sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O TEMPO EM NOSSAS VIDAS

Tive uma semana cheia, com a maioria das pessoas. E como a maioria das pessoas nesta foto. Mas, entre elevadores quebrados, portão sem funcionar, orçamentos de proteção elétrica para evitar invasões e reuniões com o advogado,esta foto não me saía da cabeça. O encontro com estas pessoas também não. Sendo bem sincera, eu não esperava estar neste encontro. Há mais de um mes havia decidido não ir nem no sábado, nem no domingo. Eu ainda choro com facilidade e não queria ser motivo de baixar o astral de amigos tão queridos. Ainda não superei as perdas que vêm se acumulando desde o falecimento do Afonso e achei que seria mais um incômodo do que uma presença agradável. No entanto, algumas ótimas amigas me deram vários puxões de orelha e eu as agradeço por isto. O resultado é que não chorei na presença de ninguém ( no banheiro não conta), não acho que estraguei o dia de nenhum amigo e tive o presente de estar com algumas das pessoas que formam minha verdadeira rede de apoio. Falamos sobre o que mais amamos, filmes,séries, o dia a dia, o ensino no Brasil (vários professores), a inteligênia artificial, política, passado, futuro. Falamos sobre as crianças, pois agora há duas no nosso grupo, sobre o quão é inaceitável o racismo, a homofobia, a misogenia, entre outras coisas tão inaceitáveis quanto. Foram dois dias incríveis. No dia seguinte dividi meu fim de semana e a tal foto do grupo com meu filho, minha mãe e minha cunhada, que por acaso, também tinha viajado para encontrar amigos de longa data. Mas, a tal foto ficou na minha cabeça por dias e, embora eu já tenha falado disto por aqui alguma vez, resolvi escrever sobre ela. A foto reflete quase vinte e cinco anos da minha vida. Eu mesma comentei isto no dia, quando nos conhecemos eram muitos jovens e eu era uma velha porra louca que caiu de paraquedas no grupo. Nem todas as pessoas que eu amo estavam presentes, por questões de logística. Os encontros sempre são aqui em Vitória ( desta vez, sábado foi em Vitória e domingo na Serra), porque deslocar uma pessoa é sempre mais fácil e barato do que deslocar seis, sete ou dez. Mas, senti falta da Thaís e do Zé, da Larissa,da Graci, da Rosely e do Marcio, da Gisela, da Kátia, do falecido e querido Max e do Léo e até de alguns que se desgarraram, como a Cynthia e a Marcília.Afinal, independente ds seus modos de pensar, elas fizeram parte de toda esta história. Devo ter esquecido alguém, estão me perdoem. Esta história tem muita gente, muita coisa aconteceu, e meus meninos cresceram, se formaram, arranjaram bons trabalhos, casaram, separaram, tiveram filhos e trouxeram para nosso grupo o Jordano, a Keyse, o Zé,a Sarinha, o Vicente e o Ben, salvo se eu estiver esquecendo alguém ( provavelmente estou). Não é para enumerar amigos que estou escrevendo este texto. Está mais para descrever uma espécie de fidelidade. Um grupo que se conhece há quase vinte e cinco anos ( ano que vem, se ainda estiver viva e neste prédio quero comemorar bodas de prata com meus cajuzinhos, viu Veronica!), que sempre esteve presente nos bons e nos maus momentos, nas alegrias e nas dores, um grupo com consciência social, daqueles que dá vontade de ouvir conversar, explicar,debater. Eu aprendo sempre ouvindo cada um deles contar alguma coisa, e mesmo que eu não concorde, ainda assim, posso dexar minha opinião sem ser linchada. Este é o mesmo grupo de quinze ou vinte anos atrás, de quando eu escrevi aqui mesmo neste blog "Meu Natal Em Julho", falando da família que eu tinha escolhido para comemorar meu Natal em uma época pouco comum. Eu olho para trás com tanto orgulho! Eu errei em muitas coisas nesta vida, mas não errei quando escolhi amigos para o meu Natal, este ano em Setembro.
