faria bem. Ele, como um bom amigo apoiaria sua decisão e ela deixaria sua vida sem que ele soubesse que um dia fizera de fato parte dela. Desde sempre ela o amara. Nem conseguia se lembrar ao certo quando se deu conta disto. E a vida foi se encarregando de aproximá-los sem de fato uni-los. Há muito tempo aceitara que ele sempre seria apenas seu chefe, mas só lhe fizera mal acalentar um sonho impossível. Porque desde aquele dia no parque todas as suas fantasias caíram de vez por terra. Uma coisa era desejar, outra era encarar  os fatos. Quando ele apresentou Beth a todos eles naquele dia ao final da prova tudo atingiu um outro patamar. O Aaron Hotchner por quem ela se apaixonara era homem de uma mulher só e não trocava de namorada como quem troca de roupa. Vê-los juntos a trouxe de volta à inegável realidade dos fatos. Aquilo nunca iria acontecer. Não do jeito que ela desejava. Não do jeito que devia ser.

- ..... damos valor ao que perdemos. Olhe só para ela. Morgan está ali para apoiá-la, mas é visível a decepção em seus olhos, não acha?

Emily não tinha a menor ideia sobre o que Rossi estava falando.

- Está tudo bem com você?

- Sim, claro que está. 

- Não que seja da minha conta, mas talvez Penélope não seja a única que esteja se dando conta de algumas coisas esta noite. Seja como for, minha cara, tenha em mente somente uma coisa: nada termina de fato enquanto você não entrega os pontos.

Ela sorriu quase aliviada. Não que tivesse entendido o que David Rossi acabara de dizer. Mas não pode negar para si mesma que sentiu-se melhor  ao ver que Hotch estava agora dançando com Penélope. O que dizem mesmo sobre...  o que os olhos não veem, o coração não sente?  Na falta de coisa melhor para dizer ao seu par  naquele instante, resolveu calar-se . O problema é que David Rossi era ótimo em interpretar silêncios. E, ainda pior, era especialista em dizer em claro e bom som aquilo que a maioria das pessoas apenas ousava pensar.

- Às vezes Emily, nossos maiores pesadelos só se tornam pesadelos porque não queremos correr atrás dos nossos sonhos. Você é uma mulher corajosa, seja lá o que estiver passando nessa sua cabecinha, lembre-se sempre: siga sempre seu coração.

Só então ela percebeu sobre o que David Rossi estava falando. Aquilo era bastante constrangedor e ela percebeu o quão óbvia ela deveria estar parecendo naquele momento.

- Você tem razão David, está na hora de correr atrás de alguns sonhos. É por isto que vou seguir meus instintos. Está na hora de tomar algumas decisões que eu deveria ter tomado há algum tempo atrás.

- Você passou por muita coisa, Emily. Pese tudo com muita calma. Ouça o que seu coração diz.

Para sua surpresa, ainda dançando com David, percebeu que seu par havia parado de se mover. E por um breve momento congelou ao perceber que Aaron Hotchner estava lhe tirando para dançar.

- Me desculpe, David, você me permite?

Prontamente Rossi afastou-se dela e entregou-a ao chefe da unidade.

- Claro, claro. Aproveitem bem a dança.

Seu corpo todo tremia, mas ela não podia deixá-lo perceber. Naquele instante parecia que todos os seus desejos mais profundos estavam sendo realizados. A mão que tomou a sua era quente, firme, mas, de alguma forma, também suave. Foi difícil conter sua alegria e ela sorriu, indisfarçavelmente. Ela precisava dizer alguma coisa rapidamente e o que lhe ocorreu foi um comentário sobre ele gostar de dançar. Procurou ser o mais casual possível. Eles trocaram algumas palavras e ele não perdeu a oportunidade de lhe devolver a brincadeira sobre o Triatlon. Claro que ela devia estar imaginando coisas, mas ele parecia claramente feliz e confortável dançando com ela. Longe da habitual postura distante e formal, ele parecia genuinamente... contente....

Ele era tudo o que sempre sonhara. E a vida toda esperara por aquele  momento. E ele estava acontecendo. Nada mais perigoso que isto. Precisava não esquecer-se que ele estava apenas sendo gentil e educado. Nada além disto. Ele estava namorando agora e isto, no rígido vocabulário dele significava compromisso. Ele jamais teria apresentado Beth a todos se não tivesse certeza do que queria. E a moça parecia estar fazendo dele uma pessoa melhor. Afinal, ela nunca o vira tão à vontade.

Então, ele disse aquilo. Ele havia dito mesmo o que ela ouvira? Ele dissera que ela só tornava a noite ainda mais linda? Não era possível que ele lhe tivesse dito isso. Ou talvez fosse. Talvez fosse o jeito dele de tentar ser gentil. Ela podia jurar que ele havia aproximado o corpo ao seu neste momento e não deixou de notar o leve aperto que ele deu em sua mão.

Poderia passar a eternidade abrigada entre aqueles braços. Poderia morrer naquele instante com a respiração dele lhe resvalando os seus cabelos, o som  daquelas palavras eternizadas em sua memória. Ela percebeu como ele acomodou o rosto de barba bem feita quase colado ao seu, o silêncio carregado de paz naquele instante. E deixou-se levar pelo momento perfeito. Tão perfeito que deveria ser eterno.

Quando Morgan aproximou-se do casal ela pressentiu o pior. Como dizer que ela não queria ser tirada dos braços do homem que amava e que todo minuto a mais ali seria apenas como tentar adiar o inevitável? Tudo o que pôde fazer foi agradecer gentilmente pela dança e vê-lo se afastar, levando junto dele os melhores momentos dela em anos.

Não demorou e lá estava ele, dançando com Beth, fazendo-a sentir-se traída pelo pior dos sentimentos, o ciúme, o vazio incondicional que alcança a alma de quem sofre das dores de amor. A moça havia mesmo feito dele um homem melhor. Ele parecia mais humano, mais sensível. Ele havia lhe feito um elogio. Bem, um elogio estranho. Se ela não soubesse de sua atual condição de homem comprometido, teria lhe soado quase como uma cantada.

Sentiu-se tentada a acreditar que havia algo mais naqueles minutos perfeitos da sua dança. Mas, o que importava agora? Olhou para seus amigos e pensou como seria seguir sem eles. Sem a alegria de JJ, sem as brincadeiras de Penélope ou as perturbações diárias de Derek Morgan. Como faria longe das monótonas explicações de Reid sobre assuntos estranhos ou a fina ironia apenas percebida no tom de voz de Rossi. Como seriam seus dias sem os olhares furtivos para a janela no andar de cima, de onde monitorava discretamente o homem que deveria ter sido seu. Às vezes  achava que nunca havia voltado de verdade. Mas, naquele instante parecia mais que nunca havia partido. E, talvez, apenas talvez, as coisas devessem continuar apenas como estavam....como se pudessem por magia, tornarem-se eternas.....

