quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Os Prós e os Contra

 Envelhecer é um processo complexo. Viver uma vida cheia de experiências com família, muitos amigos, clientes e muitos conhecidos ao longo dos anos me fez aprender a não julgar. Sim, a primeira lição após os cinquenta foi: nunca julgue! 

O tempo me fez aprender muitas coisas. Uma delas eu aprendi por volta dos vinte e nove anos, quando me mudei de São Paulo para Vitoria: família, não importa a distância, é importante e é pra sempre, não importa o quão longe você esteja. A segunda coisa que aprendi cerca de dez anos depois é que amigos são uma família que você escolhe para fazer parte de sua vida e que tudo que você oferece hoje, um dia retorna.

Também aprendi que um relacionamento a dois, no meu caso, um casamento que durou quarenta anos, não se forja com bases fracas. Amor é fundamental, mas sexo saudável e criativo e bom para os dois, abrir mão do ciúme sem sentido, fazer o outro feliz em reciprocidade, ceder em  algumas coisas em detrimento do outro e estar presente nas horas difíceis, tudo isto faz parte de um relacionamento. Aceitar os defeitos de quem você ama, permitir que seu parceiro perdoe seus erros, tudo isto é uma construção. E que construção!

Quando as adversidades surgiram, depois de tantos problemas financeiros que eu julguei serem importantes, voltei a chorar, espernear, me revoltar, mas aceitei meu diagnóstico de Parkinson até que com certas serenidade.

Então veio a pandemia, o primeiro AVC do Afonso, os tantos meses de UTI, uma espécie de não sei bem o que fazer. E vem a vida te ensinar tudo de novo, a ressignificar conceitos, o que importa de fato. E você lembra de nunca julgar, porque ser julgada é muito ruim! 

Depois de três anos de luta contra a doença do homem que você ama a quatro décadas , ele apenas passa uma tarde e noite linda com você, cheio de amor e carinho, recordações e lembranças divertidas, e ele parte, sem mais, nem porquê. Chamam de melhora da morte. Não sei dar nome ao que aconteceu. Ele se foi, e eu fiquei, em um apartamento cheio de trinta e sete anos de recordações, assumindo para mim, por força da necessidade, o trabalho de síndica, que fora dele por onze anos. Além do meu próprio trabalho, claro. 

Passaram-se sete meses e estou em trabalho pela reeleição como síndica. Participei hoje de uma palestra que dizia que devemos seguir em frente diante da perda. Eu pensei em contestar, mas nem tive vontade. É fácil falar para ir em frente quando você não vive no mesmo lugar em que seu amor perdeu a vida.Hoje eu já consigo entrar na cozinha, mas ainda me dói permanecer por muito tempo no lugar onde ele caiu morto. Também é difícil me sentar no escritório e usar o computador, o mesmo que ele usou para ser síndico por onze anos. É fácil falar em seguir em frente quando se está de fora da situação. 

Eu não tenho opção. Com tantos gastos durante a doença do meu marido, só me resta continuar como síndica enquanto o inventário não se encerra e, talvez, sair do apartamento seja uma boa alternativa.

Agora, mais que nunca, não julgo ninguém. Por muitos anos repliquei um ditado indígena que dizia: "não julgue as milhas percorridas por alguém sem calçar seus mocassins". Era uma frase que, de ano para ano, eu replicava  na primeira folha da minha agenda de papel, desde muito jovem. Na verdade, acho que só, muitos anos depois, fui entender verdadeiramente este provérbio. Diria que a velhice, além de dores em tantos lugares, a falta de brilho na pele, as inconvenientes rugas, alguns cabelos brancos e a vantagem das meias entradas de cinema, lhe trás também uma melhor compreensão do que é viver, do que são os ganhos e  as perdas. A velhice ( e, dizem hoje que os sessenta e poucos são os novos cinquenta - mentira, não caia nesta, isto é para os poucos abastados e menos desgastados) trás sabedoria. Um pouco tarde, na minha humilde opinião. Vovó dizia que a gente devia saber aos trinta o que descobre aos sessenta e cinco. Ela estava coberta de razão. 

