sábado, 2 de agosto de 2014

Planeta Dos Macacos – O Confronto




É bastante difícil de dizer isto de um  blockbuster de ficção científica atualmente, mas Planeta dos Macacos – O Confronto superou minhas expectativas. 


Digo isto com uma pequena pontada no meu coração. O Planeta dos Macacos original, filmado em 1968 é um filme que marcou minha vida. Eu o assisti ainda muito nova. Tenho que admitir que a imagem da Estátua da Liberdade na praia é uma das imagens que mais me marcou cinematograficamente falando. 


Talvez porque seja uma imagem contundente demais para ser ignorada e mesmo sendo apenas linguagem cinematográfica, choca ainda mais com o passar do tempo e torna-se a cada dia ainda mais crível. Há quase quarenta anos, quando a vi pela primeira vez, senti-me pequena diante da imensidão de concreto mal jogado na areia. Até hoje é um dos momentos mais significativos do cinema, pois é uma visão que contém toda uma estória cravada nela. A estátua jogada partida na praia resume enfim a destruição da Terra como nós a conhecemos, o descobrimento de que o personagem principal nunca de fato esteve em outro lugar que não seu planeta de origem, a incompetência do ser humano em preservar sua espécie. Existe tanta informação naquela tomada de nove segundos, tanta desesperança contida na figura do homem de joelhos ( Charlton Heston em grande atuação, no papel do astronauta George Taylor, que depois de  séculos hibernando em sua nave, descobre que voltou à Terra após sua total destruição), um dos grandes exemplos do bom uso da imagem como um signo na linguagem semiótica. Fantástico!
  

Mas, voltemos ao filme de 2014. Se o filme original nos mostra nosso planeta devastado e dominado por uma nova espécie, Planeta dos Macacos – O Confronto nos mostra porque chegamos lá. Claro que boa parte desta informação vem do primeiro filme da nova trilogia, dando algum senso lógico para que macacos tenham de fato se desenvolvido, para que tenham aprendido a falar, entre outras coisas.


César ( Andy Serkis – que aliás já passou da hora de ser indicado para todos os grandes prêmios, inclusive o Oscar, dada sua atuação impecável, mesmo que discutidos os recursos de captação de movimentos) agora é pai, passaram-se dez anos desde sua fuga do laboratório onde era cobaia, e ele, enfim, tornou-se o grande líder dos símios que o acompanharam na rebelião. Ocorre que César é um pacifista, por amor e respeito a tudo o que aprendeu com seu protetor, o cientista Will Rodman ( James Franco, no primeiro filme da trilogia – A Origem). Não que ele ame os humanos. Ele tem a exata dimensão de que o homem que o amou e protegeu é apenas uma parcela da raça humana. Ele sabe que não são todos iguais e que o homem pode ser muito cruel e destrutivo. Por este motivo, César organiza e mantém sua comunidade isolada do contato humano, no meio de uma floresta. Com uma subsistência que despreza comodidades como a luz elétrica, a água encanada ou qualquer outro luxo, através de um respeito que beira um regime ditatorial, ele mantém os seus unidos. 


Por outro lado, a raça humana dizimada, vítima do vírus criado em laboratório, que ficou conhecido como a doença dos símios, sobrevive em grupos, pequenos guetos de resistência aqui e ali, que esforçam-se para restabelecer os princípios mínimos necessários para recomeçarem. O grupo que conhecemos nos primeiros minutos de    película é liderado   por Dreyfus   ( personagem interpretado pelo sempre ótimo Gary Oldman), um homem que tenta recomeçar em meio ao caos proporcionado pelo desespero e a ignorância dos que sobreviveram.  O objetivo é avançar floresta adentro para reativar uma usina ali instalada e assim, voltarem a fazer uso da energia elétrica, tão necessária para o homem que acostumou-se a tê-la como fundamental ( e aqui surge a primeira grande diferença entre símios e seres humanos).


A expedição de recuperação da usina é liderada por Malcolm (  competente trabalho de     Jason Clarke), que tem por companhia sua namorada, a médica Ellie ( Keri Russell), seu filho Alexander ( Kodi Smit- McPhee), e os amigos Werner (Jocko Sims) e o encrenqueiro Carver ( Kirk Acevedo). Neste momento começam a surgir os primeiros problemas. Em busca da usina, o grupo invade o “espaço” do grupo de César. Além da surpresa óbvia em deparar-se com macacos que raciocinam e são capazes de falar, Malcolm precisa garantir o sucesso de sua missão. 