Estas pessoas representam o que eu gostaria que fosse a sociedade, elas não tem vida fácil e não romantizam isto. Mas, nunca se esquecem do próximo, porque de uma forma louca, foram o próximo um dia em suas vidas. Então, de alguma forma ainda se importam. Alguns deles vão ler isto e dizer que não, vão bancar os durões, mas naquela turma só tem casca grossa com coração de marshmallow. Provavelmente por isto eu os ame tanto ( e aqui estou incluindo os não presentes também). De alguma forma eu sinto que faço parte de uma linda história de pessoas que resolveram se tornar presentes umas nas vidas das outras. Seja odiando C.Carter,admirando Vince Gilligan( que esta na moda, ganhou por Wyndows Bay), seja porque mesmo eu querendo me afastar da política eu ainda ouço vocês, ou porque vocês falam de educação, tema que me é caro, pois tenho um filho professor, seja porque amo a ideia de ver a família crescer através das crianças, seja porque cada um de vocês tem sempre uma palavra ou um gesto para mim nas horas escuras, seja porque cada um sempre faz alguma coisa que me dá orgulho ou por tantos outros motivos.
E assim, mais rápido do que eu gostaria, passou-se o final de semana que eu pensei em ficar sozinha em casa. Ainda bem que tenho amigas que me fizeram mudar de ideia. Nem ver meu time perder ao lado do meu flamenguista mais amado me incomodou ( bom, perder é um verbo que o corinthiano sabe conjugar direitinho, graças àquela diretoria maldita). Sabem, quando a gente vai envelhecendo, tudo na vida vai sendo colocado em perspectiva. Quandoalguém falou em leis de trânsito - nem lembro mais o assunto, me lembrei na hora do quanto eu era ousada dirigindo, brigando na rua com Deus e o mundo. Me chamaram uma vez de Scully. Depois, ponderando, passei a dirigir mais cautelosamente, até vender o carro e andar de passageira em ubers da vida. Lembrei-me também do marido incrível que eu tive que compactuava com todas as minhas loucuras. A primeira vez que convidei amigas virtuais para dormir em casa ele disse para meu filho: prepare-se, vamos ser assaltados ( em tom de brincadeira). Quando eu saía para buscar ou levar uma amiga ele dizia: me dá um beijo, vai que você vai parar um Nárnia sem perceber ( sim, fui eu que expliquei o que era Nárnia para ele). Quando a gente ia no apartamento dos pais do Fabiano para um churrasco ele dizia: tem carne e cerveja? Claro que vou dar os parabéns para o Fabiano! Vamos comprar um presente legal! Meu marido era o membro oculto do grupo. Embora poucos o vissem, participava de tudo. Ajudava a fazer bolo, pudim e até a colar imã de geladeira do AX do lado do Fábio(apesar de naquele dia pensei que ele fosse pedir o divórcio, kkk). Tantas lembranças, meu Deus, daria um livro, ou quase isto! ( lembrei agora do dia que o Bruno viu a Marke brincando de Amy Winehouse, do dia do cinema fechado só para nós assitirmos com exclusividade o filme do AX, do recado que deixamos no carro com o adesivo). Sim,temhistória para escrever umm livro. Mas, me contento em apenas não esquecer estas deliciosas memórias. Fazem parte da minha vida e da de vocês. O tempo passou, não acho que vamos brincar de mímica tão cedo, ninguem vai cantar Firework e imitar a Kate Perry e tão pouco empunhar um saleiro e um guardanapo para reproduzir uma cena de filme.Estoupronta para criar novas memórias em torno de uma mesa discutindo tudo o que se discutiu,vendo o Ben e o Vicente comendo massa de bolo crua no pão duro dado pela Keyse na bocadeles e imaginando um suposto tiroteio no Supremo. Além de entender que meus bifes a milanesa agora provavelmente serão substituidos pelos churrascos capitaeados pelo querido Fabiano. As coisas na vida mudam e você se adapta ou morre. Por esta tropa eu prefiro me adaptar. Que venham os próximos encontros, desta vez com todo mundo!!!! Amo vocês!!!!