Talvez este seja o sentido da vida. Talvez eu tenha sido lerda para entende-la. Os primeiros anos de casada foram intensos, mas os mais bem aproveitados foram os últimos.

Eu teria feito algo diferente? Muitas coisas. Teria tido menos ciúme, teria guardado mais dinheiro para o futuro, teria ido mais vezes com o Afonso pescar e teria avançado mais sinais de trânsito com as amigas (entendedores entenderão). Mas, em resumo, teria feito o mesmo, talvez com mais intensidade. 

Espero ter feito meu marido muito feliz, mesmo quando o Corinthians jogava contra o Santos.  Espero termos criado um bom filho, apesar de todos os nossos problemas e que ele tenha aprendido que acentos e vírgulas são fundamentais. Espero ter feito a diferença na vida das amigas, com cajuzinhos, caronas e bons conselhos. Espero ter deixado minha mãe orgulhosa, de alguma forma e que ela sempre se lembre de mim como alguém que acredita na democracia, na verdade e na importância da cultura. Espero muito merecer tudo que recebi e recebo todos os dias, de todos os lugares, de todas as pessoas amigas, a quem só posso agradecer. 

É difícil se perceber envelhecendo. A vida toda eu vi a vida sob a ótica de uma jovem. Eu tinha um buffet infantil. Eu amava rolar no chão com as crianças, a melhor parte do meu trabalho era ser uma delas. Eu levava pescaria com água em uma bacia só para ver todo mundo molhado. Eu adorava fazer "pacotinhos" com meus sobrinhos que sempre acabavam em sessões de cócegas e muitas gargalhadas. Eu sempre fui de sentar no chão, de brincar de mímica aos cinquenta, de rir dos micos nas reuniões dos Esfiles, de morder cenoura para filho acreditar em coelho da Páscoa, de deixar me enrolarem em papel higiênico só porque me fazia feliz e, queria acreditar, faria aos outros felizes também. Eu brincava de colar carta de personagem na testa porque era divertido! E, se o Afonso estivesse aqui, ele diria que eu amava o Natal mais que o próprio Papai Noel, principalmente quando o Bruno e os sobrinhos eram ainda pequenos e acreditavam na magia do bom velhinho.

Eu não me recuso a envelhecer! Só não quero ser como a maioria. Mesmo sabendo que a doença avança, mesmo doendo todos os ossos para pegar o Vicente no colo, mesmo discutindo reformas de cento e setenta mil reais sem nunca ter sido uma expert em economia. Eu me recuso a ser uma senhorinha comportada, como as que estavam na reunião de hoje, falando de novelas e novenas. Eu quero continuar aos berros cantando Gil quando toca Realce, Lulu quando canta.. tudo o que ele canta, eu quero cantar Paralamas,  Capital Inicial, quero cantar Zé Ketty e sua Máscara Negra e Chico, tudo do Chico. Eu quero assistir o próximo Capitão América e ler o próximo livro da Claudia Lemes. 

O Afonso vai me entender, porque ela sabe com quem se casou. Ele sabe que ainda não tenho vontade de ir em uma festa ou fazer uma farra, mas que este dia vai chegar. Porque foi comigo que ele se casou. A doidinha, que topava tudo, que queria ser feliz e fazer ele feliz. Ele vai entender. Eu sei que vai. Não agora, onde a dor ainda aperta meu coração a todos instante, mas no momento certo. 

A velhice é uma merda. E uma benção! A gente começa a enxergar tudo com mais clareza, tudo faz mais sentido e mesmo que doam os arrependimentos, você consegue entender porque seguiu por um caminho e não por outro. Só te resta, ao fim da vida se perdoar e tentar seguir ajudando aonde pode, fazendo diferença onde é possível. 