Aqui surge a primeira tentativa de boa convivência de ambos os lados. César em sua política  pacifista autoriza a exploração da usina com uma única condição: que todos entrassem na floresta desarmados ( o que, obviamente acaba não acontecendo ). Malcolm, também um pacifista, além do fato de necessitar da autorização, aceita um  acordo que irá descobrir posteriormente, não poder cumprir.


Daí em diante tudo o que se vê é uma bem elaborada metáfora para todo e qualquer conflito no qual o ser humano habitualmente está envolvido. Existem os que acreditam na convivência pacífica, existem os ambiciosos, sedentos de poder, que na primeira oportunidade passam uma rasteira no seu igual, acreditando na máxima da sobrevivência do mais forte, existem aqueles que seguem o fluxo, que viram suas velas para onde sopra o vento. Aqui o longa-metragem  passa a discutir a convivência pacífica versus o incontrolável ódio da discriminação. Serviria perfeitamente para enquadrar o atual  conflito Israel x Palestina, mas também poderia estar enfocando os grupos de supremacia branca discriminando negros e gays. 


O filme é brilhante em seu óbvio argumento: o ser humano possui uma capacidade única para destruir seu semelhante, sem nunca lembrar-se que independente do credo, cor, raça, opção sexual, time de futebol ou partido político, iremos todos ter o mesmo fim, em uma caixa de madeira, inteiros debaixo de sete palmos ou em pó, adubando algum jardim ou alimentando alguns peixes.

A inversão de papéis apesar de ser incômoda, é totalmente crível, pois afinal, a raça de símios geneticamente evoluídos, faz senão defender e preservar sua espécie, coisa que nos pegamos fazendo todos os dias. Tanto mais tentem a paz, símio ou homem, mais sentem-se distantes desta possibilidade, porque o orgulho e o poder cegam e a compreensão de nossa existência é para poucos. É triste, mas totalmente verdadeiro. 


Matt Reeves, o diretor, constrói um filme com diversas camadas como um espelho reverso. César será pai novamente, e o filho mais velho é a síntese da oposição, da quebra de padrões, sem ter embasamento para isto. Como tantos jovens que vemos hoje em dia, que seguem o fluxo sem entender bem o porquê, Alex está buscando fazer o que é certo em sua opinião. E quando Koda sacrifica seu filho, que tem dúvidas justas sobre os métodos de seu pai, ele representa tudo aquilo que repudiamos em nossa sociedade atual, a corrupção, a ambição desmedida, o poder a qualquer preço. A discussão justiça x perdão permeia todo o filme, bem como a toda hora nos perguntamos quando terá sido o suficiente para os dois países hoje em conflito, em detrimento da morte de tantos inocentes.


Com uma maquiagem e efeitos especiais que certamente serão indicados ao Oscar, uma edição ágil, com muitos planos gerais, em close-up e planos de detalhe, além de uma trilha sonora pontual, Reeves constrói um filme incômodo, cheio de questionamentos e pesares. Cada personagem com captação de câmera acrescenta história aos currículos dos realizadores .


Os “macacos” são muito assustadores na medida exata entre a dor e a piedade, como se, pudéssemos classificá-los sem comprometimento. Em nenhum momento temos aquela sensação incômoda de boneco computadorizado ou fantasia mal elaborada. Tanto eles parecem reais que o close fechado no olhar de Cesar no início do filme e ao final me deram mais medo do que a maioria dos filmes de terror que tenho visto ultimamente. Da mesma forma o filho recém-nascido de César tem os movimentos suaves de um bebê e comovem no colo de sua mãe após o parto. 


Outro recurso bem utilizado é o som. Grandioso quando necessário, faz-se ausente em alguns momentos fundamentais, como por exemplo, o momento em que os homens veem a luz voltar a funcionar sem saber que seriam dizimados pelos símios impiedosamente poucos instantes depois.