sábado, 9 de maio de 2026

Dor e Alienação

Os últimos anos têm sido muito conturbados para mim. As últimas semanas também.Estou com duas pessoas a quem quero muito bem desenganadas pelos médicos, um meus netos cãezinhos aguardando um diagnóstico de nódulos benígnos ou malígnos ( diga-se de passagem um dos que eu mais me apeguei após a morte do meu marido), estou lidando com uma mudança muito grande na minha vida em diversos sentidos e, de repente percebi que não estou com medo dos rumos, estou com medo de sentir mais dor. Uma dor que parece que eu conheço minha vida toda, de um jeito ou de outro. Uma dor que me acompanha desde pequena, que eu cresci acreditando que fazia parte da vida da criança, do adolescente e do adulto,mas que eu não aguento mais viver. Minha terapeuta até expressou alguma preocupação, mas ela sabe que se eu tivesse coragem, tiraria a minha vida sem pensar duas vezes. Mas, ela também sabe que eu não tenho esta coragem. Seja pelo medo da dor, de não dar certo e virar um fardo para os outros, por infringir dor a quem eu amo ou apenas por senti mais dor, eu não tenho esta coragem. Dito isto, admiro quem tenha, pois tirar a própria vida é um dos atos de mais coragem que se pode ter. Mas, é egoísta também. Seja por alguma culpa católica, seja por medo, seja por detestar ser um fardo, dificilmente faria isto a não ser em total desespero. O fato é que tudo o quem vem acontecendo nas últimas semanas têm me despertado para alguma dose de realidade. Li em algum lugar há algum tempo atrás que a atriz Joanne Woodward levou dez anos para mexer nas coisas de Paul Newman depois que ele morreu, deixando até o carro dele parado na garagem como ele deixou ao falecer. Participei de um grupo de luto por quatro meses onde ouvi histórias muito parecidas com as minhas. Mulheres que não conseguiam seguir em frente, doar as roupas, mover os móveis da casa, mexer em nada após o falecimento dos seus maridos. Todas com casamentos como a de Joanne Woodward, com cerca de vinte ou mais anos, uma com o mesmo tempo de casada que eu tinha. Poucas doaram roupas e pertences, poucas saíram do lugar onde viviam, todas declaravam ter a mesma dificuldade que eu tenho: Mudança. Apagamento. Uma dor que imobiliza. O pavor de ter que encarar o que vem depois da mudança. Não precisa ser um gênio ou ser psicóloga para saber o que me paralisa,mas é preciso ter coragem para assumir o que me paralisa.Éo medo da dor. É o pavor da mudança, da perda de controle. Eu sofro pela minha parente porque imagino o medo que a paralisa,todosanto dia frente ao cancer. Eu sofro pela mãe da minha amiga, porque sei o que está doendo nela, na família dela. Eu sofro pelo Bruce porque sei o que vai doer para meu filho e minha nora. E para mim, cujo convívio, embora não seja diário, mas foi a quem mais me apeguei quando Afonso partiu. Eu sofro pela perda cada vez maior da minha independência, eu sofro pelo que vem pela frente. Eu sofro porque não vou admitir a mim mesma ser um fardo para ninguém, mais do que já sou. Eu sofro porque estou com medo de qualquer coisa doer mais do que me doeu ver meu marido definhar por tres anos seguidos. Estou cansada deste papo de coach, de ter que seguir em frente, de que Deus não te dá um fardo maior do que se pode carregar, de que eu sou forte e vou superar tudo, de que eu não sou a única que tem problemas. Claro que não sou a única com problemas, todo mundo tem problemas. Mas, eu tinha quarenta e cinco anos quando passei uma noite na casa dos meus pais e petrifiquei quando ele, doente e incapacitado,caiu da cama e desandou a falar coisas que me impediram de me mover. Pensa que eu não sei? Eu fui covarde, eu fui sensível, eu fui incapaz. Eu sei todas as conversas que rondam aquela interminável noite. Supera o trauma. Sério que você está chorando? Claramente eu não superei os problemas com meu pai. Eu super admiro quem supera seus traumas, mas eu não consegui ser assim. E não acho que aos sessenta e quatro anos vou conseguir ser diferente. Talvez por isto a saúde mental desta meninada de hoje esteja toda ferrada. Porque dizem a eles engole o choro e todo mundo engole e posa de bonito nos Instagrams da vida e