segunda-feira, 29 de setembro de 2014

How To Get Away With Murder – 1×01: Pilot - Review

 

“… Vaidade é definitivamente meu pecado favorito!” 



John Milton ( personagem de Al Pacino em “ O Advogado Do Diabo”) Esta frase retirada do filme de 1997, com direção de Taylor Hackford, com atuação brilhante de Al Pacino, Keanu Reeves e Charlize Theron diz muita coisa sobre o mundo dos advogados que a nova série de Shonda Rhimes pretende explorar. Advogados são profissionais tradicionalmente controversos, que vivem em um mundo obscuro onde o bem e o mal ganham contornos comprovadamente discutíveis. À mercê das leis, são conhecidos como personagens que contorcem argumentos até que eles se encaixem adequadamente ao interesse de quem por eles são defendidos.

O piloto da série abre mão logo de início de um artifício batido, mas comprovadamente eficaz, os flashforwards, ou, de maneira mais simples, de trechos da série passados em seu futuro, quem permitem que possamos saber algo do que nos espera adiante. É esperto jogar uma isca daquilo que será o mote da série, mesmo antes de nos apresentar aos personagens principais, pois já ganhamos de cara um enigma para resolver, mesmo que nada saibamos ainda sobre o show.

A princípio a série nos oferece um contraponto, o inquestionável conhecimento da advogada que também leciona para alunos primeiro anistas Annalise Keating versus o inocente desconhecimento do aluno meio perdido Wesley Gibbins. Aquilo que parece um cabo de guerra desonesto a favor da professora, vira habilmente a favor do aluno a partir do momento que nós descobrimos através de seu olhar que a mestra não é tão honesta / imaculada assim. É muito interessante o ponto de vista de Wes a confrontar uma espécie de anti herói de saias, um personagem que, como meros mortais,  tem um lado negro a acompanhar seu lado heróico.

Do ponto de vista didático, a professora apresenta um caso para que os alunos encontrem uma resposta mais eficaz do que o que ela propõe. Ela lança mão de uma espécie de competição cujo prêmio maior seria trabalhar ao seu lado durante a duração do curso, uma espécie de estágio.

Destacam-se por competência ou esperteza os alunos que às vistas de cenas futuras descobrimos enroscados às voltas de ocultar um corpo, o do professor de psicologia, que não por acaso, vem a ser o marido de Annalise. Nós o conhecemos ainda vivo durante um coquetel de apresentação de alunos, ao mesmo tempo em que descobrimos que nossa heroína às avessas trai seu marido com um investigador ligado ao caso que ela está defendendo no tribunal. Desta forma Shonda Rhimes, conhecida por suas tramas cheias de dramas, e intrigas ( vide seus sucessos com Greys Anatomy, Private Practice e Scandal) já deixa que irá trabalhar no limite da honestidade, explorando aquilo que vivemos no dia a dia, pessoas comuns que diante de dilemas pessoais tomam decisões nem sempre acertadas, dentro da lei, mas questionavelmente éticas.

A presença marcante de Viola Davis contrasta com a pouca experiência de seus atores/atrizes de apoio e isto acaba por ser positivo, refletindo-se no contexto do show. A controversa esperteza de Michaela Pratt ou de Lauren Castillo, bem como as sacadas de Asher Millstone são, tanto no território da interpretação, como na ficção, fichinha para a professora tarimbada e cheia de jogo de cintura, que deixa em aberto para o público que decidirá se ela deverá ser uma heroína para quem devemos torcer ou uma impostora a quem desprezaremos por toda a série.

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Do ponto de vista técnico, a série também acerta em cheio. Cheio de tomadas curtas e impactantes, a direção opta por uma fotografia que privilegia as tomadas futuras, de forma dinâmica e informativa, sem deixar dúvidas e no entanto sem mostrar demais. Os flashforwards um tanto quanto claustrofóbicos são necessários para causar impacto sem mostrar mais do que a estória no momento permite.
O piloto promete dois grandes triunfos: a estória, que deve se desenrolar aos poucos, demorando a explicar porque os escolhidos pela professora assassinaram seu marido e a interpretação pontual de Viola Davis, que dispensa apresentações. A atriz, que nos últimos anos vem obtendo diversas indicações a prêmios de destaque pelos mais variados papéis, cria aqui uma personagem forte, de discurso convincente, com arestas a serem aparadas, onde desta forma parece-se mais humana do que o esperado, e fazendo-nos acreditar que as pessoas podem ter boas intenções, mas isto não significa estar certa o tempo todo. Criando um personagem controverso, Shonda Rhimes extrai de Viola o seu máximo em termos de interpretação, uma espécie de vilã que aparentemente adoraremos odiar por várias temporadas. Ponto a favor da pós-edição, dinâmica e cheia de pequenos brindes ( como a inquisição do detetive ao mesmo tempo que exploramos sua relação com Annalise e a descoberta de que o o homem morto pelos alunos é Sam, o professor de psicologia, marido de nossa advogada mor). Nem precisa ser tão curioso assim para querer despertar nossa curiosidade para os próximos episódios.

Não foi um piloto sensacional, daqueles em que a gente perde o sono, mas foi competente o suficiente para querermos revisitar a série em seus próximos episódios para sabermos o que vem pela frente. Espero apenas que o roteiro seja inteligente o suficiente para não tornar uma obrigação apenas os excelentes desempenhos de Viola. A série tem gás para viver para além da interpretação da atriz principal. E,espero que a direção de fotografia  permaneça fiel à proposta inicial

Não se sabe ainda se esta será uma série procedural com arco de dois a três episódios ou uma estória com começo, meio e fim a cada temporada. De qualquer modo, acho que a elucidação do primeiro caso será fundamental para dar uma “cara”  ao show. Resta saber se será o que o público, neste momento, quer assistir.

Aguardando  ansiosa pelo próximo episódio. E vocês, o que acharam deste primeiro episódio?
Deixem seus comentários, gostaria de saber o que acharam….

Até a próxima pessoal!

terça-feira, 23 de setembro de 2014

SE.............



Meu tempo for curto,
Minha vontade for pouca...
Se meu desejo incerto,
Meu caminho inseguro...

Se meu pedido for injusto,
Se minha sina for esta...
Se minha vontade for insuficiente,
Se minha súplica for pouca....