A velhice é um saco. Mas, nem sei porque estou escrevendo isto. Todos vocês só vão entender isto quando chegar a hora. É por isto que ninguém paga por conselho......



quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Luto - Meu Primeiro Texto

 



Um dia tudo acaba. Palavras da minha analista, que me diz que escrever ajuda em tudo, até no processo do luto. As lágrimas me embaçam a visão de uma mulher mais nova que eu, que no início da primeira sessão me disse ter uma filha de quatro anos. Do nada ela me pergunta: - você acha que se tivesse tido mais filhos teria sido mais fácil, teria tido mais apoio? Eu enxugo as lágrimas e nego. Um filho apenas fez e faz tudo o que lhe é possível fazer, no limite do esperado. Nunca pensei em meu filho equilibrando pratos. Tendo que viver ( sua vida e seu próprio luto ) e resolver meus próprios problemas reais e emocionais. Ela me pede para sentar-me. Nem comecei a falar ainda mas as lágrimas me nublam a visão e só posso sentir a minha mão na aliança dele, que agora carrego em uma corrente em meu peito. Ela, a terapeuta a quem não irei dar nome, por motivos óbvios, me faz perguntas que respondo quase automaticamente. Quanto tempo de casada, quanto tempo de convivência, quantos filhos, o trabalho dele, o meu trabalho... chega um momento em  que quase consigo assistir de cima, como telespectadora, fora do meu próprio corpo aquele bem intencionado inquérito, onde as respostas saem meio de forma automática. Ela me oferece a caixa de lenços de papel e pela primeira vez percebo que estou chorando , como se nunca mais fosse cessar todo aquele líquido dos meus olhos. Naquele momento  não percebo que estou respondendo a todas as perguntas. Pareço ter uma espécie de arquivo que pela terapeuta foi desbloqueado, para que eu pudesse respondê-la sem sequer ouvir de fato  o que estava sendo perguntado. 

Na minha cabeça o que lembro são memórias diluídas, você caído entre a pia e o fogão, eu tentando aplicar massagem cardíaca e fazendo respiração boca a boca, e, para meu desespero, estou consciente demais para, apesar de seus movimentos involuntários, perceber seus olhos vazios, opacos e distantes, de quem, mesmo com as tentativas minhas e dos médicos do SAMU, já não estava entre nós. Eu soube que tinha te perdido no momento que entrei na cozinha. Os quase quarenta minutos de tentativas minhas e dos paramédicos só prolongaram aquilo que eu soube quando cobri sua boca com a minha para te jogar ar. Você já havia partido. O coração ainda batia, você de alguma forma ainda respirava, mas já não estava mais lá. Você morreu e, de alguma forma ainda é muito difícil verbalizar isto.

A mulher à minha frente percebe que estou longe dali e tenta me trazer de volta à sessão. Não se pode dizer que ela não tenha tentado. Eu acho. Porque na verdade me lembro muito pouco do que conversamos nesta primeira visita. Ela, enquanto eu enxugava as lágrimas, dizia que é muito mais difícil viver a perda no mesmo local onde vivemos a vida toda. Descobriu a América, ela, tadinha. Sem desmerecer seu empenho, só eu sei o que tem sido voltar todo final de tarde para nosso apartamento, sentindo como se você ainda estivesse sentado onde sentou-se por trinta e sete anos, seu lugar no sofá, seu lugar à mesa onde fazia as refeições, seu lugar onde dormia, por onde caminhava, à mesa do computador onde você trabalhava e onde hoje preciso me sentar para fazer o trabalho que era seu. Verdade seja dita, , não fosse sua rigorosa organização eu jamais estaria ocupando sua função como síndica. Há tantas pastas caprichosamente arquivadas no nosso computador que me espanto de você ter arquivado tudo, previsto tudo, deixado para mim um trabalho quase pronto de como administrar nosso prédio. Santa organização!

Eu desperto de meus devaneios quando a mulher à minha frente repete a pergunta, agora em um tom de voz mais elevado: "- Você sabia, soube, por três anos, que ele estava doente e era mais velho que você, não sabia? Não pensava nisto?"