vida que segue. Eu engolimuito choro. Mas, nunca fiz cara de tudo bem. Eu tenho um amigo da época da faculdade, que se ler isto vai se lembrar, que era uma das pouquísimas pessoas que sabia parte dos meus problemas em casa, que dizia que eu era uma cristaleira, com as taças sempre batendo umas nas outras, balançando e tremendo, até o dia em que uma se partiria. E depois as demais. Pois é,querido ( não quero mencionar seu nome para não comprometê-lo, mas você sabe quem você é), levou apenas sessenta e quatro anos para as taças realmente começarem a se partir, uma atrás da outra. Cristaleira. Parece que estou ouvindo sua voz no banco do onibus. E nunca me senti tão próximo de uma definição como esta em cinquenta anos. Eu tenho muitos arrependimentos nesta vida, mas a opçao de ficar no apartamento para que o Afonso morresse aqui não é um. Não mexer em suas coisas após a sua morte também não é. Não ter encarado o diagnóstico do Parkinson de frente quando recebi a notícia sim. Devia ter procurado ajuda naquele instante, mas aí veio a Covid, as perdas, o primeiro AVC do Afonso, a crença de que eu poderia recupará-lo, o segundo AVC, os problemas finaneiros, a morte dele, o luto, a depressão. A necessidade de que eu havia superado para melhorar a convivência familiar, para poder continar trabalhando, porque disto dependia meu sustento. a gente aprende a fingir. Aliás, fiz isto mais da metade da minha vida, porque não agora. Mas, você tem um filho! Ele tem que dar suporte! Esta é clássica e estou muito acostumada a ouvi-la. Eu criei meu filho desde que ele conseguiu se entender por gente para ser um ente independente, para ter vida própria. Mesmo que tenha me revirado as entranhas quando o pai incentivava ele a seguir um cargo público, eu me contive. Dei minha opinião e respeitei a opção dele.Quando ele partiu para o Pará foi difícil,mas quando ele casou-se no Pará em plena pandemia ( por motivos práticos e burocráticos de benefícios, etc...), foi o fundo do poço pra mim. Respeitei, como sempre sua decisão, suas opções, mas não posso dizer o quanto doeu não estar com o pai presente ali neste dia. Depois ele voltou, só que para Santa Teresa, que a gente achava uma benção até o pai ficar doente. Ele precisou tirar uma licença de um mes para me ajudar no hospital. Santa Teresa está longe de ser o Pará, mas provou-se após a morte do Afonso ser distante,não suficientemente perto para mim, que fiquei. Ele trabalha feito um condenado, está sempre cansado, há um custo enorme financeiro que eu sei que ele não pode arcar. Então, eu ouço com frequência: mas o Bruno é seu filho, tem que estar mais presente! Mas, como mãe, que ama o filho que criou, não quero ele mais presente. Significa que ele descansa menos, gasta mais e pega mais estradas para ir e voltar do que qualquer mãe não egoísta gostaria. Deixa ele em casa. Ele vem quando pode, mesmo que eu adorasse tê-lo por perto a todo instante. O mesmo ocorre com minhas melhores amigas, minha chamada rede de proteção. Prefiro me referir a elas como rede de proteção à distância. Se eu estiver hospitalizada eu vou deixar chamar uma delas. Caso contrário, cada uma tem sua vida. Nenhuma delas tem a vida fácil para me socorrer ou quebrar meus galhos quando eu necessito. Não vou permitir que ninguém deixe o filho, o trabalho, o marido, a casa para resolver meus problemas. Todas as opções do que acontece hoje foram tomadas por mim. Eu decidi acompanhar meu marido para longe da família. Eu decidi ficar aqui porque seria bom para todos ( meu filho, meu marido e eu), eu decidi ficar aqui quando ele ficou doente e depois quando ele faleceu. Boas ou ruins, e dependendo de circunstâncias que envolvem inventário e despesas com as quais não posso arcar, foram todas decisões minhas. Não posso culpar ninguém, ou responsabilizar ninguém pelas coisas que estou passando ou sentindo. Mas, nada disto elimina o medo. O medo do hoje, o medo principalmente do amanhã. O medo da dependência total, o medo de ter que fazer coisas com as quais não concordo por não poder decidir no futuro. E aí vem aquela coisa da lâmpada que acende na tua frente e diz:Bingo!Taí porque seu irmão te goza toda santa vez