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

FIC - DECISÕES - CAPÍTULO 8 ( FINAL)




“Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!”

Fernando Pessoa




Ela sabia exatamente quais palavras ele iria proferir, eram quase as mesmas palavras que a atormentavam sempre que voltava ao passado em suas lembranças. Mas quando elas bateram em seus ouvidos, ditas num tom baixo, em um misto de perplexidade e decepção, soaram doloridas como a marca que carregava agora em seu corpo. Como dizer ao homem ao seu lado que ela provavelmente não era a mulher dos seus sonhos? Eles eram tão diferentes. Para ele tudo era preto ou branco. Para ela, na maioria das decisões de sua vida, tudo havia sido cinza. E para ser justa consigo mesma nem ela gostava muito, às vezes, da mulher que havia se tornado.




Ela sentou-se ao lado dele na cama, o lençol já não lhe cobria os seios, mas ela não se importou. Ele fez menção de repetir o mesmo movimento, mas ela o conteve com a mão firme sobre o seu peito, mantendo-o deitado. Arrastou seus dedos preguiçosa e pensativamente sobre cada cicatriz na tez morena, caminhando sobre elas caprichosamente, sentindo cada falha na pele, como se desejasse que elas lhe trouxessem coragem e inspiração. Levara tantos anos para consumar seus anseios e, agora, tudo chegara rápido demais. Preparara-se para o prazer que desejara ter e não para a amarga experiência de escancarar suas opções na vida, imaginara-se nua sob o corpo dele, mas não previra ter que desnudar também sua alma naquele primeiro encontro.

- Eu só me apaixonei uma vez em minha vida e não foi por ele, Aaron. – Ela respirou fundo e buscou forças para continuar. Sabia que aquilo era muito pouco a dizer para o homem que estava deitado ao seu lado. Ele tinha o direito de saber toda a verdade. Aos poucos, deixou suas mãos escorregarem para fora do corpo dele e as repousou sobre o lençol que lhe cobria as pernas.

– Mas...é bom se sentir amada. E, acredite, Ian me amava. Muito. Sempre tive dificuldade para lidar com sentimentos e ser amada nunca foi uma prioridade em minha vida. Ser aceita, sim. Começou muito cedo, quando eu não conseguia me encaixar em lugar nenhum, quando fazia qualquer coisa para contrariar uma mãe dominadora e um pai omisso, quando não vivia tempo suficiente em um mesmo lugar para criar laços, sequer amigos. Creia-me, estas pessoas que eu não consigo encarar e que choraram minha morte, são as mesmas que, pela primeira vez em vida minha vida, me fizeram sentir ser parte de alguma coisa. Eu nunca tive muito a perder. Eu era a pessoa certa para aquele trabalho. Trabalhar infiltrado nunca é simples, mas é menos pior se você não tiver alguém que te ama esperando você voltar um dia, são e salvo. Eu não tinha.



Sem laços, apenas colegas de trabalho para quem um bom dia e um boa noite era mais do que o suficiente, um sem número de pessoas de quem me recordava apenas em datas festivas e uma família tão preocupada com seus próprios problemas que apenas desistiu de discutir comigo minhas escolhas na vida. Nada a perder, Aaron. A ganhar, apenas a satisfação de saber que seria um trabalho difícil, mas que eu era competente o suficiente para realizá-lo de forma eficaz. Para mim soava como um desafio profissional e eu tinha as minhas ambições.

Ele a ouvia com tanta atenção que sequer reagia aos toques suaves da mão dela de novo passeando por seu corpo. Bebia cada palavra, como um remédio amargo necessário para a cura de suas dores. Queria crer que, fosse qual fosse a resposta, tal qual um antídoto, tudo se resolveria, tudo seria passado. Mas doía ouvi-la dizer que nunca tinha sido importante para ninguém.

- Então veio o Ian. Meu suposto envolvimento com ele era previsível e necessário para que pudesse criar confiança e todo o seu esquema fosse exposto e ele, por fim, preso. - Ele não se movia, então, recolheu suas mãos novamente. Ela desviou lentamente o olhar para a janela ao seu lado, por onde entravam as luzes que a noite abrigava. - Mas eu não esperava que justamente alguém como ele pudesse me dar tanta atenção, tanto carinho. Ele realmente se importava comigo. Do jeito dele, ele me amava. Ele queria que eu fosse a mãe de Declan. Ele teria me dado o mundo, se eu tivesse pedido. E eu gostava disto. Da sensação de...



Parou, horrorizada com o que estava prestes a dizer a ele. Pela segunda vez no mesmo dia ela desejou enfiar-se em um enorme buraco porque, novamente, ele não dizia nada. Sequer parecia respirar. Ela olhou para ele. Era impossível descrever o rosto sério que a fitava. Não que ela esperasse dele complacência ou compreensão imediata, mas de certa forma, embora em um quarto de hotel, embora despido, ele agora se parecia muito mais com o chefe do Departamento, com o qual ela estava acostumada a conviver diariamente.

- ... é horrível, eu sei. Eu sempre soube exatamente quem era Ian Doyle, todas as pessoas que matara, todas as que mandara matar. Sempre soube de toda a sua crueldade, dos seus crimes, sempre repudiei seus atos. E sempre tive certeza de que por mais que me amasse, não teria piedade de mim ao vingar-se, se por mim fosse traído. E, nunca, Aaron, NUNCA me esqueci que estava em uma missão. Em nem um momento me passou pela cabeça que as coisas pudessem ter um desfecho diferente. Eu sei o que parece, eu te disse uma vez, eu sempre tive um radar para caras ruins...Mas eu sei também....

- Você..... o amava?

Ele repetiu a pergunta quase como se tudo o que fôra dito não tivesse tido muita importância. Não que ele não tivesse absorvido toda a informação. Não que ele não tivesse compreendido seus motivos, nem que ele quisesse ser um canalha perfeito, tirando a fórceps, da mulher com quem fizera amor hora antes, uma informação tão íntima e pessoal. Mas não podia evitar. Certo ou errado. Sua régua moral não conhecia os números de um à nove em uma escala de zero à dez. Era zero... ou dez... às vezes doze.... Mas este era ele, e ele precisava saber... Ela ainda olhava de canto pela janela, mas ele podia ver, refletidas em prata, as lágrimas silenciosas que escorriam pelo rosto triste dela.