Se meu momento passou,
Se meu destino for este,
Se nada me resta além disto,
Se tão pouco me basta....

Se era para ser e não foi,
Porque nunca foste o que eras...
Se minha palavra não supre,
Se meu perdão nunca chega....
Se era pecado e perdoei...
Mesmo sem poder, absolvi...
Se tinha poder e ignorei,
Se podia ver e quase ceguei....

Se a verdade me congelava,
Me dava poder e me censurava....
Entediava, mas negava....
Adormecia e tolerava......

Se pudesse mudar, eu mudava.....
Se pudesse gritar, eu gritava....
Se pudesse viver, eu vivia....
Se pudesse lutar, lutaria....
Como quem luta lutas antigas,
Como quem briga há tempos...
Como quem busca justiça,
Nas mãos feridas e mortas...
Como quem acredita e confia.....


Como quem espera e não acha...
A razão que não tem razão....
O pedido não cede...
O desejo abdica......

Espera, óh! bendita crença,
Na palavra de quem crê....
Nas nuvens, nos pingos d’água, nas notas...
Nos incertos medos, nas lembranças....
Nas verdades implícitas, nas toadas surdas, aprazidas....
Nos medos absurdos, nos contrassensos,

Ah! Verdade escondida,
Quase desfalecida,
Perdida em ilusões.....
Mente quem nunca sente,
Que dói o que te mente,
Na palavra....
Inconsequente.....
Volta para mim, palavra inerte,
Ainda que solitária e insensível,
Acomoda minha paz no teu sossego,
Minha luz na tua calma,
Meu alívio no teu ser,
Imprudente.....

Desejo aquietar minha alma,
Uma sombra em teu anseio...
Minha mão alcança a tua
E abraça um perdão
Verdadeiro em meio....

Nada resta senão tua voz
A amenizar minha tortura,
A sonhar com o impossível,
A perdoar minha lisura,

Fracasso em meio ao pesadelo,
Lições a ver meio a candura
A perdoar quem nada teme,
A condenar quem nada jura...

E esconder medos a fim,
E estender medos em cura...
Saber que nada vive sim....
Se nada teme a sala escura.....

Senão jurar em si teus pesadelos,
Tua verdade encanta pela palavra.
Palavra em si que não comporta,
A verdade que em tese acomoda.

Ventos que carregam a verdade,
Verdade incômoda, mas lícita....
Desejo de viver quase covarde.....
Palavra lícita, quase fantasma,
Estigma, no entanto digno
De defender crença benigna......

Perdoa simples paixão,
Que nada encerra e
tudo encerra em teu desejo...
Nada ensina na nuvem escura,
Nada espera da nuvem clara....
Pede a Deus, mesmo que não haja Deus....
Pede que se faça rara,
Mesmo que se deite
E curve, mesmo que se implore,

Mesmo que se faça útil,
Mesmo que seja necessário,
Mesmo que chova anseios,
E ainda que seja difícil acreditar...

Faça brilhar mais que meu desejo,
Faça ser mais que minha voz,
Perdida num mosaico de motivos...

Faça ser muito mesmo que pareça pouco,
Faça ser aquilo que parece ser...
Faça ser o certo que parece o errado,
Uni o que está separado....

Tantas famílias em uma só.......
.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Legenda Ou Dublagem: Todos Queremos Ir Ao Cinema


Eu faço parte de um contingente de cinéfilos que aprendeu a amar o cinema na sua forma tradicional e mais pura, fazendo uso de legendas para assistir a filmes que não foram feitos em minha língua pátria. Desde muitos anos aprendi a assistir Paul Newman, Audrey Hepburn, Liz Taylor, Robert Redford e tantos outros falando em sua língua de origem, quando eu os assistia nas mágicas salas dos cineclubes de São Paulo, em uma época em que o lanterninha se encarregava em  manter a ordem e o silêncio no ambiente.

Eu sei, são anos demais, as coisas mudaram muito ( e não foram para melhor), mas alguns hábitos permanecem. Passado tanto tempo e tendo vindo de experiência tão gratificante, nego-me a ouvir George Clooney na imensa tela na sala escura soando a MacGyver ou  Nicole Kidman lembrando-me a voz da NannyMcPhee.Sei muito bem que os dubladores profissionais fazem o melhor trabalho possível, mas nada mais contundente para retirar você da imersão de uma cena do que a voz de um personagem te remeter a outro nada a ver com o filme que você está assistindo.

Na intenção de juntar pessoas que compartilham com meu desejo de terem a opção de assistirem filmes na versão legendada, de preferência em horários que não nos façam sair do cinema já no dia seguinte ( por que donos de salas de cinema acham que por gostarmos de legendas nos filmes somos todos notívagos ou desocupados?), disponibilizo este espaço para que as pessoas se sintam à vontade para relatarem suas experiências e deixarem aqui suas reclamações.

Por ser uma criatura teimosa que ainda acredita que reclamar vale a pena, ponho-me aqui à disposição para relatar aos donos destas mesmas salas o quanto há de pessoas descontentes com a situação ( a cada 25 ou 30 emails referentes à mesma sala e mesmo filme me comprometo a enviar email ao gerente da sala relatando os descontentamentos e encaminhando as reclamações). Não sou ingênua a ponto de acreditar que por mandar a eles meia dúzia de emails poderemos reverter a situação, mas acho que fazer barulho ainda é algo que funciona. Pensei que talvez, se tiver 30 pessoas reclamando da mesma sala, com o mesmo filme, já é um número legal para começar a incomodar.

Para isso conto com vocês, que preferem assistir filmes legendados em horários que não os transformem em abóboras. Relatem aqui os filmes que foram privados de legendas ou exibidos legendados após às 22 horas. Se houver um número grande o suficiente montarei um blog para administrar estas reclamações e postar estatísticas. Enquanto não souber se haverá adesão, manterei este tópico do meu humilde blog sempre dando "UP", para que os interessados possam postar com facilidade.

Pode não dar em nada ou pode nos surpreender e chamar a atenção o suficiente para ajudar a alguns, aqui e ali a assistirem seus filmes da forma que mais preferem: apreciando a interpretação de cada ator ou atriz também através da vocalização.