quevocê se despede na tua ida embora de São Paulo chorando ( mesmo tentando engulir o choro), taí porque está tão difícil encarar a morte eminente de uma prima ou da mãe de uma amiga, ou a possibilidade de perder o seu cãozinho neto. Taí porque você reza e chora toda a noite pela prima, pela mãe da amiga, pelo Bruce, por sua mãe com tanta idade, por seu filho que diz que vai pegar a estrada e depois liga dizendo que o carro quebrou no meio da viagem em um lugar sem possibilidade de socorro. Eu tenho medo. Medo do sofrimento da minga prima, medo do sofrimento da minha amiga, medo do meu sofrimento pelo Bruce, medo da minha mãe partir e eu não chegar a tempo, medo do meu filho, com o carro quebrado no meio do nada ser assaltado, ou coisa pior. Eu tenho medo de não dar conta, de quebrar com a dor, de ter que passar de novo por dores que me moldaram. Eu levei anos para me tornar independente. Eu levei anos para enfrentar meu pai ( no dia do meu casamento), eu levei anos para confiar em mim ( foi graças ao Afonso que eu voltei a dirigir aos trinta anos), para ter uma conta bancária só minha ( também graças ao Afonso), e, meio que de repente, eu perdi a fé em mim. Perdi a crença que sempre incuti em meu filho, em minhas amigas. De repente, eu hoje duvido das coisas que ouço ou vejo, não confio mais na minha memória, não posso esquecer a bengala ao sair de casa. Eu me olho no espelho e não me reconheço. Estou muito distante daquela mulher que decidia tudo por si mesma, que dirigia até tarde na rua, que teve funcionária que contruiu casa porque eu pagava em dia. Que, quando era cantada por alguém no trabalho mandava à merda porque tinha um marido que me valorizava em casa. Que levava o filho a noite tocar em um bar quando ele tinha banda e pedia uma cerveja enquanto ele tocava e o marido estava dormindo, apenas porque ele confiava que eu não iria me desviar por tão pouco. De repente, tudo mudou. E eu não sei mais quem sou. Não faço mais análise profissiográfica nas linhas de produção, não conduzo mais entrevistas de admissão ou demissão, não faço mais festas com maletinha, nem levo a festa aonde o cliente está. Com muito esforço estou pintando coisas que já não envolvem pestanas ou sombrancelhas, ou que sejam demasiado pequenas para eu não correr o risco de borrar tremendo, mesmo sob o efeito do prolopa e cia. Apenas desenhos maiores. E, em breve, eu sei, nem isto eu vou conseguir pintar. Me resta,para efeito de renda,continuar a ser síndica do prédio, algo que está sugando a minha alma. Meu marido nasceu para isto. Por este motivo foi síndico por onze anos. Lamentavelmente, parece que eu não nasci talhada para tal serviço. Estou tocando, porque é o que me resta como opção, mas sei que esta função tem seu preço e está sugando minha alma, e o pouco que me resta de vida.Não estou reclamamndo no sentido de ser ingrata, ainda bem que continuo na função, o que me garante mais uns meses de traquilidade, mas definitivamente não é uma opção definitiva. Até porque em um momento alguém vai tomar meu lugar. E assim, registro o acender da lâmpada que cristalizou minhas certezas nestas últimas semanas. Não acho que seja texto para que ninguém leia, mas ninguém mais lê meu blog há anos. Mas, precisava botar para fora meus pensamentos. Junto com meus últimos textos escritos, este agora faz mais sentido. Preciso trabalhar meu medo de sentir mais dor. Isto ficou cristalino para mim nos últimos dias.Preciso me preparar para uma hora qualquer perder minha mãe que está com oitenta e oito anos ( espero que chegue aos cem), preciso trabalhar meu medo deperder o Bruce, preciso trabalhar sobre o que dizer para minha amiga sobre a mãe dela ou sobre perder minha prima.Preciso trabalhar sobre quando eu não puder mais ser independente( hoje eu ainda consigo ser, graças a Deus). Preciso trabalhar o medo que sinto de tudo, desde o cheiro de feijão queimado no vizinho até meu filho ir e vir a Vitória em segurança. Sinto que é este medo que está me matando aos poucos. Ao menos, eu acho que me encontrei o que me atormenta. Já é um primeiro passo. O que virá depois, nem tenho ideia. Mas, encarar de frente o problema, parece ser um bom começo!