Eu quis pular no pescoço da moça, adornado por alguma coisa dourada que me chamava a atenção, mas não achei que ela me entenderia. Levei mais de um minuto para responder sua pergunta. Sim, é evidente que eu sabia. O que não queria dizer que eu gostasse da possibilidade. Sempre dizia a ele que iríamos juntos, que não suportaria sua perda e ele ria de mim, me lembrando em sua sensatez que na vida não fazemos o que queremos , mas o quer era para ser. Quando ela mencionou nossa diferença de quase dezesseis anos de idade, viajei ao passado, uma viagem agridoce, onde me lembrava de nossa paixão aterradora e a reação das pessoas ao nosso redor. Meu pai me disse que estaria me deserdando ( como se isso mudasse alguma coisa - era fazer as coisas da forma tradicional para dar satisfações aos seus parentes e amigos ou aceitar que iríamos juntar nossas escovas de dente. Muito rapidamente ele percebeu que não estávamos brincando. Passados alguns anos, meu pai passou a nutrir por meu marido um carinho de pai para filho). Por outro lado me doía pensar que alguns parentes dele me viam como uma espécie de golpista, que só queria arrancar dele o que ele nem tinha e que iria lhe meter chifres na primeira oportunidade. Eu me aborrecia e ele dizia para não ligar, que um dia todos os seus parentes me veriam com outros olhos. Casei-me, com dezenas de pessoas apostando se meu casamento duraria um semestre, um ano ou cinco. Entre conhece-lo e casar-me foram quarenta e um anos. Nem o bendito padre de minha paróquia quis abençoar nossas alianças. Por ser desquitado, o padre, que deve estar mordendo a língua até hoje, recusou-se em abençoar nossas alianças  e disse que nossa união e todos os meus herdeiros seriam amaldiçoados. Para agradar gregos, e troianos de ambos os lados da família, casamos em uma Igreja Anglicana, com um padre de uma destas igrejas que não perguntam nada se você pagar o suficiente, usei branco, véu, grinalda, joguei o buquê para as amigas, meu pai bancou uma festa que não podia pagar, para mostrar aos seus amigos que a primeira filha tinha se casado conforme a tradição  e, no fim, depois de tantas concessões de ambos os lados, só nos importava o quanto nos amávamos um ao outro que quase doía, de tão real este amor.

Foi então, ainda entre lágrimas, que me lembrei o quanto a morte dele me doía em meu corpo também,  uma dor física, uma dor no peito que eu só sabia explicar como a dor de quando me apaixonei e que eu nunca consegui explicar, menos ainda agora, para ninguém. Me dói, me formiga os braços ao entrar na nossa cozinha, não consigo pisar aonde ele caiu e morreu. Me sinto como se estivesse pisando em cima dele. Não consigo dormir na nossa cama, porque por quarenta anos minha mão pousava sobre sua perna, em um gesto de carinho, que depois de sua doença, virou um gesto para lhe dizer que eu estava lá, que ele não precisava se preocupar.

Hoje durmo em uma cama de solteiro encostada na parede, e à noite ainda me pego procurando a perna dele para saber se está tudo bem. Se ouço um barulho em casa pergunto se ele precisa de mim, se troco de canal na TV e o som aumenta, eu corro para abaixar, porque o som alto pode acordá-lo. É tudo como se ele estivesse ainda aqui.

A sessão está terminando e eu a ouço dizer que eu devia externar meus pensamentos em um diário " - escrever sempre ajuda!"

Cá estou eu escrevendo sobre meus sentimentos e compartilhando com quase zero pessoas. Não que me faltem amigos. Muito pelo contrário, eles são muitos e têm me mantido em pé durante mais de três anos, das mais diversas maneiras. São minha rede de apoio e proteção. Meus amigos, minha família e a filha mais velha do meu Afonso, com quem me dou muito bem, têm me dado toda a força que eu preciso e ainda mais. E meu filho! O que dizer do meu filho, que nunca me falta, mesmo quando a distância se torna um empecilho!

Mas, na verdade, ninguém quer ler sobre  dor do outro. Cada um tem sua própria dor, cada um carrega seu próprio fardo. Então, escrevo e jogo no meu bom e velho blog, para quem quiser perder cinco ou dez minutos para dar uma lida. Talvez alguém se identifique, talvez ajude alguém que está caminhando sobre esta mesma trilha.

