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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

A Empatia Que Eu Achava Que Você Tinha… (pode ser também: que merda, você me decepcionou,mas, deixa pra lá….)



Não entendo como alguém pode passar por outra pessoa que lhe diz que está com fome e ignorar um pedido de ajuda. Não dou dinheiro a pedintes, mas não consigo negar um pedaço de pão. É comum em minha vida negar esmolas, mas acabar alimentando alguém. Não se deveria ignorar a fome.

Foi com este mote que iniciei-me em inúmeras discussões com amigos, na verdade, pessoas que eu achava conhecer muito bem, mas que ao final da discussão descobri serem pessoas que eu jamais deveria ter conhecido.

Parece radical julgar pessoas pelo tipo de esmola que dão ( ou não), afinal não sou nenhum tipo de entidade superior para sair julgando pessoas. Mas, existe algo que me irrita profundamente: a certeza de estar sempre certo. Há muito tempo me reconheci um ser em constante estado de evolução. Aprender com o próximo, sair da bolha, conhecer além daquilo que se vive. Todas estas coisas fazem de você um ser mais aberto para reconhecer vivências que não são as suas, mas que poderiam ser. Aprendi a respeitar aquilo que não posso controlar. Como as marés no oceano ou furacões ou quaisquer outros fenômenos naturais. Quem disse que não posso acabar passando fome nas ruas? Que não posso acabar sem ter onde morar?

É só refletir por alguns minutos e imaginar meu apartamento indo por terra por um fenômeno natural qualquer. É só pensar que tudo o que tenho hoje é efêmero, e que por qualquer capricho tudo poderia ser consumido por chamas, por movimentos de placas tectônicas ou qualquer coisa assim.

Minha geração fixou como meta ter um carro. Um domicílio. Uma casa confortável, um lugar para chamar de seu, cheio de coisas legais, TV, som, uma churrasqueira maneira. Pois bem, foi o que conquistei na vida. Uma residência, própria, confortável, adequada a quem quer ter segurança para o resto de suas vidas. Mas, o conceito de segurança mudou nos últimos anos. Para além de ter criado um filho com as melhores possibilidades, minha geração não se preocupou muito com o que seria o amanhã. Uma boa casa, um carro, um filho com o melhor que a educação pode proporcionar. E só. E a aposentadoria. Sim, a famigerada aposentadoria. Aquela remuneração que nos traria alguma segurança quando não pudéssemos mais trabalhar.

Então, vou contar para vocês... a aposentadoria não dá para nada.. nem pensem em contar com ela no final de suas vidas… A idade traz a necessidade de medicações que não ficam mais baratas enquanto você envelhece. Se os ossos estão com pouca vitamina D ou você não toma sol suficiente, problema seu. Se a vista já não enxerga como deveria, o governo não tem nada a ver com isto, e por aí vai. E, agradeça se no percurso você não tiver um câncer ou outra doença que demande muito de outros além de sua boa vontade.

Parece um retrato cruel e é. De alguém que trabalhou a vida inteira, que se dedicou, que se doou, e ao final precisará escolher entre ir no final do mês ao aniversário da amiga no Outback ou comprar aquele remédio que dizem ser fundamental para quem tem osteoporose. Parece coisa escrita por alguém querendo fazer graça, mas não é. É bem deste tipo. Nem todo mundo conseguiu guardar algum dinheiro enquanto estava sobrevivendo.

E então, sou julgada por alimentar com um pão com manteiga aquele que diz ter fome. Me chamam de tola, cega, idiota e comunista. Só peço que não me falte quem me dê um pão se um dia as coisas mudarem….. Minha geração parece não compreender a necessidade das gerações atuais e não compreende mesmo. Porque eu ainda olho para os lados. Ainda me comove cruzar com uma criança na rua pedindo por comida. Lembro do que abrimos mão para meu filho não estar na mesma situação. E agradeço por ter sido privilegiada ao ponto de podermos ter dado a ele além de alimento, educação, cultura e aportes para que ele se tornasse o adulto que se tornou.