sábado, 2 de maio de 2026

BRUCE

Bruce, eu te amo como um neto de verdade! Você tem quatro patas, mas é o que o destino quis que você fosse, um do meus netos, por quem eu tenho tanto amor, não fosse humano, fosse um cão, doce, querido e carinhoso. Mas, tenho que dizer, que hoje agradeço por não ter um neto humano. O mundo eu não reconheço mais como o meu mundo, a vida eu não reconheço mais como a minha vida. Por acaso, depois de escrever minha última crônica, lembro-me bem o que houve naquela noite, sem ter contado para ninguém. Depois de ter pulado a varanda de nossa casa, o portão de ferro, com enorme sacrifício, toquei em diversas campainhas na rua. Vizinhos de parede, vizinhos um pouco mais distantes. todos na viela 356, ou talvez , outro número que fiz questão de esquecer, da Rua Chamantá. Pedi por ajuda, pois meu pai ia matar minha mãe com uma faca e ninguém, ninguém, quis ajudar. Em briga de marido e mulher ninguém se mete, foi o que ouvi, de quem se despôs a falar. Outros apenas , por ouvir os gritos, apenas abriram um canto da cortina e a fecharam, como se nada tivesse acontecido. Foi preciso eu subir uma viela escura e vazia para pedir ajuda a uma amiga de escola, cujo pai também fazia coisas parecidas. A Norma, mãe da Ana Paula, chamou a polícia. Foi quando eu voltei para casa e meu pai bancou de bonzinho, comigo no colo, dizendo que era um engano. E o meu medo das consequências foi maior que o de denunciá-lo. Eu me calei. Devia ter uns treze anos. Talvez quatorze, mas não os quatorze de hoje em dia. Antigamente, a idade se manifestava de forma diferente. Quatorze eram os dez de hoje em dia. Minha amiga Ana Paula nunca mais falou comigo. Sei lá se porque chamei a mãe dela, se porque o pai dela era igual. Ela acabou por casar-se com meu vizinho de frente e as coisas desandaram de vez. Ela simplesmente me ignorava. Depois deste dia nunca mais chamei a polícia, mas não significa que ele deixou de nos ameaçar. Tenho uma foto aos treze anos, onde estou a segurar um tio,Marcílio,( futuramente meu padrinho de casamento) a continuar jogando detetive apenas para ele e sua esposa Wanda não nos deixarem sozinhos, com medo do que meu pai iria fazer na saída deles. Por sinal, a foto ficou bonita, qualquer hora , encontro ela. Não posso mais cobrar nada de minha mãe. Ela está com oitenta e oito anos, começou a viver a vida de verdade quando ficou viúva, viajou, aproveitou, e hoje está quase incapacitada. Meu irmão não gosta de falar sobre o assunto e minha irmã sequer viveu estes anos de terror. Ou seja,é quase como se não tivesse testemunhas do ocorrido, quase como se falasse sozinha. Mas sei bem, muito bem tudo o que aconteceu. Meu pai me deixou marcas das quais eu não consegui me livrar. E ainda assim, eu o perdoei. Em uma das últimas visitas na clínica onde ele foi internado ele me pediu um pedaço de bolo com chantily. Eu sabia que eram seus últimos dias , mas minha família ( mãe, irmão e irmã), obedecendo a uma ordem da clínica me proibiram de buscar o tal bolo na padaria. Eu não me perdôo por isto. Ele estava morrendo, não faria diferença comer ou não aquela fatia de bolo, mas fui voto vencido. Acharam que faria mais mal. Eu sabia que ele estava morrendo. Queria ter dado o bolo para ele. Mas, não me permitiram. Nunca