A propósito, já foram duas sessões. Não sou burra, mesmo tendo feito psicologia, sei que santo de casa não faz milagre e que deverão ser muitas sessões até que eu não precise mais de lenços de papel. Mas, apesar de toda a dor, de todas as dificuldades, sei que a terapeuta tem razão. Tudo acaba. Até a dor física que hoje é palpável um dia irá passar e se transformar apenas em uma saudade boa das loucuras que cometemos em nome do amor. Nós tivemos uma vida incrível e apesar de alguns dias brigarmos feito cão e gato, não sabíamos viver um sem o outro. Houve cumplicidade, houve compreensão, houve apoio, houve pic nic em cima de formigueiro, houve champanhe com sanduiche de mortadela, houve sexo como ninguém jamais fez e como os jovens de hoje jamais saberão como é ( palavras dele, mas que eu endosso), houve acalanto, houve dança na sala ao som de Emílio Santiago, bossa nova e Johnny Mathis, houve cartarmos juntos Guilherme Arantes e seu sol num despertar, brincando com a brisa, pois fomos mais românticos que a lua cheia!... houve segurada de barra contando moedas para comprar leite para o Bruno, houve desemprego, um enfarte aos quarenta e um anos, houve dias em que trabalhei vinte e tantas horas seguidas e você segurou lindamente a situação, nosso casamento teve de tudo um pouco e além. 

Só não me peça para aceitar você ir embora sem mim. Não era o nosso combinado e isso foi golpe baixo. E agora me resta aceitar existir sem você ai meu lado. Isto me soa tão injusto para um casal que passou tanta coisa junto! Você até ensaiou ir sem mim antes: ter um enfarto quando Bruno tinha nove meses não teve graça, nem ficar dez dias sentada nas escadas que davam acesso à UTI.do UNICOR. Tampouco quase morrer afogado para salvar a bola do Bruno em Meaípe. Ou cair na cachoeira e perder os óculos e me matar de susto. Mas, o que eu sempre te dizia: eu fico péssima de viúva, me recuso a ser uma. Por isto, hoje sou apenas uma mulher casada, cujo marido impaciente resolver mudar-se na minha  frente. Você sempre fez troça de mim por causa destas brincadeiras. 

Vou tentar continuar escrevendo minha lições de casa para a terapeuta. Não, ela não quer ler. Acho que ninguém quer, mas eu não me importo. Vou jogar no meu blog que, de forma geral, quase ninguém lê, sim, aquele blog onde segundo você eu postava as nossas indecências em forma de .fec... fic...você nunca acertava o nome. Ah, você era tão à frente do seu tempo em algumas coisas, mas tão antiquados para outras.. mas, sempre te compreendi, Era um pouco demais para alguém criado na década de quarenta. 

Continuo chorando, um choro onde os condôminos não enxergam as lágrimas, onde os amigos acham que estou melhorando e os parentes tem certeza de que é uma questão de tempo a dor passar. Minha doença avança calada e sem fazer muito alarde, mas logo não será mais tão fácil pintar ou me locomover e se houver justiça divina neste mundo, neste dia, ao invés de me render às fraldas ou à cadeira de rodas, nós tomaremos um atalho e você virá me buscar e nos encontraremos novamente. 

Te amo incondicionalmente como da primeira vez que te vi, como da última vez que te vi!

Tua sempre e sempre,

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Um Inesquecível Poema dor Dia - 4

                                       

Fernando Pessoa, quase uma unanimidade. Nascido em Lisboa ( 1888-1935), educado na África do Sul, escreveu em inglês e português, utilizou-se de heterônimos como Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro para escrever boa parte de sua marcante obra. Faleceu aos 36 anos. Tem muitos outros poemas muito conhecidos, mas este em especial marcou-me para sempre desde que o li pela primeira vez, também em minha juventude.

 Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho. 
Cada momento mudei. 
Continuamente me estranho. 
Nunca me vi nem acabei. 
De tanto ser, só tenho alma. 
Quem tem  alma não tem calma. 
Quem vê é só o que vê, 
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo, 
Torno-me eles e não eu. 
Cada meu sonho ou desejo 
É do que nasce e não meu. 
Sou minha própria paisagem; 
Assisto à minha passagem, 
Diverso, móbil e só, 
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo 
Como páginas, meu ser. 
O que segue não prevendo, 
O que passou a esquecer. 
Noto à margem do que li 
O que julguei que senti. 
Releio e digo:  "Fui  eu ?" 
Deus sabe, porque o escreveu. 
Fernando Pessoa

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Um Inesquecível Poema Por Dia - 3



Florbela Espanca entrou na minha vida tardiamente. Tem um blog que eu adoro acompanhar chamado Tardes Poéticas e foi nele que em 2011 deparei-me com:

"Não se pode chegar aos astros quem leva a vida de rastros, quem é poeira de chão."