Provavelmente o momento mais doloroso do filme seja o diálogo final entre Malcolm e César. Quando o humano diz que pensou que juntos pudessem obter a paz ( tendo a certeza de que isto nunca vai acontecer) ele acaba com todas as nossas esperanças na humanidade. Porque Cesar - o pacifista e toda a sua turma, somos nós de alguma forma. E entre eles ou nós sempre haverão vários  Kodas , dispostos a sacrificar até seu próprio sangue gananciosamente em busca de poder, seja em forma de dinheiro, violência, intimidação ou simplesmente maldade. O filme sombrio não deixa uma mensagem positiva. Ao contrário, como eu, Cesar e Malcolm estão cansados de esperar pela paz que nunca vem. E provavelmente nunca virá.


E para onde segue a trilogia depois de Planeta dos Macacos – O Confronto?  Em minha opinião, pela lógica, virá o domínio do mundo pelos macacos, atingindo o mesmo ponto onde foi concebido o filme original. Claro que, dada a concepção do primeiro filme, explicando a origem dos macacos desenvolvidos, fica difícil crer que o ser humano não saiba o que está acontecendo, como visto na película de 1968. Neste ponto, prefiro que não haja surpresa ou impacto  apenas para tentar igualar o choque do filme inicial. Até porque nada superará aquele final. É bobagem tentar algo como o filme dirigido por Tim Burton em 2001 onde ao final surge um macaco sentado na cadeira de Abraham Lincoln na entrada do Lincoln Memorial, um marco americano. Com o vírus símio criado em laboratório no início desta trilogia também aparentemente descarta-se a possibilidade do mundo ter se extinguido em função de guerra nuclear, como sugerido no filme original ( assunto que carregava um significado especial dada a situação do mundo naquela época: a qualquer momento esperava-se que alguém apertasse o famoso botão vermelho).  Fica claro, portanto que os roteiristas deverão caminhar por outras planícies para chegar à escravidão do ser humano. 

De qualquer forma, o grande  mérito de O Planeta do Macacos – O Confronto está em ser mais atual e representativo do que todos os outros filmes do tema. Além de grande diversão, o filme é a metáfora perfeita para tudo o que vivemos desde que nos entendemos por gente. Grande filme. Não perca!



Até a próxima!




 





sexta-feira, 11 de julho de 2014

George Clooney... Tem Um Sobrando Por Aí?......






E o que dizer a respeito.... O cara consegue ser politicamente correto até a raiz dos cabelos.... Não dá para não ser apaixonada por ele.... Mesmo que ele seja apenas um mito feito para nos apaixonarmos..... Em um momento delicado, onde a religião hoje em dia serve de frente de luta para israelenses e palestinos, onde tantos morrem em nome de uma crença, George Clooney dá uma enquadrada na imprensa, que tenta fazer de seu relacionamento com uma mulher de religião diferente da sua um espetáculo e um motivo  para especular diferenças e dificuldades. Ele não tem medo de chamar para si a responsabilidade de conviver com alguém com pensamento diferente do seu. E supor que dará MUITO certo. Adoro celebridade que usa o nome e a fama para acrescer algo de bom à sociedade.


http://mudamais.com/ruas-e-redes/george-clooney-da-uma-situada-na-imprensa-sensacionalista

George Clooney dá uma situada na imprensa sensacionalista...

Tudo começou quando a gente descobriu que o George Clooney ia se casar. Luto superado, fomos ver quem era a sirigaita noiva do moço. Aí o nosso despeito e inveja foram vencidos pelo perfil da moça. Amal Alamuddin nasceu no Líbano e vive na Inglaterra. É advogada especialista em direito internacional, direitos humanos, extradição e direito penal para Doughty Street, em Londres, na Inglaterra. Das mais famosas e competentes do mundo. (E ainda por cima é linda, a moça!). Um dos clientes de Amal é Julian Assange, fundador do Wikileaks. A noiva de Clooney o defende contra a extradição da Suécia.



Ficamos passados ao ver ontem a notícia de que  a sogra de George Clooney acha que a filha é boa demais (link is external) para o astro de Hollwood. Ademais, Clooney é católico e não um druso (link is external), como a família da moça. Por isso, ao se casar com George, Amal iria se tornar uma pária entre os seus e George corria até o risco de ser capado pelos parentes homens de Amal e... A notícia estava ficando tão estranha e sincrética, pra dizer o mínimo, que fomos estourar umas pipocas pra acompanhar a novela. Até porque a gente acha mesmo é que Amal Alamuddin é boa demais até mesmo pra George Clooney,


Sete gols da Alemanha depois Hoje descobrimos na CNN que Clooney chamou às falas o tabloide que publicou essa notícia (que é falsa) (link is external). O ator, que normalmente não liga pra notícias que os tabloides publicam dele, desta vez ficou muito indignado: A irresponsabilidade, hoje em dia, de explorar diferenças religiosas onde elas não existem é no mínimo negligente e, mais apropriadamente, perigosa. Temos familiares em todas as partes do mundo, e a ideia de que alguém poderia insuflar qualquer parte do mundo simplesmente para vender jornais deve ser criminosa. Ele chegou a sugerir que o tabloide estava incitando a violência.