Ao contrário dele, que aprisionava todas as suas emoções, ela vertia toda uma gama de sentimentos em seu semblante. Ele queria abraçá-la, mas não conseguia se mover. Tentava entender como um homem como aquele pudera fazê-la sentir-se....tão bem. Ele e Doyle eram como água e vinho, diametralmente opostos. E precisava ter certeza de que ela não iria chorar a morte dele quando chegasse a hora. Parecia cruel, mas deixara de crer que a vida era apenas um amor e uma cabana há muitos anos atrás. Cedo ou tarde, o destino apresentava sua fatura e precisava estar certo de que estava disposto a pagar por ela.

Ela olhou para ele. Cinza. Toda a sua vida fôra pautada em cinza. Nem sempre preto, nem sempre branco. Cinza. Mas ela podia entendê-lo. Afinal, fôra por este homem que se apaixonara, há tantos anos atrás, quando do topo das escadas da entrada principal da casa da família, ela o avistara. O mesmo homem que respeitara a brilhante aliança que envergava e que, solenemente, ignorara seus apelos para ser observada. Qualquer outro homem teria cedido. Não ele. Ele sempre fôra o mesmo. Sempre fiel à suas convicções. Não a surpreendia hesitar em aceitar o cinza. Ele precisava de um sim ou de um não.

Com os olhos cheios d’água, ela buscou os olhos dele e perguntou-se brevemente em que momento insano de sua miserável vida achara que pudesse merecer o amor e o respeito de um homem como Aaron Hotchner. Embora ele estivesse a apenas a um toque dos seus dedos, ela sentiu um imenso abismo entre eles. Haveria como ser diferente? Ele sempre seria o homem que nada punha a perder, ela sempre seria a mulher disposta a tudo arriscar. Mas, afinal ele estava ali. Ele a havia procurado. Ela insistiu em buscar seus olhos perdidos e, de alguma forma, ele entendeu e atendeu a seu apelo e buscou pelos olhos dela também. E, em um silêncio ensurdecedor, ambos se agarraram, como em tábuas de salvação, à chance de serem felizes a despeito do passado, a despeito de serem tão diferentes.



Por alguns momentos, eles refizeram seus passos, viveram suas dores, aceitaram seus destinos.

Ela precisava responder. E ele precisava acreditar.

- Não, Aaron, eu não o amava. Nunca o amei. Mas estaria mentindo se lhe dissesse que não cruzei a linha, que não desfrutei de seus carinhos, de sua companhia, do cuidado que tinha comigo. Eu nunca esqueci que estava trabalhando. Nunca esqueci que ele seria preso. Ou morto. O que não quer dizer que eu não tenha desfrutado. Que não tenha misturado negócios com prazer...Eu vou entender se você não puder aceitar isto... ou se você me julgar insensata....

Não podia julgá-la. Não devia. Não faria. Ele ergueu seu corpo na cama. Sentou-se de frente para ela, o travesseiro em seu colo caiu, mas ele manteve seus olhos nos olhos dela. Tomou-lhe as mãos dela entre as suas. Sua voz era baixa, calma, mas determinada.

- Você sabe que vou encontrá-lo. Você sabe o que irá acontecer.... Você poderá lidar com isto?

- Eu sei que só estarei em total segurança quando ele morrer, mas você não tem que fazer isto....

- Eu vou fazer o que for preciso! Tenha certeza, eu vou encontrá-lo! Eu vou... - Ele queria dizer as palavras, mas elas pareciam fortes demais para o momento. Tentou conter-se. Ele deveria encontrá-lo porque a volta dela dependia disto e não porque odiava o fato de que um dia ele a tinha tocado, ele havia lhe dado prazer. Ciúmes. Não era um sentimento com o qual ele estava particularmente familiarizado. Não sentiu-se assim nem quando suspeitou de que Haley o traía. Seu relacionamento com Haley, passados os anos, era cheio de culpa, sentimento do qual ela fazia questão de lembrar-lhe em tempo integral e nada tinha a ver com o que sentia por Emily. Tentou manter-se focado nela.

- Você ... - Ele tentou refazer as palavras dela, sem muito sucesso. – Você não o amava. Eu posso entender... - Resmungou em um tom baixo, quase inaudível - Mas você disse que se apaixonou...



- Uma única vez em minha vida. – Ela passou a mão pelo rosto recolhendo com determinação as lágrimas que escorriam. A sinceridade estampada em seu semblante. – Em uma tarde de terça feira, na primavera, você vestia um terno cinza escuro risca de giz e uma gravata vermelha e branca. Eu estava empoleirada na varanda da casa, em férias e você só fazia dar ordens aos outros sete ou oito homens que o acompanhavam. Minha mãe sequer deu-se ao trabalho de nos apresentar. Você passou por mim e me cumprimentou educadamente, perguntou meu nome e se desculpou pelo barulho inconveniente que sua equipe estava provocando. E seguiu com seu trabalho. Você era o homem mais bonito que eu já havia conhecido. Sua voz cheia de determinação e sua postura cheia de responsabilidade me fizeram desejar você, ali mesmo, mas você me ignorou solenemente. Observei você trabalhando por horas a fio. As câmeras, as guaritas, as orientações de segurança, os alarmes..... Te devorei com meus olhos. Mas você se comportou como um cavalheiro. Ali me apaixonei por você. Ali tive a certeza de que jamais te esqueceria. Mesmo que nunca mais o visse. Você nem deve se lembrar, mas...

Ele sentiu-se quente, excitado, porque não dizer, mais seguro de si. Ela havia realmente prestado a atenção nele. E era bom, de repente, deixarem de falar de Doyle para falarem deles próprios.

- Eu me lembro de tudo. Eu lembro de ter passado a noite em claro, lembro de não entender porque alguém com quem eu tinha trocado meia dúzia de palavras me tirava o sono e me fazia sentir mal, deitado ao lado da minha esposa. Eu me lembro de tudo. Mas eu não poderia.....

- Eu sei, você era casado e amava sua esposa. Isto só me fez admirar você ainda mais. O que não me impediu de passar muito tempo sonhando com você....

- Sonhos decentes? - Ele lhe deu um sorriso acanhado.

- Alguns.... Outros nem tanto....

- Me fale destes não tão decentes.....

Ele serpenteou suas mãos em torno da cintura dela e a puxou para cima de si, visivelmente mais relaxado.



- Ah!.... você não quer saber dos meus sonhos profanos com você...

- Deus, você tinha sonhos profanos comigo? Não sei se posso lidar com isto. – Ele a puxou para mais perto, seus lábios quase se tocando. – Emily, isto está além de uma noite.... Eu não ....