Por enquanto só registrarei reclamações do Espírito Santo ( resido em Vitória), Rio de Janeiro e São Paulo. Se sentir que há interesse para outros estados, poderemos considerar. Pessoas interessadas em divulgar ou ajudar a manter o tópico serão bem vindas.

Conto com vocês!

Grande abraço!

Débora Gutierrez R.Clemente


A Geração EU


Ou selfie, se você preferir usar a língua inglesa. O nome não importa tanto quanto a importância que tem o estrago que ela irá causar na humanidade daqui para frente.

Quando foi que perdemos a noção de coletividade? Quando foi que resolvemos deixar em casa o coração para cruzar com crianças com fome e não nos comovermos ou vermos uma velhinha atravessar a rua com dificuldade e não ajudarmos? Quando foi que nos esquecemos de segurar a porta para o próximo ocupante do elevador ao sair dele ou de dizer bom dia ao porteiro porque estamos concentrados demais em dizer bom dia ao mundo pela rede social?

Aliás, este é um modo interessante de ver as coisas. Já escrevi em outra postagem minha no blog sobre o Mundo Encantado do Facebook (Ver aqui), onde todos são politicamente, ecologicamente e socialmente corretos, lindos, felizes e realizados. Salvam-se cãezinhos, bichinhos à beira da extinção,  amamos todos os que se foram, todos os que estão vivos, todos os que estão por nascer. O amor e a decência permeiam a timeline do Facebook feito abelha atrás de mel. Uma maravilha. Isso, claro, quando nos referimos a nós, seres intelectualmente completos, porque afinal estamos falando do EU. 

Mas parece que toda esta afetividade só existe para a primeira pessoa do singular, ou no máximo, quando se comenta alguma coisa postada por alguém íntimo, quando se enaltece a “fofura” alheia de alguém que sabem, também vai “encher nosso caminhão de areia”. Porque quando vão responder a uma postagem generalizada, quando vão deixar sua colaboração, opinativa ou não sobre algum fato, artigo publicado, quando o pronome pessoal vai de “EU” para “ELE, ELA ou ELES” a coisa muda de figura. Quase tão radicalmente quanto é absurda tanta felicidade plástica. 

Interessante acompanhar comentários  nos artigos. Observe. Vá lá. Faça seu exercício. Teste sua paciência... Pode ser qualquer assunto. Pare em um artigo sobre futebol. Ou sobre religião. Pode ser economia, política, celebridades, talvez algo sobre escolas, o ebola, crianças para adoção. Vamos, me ajude a escolher um tema. Cinema? Séries de tv. Música, compositores, jardins, a Bienal do Livro, o novo carro da Ford, você escolhe. Tanto faz. A geração Eu está pronta a ignorar ou detonar. Perceba. Ou você encontra uma série de “likes”, “curtidas”  e “coraçõezinhos”, acompanhados ou não de “OMG!”, “Adoro!”, “Né?”, “Concordo”, “Lindoooo”  e outras expressões tão monossilábicas quanto inférteis à uma saudável discussão ou a detonação é livre e irrestrita e, em geral, sem qualquer reflexão. Querem que a moça se dane porque certamente é puta, o artista lindo tá na cara que é gay, o ebola devia vir para o Brasil e matar todos os políticos, todos os torcedores de tal time são racistas, todos os compositores de bossa nova são comunistas, disseminam  o ódio a judeus, islâmicos, negros, brancos, amarelos, loiras, gordos, baixinhos, funkeiros, pobres, ricos, conservadores, liberais, corinthianos , palmeirenses, santistas e são-paulinos, ou seja, sobra para todo mundo.  À geração EU resta mesmo é achincalhar. Funciona assim, se não diz respeito a mim, não me interessa ou não é bom suficiente para que eu pare dois minutos antes de descarregar toda a raiva do mundo para avaliar se isto é mesmo necessário.

A geração Selfie ( vamos afinal acompanhá-los e sermos chiques, “Divas” talvez....) não tem tempo para nada. Está sempre atrapalhada, correndo e cansada, provavelmente de tanto ter visto os pais se matarem de trabalhar para que hoje eles fizessem parte de tal geração fundamental à existência da humanidade.  Eles estão sempre exaustos e nunca é justo não terem tempo ou disposição, pois afinal há tantos vídeos de zoação com cãezinhos e manés caindo de um barranco que eles nunca vão podem curtir. Também é uma crueldade da natureza não ter internet à disposição no trabalho porque ele vai ser o último a saber, ao final da noite, quem afinal foi o finalista do BBB ou o assassino da novela das oito ( aliás das nove, que por sinal, passa às dez horas). 

Tenho mesmo é que me apiedar de uma geração que vive achando seu chefe um “mala” porque cobra serviço pronto o tempo todo, seu professor um troglodita porque exige silêncio e respeito (??) em sala de aula, seu vizinho um chato porque vive reclamando que você ouve música alto demais, atrapalhando a todos da rua e por fim, seu pais, que não acham normal, você, com quatorze anos querer trazer seu namorado ( a) para dormir na sua casa, ou melhor dizendo, na sua cama. Aliás, preciso dizer, acho incrível e as lágrimas me escorrem pelos olhos quando leio uma jovem de treze anos dizendo que não vai mais correr atrás do bofe da vez.....

A geração Selfie gosta de textos curtos ( motivo pelo qual seus verdadeiros membros já deixaram este texto para trás há uns bons cinco ou seis  parágrafos atrás), pois não dá tempo para ler tanta coisa. É muita informação e ela precisa dar conta de tudo. Precisa ter visto o vídeo do goleiro sendo chamado de macaco, o outro vídeo da vizinha gravando atrocidades com o cãozinho, precisam sabem quem são as atrizes cujas fotos de nús vazaram na internet ( e provavelmente ver estas fotos). E, claro, vomitar umas bobagens sobre política e eleições, o assunto do momento. Então, é muito injusto ele não ter tempo para tanta atividade extra entre trabalho e estudo.