(EM tempo: preconceito religioso é uó tanto pra George Clooney quanto pra gente do Muda Mais, tá? Tanto lá quanto cá temos que enfrentar boatos que se valem de preconceito religioso e racial...)


O mais curioso é que, lá na Inglaterra, ninguém acusou Clooney ou sua noiva de censura à imprensa ou de tentar ocultar a verdade. Pelo contrário: o Daily Mail, responsável por publicar a notícia, deletou o post de seu site e pediu desculpas a George e Amal. Reconheceu que o jornalista que escreveu a matéria o fez depois de ouvir pessoas que teriam dito que outros estavam dizendo (a popular fofoca).


Imagina se isso acontece aqui no Brasil?

A Copa E Como Dói Perder......




Neste momento, enquanto sento em frente ao notebook para escrever sobre o jogo Brasil x Alemanha, Felipão está dando uma entrevista coletiva. Na tela da televisão vejo o técnico tentar com educação e paciência ( ou nem tanto, já que classe e paciência não são exatamente virtudes suas) responder às perguntas quase ofensivas dos jornalistas sanguessugas, que tentam arrancar no tapa uma declaração trágica, talvez um comunicado de suicídio para depois do inquérito. 



Nossa imprensa é vergonhosa. Mais do que a própria derrota da seleção. Referem-se ao jogo como um vexame, o maior vexame da história, uma humilhação da qual jamais irão se recuperar,  quase como se os jogadores e técnico merecessem ser punidos em praça pública. Foi feio? Claro! Mas perguntar dez vezes como o cara se sente é quase como esperar que ele se enforque em frente às câmeras.


Isso acontece quando as pessoas confundem as coisas. Estou triste? Óbvio, adoro meu país, adoro futebol, torci orgulhosamente em todos os jogos, porque não teria me entristecido? Vou mergulhar em depressão e passar a dizer que nada neste país presta, que aqui é tudo assim, que ninguém faz nada por nós, que meu país é uma vergonha? Claro que não! É um jogo. “O Jogo”. Mas um jogo. Jogos têm algumas regras fundamentais. A primeira delas: de dois times, um ganha e outro perde. Nós perdemos. Ganhamos quatro e empatamos um jogo anteriormente, mas este, que nos permitiria disputar a taça de campeões mundiais, nós perdemos. 


Aqui na tv, continuam as tentativas de obter respostas a fórceps dos jogadores, na esperança de que eles se humilhem ainda mais, declarando-se incompetentes, péssimos jogadores, deixando a certeza de que perderam porque nem faziam questão de ganhar. Haja massacre.


Não cabe aqui nenhuma defesa ao ocorrido. A seleção não começou a jogar mal contra a Alemanha. A seleção está jogando mal desde que a Copa começou. E antes. E pegou adversários mais fracos ou menos eficazes do que ela, o que facilitou algumas coisas. Mas nem nos meus sonhos mais perturbadores eu consigo imaginar qualquer um destes jogadores  entrando  naquele dia em campo dizendo: “- Ah, dane-se, hoje se perder, perdeu.”
Aquilo que o Gerard twittou, sobre Portugal ter o CR, Argentina ter o Messi, Brasil ter Neymar e Alemanha ter uma seleção, me perdoem a pretensão, mas venho falando há um ano. Não porque entendo muito de futebol. Mas porque entendo o mínimo. Falei  (e tenho testemunhas) que Cristiano Ronaldo provavelmente dava um trem para não participar da Copa porque passaria vergonha, porque um homem só não faz milagres. Dito e feito.


Portanto, nada disto foi novidade para mim. Só ficava rindo do povo nas entrevistas nos noticiários  dizendo... três a zero, quatro a um, cinco a um e tal. Falava para o maridão: “- Será que só nós dois temos juízo? Se ganhar de um a zero é lucro, muito lucro.....” 