- Não precisa me dizer. Eu sei. Você não é homem de uma noite.

- Uau, isso soou péssimo! Me sinto como uma colegial...

- Vai soar melhor se eu lhe disser que eu também não sou mulher de uma noite?

- Ajuda. – Ele sorriu timidamente para ela, mas as covinhas que ela tanto amava
estavam lá. – Eu não posso imaginar o que você passou.... você não merecia isto...Deus, eu te amo tanto! - Ele a beijou apaixonadamente. E em um instante, em um suave virar de corpos, ele já estava sobre ela.

- Eu tenho que te dizer que ter um caso comigo não será tão emocionante quanto....

- Não ouse terminar esta frase agente Hotchner! Você não imagina como isto pode ser perigoso!

- Bem, eu não sou exatamente um cara cheio de emoções, embora um final de semana com Jack possa ser bastante desafiador! Você não sabe o que é estar na cama em um domingo às seis e meia da manhã e tê-lo pulando em volta de você pedindo para levá-lo ao zoológico, ao McDonald’s e por fim, assistir pela centésima nona vez Procurando Nemo....

- Não me importa o quanto você possa querer me assustar, Aaron. Domingos bem cedo no zoológico me parecem perfeitos....Adoro um Big Mac e Nemo e Dory me fazem voltar a ser criança. Então, talvez, um dia....

Ele a beijou novamente. Envolveu suas mãos nos cabelos escuros da mulher que amava e tentou acreditar na verdade que todas aquelas promessas representavam. Certamente as coisas não seriam tão fáceis como ele fazia por hora parecer.



Haveria uma longa caminhada até que eles pudessem estar juntos novamente. Haveria Doyle. Haveria a equipe. Haveria Strauss. Haveria de se justificar um funeral de alguém que nunca havia morrido. Haveria de responder por suas atitudes, por suas decisões. Tantas coisas que ele queria simplesmente nunca mais ter que sair de cima dela, de dentro dela. Afundar-se no calor do seu corpo era a única coisa real, todo o resto era mera suposição.

Quando ele a penetrou pela segunda vez, ela só queria acreditar que havia sido o suficiente, que ele a havia compreendido. Que, com o tempo, eles poderiam superar todas aquelas coisas. Ela queria crer que teria uma segunda chance de ser feliz e que não teria magoado ainda mais o homem que amava.

Fizeram amor tão intensamente, como se tivessem sempre pertencido um ao outro. Aquele momento mágico em que todos os problemas, as diferenças, as crenças e decisões ficam trancados em um compartimento, enterrado a sete palmos, longe de tudo o que não fosse a perfeição. O instante transcendental onde ao se chegar ao clímax, têm-se a certeza de ser ter conhecido o paraíso. Quando suas respirações já não eram tão intensas, quando seus corpos se tornaram preguiçosos, ela deitou-se sobre o seu peito dele e, já meio sonolenta, lhe disse, em tom de brincadeira:

- Minha boa amiga JJ me disse que Elizabeth Prentiss o chamou de idiota...

- Em alto e bom som....

- Teria adorado ver isto! Você lhe disse?

- Não precisei. Foi um momento difícil, mas acho que ela compreendeu. Acho que todas as mães sentem estas coisas...

- Talvez. Ainda bem que ela não lhe criou maiores problemas. Quando tudo acabar, talvez eu possa lhe contar que eu sempre fui apaixonada pelo homem que ela chamou de idiota. Gostaria de poder ver a cara dela...



- E dizer a ela o quê? Que ela tinha razão? Ela vai dizer que você perdeu de vez o juízo... – Ele correu do rosto dela um cacho de cabelos desalinhados para trás, e lhe aconchegou nos braços. E adorou ouvir a risada entre bocejos que ela lhe dera. – Durma um pouco, Emily, durma. Tente descansar.

- Quando você tem que voltar?

- Em algumas horas....

- Por que eu acho que você não vai estar mais aqui quando eu acordar?

Ele não respondeu. Apenas ficou a lhe fazer afagos sem fim, tentando aprisionar o tempo, que lhe escorria pelos dedos, impiedoso. A última coisa que ouviu dela foi um apelo:

- Por favor, tenha cuidado! Não posso perder você! Sempre foi só você... Eu não posso te perder....

Quando ela pegou no sono, ele levantou-se e cobriu o corpo dela carinhosamente. Tomou um banho demorado, tentando refazer em seu pensamento todos os momentos daquela noite. Passar-se-iam ainda muitas outras noites antes que eles pudessem reviver tudo aquilo novamente. Ele simplesmente não queria perder todos aqueles acontecimentos de sua mente. As palavras, o calor do seu corpo, o brilho dos seus olhos, o sabor dos seus beijos. O seu primeiro nome dito quase em uma prece no momento do gozo. Havia tanto a percorrer ainda até tê-la de volta, mas ele nunca se sentira tão vivo, tão certo do que queria.

Vestiu-se e conferiu o horário da passagem. Começava a amanhecer. Caminhou até a janela. A luz da torre Eiffel, agora empalidecida pelos primeiros raios de sol, tardaria a sumir de sua mente. Toneladas de ferro fundido que foram testemunha das melhores horas de sua vida em anos....Desviou seu olhar para o corpo adormecido na cama permeada pelos tons de verde do tecido que a cobria. Ela era tão linda. Não sabia se a podia compreender completamente. Talvez fosse melhor nem tentar. Se não pudesse aceitar, talvez não a merecesse. Ele apenas precisava libertá-la. Ele tinha muito a fazer. 

Conferiu o laço da gravata corretamente disposto em torno do colarinho. Estava na hora. Abriu a pasta que trouxera e puxou para fora o bloco que sempre o acompanhava. A caneta tirou do bolso interno do paletó. Sentou-se à mesa aparadora e rabiscou umas palavras. Pensou muito antes de escrever. As duas ou três folhas que dispensou, voltou a jogar amassadas dentro da própria pasta. Em cima da mesa de cabeceira, apenas a folha definitiva, o recado que queria que ela lesse. Aproximou-se dela e beijou-lhe a fronte, suavemente, para que não acordasse. Não poderia lhe dizer adeus. Não poderia dizer-lhe nada naquele momento ou não iria embora. Já na porta, virou-se ainda mais uma vez. Como se pudesse reter para sempre a imagem da mulher que mudaria sua vida, ele podia jurar que ela estava acordada. Melhor assim. Não havia nada a dizer. Ele apenas tinha que lhe devolver a vida que ela perdera. Não havia nada a dizer. Ele apenas tinha que fazer acontecer. Como, era problema dele.....