O problema desta geração é que, como tudo deve girar em torno de si, são eles próprios que definem o quanto precisam saber sobre outros assuntos para poder palpitar e ficar bem na fita. Neste quesito a geração “ Só Me Importo Comigo” se esmera. Basta um amigo postar uma bobagem sobre o candidato A,B,C ou D e ele sai compartilhando e destilando veneno. Pessoas atentas sabem o quão fácil é você propagar uma mentira na internet. Uma frase solta, uma foto manipulada, uma declaração “supostamente” dada, ouvida por um amigo de um parente do fulano de tal, e em meia hora isto toma uma proporção infundada. Mas, tanto faz, a geração EU só leu mesmo até a segunda frase e compartilhou porque o post já tinha umas tantas cinquenta curtidas.....


 Mas eu me apavoro mesmo quando leio um jovem desta geração postando a favor da ditadura. Pessoinhas que sequer tinham nascido quando esta barbaridade se abateu sobre este país. Quando leio coisas como: “- ...Os militar tem mesmo é que entrar quebrando tudo” (sic) ou “ Só a ditadura para dar jeito nesta porra....” (sic) – ( comentários extraídos do facebook) fico sem palavras para expressar minha indignação. A mocinha posta isto e três posts depois bota lá uma “selfie” de banheiro, fazendo biquinho, o rapaz faz a postagem e não demoro a ver um vídeo “gentil” do Danilo Gentilli, só falando coisas “gentis”..... OMG!!!!!!! ( o que é, também sei falar(???) como eles.....).


A geração EU está retratada em uma propaganda da Vodka Smirnoff, se você não viu (Ver Aqui) não perca, lá eles traduzem em imagens tudo o que eu tento dizer aqui. A geração EU quer mais é saber se seu SELFIE ficou perfeito, bem na fita, e que se dane o preço do petróleo ( não fui eu quem disse, foi o rapaz da propaganda.....).

Claro, a geração EU tem exceções, como tudo na vida. Existem jovens desta geração que sabem que existe mais do que selfies de banheiro e comentários do Danilo Gentilli esperando por eles. Garotos e garotas que não se importam de ler mais do que dez parágrafos de um artigo e prezam todo o esforço que seus pais ou responsáveis fizeram para que eles estivessem aqui e pudessem ser parte de um futuro de responsa. Não são a maioria e nem se farão ouvir com facilidade, mas já nos fazem crer que existe uma luz no fim do túnel.

A geração EU reclama demais sem nunca ter lutado por um ideal de verdade, nunca saiu às ruas para exigir liberdade, sequer conferiu a fundo as aulas de história para saber como foi. A geração EU nunca “tirou linha”, expressão usada por nós mais velhos para a paquera, nunca soube o que é “cortejar” e com certeza jamais dançou juntinho, na espera de haver outro encontro, e mais outro e um terceiro para beijar na boca. Não vai saber jamais que a espera é melhor que o acontecido, que o desejo é maior quando as coisas são mais difíceis do que beijar na boca umas quatro ou cinco garotas por noite. Esta geração perdeu por entre os “amassos da vida” a sensação da conquista, a diversão do “correr atrás”....

Esta geração perdeu tanto..... E eu lamento muito pelo que eles estão perdendo.... Lamento que ao invés de ler Machado eles busquem o resumo da obra na internet para cumprir currículo escolar. Lamento que eles tenham trocado a única dose de cubra libre que podiam pagar no bailinho por nove ou dez doses de vodka que os deixarão entorpecidos e quase desmaiados ao fim da festa, incapazes de articularem palavras entre si. Lamento que tenham trocado as infindáveis conversas entre amigos na caminhada rumo à escola pelo ônibus, não sem estarem devidamente munidos de fones de ouvido, que os isolam do mundo real, e talvez de conhecer alguém interessante no meio do caminho ( conheci tanta gente amiga assim....).

Lamento que seja tão importante para todos o corpo e seu ideal inatingível, só permitido aos que a genética favorece ou aos que podem dar-se ao luxo de usufruir das benesses da academia, do spa, da alimentação correta e às vezes cara, dos absurdos impostos pelas revistas da editora Abril, das moças que acham que são inaceitáveis se tiverem quilinhos a mais.....

A geração Eu cuida mais do corpo do que da alma. Mais da estética do que do espírito. Mais da quantidade de likes do que da amizade sincera. Esta geração, do qual me orgulho em dizer que meu filho e boa parte de seus amigos são exceção, esmera-se em ter opinião sobre tudo sem conhecer nada. Arrisco-me, mesmo sabendo que ofenderei a muita gente, a dizer que é vazia e sem propósito ( não esqueçam, não é uma generalização, há exceções).

Não sou ninguém para dar lição de moral ou tentar mudar o rumo da humanidade. Mas, se alguns jovens da geração EU chegaram até aqui ( e meu coração me diz que alguns poucos chegaram) talvez haja esperança. Mesmo que poucos, se houverem alguns dispostos a refletir tudo o que foi dito, talvez a próxima geração venha diferente. Talvez as coisas não sejam mais tão fáceis e estes meninos não reclamem por ser o mundo todo injusto com eles. Talvez eles entendam que seus pais cansaram de andar de ônibus para lá e para cá e não morreram por isto. Talvez eles vejam que seus pais não tinham tempo para tudo o que queriam e por isto passaram a selecionar aquilo que mais valia a pena. Que lutaram e muito para ter hoje a liberdade que permite a seus filhos postar qualquer porcaria na internet sem ter a polícia na porta de sua casa.....

Eu sei, sou uma velha senhora que sonha, e sonha demais... Mas quem sabe por tudo isto, de alguma forma eu possa morrer, não sem antes conhecer a geração EU que virou a geração NÓS, porque seus pais leram um dia estas poucas linhas......

Em tempo: É provável que você conheça alguém que não é desta geração, mas que foi contaminado por ela, vociferando impropérios e culpando tudo e todos por suas próprias frustrações. Não se assuste: a geração EU sempre existiu, mas nunca com tanta força e propriedade como agora. Sempre há um babaca por aí achando que é só no seu quintal que os ratos brincam....

sábado, 9 de agosto de 2014

Vovô, Estou Com Saudades......