me perdoei por isto. Por obedecer o que eles decidiram. Eu era uma visitante em São Paulo.Morava em Vitória. espécie de forasteira, que só vinha duas ou tres vezes ao ano a São Paulo. Já morava fora há anos, era como se minha opinião não valesse. Poucos dias depois ele entrou em coma e nunca mais pode provar o bolo que me pediu. Isto me atormenta até hoje. Nunca consegui esquecer. Neste período que ele esteve gravemente enfermo eu estive várias vezes em São Paulo. Estive com ele no dia dos Pais, mesmo ele estando em coma. No enterro dele tive uma crise, que não tive nem quando o meu marido faleceu. Chorei, gritei, ninguém entendeu. Acho que nunca consegui resolver meus problemas com meu pai. Não gritei, nem entrei em pânico quando Afonso se foi porque eu tinha tudo muito bem resolvido com ele. Nós nos amávamos e ele sabia disto, eu tenho certeza. Fiz por ele tudo o que me foi possível fazer. Com meu pai foi diferente. E acho que ninguém entendeu. Eu tinha muita coisa não resolvida com ele, não estava preparada para ee partir, sem resolver certas coisas. Tudo bem, acho que é assim que a gente aprende. Aprendi a dizer Eu te amo mais vezes, aprendi a reconhecer quando estava errada. Aprendi a não deixar para amanhã o que tem que se dizer hoje. Afonso foi reflexo disto, embora eu ainda ache que devesse estar alerta quando ele caiu e morreu. As coisas no mundo não são perfeitas. Gostaria que tivesse sido diferente com meu pai. Apesar de ter sido a que mais pastou com suas loucuras, ainda gostaria de ter tido mais tempo para dizer que conseguia entendê-lo. Gostaria de tê-lo decepcionado menos, e conversado mais, apesar de saber que ele não iria me ouvir. Perdôo meu pai, porque sou cheia de erros, muitos dos quais trouxe da aprendizagem com ele. Perdôo meu pai, porque não sou ninguém para julgar tudo o que ele viveu, apesar de tudo o que ele fez. Perdôo meu pai, porque também sou cheia de defeitos, e quem sou eu para julgar. Lamento por minha mãe. Mas, ela nunca vai entender isto. E também lamento por isto. É tarde demais para colocar as coisas em perspectiva. Só não consigo me perdoar. Afetei a vida do Afonso, do Bruno , da minha mãe, quiçá meu irmão. Afetei minha vida, mesmo se perceber, e hoje tenho dificuldades em admitir isto. Este é um pequeno recorte do que foi minha infância. Talvez por isto seja tão conplicado para mim lidar com a morte. E com o sofrimento. Talvez por isto esteja me doendo mais que o esperado a eminente morte da mãe de uma amiga que considero como filha. Talvez por isto eu esteja apavorada em viver a perda do Bruce, que apesar de ser um caozinho da minha nora e do meu filho, sempre passa alguns dias comigo e a quem eu me apeguei tanto. Medo da perda, do sofrimento, a culpa do que mais eu poderia ter feito por todo mundo que eu perco. Foi assim com meu avô, com minha avó, com meu pai. Foi assim com o Afonso. O que mais eu poderia ter feito por estas pessoas? O que mais eu ainda posso fazer pelo Bruce? Há como ajudar minha amiga a passar por tamanha dor? Há como nao sentir mais todas as dores desde que me conheço por gente? Acho que não. Tenho que enfrenta-las sozinha, porque cada qual ja tem suas proprias dores. Só lamento....

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Recomeços.....