E então descobri a poetisa portuguesa, nascida no Alentejo em 1894, que viveu intensamente a dor, o amor e a morte em suas obras e após três tentativas, tirou sua vida com apenas trinta e seis anos, em 1930. Em sua obra, poderosa e marcante é difícil escolher o que mais me toca, mas hoje escolhi o poema. 




                               Os Versos Que Te Fiz


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem para dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer!

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda.
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não fiz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

terça-feira, 26 de maio de 2020

Um Inesquecível Poema Por Dia - 2


É difícil falar em poesia e não pensar em Vinícius de Moraes. Comecei a ler Vinicius com 15 ou 16 anos na Biblioteca Municipal da Móoca, na rua Taquari, salvo me engano. Devo ter lido tudo que havia ele à disposição por lá. Impossível escolher algo dele sem ser injusta com o que fica de fora, e ainda que o Soneto da Fidelidade seja meu preferido, hoje fico com amar e morrer de amor..
Vinícius de Moraes, carioca, nasceu em 1913 e faleceu em 1980.

                                           Soneto do Amor Total
Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade
Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Um Inesquecível Poema Por Dia!!


Mamãe Ruth, fiquei pensando em como comemorar seu aniversário sem abraços apertados, sem um monte de beijos,sem estarmos juntas, sem presentes. Então pensei em fazer uma homenagem virtual, um poema por noite, durante toda a semana de seu aniversário. E vou começar com um que você gosta muito: Funeral Blues, do inglês Wystan Hugh Auden, vulgo W H Auden, )que morreu em 1973. Você deve reconhecê-lo facilmente, vamos ver se acerto em cheio!! Feliz Semana de Aniversário e aproveite! Depois virão Vinícius, Florbela Spanca, T S Eliot, Drummond, Fernando Pessoa, Pablo Neruda e Castro Alves. Para você ter sua semana inspirada!
Obs.: Primeiro o original e abaixo a tradução de Nelson Ascher, que talvez não seja exatamente a mais fiel, mas é a que gosto mais! Enjoy!!!! E Feliz começo de Aniversário!!!!

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog frombarking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message 'He is Dead'.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.
The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.
April 1936

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Que parem todos os relógios, calem o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.
Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste, A minha semana de trabalho,
o meu domingo
meu meio-dia, minha meia-noite, a minha fala e meu canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.
Agora as estrelas nãosão mais necessários: apaguem-nas todas;
embalem a lua, desmontem o sol brilhante,
Despejem o oceano, joguem fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

Duas Varandas




Eu moro há 31 anos no mesmo edifício. Nele, estaciono meu carro na mesma vaga, pelo mesmo tempo. Do meu carro de hoje ou da antiga perua escort sw, ao estacionar e descer do carro a mesma visão: as diversas varandas dos apartamentos de fundos do Julieta. Em uma delas, frequentemente a mesma visão: a de um sorriso sempre aberto e sincero. Sempre um bom dia! Uma boa tarde! Muitas vezes uma boa noite!

De quando eu estava grávida, vinham desta varanda, conselhos sobre tomar sol, oferecimentos de ajuda caso se fizesse necessário, desejos de um bom parto em São Paulo. Já com o Bruno nascido e de volta à Vitória, adorava encantar-se com ele (como se ninguém soubesse o quanto ela amava crianças). Foram tantos encantos, chamegos com meu filho e os outros bebes do edifício, de uma geração que foi se formando para encantá-la: Flávia, Wantuil, Bruno, Lorena, Guilherme, Victor, Aline, Júlio (que depois de tantos anos acabou se tornando seu médico de imagens), Júnia, Maria Victória, Caio, Fabiana, Fabíola, Fred, Luíza, Bianca, Gustavo e tantas outras crianças cujo nome vou esquecer. E não sei se eles cresceram com ela e seu “Mozão” ou se ela é que cresceu com eles. Ela sempre foi uma espécie de imã para atrair crianças.