Seu Antonio,

Hoje me bateu uma saudade louca... Me lembrei de como o senhor dizia .... "deixa a menina..." me lembrei das palavras cruzadas de tabuleiro com letras de madeira em Santos, do 21, do rouba monte nas tardes de chuva sem praia nas férias de janeiro.Da enorme quantidade de tralha que o senhor ajudava a gente a carregar para a praia, o baldinho, as raquetes, a prancha de isopor. Das esculturas na areia... Dos passeios no centro onde o senhor me mostrou pela primeira vez um tabuleiro de xadrez na praça. De levar pão para os pombos no tempo em que pombo era um bichinho encantador que vinha comer na palma das nossas mãos e a gente achava o máximo! Das cocadas e queijadinhas das senhoras vestidas de branco nas barracas da biquinha.

Me lembrei do quanto o senhor amava ouvir no radinho de pilha o mesmo jogo que estava passando na tv. Do banquinho poleiro na sacada, e de quanto o senhor adorava as sacadas dos apartamentos que teve. Dos desfiles de carnaval na Av Presidente Wilson em que o senhor me punha sobre o muro para eu enxergar melhor. Dos passeios no Aquário, onde os mesmos peixes pareciam sempre outros a cada visita e das brincadeiras no labirinto do parquinho do Pelé. Me lembrei das intermináveis viagens na perua para ir e voltar da escola, sempre a primeira, sempre a última e do orgulho secreto que eu sentia por ser a neta do "Seu Antonio da Perua Escolar". Senti saudades da soda diluída no vinho e do senhor dizendo para a vovó que era pouco vinho, só para dar cor na soda... Do primeiro passeio de bicicleta sem rodinhas no parque dos trabalhadores no Tatuapé e dos balões de junho com cola de farinha, cujo breu pegava fogo antes mesmo de atingir mais que cinco metros de altura.... Das pipas empinadas na praia que o senhor me ensinava a colar, com papéis de seda de tantas cores, com rabiola comprida, sempre de jornal... Eu queria fazer alguma coisa pouco comum e era sempre sua voz dizendo: deixa a menina....

A casinha de bonecas da rua dos Bancários ( mesmo que tivesse sido construída para a mamãe), o primeiro gravador com os tres irmãos cantando o sucesso do momento: Assassinaram o Camarão dos Originais do Samba. Tenho esta fita guardada até hoje. Foi no natal em que ganhei meu primeiro jogo de xadrez. Presente seu. O balanço da Fazendinha, o caramanchão. As tardes de domingo ouvindo no aparelho antigo da Vozzo o disco de vinil grosso tocar pela milésima vez a Nega Maluca, o Chapeuzinho Vermelho e a Formiguinha e a Neve ( e irremediavelmente eu acabava às lágrimas ao fim da faixa, morrendo de dó da formiguinha). Depois da sessão infantil, o senhor punha lá seus tangos em 78 rotações e mal sabia que anos depois eu adoraria Gardel graças àquelas tardes. Me lembro do pé de tomate da Emboaçava que o senhor ensinava a regar, me lembro que quando jogava o Corinthians tudo mais parava ao seu redor. Me lembro do seu gosto pelos faroestes, de quando John Wayne me mantinha sentada quietinha ao seu lado na sala, mesmo que eu não estivesse entendendo lhufas do que estava passando.

Hoje senti saudades de quando andávamos até o Morita para comprar alguma coisa, o senhor sempre adorou um supermercado, não é? Tenho uma vaga lembrança do apartamento do Embaré, eu era menina ainda, mas embora os detalhes me falhem, algumas coisas ainda parecem tão claras para mim.

Eu cresci, e um dia apresentei ao senhor meu futuro marido. Sempre economizando palavras, enquanto a vovó tinha milhões de coisas para dizer sobre o Afonso, o senhor me disse apenas: "- Você está feliz?" Eu estava e eu nunca vou esquecer aquele abraço que o senhor me deu naquela tarde.

Eu casei. Meu apartamento era tão pequeno que eu tinha que convidar as pessoas para almoçar aos poucos. Chegou sua vez. O senhor e a vovó foram almoçar em Guarulhos, meu primeiro apartamento e eu fiz panquecas. Em trinta segundos o senhor conheceu o apartamento todo e na cozinha apenas me perguntou: "- Você está feliz?" Eu estava e mais uma vez só tive a aprovação em seu rosto. Não sei se as panquecas estavam boas, mas o senhor só teve elogios para nós dois naquele dia.

Então eu engravidei. E o senhor fez com meu filho o mesmo que fazia comigo, adorava transgredir. Apesar dos protestos, ligava a mangueira e dava na mão do Bruno para ele molhar o jardim, sabendo que ele iria molhar a casa toda e mais um pouco. E quando eu e vovó protestávamos o senhor dizia: - Deixa o menino....!" Naquele galpão do fundo da fazendinha o senhor apresentou ao meu filho parafusos, martelos, uma tesoura de poda que o senhor deu para ele cortar a grama apesar dos meus protestos e uma mesa de bilhar, quando o taco era ainda maior do ele podia ser. Fazíamos churrascos até tarde, quando o senhor se recolhia, já cansado mais cedo e dizia que podíamos ficar até quando quiséssemos. Sua generosidade nunca teve limites. Certa vez, quando me visitou em Vitória e eu quis lhe apresentar a cidade, soube que ao chegar em São Paulo, disse à mamãe: "- Coitadinho do menino, ela arrasta ele prá todo lugar com aquele chinelinho...." se referindo ao Bruno e ao fato de eu andar demais com ele a pé. O senhor sempre amou seus filhos e netos de uma forma peculiar. E sofreu calado todas as dores que tivemos e apesar de amar meu pai, sabemos que não foram poucas.

Sempre me dói pensar que eu nunca deveria ter ido embora do hospital naquela tarde. O senhor me mandou embora e eu fui. O senhor me disse que estava cansado e eu acreditei. É um destes arrependimentos que a gente leva para a vida toda. Mesmo se eu vivesse várias vidas ainda assim não teria como lhe agradecer o suficiente por tudo o que o senhor foi
para mim. Sei que neste momento o senhor está no "céu dos vovôs que foram cedo demais embora" apreciando as vitórias dos seus netos e bisnetos, os que o senhor conheceu e os que não conheceu, inclusive o que carrega orgulhosamente o seu nome ( meu sobrinho lindo).