E a entrevista na tela da tv continua. Um ser, cuja mãe deve estar acostumada a diversos elogios, faz a David Luiz a pergunta de um milhão de dólares: “ David, como você está se sentindo?” Sério, o que ele achou que o cara iria responder? “- Bem, sabe, hoje fez sol, o dia foi legal, estou super feliz, ah, e por acaso perdemos...”


Os caras da imprensa sabem ser cruéis. E adoram tirar um choro ao vivo. É o circo da imprensa. Quanto mais lágrimas, mais audiência....
E assim, com o aval do nosso jornalismo, o brasileiro vai descarregando seu ódio pelo país, misturando alhos com bugalhos e buscando culpados que nem entraram em campo. Misturam os assuntos e já não falam mal apenas do time, do técnico ou dos jogadores. Agora falam mal do gramado, dos estádios, do governo, dos prefeitos, governadores, da presidente, como se, enquanto o resultado fosse positivo, nada disto fizesse diferença.


Quando o mesmo sujeito que canta o hino à capela no que o time só está vencendo é o mesmo que queima bandeiras e sai do estádio no meio do jogo pode apostar, este não é um sujeito que ama seu país. Ele ama vencer, ama estar ao lado de vencedores. Sob qualquer circunstância. E você, leitor, me pergunta: “-Mas você não gosta de vencer?”


Ah, santa inocência... Claro que gosto de vencer. Sempre. Mas gosto mais da razão. Gosto mais da coerência. Gosto da sinceridade e de amar meu país, mesmo que ele não me traga o título de campeão do mundo no futebol. Prefiro que ele seja campeão da simpatia, da educação, da saúde e da forma como trata as crianças. Prefiro saber  que ensinamos nossas crianças que quando jogamos um jogo podemos ganhar ou perder, mesmo que tenhamos feito o possível para ganhar. Hoje meu filho é cobra criada, mas se tivesse filho pequeno ou neto, ou sobrinho por perto, diria: “ – nosso time hoje jogou mal e perdeu. Faz parte do jogo, quem joga melhor ganha ( quase sempre). Mas veja, nós chegamos até aqui. Disputaremos o terceiro ou quarto lugar e tenho certeza que os jogadores fizeram o que foi possível a eles fazer. Mas nosso país é lindo, recebeu pessoas do mundo inteiro com educação e respeito e vai continuar lutando para futuramente ser o melhor do mundo, também no futebol!”


É um discurso conformista? Pode ser. Mas o que de melhor pode fazer aquele que sai apedrejando o país como um todo como se ele merecesse ser escorraçado, como se pelo futebol julgássemos todas as suas ações, como se fossemos pequeninos e tivéssemos a honra de um pires?


Prefiro acreditar que meu país é maior e melhor do que isto. É um país em crescimento, que luta por uma educação digna, que tem pessoas empenhadas em trazer mais do que um título de campeão de futebol para casa. Todo dia quando escrevo, quando a professora dá sua aula, quando o médico dá seu diagnóstico, o juiz dá seu veredito ou o quando a criança desenha um mundo melhor no seu caderno o país cresce e amadurece. Não pelas vias da corrupção, que combateremos até não haverem mais forças, não pela facilidade da troca de favores, que preferimos ignorar ao honrar cada compromisso, não pela facilidade de vencer apenas para ostentar um título, mas pelo verdadeiro significado da vitória, não porque é moda vestir a camisa e cantar o hino, mas porque cada palavra deste  hino tem um verdadeiro sentido para mim, porque o verde e o amarelo são as cores do meu orgulho, a minha palavra de fé, verdadeiramente todas as coisas em que acredito. 


Mas, que bobagem, afinal eu canto o hino em todos os jogos que ele toca durante as competições estaduais, eu o canto orgulhosamente quando ele dá o ar da graça no vôlei e quando o Cielo está no pódio. Canto, quando um judoca ganha um novo título, quando um novo presidente sobe a rampa. Eu sou uma romântica. E uma crente. 


Eu creio na nova geração. Aquela que ajudei a criar. Creio no amor que aqueles que eduquei terão pelo seu hino, sua bandeira, o nome de seu país. Fico puta quando um repórter qualquer achincalha com o sagrado nome Brasil, mesmo que hoje, vez ou outra ele nem mereça a honra da menção. E vamos lutando, dia a dia, para que este nome mereça tal honra. Tanto quanto o futebol. 