O Bruno foi para a escola e eu abri meu buffet. Eu já não tinha tempo para curtir toda a vizinhança, mas ao descer do meu carro, daquela varanda não cessavam os avisos para que eu não trabalhasse demais, de que as caixas estavam muito pesadas para minha coluna e, a parte mais divertida era sempre ela me perguntando com cara de menina levada se tinha sobrado salgadinhos e brigadeiros de fim de festa, sempre com a desculpa de que eram para o Mozão. E, inevitavelmente eu fazia uma parada estratégica no primeiro andar para deixar um pratinho.. e seus olhos brilhavam: até aí ela era mais criança, como gostava de um brigadeiro, de um pedaço de bolo. Daquela varanda também vieram alguns dos melhores elogios ao meu menino, sobre como ele educado, estudioso, bem comportado.

Mas, aí a vida, sempre ela, acontece e nos desvia das coisas que mais gostamos de fazer. O buffet foi crescendo, os trabalhos em finais de semana iam até a madrugada, eu só entrava em casa correndo e saia mais correndo ainda. As festinhas nas escolas de segunda a sexta e o fim de semana corrido, só me permitiam tempo para meu filho e meu marido. E assim, descuidando de quem cuidava de mim, nossos encontros eram apenas para deixar o salgado ou o bolo com ela, às vezes dentro do elevador. Não me pude permitir viver muita coisa ao seu lado até que seu Mozão já estivesse muito doente, e nem saber que ela sofria calada sua doença para que seu grande amor se fosse, sem o sofrimento de vê-la doente também. Que outra mulher calaria seu câncer por tantos meses, só para se dedicar integralmente ao marido, por quem tinha adoração, e que já não guardava esperanças de recuperação? Somente a dona daquela varanda…

Foi somente aós sua cirurgia que voltamos a nos aproximar. Eu fechei meu buffet e passei a trabalhar em casa com pintura de enxovais. Meu tempo passou a ser mais flexível e ela adorava ver meu filho subindo ou descendo o elevador e perguntar sobre ele, saber de sua banda, ficar louca com o cabelo comprido dele, vê-lo ir ao primeiro estágio, ao primeiro emprego.

E foi sua doença, a tristeza do luto, as ocupações de meu filho e as minhas pinturas que me aproximaram novamente da dona daquela varanda. Agora eu podia acompanhá-la mais para um café e um pedaço de bolo. E quando a doença e a quimio voltaram, tive a sorte de poder estar ao seu lado. Eu digo sorte, porque eu aprendi mais com ela nestes últimos seis ou sete anos do que em boa parte da vida.


Ela ia para as consultas, os exames, as químios, com o mesmo sorriso no rosto com que ia comigo tomar café no Shopping Jardins ou Centro da Praia e não perdoava o fato de eu convidá-la para um café e tomar água ou suco. Eu era a sua amiga de ir tomar café que não tomava café. Ela ria com isto. E era nestas horas, ou nas que eu ia em sua casa, que eu ficava ouvindo suas inúmeras histórias sobre sua família, seus pais, seus irmãos, a casa em Milho Verde, a afilhada do coração, os seus tempos de banco, de fazer hora extra sem receber para ajudar uma colega, de adorar esparramar brinquedos no chão para brincar com os netos das amigas. Gostava de contar também sobre quando fez psicologia, do que aprendeu, de como era ser a mais velha da turma. Ainda queria ficar boa de vez para trabalhar como voluntária, onde dela precisassem.


A dona desta varanda falava de tudo e fazia tudo com intensidade, com alegria, com energia. Mesmo diante de resultados de exames nada animadores, ela levava em seu coração a certeza de que era só mais uma fase a ser superada. Tinha uma fé inabalável e uma vontade de viver inacreditável. E se eu fizesse cara de preocupada, tinha a cara de pau de me chantagear: se for para se preocupar não deixo você ir mais ao médico comigo! Não te conto mais nada!!