É comum para mim sonhar com o senhor. Ouvir sua voz, seu jeito meigo e carinhoso de sempre querer nos colocar em primeiro lugar. E hoje, ouvi tanto sua voz em sonho que quis escrever em sua homenagem. Quis, de alguma forma dizer a todo mundo como o senhor era especial. Eu tenho certeza que se fosse vivo estaria ralhando comigo, dizendo que não fazia nada de mais. Além de generoso o senhor era modesto. E muito. Iria me perguntar se não tenho nada para arrumar, se o chuveiro não precisa de um ajuste, se não há lâmpadas para trocar.

Hoje senti saudades suas. Sinto sempre. Mas hoje a saudade está maior. Mais apertada, mais urgente. Sei que o senhor, de onde está, toma conta da vovó, da mamãe, do titio e de todos os netos e bisnetos. Sinto que quando preciso eu rezo tanto que o senhor nunca falha em me ajudar. Sinto que o senhor está sempre por perto quando preciso. Mas hoje eu senti uma imensa necessidade de falar com o senhor, de um jeito que todo mundo saiba como o senhor está presente e de como eu continuo lhe amando incondicionalmente. Eu sei que o senhor está por perto e vai saber disto que eu postei, de um jeito ou de outro.

Nunca deixe de habitar meus sonhos, pois não posso esquecer sua voz. Saiba sempre que deixou uma família exemplar, com filhos, netos e bisnetos que só lhe deixariam orgulhosos. E nunca, nunca se esqueça: eu te amo incondicionalmente.

Seu Antonio, sinto muita saudade........

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Mensagem A Meu Filho

Bruno,
 
 Sei que você gosta de ser discreto, mas meu menino, me deixe ao menos hoje eu ser a mãe mais indiscreta do planeta: VOCÊ PASSOU! Você hoje é oficialmente o mais novo aluno de mestrado de computação da UFES!

Você é o cara! Com tua idade você é Cientista da Computação, terminando uma Pós Graduação, iniciando um Mestrado na área, tem dois empregos ( um que te dá dinheiro e outro que lhe dá conhecimento e prazer mais do que grana) e ainda acha tempo para tocar baixo, namorar, jantar com teus pais e levar tua mãe no cinema ( ou assistir cinema em casa com a mamãe, também vale!).

Você é o cara que vai dormir às duas da manhã e levanta às seis, mais bem humorado do que muita gente que eu conheço. É você que senta ao lado do seu pai para ensiná-lo a mexer com o telefone novo ou ao lado da sua mãe para dizer que vai colocar um atalho para que eu possa abrir a página do TS mais facilmente.

Filho, você é o cara! Eu chorei tantas vezes em silêncio por saber que nunca poderia ter outros filhos, mas o outro CARA, “aquele lá de cima”, sabia o que estava fazendo. Só pude ter um filho, mas convenhamos, ELE me deu “O Filho!”.

Nunca fui uma mãe convencional e ninguém mais do que você sabe disto. Mas você precisa saber que valeu cada segundo. Valeu cada minuto de noite mal dormida, cada brinquedo fora do lugar, cada estória contada quase dormindo na beira da tua cama. Valeu cada vez que você chegava chorando dizendo: “- mãe, mas os outros fazem ( ou não fazem, whatever )” e eu te dizia: “- filho, você não é igual aos outros, e teus pais não são pais dos outros!” Valeu tudo!
 
Valeu aprender sobre jogos de computador, RPG, Senhor dos Anéis, cartinhas de magic e todas as coisas mais doidas que você chegava contando ou querendo me mostrar. Valeu te incentivar o prazer da leitura, valeu dizer que fazer o que se gosta não é perda de tempo e que gostar de vampiros, zumbis e outros figuras estranhas não é coisa do Diabo ( rs,rs). Valeu ter coração de pedra para te dizer não sempre que era necessário, te ensinar que não dá para ter tudo, te mostrar que grana não cai do céu e frustrações existem para nos tornar mais fortes. Valeu ter discutido tudo com você, de religião à Star Wars, de outros universos ( lembra do Ricardo, teu professor de natação cheio das teorias da conspiração?) à importância dos valores humanos, do sujeito que te atazanava no colégio ( veja lá onde ele está agora e olhe para tudo o que você já conquistou) à necessidade de comer pimentão – tá você continua odiando pimentão, mas pelo menos eu nunca fiz purê de pimentão, como eu fazia de brócolis ou abobrinha, com o pimentão eu peguei leve, rs,rs...

Você foi o orador da sua turma de pré escola, junto com o Victor Lemos, porque vocês dois eram os únicos que tinham aprendido a ler e tinham condições de falar lá na frente. E quer saber? Você é tão incrível que até para ter amigos é especial. Fico muito, mas muito feliz mesmo em saber que hoje, além de você, meu filhote meio que adotado, o Victor, é o outro nome na lista de aprovados do mestrado.

A vida é isto meu filho. Nós somos tudo aquilo que lutamos para ser. Eu sei que você vai se lembrar das nossas intermináveis discussões sobre justiça, sobre sempre ter um mais esperto que se dá bem sem fazer esforço ou ter méritos, e como você achava isto irremediavelmente errado e eu não tinha uma resposta pronta para isto ( tinha, mas você não tinha idade ainda para entender minha explicação). Hoje, a resposta é clara. Os caras espertos sempre vão existir, mas nem sempre vão se dar bem. Alguns vão se dar bem sempre, contando com a sorte, mas nunca poderão dizer que são homens de verdade. O caráter, a honradez e o orgulho do nome que você carrega são coisas que os caras espertos nunca vão ter, ao contrário de você. Essa sensação de conquista que você está sentindo eles nunca vão sentir e isto não tem preço.

Valeu filho, você é o cara! Eu e teu pai não temos mais espaço para tanto orgulho! Continue na tua batalha porque você vai longe, muito longe nesta tua caminhada. Continue fazendo o que você ama! Sempre. Lute pelo que você acredita. Espero que um dia você possa sentir do teu filho o mesmo que estamos sentindo de você, porque é uma sensação incrível!!