É triste descobrir que você passou a vida lutando por justiça social e encontrou-se com pessoas queridas te chamando de comunista ( sem nem ao certo saber o que isto significa). Humberto Eco disse que a internet deu voz a uma legião de imbecis, que antes apenas bebiam uma taça de vinho e esbravejavam sem ter grande valia sentados em bancos de bar. Hoje, pessoas que acham que te conhecem te massacram porque você supostamente não corresponde a aquilo que deveria ser a expectativa delas.

É um retrato cruel? Claro que é. Daqueles que pouca gente tem coragem de assumir. A vida não é vista aqui pelos filtros coloridos que o Instagram oferece. No dia a dia não dá para disfarçar sua falta de vontade de ajudar o próximo, sua preocupação maior consigo do que com aquele que vai dormir em sua calçada. A vida não é um uma rede social, com certeza não é. Não dá para fazer média com ela e sair bonito na foto, se não puder colocar a cabeça no travesseiro certo de que fez a sua parte. Você, e só você vai ter que optar. Não importa qual sua opção, mas vai ter que dormir com ela em sua consciência.

Pessoalmente eu prefiro dormir bem. Achar que fiz alguma coisa, por menor que seja. Nenhum gesto meu vai resolver os problemas do mundo, mas qualquer coisa que eu faça sem vaidade, para ajudar alguém, acho que está valendo. Vou alimentar alguém que me peça um pão, comprar presentes para o Natal de uma criança que mandou cartinha para papai noel dos correios, achar emprego para um ex funcionário do edifício onde moro, doar roupas que não uso para alguém que precisa, direcionar o óleo usado para uma comunidade que faz disto sabão e vive disto para sustentar suas famílias. É uma gota no oceano. Mas, imagine se cada um em sua casa fizesse só metade do que eu me proponho….

Ah, e se quiser me chamar de comunista por causa disto, dane-se! Não sou eu quem vai perder tempo ensinando história para você. Nem vou te dizer que acredito na lei do retorno, porque você não vale isto. Sei que, sorreteiro, você vai ler o que eu escrevi aqui e pensar que eu sou uma grande decepção. Problema é seu. Já passei da idade de querer agradar a todos. Se agradar a mim mesma antes de dormir, já me dou por satisfeita.

O mundo não foi feito para a gente agradar ninguém, a menos que você possa dormir com um sorriso nos lábios……...e hoje vou dormir gargalhando…..











quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Estamos Nos Indignando Pelos Motivos Certos?


( E O Que É Certo Afinal?..)


Com tanta polêmica em torno do corpo de um homem nu em um museu, a única pergunta que não me abandonou estes dias foi: estamos nos indignando pelos motivos certos?

Um corpo nu deveria ser apenas um corpo nu. E é isto o que deveríamos ensinar a nossas crianças. Um corpo nu é aquilo que somos quando nascemos e é aquilo que servirá de adubo para a natureza quando partirmos. Apenas um corpo. Não deveríamos demonizar a nudez e menos ainda o sexo. Quando tratamos o assunto como um tabu a criança sente e o passa a tratar como tal. Claro que é difícil agir com naturalidade em uma sociedade pouco acostumada com aquilo que deveria ser óbvio, mas não é impossível.  

Seja pela religião, seja por motivos antropológicos, temos que entender que somos nós, adultos, que vendemos para a criança este rótulo de proibido, de errado, de demonizado que há na nudez, no toque, no sexo. Do meu ponto de vista, mais importante do que condenar a nudez ou o sexo é mostrar a importância do respeito ao corpo do outro, do entender o não, seja para o seu corpo ou para o corpo alheio. Respeito é mais importante que vergonha. Respeito é mais importante que pecado. Respeito é mais importante que qualquer outra palavra que a criança precise conhecer no que diz respeito a corpo e a sexo. Entendendo isto, fica mais fácil fazê-la entender que ninguém pode tocá-la, por exemplo.

E aí, volto a me perguntar, porque tanto barulho por um corpo nú, se não vejo ninguém escrevendo longos textos lamentando a miséria em que vivem tantas crianças neste nosso país, crianças vendendo balas nos semáforos, cujo dinheiro vai para pais se entupindo de drogas, crianças vendendo seus corpos nas paradas nas estradas em troca de comida, crianças perdendo uma infância enquanto batem carteiras ou pedem esmolas nas praças, ou pior, ficam secando a gente enquanto devoramos nossos lanches enormes e cheios de molhos e queijos, salivando e desejando que sobre ao menos uma remela que ele possa lamber do papel da embalagem jogada fora.... que país cruel este em que vivemos..