Ela esperou que ele batesse a porta. Ela não podia dizer nada a ele, simplesmente não podia dizer adeus. Sequer podia pedir que ele lhe devolvesse a liberdade. Não havia o que dizer. Ela se fez de rogada e ele partiu. Ela levantou-se, buscou pelo papel que ele deixara e sorveu todas as palavras do curto bilhete.

“ Volto para te buscar. Tenha paciência. Se cuide. Tenha muito cuidado! Te amo!
Aaron”

Ela se perguntou o que havia feito para merecer tamanha condescendência. O homem que amara por toda a vida estava disposto a lutar por ela. Isto era ainda muito mais do que ela esperava dele e sentiu uma ponta de culpa. Ela foi até a janela. A torre ao fundo já lhe era familiar. Paris não lhe traria mais más lembranças. Ao contrário. Paris era a terra onde havia sido feliz plenamente por uma noite. Onde havia amado mais que durante toda a sua existência. Onde havia sido possuída pelo único homem por quem valera a pena esperar.

Ele pedira paciência. Ela teria. De fato, a única coisa que a podia manter lúcida agora, era o que sentia por ele. Envolvera-se com alguns tipos bastante ruins. Fôra amada por Doyle, mas queria terminar seus dias amando e sendo amada pelo único homem que teve real importância em sua vida. Mas, temia por sua segurança. Não podia permitir que ele fizesse aquilo sozinho.

Depois de um bom banho e de arrumar-se, Emily deixou o apartamento de número 6 do Hotel Rive Gauche. Deixou o local, mas levou consigo as lembranças da melhor noite de sua vida. Ela não sabia quanto tempo seria até que pudesse ser Emily novamente. Ela não sabia sequer se teria um dia sua vida de volta. Sabia ao certo apenas, que haveria de dormir muitas noites, embalada pelas palavras, cuidadosamente escritas em um papel pelo homem por quem daria sua vida. Sabia agora que havia um motivo a mais para ir atrás de seu algoz. Precisava pensar. Mas sabia que para ter sua vida de volta, deveria estar disposta a enfrentar todos os seus fantasmas. Assumiria todas as conseqüências de sua difícil decisão. E toda vez que o fardo lhe pesasse demais, lembraria destas palavras:

“ Volto para te buscar. Tenha paciência. Se cuide. Tenha muito cuidado! Te amo!
Aaron”

Ruth Messing sentiu uma lufada de ar fresco da manhã e seu corpo estremeceu. Vislumbrou o colorido das flores na calçada, atravessou a rua, sumiu no vai e vem dos pedestres que seguiam seu rumo diário e, em poucos minutos, ela era apenas mais alguém na multidão. Levava com ela o cheiro dele, o brilho dos seus olhos, o toque de sua mão e a certeza de que, como Emily ou como Ruth, nunca mais seria a mesma pessoa.

E seu dia estava só começando.....

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

FIC -- DECISÕES - CAPÍTULO 7




TIRA-ME O PÃO, SE QUISERES,
TIRA-ME O AR, MAS NÃO
ME TIRES O TEU RISO.....

NEGA-ME O PÃO, O AR
A LUZ, A PRIMAVERA,
MAS NUNCA O TEU RISO,
PORQUE, ENTÃO, EU MORRERIA....

Pablo Neruda



Antes que ele mal pudesse completar a frase e articular qualquer outra palavra, ela selou seus lábios sobre os lábios dele, com a mesma determinação com que empunhou uma metralhadora quando precisou. Por milissegundos, a ela pareceu que ele iria corresponder. Ela pôde dançar com sua língua pelo traço fino que a boca dele fechada formava e ele não recuou. Durou pouco. Ele afastou-se dela, devagar, pôs as mãos em seus ombros e tentou respirar.

Ela aguardou. Apenas uns instantes. Do alto de sua experiência em analisar pessoas, diria que ele estava confuso e apavorado. Genuinamente apavorado. Mais apavorado que ela estava.
Ele tomou as pequenas mãos dela entre as suas, respirou fundo e olhou profundamente em seus olhos.
-Talvez você queira conversar um pouco primeiro, Prentiss...
-Eu sou Emily e não comece a falar agora, apenas faça amor comigo!

Ele quase riu dela. Mas ela prosseguiu, cuspindo um monte de palavras sem conseguir parar.

- Qualquer coisa que precisemos conversar pode esperar por mais uma hora. Todo o resto pode esperar. Você pode brigar comigo, me repreender, dizer que eu estava errada, que Ian vai me matar, que a Strauss está na portaria, que eu vou ser presa, eu não me importo, não me importo!! Já tive preliminares suficientes para três encarnações. E se você não disser nada agora eu acho que vou fazer um enorme buraco no chão deste quarto e me enfiar dentro e nunca mais sair daqui, então é melhor você dizer algo e....





Ele perdeu suas mãos enormes naqueles cabelos negros e a puxou para si. E a beijou. Quente. Como se fosse ela a única mulher no mundo. Como se só ela pudesse salvá-lo. Invadiu sua boca macia e permitiu-se perder-se em todas as sensações que o gesto produzia.

Sob a fraca luz de fim de tarde que invadia a privacidade daquele quarto pela janela, ela deixou-se levar pela mão firme que já passeava por sobre o tecido fino do vestido. Há muito tempo ela sonhava com aquele toque. Era perfeito. Era forte. Viril. Eram mãos que sabiam exatamente o que buscar e a faziam sentir-se desejada.
O hálito quente dele não a deixava esquecer-se que aquilo era real. E quando eles separaram seus lábios em busca de ar ela sentiu desespero e pediu para não acordar. Não agora. Estava acontecendo. E era melhor do que tudo o que havia sonhado.

Ele enterrou seu rosto em sua nuca e pôs-se a trilhar sobre a sua pele, deixando um rastro de fogo por onde passava. Não, ela não iria acordar. Ela já estava acordada, e por inacreditável que fosse o momento, ele estava acontecendo. Ela sentiu seu corpo ceder e seus joelhos fraquejarem a cada beijo derramado em seu pescoço, em sua boca, em seu colo. Ela o sentiu brincar com sua língua em torno da pérola que adornava sua orelha. Deus, ela quis que aquele momento nunca mais se acabasse. As mãos dele tomavam seu corpo miúdo de forma possessiva, como se nunca tivessem tido outro dono, somente ele e ninguém mais.

Ela buscou acesso ao corpo firme por baixo do grosso paletó elegantemente por ele envergado. Desenhou aleatoriamente em suas costas, rabiscou carinhos com seus dedos magros e ele encolheu-se com o toque quando, lembrando-se de respirar, afastou-se ligeiramente e olhou em seus olhos.