A dona daquela varanda que eu vejo logo que desço do carro dizia que queria morrer andando na rua. Caminhando no sol, carregando algum pacotinho de supermercado, de preferência com alguma boa oferta dentro dele. Como uma atriz a morrer no palco atuando. Mas, a pandemia não deixou.

A varanda ao lado da sua, pertencente a outra grande amiga por muitos anos, está ocupada a pouco tempo por outra moça que nós também aprendemos a amar. Gentil, amiga, atenciosa e linda, foram suas primeiras palavras para descrever a nova vizinha sempre pronta ajudá-la se fosse necessário. E então, esta moça se casou. Do começo deste ano para cá, a dona da varanda tornou-se ainda mais fã de sua varanda ao lado. A moça se casou e trouxe para o andar o convívio com um jovem alegre, solícito, simpático e músico.

Este rapaz fez da dona da varanda à direita a mulher mais feliz e apaixonada e da dona da varanda à esquerda uma nova mãe, como ele gostava de chamá-la Adorava cozinhar e levar para ela “um tantinho” para ela experimentar. Uma carninha, uma polenta, sempre um mimo e um largo sorriso, tentando poupar qualquer esforço desnecessário vindo da nova “mãe”. Fez até uma serenata para ela, que presa em casa pela pandemia, ficou encantada com o gesto, que encantou a muitos outros moradores também, isolados neste momento.

E assim, como um furacão, o dono do coração da esposa e do coração da mãe emprestada acabou ganhando também meu coração. Nos últimos meses, ao estacionar meu velho carro e dele descer, eu já não tinha apenas um aceno da varanda, tinha dois. Neste tão pouco tempo, não raras vezes, me vendo abrir o porta-malas cheio de compras do mercado, o rapaz descia correndo para me ajudar a carregar os embrulhos até o elevador ou até a porta de casa. E aproveitava para me perguntar como estava a saúde da vizinha de varanda e se podia ajudar em qualquer outra coisa ou apenas dizer como estava apaixonado, como gostava do prédio, como era bacana o trabalho do meu marido como síndico, como os funcionários daqui eram “gente boa demais” e como a vizinhança aqui era legal.

Foi em uma sexta feira que levei a minha amiga ao pronto socorro. Não sem antes ela me apontar na mesa de entrada da casa, que havia acendido uma vela pelo meu filho por causa da pandemia no Pará. No hospital, depois dos exames, deixou comigo suas alianças e eu disse que ficariam bem guardadas, esperando por ela voltar. A última coisa que disse para ela, antes de subir de elevador para a UTI cardiológica foi: Você vai ficar bem! Te amo! Te vejo daqui a pouco e vamos sair para tomar um café! Ela já respirava com muita dificuldade, mas fez o enfermeiro parar de girar a maca para poder olhar para mim e me dizer: Claro! Pode me esperar! Ela mal podia falar..



Só pude vê-la depois disso por chamada de vídeo, mas ela talvez já não me ouvisse, nem soubesse o tanto de amigos que tinha rezando por ela. E, quase uma semana depois, só pude me despedir dela por uns poucos minutos, com uns poucos amigos e parte da família, o que foi para mim, uma destas rasteiras da vida. Não bastasse perdê-la, ainda tínhamos que fazer sua despedida sem o tanto de amigos à sua volta, logo ela, que conhecia e era querida por tantos…

Quis o destino que a dona de um largo sorriso, alegria contagiante e um coração cheio de uma bondade e caridade imensas de uma varanda e o jovem esfuziante e gentil da varanda vizinha deixassem a todos nós no mesmo dia, tornando insuportável a dor de todos os que conheciam, a um, ao outro ou ambos.

Passaram-se uns poucos dias e, com ou sem pandemia, alguns problemas ainda me obrigam a ir para a rua. Mas, dias vão se tornar semanas, as semanas, meses e outras estações irão chegar. Uma certeza fica para mim: eu nunca mais vou descer do meu carro e olhar para as duas varandas com a mesma alegria no coração. Mas, vou esperar que tanta tristeza se torne uma saudade boa, cheia de recordações incríveis e bons exemplos destas duas pessoas e sempre ser grata por ter tido a honra de cruzar seus caminhos....