Há um menino assim aqui perto de casa. Um menino remelento, com cara de poucos amigos, oito ou nove anos, pasmem, ele não tem certeza da própria idade. Vive sentado na porta da padaria que freqüento, de tudo faz um pouco, lava para brisa, oferece doces, carrega carrinho de compras... Não tem uma cara muito simpática. Nem deveria ter. Seu nome é Pedro. Mas, segundo ele, todos o conhecem por Pedroca. Pedroca nunca foi à escola.  É o quarto de sete irmãos. Seu pai está preso e sua mãe trabalha lavando roupa, mas ele não sabe aonde fica, só que é lá pelos lados do morro do morro São Benedito. Mora em Jesus de Nazareth. A primeira vez que me pediu uma esmola eu lhe disse que nunca dava dinheiro, só comida. Ele me disse que tinha fome e eu lhe trouxe um lanche. Fiquei de longe observando para ver se ele não iria jogar fora, como alguns fazem, porque só querem dinheiro. Para minha surpresa ele comeu um pedaço e guardou o resto.

No dia seguinte, perguntei se ele estava com muita fome e ele me disse que sim, mas novamente ele comeu, observei de longe, apenas parte do que comprei para ele. Na terceira vez, perguntei a ele porque ele não comia o lanche inteiro. Ele ficou bravo, disse que eu estava vigiando ele e que não precisava comprar nada se não quisesse. Eu esperei ele se acalmar e perguntei porque ele estava tão bravo. Ele custou a responder. Na primeira vez que perguntei não me disse nada. Levou uns dois dias para ganhar sua confiança. Infelizmente, não era todo dia que eu podia ir encontrá-lo também. Depois de alguns dias, ele me disse que levava o que sobrava para os irmãos que eram menores do que ele.

Depois disto, passei a comprar sempre que o encontro, pão, queijo e leite para cinco pessoas. Claro que é uma despesa que não posso arcar sempre. Mas sinto pena. Empatia. Lembram o que significa? A gente se colocar no lugar do outro? Ver uma criança sentir fome, se preocupar com o irmão?

Pois é. Não sei se a mãe é honesta, se trabalha de fato ou engana o Pedroca. São coisas que não consigo avaliar. Mas, o que dá para avaliar é aquela criança que deveria estar na escola, com um enorme sorriso no rosto, bem alimentado, vivendo uma infância de direito e jamais pedindo esmola e comendo metade do lanche ganho para guardar o resto para os irmãos...  Ele não devia estar desejando os restos da embalagem do meu lanche....

É isto o que me deixa indignada. A fome me deixa indignada. A miséria me deixa indignada. A desigualdade me perturba. Não venham me dizer que deveria estar dividindo minha casa com mais vinte pessoas, que não devia estar usando um celular moderno..... Isto não tem a ver com ideologias, com socialismo, com comunismo, com ismo nenhum. Tem a ver com empatia. Tem a ver com lamentar a infelicidade de quem não teve as mesmas chances, as mesmas oportunidades. Tem a ver com se indignar pelos motivos certos...

Eu fico indignada todos os dias pelos motivos que acho certos. Pela desigualdade de oportunidades, pela fome, pelo racismo, pelo machismo, pela luta de classes, pela necessidade absurda de algumas vozes terem que berrar para se fazer ouvir. Eu fico indignada pela falta de respeito, pela falta de consideração, pela mulher que apanha calada, pela criança que é explorada, pelo dinheiro publico jogado ralo abaixo. Isto me deixa indignada. Uma criança tocando um homem nú não me preocupa se ela estiver bem orientada. Eu poderia ser esta mãe. Tranquilamente. Não fui. Mas, poderia.

Eu sei que choca ler e surpreende quem pouco me conhece. Mas, quem me conhece bem sabe que vergonha eu tenho da fome da humanidade, da ignorância a que ela é submetida, da hipocrisia que a sustenta. Pior que uma criança exposta a um corpo nu é uma criança cujo pai espera ela dormir para satisfazer seus desejos nos sites online cheios de pornografia infantil. Para isto não há perdão!