Ela imaginou quanto tempo teria desde a última vez que ele tivesse sido tocado com tanto desejo.
Ela pensou em todas as regras que ele estava tentando quebrar, toda a sua luta interna para não deixar vencer a racionalidade e a sua dificuldade em desrespeitar todos os conceitos pré estabelecidos.

- Eu...
- Não! Se você me quer, não me pergunte sobre o amanhã, se vou me arrepender, como será quando acordarmos. Se você me quer, não faça isso com nós dois! Você não entende que nós dois merecemos isto?

Ela manteve a voz suave, lenta, quase didática.
- Eu quero isso! Não é o que você quer também? Não é por isto que você está aqui?

Ousada! Era a única palavra que a descrevia naquele momento. Ela sempre fora mais corajosa que ele. De alguma forma, ela sabia disto. Ele era o homem que se casara e fora fiel à sua primeira namorada, ela era a mulher que misturara negócios e prazer, que se divertira cumprindo uma missão, que não tivera medo de poupar seu coração. Ele era o homem que nada punha a perder, ela era a mulher que tudo arriscava. Mas, por um momento ela teve dúvidas sobre o que se passava em sua cabeça. Ele e seu indecifrável semblante, ela teria ido longe demais? Sua ousadia quase sempre a levava a lugares escuros, lugares de onde nem sempre ela podia retornar. Mas bastou um segundo e ela entendeu. Ele não movia um músculo do rosto, mas seus olhos diziam tudo. Era o olhar de quem, como ela, estava cansado de esperar, cansado de não poder experimentar um momento de felicidade plena. Era o olhar de quem só desejava naquele momento, ser feliz. Era o olhar de quem se rendia, não importavam as regras, as conseqüências ou o amanhã. Ele apenas a desejava mais que tudo. Simples assim.

Ele tomou de volta o corpo do qual havia se afastado, mas ela recuou sinuosamente. Lançou seus braços com graça em torno dele. Havia roupa demais. Ele congelou. Certamente não esperava isto. O próximo movimento foi dela.




- Me deixe tirar isto. – Ela esgueirou suas mãos por suas costas, contornando seu peito e apoiando-as sobre os ombros largos, agarrou a lapela do paletó, fazendo-o deslizar suavemente mangas abaixo. Nunca abandonou seus olhos. Toda a cobiça imaginável cabia naquele profundo lago escuro que eram os olhos do homem que amava. Resgatou o blazer antes que ele alcançasse o chão e jogou-o em uma cadeira próxima, ou, pelo menos, tentou. Ele não se movia, talvez sequer respirasse. Se não fosse exagero, diria que estava em choque. Totalmente Aaron Hotchner.

Ela prosseguiu tentando ignorar as conseqüências dos seus atos. Desatou o nó da gravata de forma um tanto divertida e puxou-a toda para fora, lentamente, preguiçosamente, acompanhando todo o centímetro percorrido por baixo do colarinho em torno do seu pescoço, fazendo um metro e quarenta de seda vermelha parecerem ser dez metros, sem ter pressa alguma. Ele permaneceu imóvel.
Foi ela quem quebrou o silêncio entre eles. Ela tentou parecer o mais natural quanto fosse possível. Na verdade, autêntica, na medida em que não estava mentindo.

- Você não sabe há quanto tempo eu sonho com isto!

- Em tirar gravatas? – Ele pareceu relaxar um pouco com o comentário, arqueou as sobrancelhas e deu um sorriso malicioso.

- Em tirar a sua gravata, Aaron! – Ela sorriu para ele e seu sorriso o derreteu. - Deus, eu te esperei por uma vida inteira! É tempo demais! Até para nós dois...
Ele abraçou-a com força e carinhosamente. Por mais que para ele fizesse muito tempo e ele desejasse saciar-se com urgência, ele queria muito fazer tudo direito. Tomou para si o corpo pequeno à sua frente, envolveu-o com seus braços, vagou por suas costas até encontrar o zíper e o deslizou, sorrateiro, todo para baixo, vagarosamente, enquanto deixava uma trilha de beijos e carinhos sem fim por todo canto de pele que encontrasse pela frente. Aquela pele alva, que pedia para ser marcada por sua boca e ele tentou não pensar no dia seguinte. Ele tentou não pensar em nada a não ser afundar-se até morrer naquele corpo quente que implorava para ser tocado. Com as mãos movendo-se por sobre seus braços, ele fez deslizar a seus pés o mar vermelho que enchia seus olhos. Prendeu a respiração com a imagem deliciosa daquele corpo de pele muito clara sob os seus dedos, sob o seu toque. Ela entendeu e permitiu que ele a admirasse. Deu a ele o tempo que ele precisava. Afinal, tempo parecia ser a única coisa menos importante agora.

Não se arrependeu. Ele a tomou nos braços e buscou a cama. Suas bocas desfrutavam de seus sabores e ele a deitou, suave, sobre a colcha impecável de algodão perolado. Ele perdeu-se nela, entre beijos e carícias, atordoado com a lingerie negra que cobria o pouco que ainda havia de proibido em seu corpo. Talvez nunca ele tivesse sido mais feliz. Ele estava sobre ela, mas ela parecia dominá-lo. E isso o fascinava.

Ela deslizou as mãos sobre ele e buscou desfazer cada botão de sua camisa de percal branca, imaculada. Os punhos, depois o resto. Ele tomou-lhe a mão quando ela desfez o terceiro botão.

- Não há nada de bonito aí....

Ela sorriu levemente.
- Minha cicatriz é mais recente e ainda dói. Você quer mesmo parar por isto?
- Touché!! – Seu sorriso foi de meio sem jeito a encantador em segundos, diante de argumento irrefutável.




Ele cedeu espaço aos poucos e ela terminou de abrir os botões da camisa. Ela alimentou seus olhares famintos sobre ele, precisava que ele soubesse o quanto era cobiçado. Havia fome em seu olhar e ele sentiu-se bem com isto.

Ele não conseguia se lembrar de quando havia sido desejado de forma tão intensa. Sequer lembrava-se de algo que não fosse o bem comportado e burocrático sexo que fazia com a única mulher que possuiu antes de Emily Prentiss. Emily era a síntese de tudo que ele nunca soubera que existia. Passados além dos quarenta anos vivídos, tudo para ele naquele momento tinha sabor de primeira vez.

A luz de fim de tarde dera lugar a um luar intenso que invadia o quarto e prateava o rosto dela de forma quase irreal e ele tomou cuidado ao penetrá-la. Deu tempo para que ela o acomodasse, para que seus corpos se ajustassem. Para que pudessem crer que aquilo estava de fato acontecendo. Ele tinha ciência de que fora muito tempo para ambos.