Da minha parte, eu continuo aqui na torcida, sempre ao teu lado, sempre disposta a te ouvir e a opinar, se assim você o quiser. Vou continuar querendo saber tudo sobre Dark Souls, sobre aquela música incrível que você está tirando no baixo, sobre o cliente que insiste em dizer que existe uma forma de registrar “crédito negativo” e sobre como você está feliz ao lado da sua namorada. Vou continuar te lembrando dos remédios, te mandando levar o guarda chuva e a jaqueta, e cozinhando aquela carninha com batatas assadas que você adora. Te pedindo para dirigir com cuidado, para me mandar um torpedo de vez em quando para dizer que está tudo bem e querendo que você durma um pouco mais cedo. Porque é isto o que as mães fazem. Plantam uma árvore, regam por anos com cuidado e quando ela floresce, a gente senta para admirar com orgulho, certa de ela irá gerar sementes tão boas quanto o possível.

Te amo filho, mais do que você só irá entender se um dia tiver filhos! E sei que falo pelo seu pai também!

E você passou, porra!!!!!!!!!!!!!! Em décimo lugar, estudando apenas uma semana!!!!!!!!!!!! Você é foda!!!!!!!!!!!! ( pronto, esta é sua mãe cara, e como nós dizemos sempre: mil palavras nunca substituem um bom: Você é Foda!, certo?)

Parabéns, meu amor!

Bjo!

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Por Que Amamos Séries?



                          



Você tem dezesseis, trinta e dois, cinquenta ou setenta e quatro anos. Estuda, trabalha o dia inteiro, cuida com amor dos seus filhos ou todas estas coisas juntas. Não importa. Tem suas contas para pagar, o carro para deixar para lavar, o botão que caiu da camisa do uniforme de seu filho para pregar, as compras da semana, o relatório para seu chefe, aquele trabalho de escola sobre algoritmos e tantas outras várias coisas que ocupariam páginas diversas de texto por aqui. 

Tudo bem. Você não se importa em fazer todas estas coisas, apenas algumas ou várias outras, desde que naquele seu momento de paz, aquele em que você já pôs as crianças para dormir ( ou dependendo do caso você é que esperou seus pais dormirem),o marido já capotou em frente da televisão, seus pés estão finalmente erguidos sobre o pufe  e uma xícara de chá fumega ao seu lado e você consiga enfim assistir seu seriado favorito.

Não importa se você o segue pela tv ou se, dado o horário, se obriga a gravar e assistir depois, ou talvez você acompanhe sua série pelo computador, em tela menor que o habitual, mas certamente à frente dos mortais que dependem da grade televisiva. Certo mesmo é que nesta hora o mundo parece parar ao seu redor. São  em  geral, quarenta  e  dois  minutos dispensados a incluir você em outro mundo, cheio de casos policiais, vampiros, morto vivos ou em companhia das pessoas mais engraçadas do planeta.


Nada explica  porque simpatizamos mais com uns do que com outros personagens. Sejam vilões, mocinhas em apuros, delegados, médicos, advogados ou representantes da maldade  na terra, não há muita explicação lógica pelo apego. Claro que tendencialmente a simpatia recai na maioria dos casos sobre o cara boa pinta cheia de charme ou a moça inteligente que defende o mundo do mal, mas isto nunca é uma regra. Às vezes personagens com os quais não temos qualquer afinidade e que de modo algum representam nosso caráter nos atraem da mesma forma ou mais. 
 
Ok, mas isto é comum nos livros, personagens que invadem nossas vidas enquanto devoramos páginas e páginas de estórias diversas, por que então séries são tão boas ou melhores que a boa brochura? 



Para isto existe mais do que uma resposta. A primeira e mais óbvia é que livros, para ávidos leitores, tem uma curta duração, algumas pessoas ( tipo eu ) podem dobrar uma noite em busca do final da estória, mas dois ou três dias depois aquela emoção vai diminuindo, aqueles personagens  vão lentamente se retirando de minha mente e deixando espaço para o que vem a seguir ( claro, existem livros e personagens inesquecíveis, mas mesmo estes aos poucos vão deixando a emoção de lado para tornarem-se uma grata lembrança). Séries de televisão duram muito mais tempo. Se você tiver sorte e resolver acompanhar uma série fadada ao sucesso, poderá conviver quatro, cinco, dez, quatorze anos com aqueles personagens que, em última instância passam a fazer parte de sua vida. 

Você já se pegou conversando com uma amiga sobre uma série que você ama?  

“ – Deus, como puderam matar o Will? Será que a Alicia  não tem direito de ser feliz? Estou  arrasada com a morte dele...”
“ – Nossa,  nem me diga, chorei tanto. Só espero que ela não  volte para o mulherengo do marido, ela merece alguém que a faça feliz de verdade...”



Pode ser que os nomes sejam diferentes, mas com certeza fãs de séries já viveram, em alguma ocasião, uma conversa deste tipo. Em um certo momento nos pegamos tratando estes personagens como se fossem membros de nossa família, pessoas as quais conhecemos os gostos, os desejos, as frustrações.

Não é para menos. Eu costumo dizer que vivemos em busca das nossas realizações e, podemos atingi-las ou não, mas para todo o resto, existem as séries de tv. Através delas exercemos o sagrado direito de viver uma felicidade extra, de vibrarmos com uma conquista que por hora nos escapa, de punirmos o vilão do dia a dia que foge do alcance da justiça diária e real. Podemos amar o médico casado e fiel, lindo de morrer que ainda lembra-se de levar flores para a esposa, a advogada que além de competente, linda, fashion, ainda sonha em fazer geleia para o homem que ama, que por acaso é o presidente dos Estados Unidos. Naqueles quarenta e três minutos somos o longo braço da lei que puni o criminoso, mas sempre sobre o salto sete e meio de uma belíssima bota preta. Não vem muito ao caso se nosso dia foi ruim, porque naqueles quarenta e tantos minutos eu serei amiga do príncipe, da bruxa má e da chapeuzinho vermelho, talvez me anime o fato de saber que não sou somente eu que fico arrumando ordenada e compulsivamente os objetos na minha casa, porque afinal meu personagem predileto tem TOC e consegue ainda ser um grande cara. E sabe aquele vestido pregueado  que eu jurava estar fora de moda? A minha heroína está vestindo um quase igual e quer saber? Ela está linda, sua melhor amiga na série até elogiou.