Que fique a lição de uma renovação. Que se prove necessário não avacalhar com o jogador em entrevista, porque isto não ganha jogo, mas que venha um novo modo de ver o esporte, de se fazer valer a camisa sagrada verde e amarela.


Que não seja prioridade arrancar aos trancos um mea culpa do atleta, que faz não somente representar nosso país e por certo, sente vergonha por não estar hoje à altura, mas que entende que o nome que se junta à tradição das cinco estrelas tem seu peso e deve ser respeitado. Que ele saiba que Brasil vai além de um nome entre tantos outros da América do Sul, quiçá da América Latina.
Há de se fazer necessária a verdadeira faxina na CBF, há de se fazer obrigatória sua desvinculação dos órgãos de comunicação, sobretudo à Globo, que só falta escalar o time para o técnico. Há de se crer que a audiência virá pelo mérito, não pela obrigação e que, os números serão favoráveis àqueles que prestarem o melhor e mais fiel serviço. É por tudo isto que eu luto.


As entrevistas na televisão estão por findar. Não há mais o que dizer. Não há mais lágrimas que comovam, nem desculpas que convençam. Nem a simpatia infantil de David Luiz, tampouco o arrependimento pela falta de Thiago Silva. Saturaram-se os argumentos de Hulk, Paulinho  ou Fernandinho. A imprensa transformou todos os nossos possíveis heróis em carrascos de si mesmos, em cruéis vilões de uma estória inacabada. Mas, infiéis por crença, não reconhecem sua culpa, junto aos jogadores, técnicos e companhia.


A mesma imprensa que não se importa de malhar para conquistar mais meio ponto. A tal, que meses atrás, condenou a possibilidade de deixar de escalar Fred, que não fez senão nada em campo. Penso o que teria sido do técnico sem escalar Fred. A chuva de impropérios de que teria sido vítima. Infeliz daquele sob a  tutela de duzentos milhões de técnicos meia boca a opinar e decidir aquilo para o que não fora treinado. 




Mas, agora pouco importa. Foi-se o título, foi-se o hexa em 2014. Ficam as muitas lições da humildade ao verdadeiro conhecimento tático e técnico, fica o desejo de que a seleção de 2018 seja o retrato de uma pátria redimida e confiante de acertar  em seus jogadores e seus governantes e seu desejo de ser uma pais honesto, tanto quanto exímio em futebol. Fica a sensação de que iremos chegar lá, pois somos experientes em torcer a favor, mesmo quando temos um turbilhão torcendo contra. Nossa marca é ir contra  a correnteza, é ganhar quando ninguém mais acredita, é sobreviver quando já não há oxigênio disponível. Nossa razão de existir é provar que todos os outros estão errados. 

Por isto eu sei que vamos chegar lá. Vai demorar mais quatro anos, mas não importa, porque eu sei que vamos chegar lá. Com mais dignidade do chegaríamos agora. Com a honra de quem não precisa de resultados arranjados. Nós vamos chegar lá e comemorar com honestidade na frente destes repórteres que hoje tentam arrancar de cada jogador seu mea culpa, sua vergonha por existir, como se tivessem matado alguém, como se seu crime fosse inafiançável.




Já troquei de canal. Já não ouço mais os intrépidos repórteres inquerirem cada jogador à beira das lágrimas, como se tivessem matado uma criança, como se fossem os drones que Israel mandou ao território palestino. Deixa para lá. Já estou ouvindo Chico ( Buarque ). Já me preocupam mais as crianças vitimadas pelos ataques criminosos que vitimam tanto palestinos quantos israelenses. Agora, sem artifícios nem desculpas, isto me está doendo mais e mais que qualquer título, qualquer copa.....


Haverão outras copas. Haverão outros jogo. Outro técnico, outra CBF. E, talvez, outro time....


E eu, haverei de rezar pelas crianças, pelos drones que atingem o vazio, pelas bombas que ninguém fere, pela sensatez da paz..... e, envergonhadamente, pedir para que nós vençamos no sábado para podermos ficar com o terceiro lugar....... o que fazer, eu continuo torcendo por eles, pela pátria que representam.... julguem-me se puderes.....

Ah.... Só para constar.... sábado estarei vestindo minha camisa da seleção e estarei torcendo pela vitória do Brasil sobre a Holanda.... nem preciso explicar o porque né?......