E eles entregaram-se à dança mais antiga e prazerosa do mundo, como se sempre tivessem dançado juntos ao som da mesma canção. O tempo parou. Não haviam palavras coerentes, apenas os sons mais primitivos, os seus nomes murmurados em êxtase e frases sem sentido quase sempre interrompidas por um gemido abafado, um emudecer que dizia muito mais que um poema inteiro.

Foi quando ele percebeu que ela tinha os olhos cerrados e uma lágrima pendia pelo canto do rosto.
- Emily! Deus, está doendo? Estou te machucando? - Ele afastou-se dela e, apavorado, lembrou-se de seu ferimento.

- Não, não! Hey, volte aqui! Você não fez nada! Só estou.....
- Feliz?
- Feliz não descreve agora o que estou sentindo!
- Tem certeza que...
- Eu tenho certeza de tudo! É só mais do que acho que mereço.....
Ele enxugou as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto. E a possuiu novamente.




- Então abra os olhos, Emily. Olhe para mim! Nos meus olhos! Eu quero que você olhe para mim! Nada que eu possa te dar está além do que você merece. Eu quero que você nunca se esqueça deste momento! Quero que você se lembre que merece ser feliz! Quero que você olhe nos meus olhos e saiba que eu estou fazendo amor com você!

Quando ela olhou para ele, seus olhos já não pareciam morrer no infinito. Pareciam penetrá-la, possuí-la, tanto quanto ele podia estar dentro dela como homem. Ela não demorou para chegar ao orgasmo mais intenso que já experimentara na vida.
Vê-la contorcendo-se e gritando por seu primeiro nome também não o ajudou a conter-se. Ele veio para ela no instante seguinte.

Com o pouco de consciência que lhe restava, tombou o corpo ao lado do dela, pois seus braços já não suportavam mais o próprio peso. Buscou ar, coisa que parecia ter se extinguido enquanto amava a mulher dos seus sonhos. Seus sonhos. Até onde se lembrava, não era dado a ter seus sonhos assim realizados. Preguiçosamente, sua mão roçou no corpo ao lado do seu na cama e ele pôde ter certeza. Era mais real que tudo o que já vivera. Pensou em dizer algo, não sabia o que dizer. Ele era péssimo nisso...

Foram longos minutos em que suas mãos tocavam levemente seus corpos, mas nada parecia ser correto dizer, de nenhuma das partes, naquele instante. Ambos tinham vivido a melhor experiência de suas vidas, mas dizer algo quebraria o encanto e eles eram dois adultos querendo viver apenas o lado bom dos contos de fadas. Como se fosse possível.

Ele tombou o rosto e vislumbrou ao seu lado o corpo coberto pela prata que o luar derramava sobre ela. Era mais belo do que tudo que já havia sonhado em toda a sua vida.

- Você está bem? Eu não te machuquei?
- Eu nunca estive tão bem em toda a minha vida. E você?
- É você mesmo, nua, ao lado do meu corpo nesta cama?

Ela riu sua risada mais deliciosa.
- Sou eu sim, sua impertinente subordinada, aquela que só te trouxe problemas....
- Não diga isso...

- Não quer dizer que não seja verdade!

Ele não respondeu. Ficou a fitar o teto, calado, com medo de se mover e dizer algo impróprio, ou quem sabe, estragar tudo....

Ela virou-se para ele, lançou seu braço sobre o corpo do homem despido ao seu lado, beijou-lhe a testa. Como haviam deitado por sobre a colcha, não havia lençol que pudesse puxar para cobrir seu corpo naquele momento. Naquelas alturas, ter pudores parecia ser meio desnecessário.
E ele continuava calado. Ela buscou em sua cabeceira o interruptor de um abajur ao seu alcance. Uma luz suave iluminou o ambiente.

- Me diga que há algum álcool em algum ponto deste quarto!
Ele pareceu sair do torpor.
- Deus, foi tão ruim assim?
- Não, foi a melhor coisa que me aconteceu, mas Aaron, você nem consegue olhar para mim....
- Não é isso.... Emily....., não é isso.....

Ele sentou-se na cama. E olhou para ela demoradamente. Direto nos seus olhos. Só então percebeu que ela estava totalmente exposta. Saiu da cama e tomou a colcha em suas mãos. Ela ergueu o corpo e ele jogou longe aquele monte de tecido, em qualquer ponto do quarto. Ela acomodou-se debaixo dos lençóis de algodão esverdeado cobrindo-se e tirando dele a visão que o cegava. Agora ele estava exposto sozinho. E no mar de roupas esparramadas pelo chão, não sabia onde havia ido parar qualquer peça sua que não fosse seu paletó ou sua gravata.

-Vinho??... - Ele abriu o frigobar e tomou a garrafa nas mãos. – Ele procurava desesperadamente o saca-rolhas...

Se ela fosse ser honesta, diria que ele parecia querer morrer com aquela situação. O inabalável chefe do departamento de analise comportamental, totalmente exposto lutando entre admitir que estava realizado ou violando as regras do departamento....E ela mal conseguia lembrar-se de quantas poucas vezes o havia visto sem a gravata...


- Eu diria que é a visão do paraíso! Você, seu corpo nú e um bom vinho..... Não tenho direito de exigir mais nada na minha vida....




Ele ainda parecia meio constrangido. Parecia muito errado estar nú, mas parecia ainda pior, parar para vestir-se naquele momento. Quando conseguiu abrir a garrafa alcançou as taças, tratou de enchê-las e ofereceu uma delas à mulher à sua frente. Virou-se, pegou a outra taça, serviu-se e, muito consciente da sua nudez, sentou-se ao lado de Emily na cama, não sem antes, jogar sobre si, um providencial travesseiro.
- Você não está sentindo dor?
- Só me dói ter magoado você...
- Você não me magoou...
- E você mente muito mal....

Eles bateram suas taças, mas nada foi dito em seguida...
Ele tomou um gole do vinho e recostou-se na cama. Procurava evitar os olhos profundos da mulher que o fazia suar frio....

Ela bebeu mais que um gole. Sorveu todo o conteúdo da taça. Ainda fitava o teto, assim como o homem com quem fizera amor minutos atrás.....

Ele só queria enterrar-se nela novamente, mas não podia ignorar que precisam conversar. 

Ela só queria sentir-se possuída novamente, mas sabia que eles precisam conversar.

Eles só não sabiam como começar.