Claro, nem todas as séries são assim tão fáceis de se buscar identificação. Quem assiste e ama Walking Dead, True Blood, Fringe, The Originals ou Agents Of Shield, o que busca em comum, o que espera ver, o que espera encontrar que o satisfaça? Simples: todas as séries tem uma plataforma comum, uma espécie de receita, onde, independente do bolo servido, a satisfação seja a mesma. Você troca o coco pelo morango, o doce de leite pelo chocolate, mas o prazer é o mesmo. Todas as séries tem aquele mocinho lindo que você adoraria que fosse seu namorado, uma mocinha despachada, super na moda, com um peso em geral muito abaixo do seu, que deveria ser você se o mundo fosse justo, um amigo fiel e carinhoso que nunca trai sua confiança, ao contrário daquela víbora, aquela  a quem  você pensou que  poderia confiar seus segredos e quebrou a cara. Tem o cara te faz rir porque afinal sua vida precisa atualmente de umas boas risadas e há o vilão, aquele que esconde nossos mais obscuros segredos, aquelas porradas que você quis dar sabe Deus em quem, aquela vontade de poder de vez em quando sair da linha, não ser tão certinha, mas que você nem cogita, pois pode fazer você terminar seu dia em uma delegacia de polícia nada virtual.



Amamos séries não porque nossa vida não é suficientemente boa, mas porque ela pode ser infinitamente melhor se derramarmos  nossas expectativas e frustrações nos ombros de alguém que pode sorrir ou chorar sem dar explicações a ninguém. 
 
É bom termos notícias do Hotch, da Meredith, do Governador, do House, da Mellie. Elas surgem com certa facilidade, em um privilégio que a vida não nos oferece chamado spoiler. Podemos até influir em seus destinos, assinando petições, pedindo para a Emily voltar. Podemos inclusive fazer maratonas, de três, quatro ou sete horas, para sabermos de uma vez o que o destino reserva para nossos mais íntimos amigos, se eles irão ter sucesso ou se iremos de novo sofrer pelos caminhos percorridos por eles. E por mais irreal que pareça, podemos reescrever a estória deles através das fanfics, aquelas palavras incrustradas no papel de forma a mudar o rumo da estória que passa na tv.




O fato é que, aquele que é fisgado uma vez pelo apelo de uma série de televisão nunca mais volta a ser o mesmo. O bom show televisivo usa a batida fórmula igual desde sempre para, vestida com outros panos, capturar nossos desejos, nossas expectativas, e, por fim, preencher aquele vazio que temos quando não brincamos com mais ninguém. Não se trata de mascarar  a realidade. Trata-se de dar cor, de enfeitá-la com adereços que o dia a dia despreza, de adorná-la com um pouco de fantasia, de dar a ela o perfume e o brilho que merecem.  Trata-se de buscar aquele algo mais que perdemos  no decorrer de nossa caminhada, de  trazer, por um momento ou uma hora, um alento, agregado ao chá quente, ao cafuné que nos faz nosso namorado, um deleite que recebemos no silêncio que habita nossa residência, e de que nos lembraremos amanhã, quando o dia for mais difícil de encarar do que gostaríamos que fosse.

Sei que nada disto explica porque amamos séries de tv. Há muitos anos atrás existiam as novelas, que aliás ainda existem e se fazem presentes, mas nada se compara a trazer ao nosso convívio por anos a fio, aquele personagem de série que quase sempre nos assusta ante a possibilidade de ser cancelada, mas que, salva no último instante, nos revigora e nos faz comemorar sua futura presença. 



As mulheres que amamos nas séries são perfeitas e completas para que possamos respeitar nossas limitações e os homens são inatingíveis para que possamos conviver com parceiros não tão completos, nem tão desejáveis, mas que nos fazem felizes ainda assim. Os vilões são cruéis porque eles têm que representar tudo o que mais odiamos e, de certa forma, pagarem por aquilo que não conseguimos cobrar de nossa sociedade. 

Obviamente, ver séries nem sempre tem que ter um significado representativo. Podemos assisti-las apenas pelo prazer de conviver com Jack, Olivia, Morgan, Rossi, JJ ou Mellie. Mas certamente é um hábito que normalmente se enraíza e que, tendo a sorte de amarmos a série certa, nos fará convidar ao nosso dia a dia todas estas criaturas nascidas de uma mente fecunda, que estarão vivas em nossos sonhos, em nossos desejos, em uma rotina que se confunde com horas reais, que quase não conseguimos distinguir. 

Séries são feitas com lápis de cores que não existem no dia a dia. Se resolvemos nossos problemas em preto e branco, shows de tv fazem uso de caixas de lápis coloridos com trinta, quarenta tons diferentes, matizando nossas decisões, tingindo alegrias e tristezas com generosas pinceladas de tons que a vida desconhece. 

Portanto, na próxima vez que você se encantar por uma série, permita-se deixar levar pela fantasia, pelo absurdo que é torcer pelo bandido, pelo encanto que faz viver um mocinho que nunca existirá de verdade, pela mulher que você, por mais que tente nunca será por completo, mas que sem pedir licença, adornará seus dias. Permita-se sem culpa viver todas as mais loucas aventuras, que você em sua vida jamais conhecerá, permita-se transgredir e sonhar. 



É provável, que em algum momento, você se reconheça e se liberte, você ouse ir contra a corrente, você se permita ser a protagonista desta estória, mesmo que apenas por uns poucos quarenta e tantos minutos.  E não tenha vergonha de viver a vida alheia, criada em palavras para não ser nada mais que um texto em sua mente. Não se vive sem prazer, venha ele do lugar que vier. Com sorte, seu prazer poderá durar oito ou dez temporadas.....

Por que amamos séries de tv? Ora, porque elas são o alento que buscamos em dias difíceis e noites intermináveis, são a realização dos sonhos mais obscuros, são a cereja do bolo que não queremos dividir com mais ninguém. Séries, aquelas duradouras, dão vida à personagens que ocupam nossas salas de estar, deitam-se em nossas camas, fazem amor conosco, despudoradamente. E na manhã seguinte, seguem em frente, sem cobranças, sem tormentos. Não importa. Seguiremos em frente, realizando aquilo que se espera de nós, e, quando tudo estiver mais difícil, sempre nos lembraremos da mocinha, do herói, do vilão punido. 

E, vida que segue.......