- Eu estava falando sério...
- Como?
- Quando disse que te amo! – Ele largou a taça na cabeceira e a abraçou. – Eu tive tanto medo de perdê-la! É estranho perder algo que a gente nunca teve de verdade....
- Você está zangado....
- Não! Quer dizer, sim, eu fiquei sim, muito zangado, como você pôde me esconder tudo isto? Eu entendo que você quisesse poupar a equipe, mas podia ter me contado....
- Sinto muito ter te posto nesta situação....Eu não tinha o direito de envolver você nisto. Como eles estão?
- É difícil cruzar todos os dias com eles e não poder fazer nada para amenizar tanto sofrimento. Penélope está muito abatida. Ela tenta disfarçar, mas não é difícil surpreendê-la com os olhos vermelhos vez por outra, buscando café ou olhando para uma foto sua hall.
- Oh!, não! Não me diga que colocaram uma foto minha lá, junto com.....
- Regras, Emily! É de praxe. Para o FBI, você é uma baixa...




- Isto é muito estranho....
- Morgan, bem, ele se culpa, acha que poderia tê-la salvo se tivesse chegado uns minutos antes.... Apesar disto ele não me preocupa tanto, porque ele extravasa, chuta portas, soca uns bandidos, grita um pouco, e tenho certeza que em algum ponto da Academia do FBI tem alguns sacos de areia em estado bastante precário....É a forma dele lidar com isto. Me preocupo mais com Reid. Ele não quer conversar, está sofrendo calado, tenho monitorado à distância para que ele não volte a usar Dilaudid ou qualquer outra droga. Várias vezes eu o peguei parando o carro na frente do seu apartamento. Ele fica muito tempo por lá.

Ela já estava com lágrimas nos olhos..... Ele a manteve abraçada por todo tempo enquanto falava....

- A Seaver não teve muito tempo para te conhecer, mas está assustada com a situação. Não acho que ela fique conosco por muito tempo. Ela não tem estrutura ainda para segurar a barra de um departamento como o nosso. Nunca deveria ter sido colocada lá como efetiva. JJ é quem me dá notícias suas. Nos falamos a cada três ou quatro dias.... Ela tem sido uma boa amiga...
- Rossi?
- Ele sabe. Nunca lhe disse nada e nem precisei. Ele me conhece como ninguém e sabe o que eu sinto por você, acho que soube antes mesmo de mim... De alguma forma ele apenas me olhou, quando voltamos do seu funeral, pôs a mão no meu ombro e me disse : - Tudo bem! – Apenas isto. O melhor profiler que eu conheço e meu melhor amigo sabe que eu estaria devastado se tivesse perdido você de verdade. Que eu não teria segurado as pontas. Nunca mais tocamos no assunto. Algumas vezes conversamos sobre como estávamos reagindo e ele seguiu a corrente. Deixou-me levar a mentira à frente sem me questionar. David é raposa velha. Ele sabe que eu estou fazendo o que é certo. Ele teria feito o mesmo.

Ele enxugou as lágrimas que escorriam pelo rosto dela e a beijou. Nem tanto o beijo de luxúria, agora um beijo apaixonado de quem quer confortar e dizer que estará sempre ali para ela. 

Eles se separaram e deixaram seus corpos estendidos pela cama, ela apoiou a cabeça em seu peito e sentiu o coração dele batendo forte. Ficaram assim por uns instantes.

- O que eu obriguei você a fazer não foi justo! Vê-los assim, e não poder dizer nada.... Da forma como você conta, parece que você tem seguido os passos de todos de perto. Sofrido por todos eles.... Você já passou por tanta coisa nesta vida.... Não merecia isto também... Além disto, você um dia vai acabar tendo que responder por suas decisões...

Ele não respondeu e ela prosseguiu.
- Eu nunca mais vou poder voltar. Nunca mais vou poder olhar no rosto de cada um deles e dizer o que houve. Mas você....

- Como nunca mais vai voltar, Emily? – Pela primeira vez ele elevou o tom de voz. - Eu vou encontrá-lo, Emily. Eu falhei uma vez com Haley, isto não vai acontecer de novo. Eu vou pegá-lo, você está me entendendo? E você vai voltar! Vai ter sua vida de volta. E eles vão entender. Ninguém ali é criança.... Eles vão ficar furiosos a princípio, mas como tudo na vida, vai passar... E eles têm que ficar bravos comigo que tomei a decisão, não com você.... Que diabos, você dormia com um terrorista e está com medo de enfrentar seus amigos?

No mesmo instante, ele percebeu o que tinha dito. E desejou não ter dito nada. Mas estava feito. E ele não podia voltar atrás. Tanta cautela, cuidado e carinho e ele tinha dito a coisa mais desastrosa que jamais imaginou que pudesse sair de sua boca. Não que isso não o tivesse corroído por todo o tempo em que pensara nela e nas inúmeras vezes em que lera os arquivos e tentara achar uma explicação razoável, convencer-se de que ela fizera o necessário, de que talvez não tivesse tido opção. Ele não tinha o direito de julgá-la.

- Me desculpe, Emily, eu não quis dizer isto, me desculpe, meu amor... – Ele tentou abraçá-la, mas ela apenas continuou deitada ao seu lado, a cabeça ainda em seu peito, a voz ainda baixa.
- Vamos, Aaron, pergunte. Eu sei que você precisa me perguntar. Eu entendo....

Ele sentiu-se um canalha. Não era o momento certo. Ele tinha acabado de fazer amor com a mulher com quem sempre sonhara. Não era certo. Não era a hora.
Ele retomou a voz baixa e carinhosa.

- Tudo bem, não precisamos falar disto agora. Você quer mais vinho?
- Não, Aaron, não está tudo bem! – Agora era ela a levantar a voz. - Você diz que me ama, mas não sabe nada sobre mim. Eu não sei se quando você sair por aquela porta eu vou poder te ver novamente. Você quer mesmo ir embora sem saber a verdade?

Tudo o que ele conseguia pensar era como eles tinham passado do melhor momento de suas vidas para o mais desconcertante, em tão pouco tempo. Ela tinha razão. Ele não sabia nada sobre ela. Só que estava apaixonado. E em poucas horas ele conseguira dizer a uma mulher, pela segunda vez em sua vida, que estava apaixonado, que queria fazer amor com ela, que seus atos tinham magoado pessoas que ela amava, a tinha feito chorar e agora iria fazer a pergunta que podia fazê-la sentir-se uma vagabunda. Ele estava de parabéns!
Mas precisava perguntar. Afinal, ele estava determinado a matar o homem por quem ela talvez tivesse sido apaixonada um dia. Claro que ela estava certa. Ele só não sabia se iria gostar da resposta....

- Você.... o amava?