Eu tento, mas não sei se lembro quantos recomeços eu já tive. Dizem que piscianos são mais sensíveis,mais intuitívos, mais sonhadores.Pode ser, eu nunca estudei signos e datas de nascimentos. Mas, em verdade vos digo, a maioria dos piscianos que conheço são muito parecidos comigo. Fáceis de se enveredar por uma história. Comecei a me interessar por signos quando o Bruno já tinha alguma idade e manifestava comportamentos semelhantes a pessoas do mesmo signo. Comecei a notar semelhanças. Então comecei a observar taurinos, o signo do meu marido e as semelhanças apareceram. E depois comecei a observar piscianos. Como eu. Não sei nada científico sobre o assunto, mas na verdade existe uma enorme semelhança. Qualquer dia, se houver tempo, estudarei sobre os signos e suas influências. O que não consigo esquecer é da minha infância. Da minha adolescência. Da vida adulta. Tive uma infância muito difícil. Fui a primeira de tres filhos, com diferenças de quatro anos entre meu irmão e oito com minha irmã. Com sete e ele tres, ainda dormíamos em sofás cama na sala. Não sei se ele se lembra, mas cada vez que eu ouvia meus pais discutindo eu batia na parede que separava a sala do quarto. Eu tinha a impressão de estar salvando minha mãe, na época não sabia bem do quê, mas em verdade, ela ao me atender e me acalmar, acabava com a possível discussão. Nem sei quantas vezes fiz isto. Virou uma espécie, hoje eu entendo, de mecanismo de defesa para defendê-la. Hoje não consigo ouvir discussóes de vizinhos e passo mal. Não sei até onde meu irmão se lembra disto tudo. Meu pai era um homem exemplar no trabalho, trabalhou anos em várias empresas excelentes, um ótimo provedor e não tenho dúvida alguma que, do seu jeito, amava sua família. Só não conseguia demonstrar. Segundo minha mãe, ele vinha de uma família possessiva, onde sua mãe escolheu a gravata com que iria se casar e seu pai pulava a cerca toda a vez que podia. Hoje eu entendo, ele precisava mandar em alguém. E esse alguém fomos nós , a família que ele formou. Ele teve dura concorrência. Meu avô, pai de minha mãe, era o pai que eu queria para mim. Paciente, com tempo sobrando, era ele que nos ensinava a andar de bicicleta, empinar papagaios ( naquela época a gente ia no Ceret, onde não haviam quase postes de luz), era ele quem ensinava fazer balões com cola de farinha, ele nos deixava fazer tudo, ou quase tudo. Normal, em famílias normais. Um avô é feito para divertir, não para educar. Mas, meu pai,com todos os seus problemas psicológicos ( que hoje seriam facilmente tratados), sentia ciúme deste relacionamento. Lembro que em um dia dos pais, mamãe havia tricotado um colete para meu avô ( afinal era pai dela). Nós filhos, havíamos comprado uma gravata para meu pai, com algum sacrifício. E pela manhã, meu pai nos chamou de fajutos, hipócritas e picotou a gravata que ganhou de nós. Nunca mais consegui usar a palavra fajuto. Estou escrevendo ela pela primeira vez em anos. Uma vez chamei a policia para ele. Quando a polícia chegou, ele sentou-me no seu colo e me disse , apertando meu braço, para dizer que eu havia exagerado. Eu vivia roubando as balas da arma. Descobri a senha do cofre e tirava as balas e ele brigava com a familia inteira por minha causa. Guardei, até hoje, uma das balas desta arma. É uma espécie de lembrete de porque armas deviam ser proibídas. Cheguei a escrever uma carta para o Dr. Garbougine, para que fosse entregue ao advogado da família (Dr.Tércio), alertando sobre esta arma e meu medo de viver sobre o mesmo teto que ela. Fui entregue pelo próprio advogado. Em retrospectiva, não acho hoje que meu pai fosse capaz de tirar qualquer vida. Acho que ameaçar era a forma de ele ter o controle sobre uma família que considerava o avô mais pai do que ele.Acho que quando ele bebia ele perdia as amarras e se tornava o homem que gostaria de ter sido. Perdi a conta de quantas vezes ele bateu na minha mãe, mas ele nunca bateu com vontade em mim ou no meu irmão. Ele falava muito e fazia pouco, excessão à minha mãe, que não tinha como se defender. Acho ,hoje, em perspectiva, que ele não precisava bater em nós, ele atingia aquilo que mais amávamos, minha mãe. Falo de mim e de meu irmão, porque minha irmã só veio quase nove anos depois. e até crescer o suficiente, já pegou meu pai, diferente. Ele já tinha percebido que os filhos estavam do lado da mãe, ele viu meu irmão aos quinze anos enfrenta-lo. Ele me viu vestida de noiva dizer que preferia entrar sozinha na igreja do que impedir a entrada de meu avô em meu casamento. Eu finalmente o enfrentei. Ele teve um AVC neste dia e minha mãe, na generosidade maior de uma mãe, impediu que eu soubesse até o final de minha lua de mel de uma semana. Minha infância e adolescência não foram fáceis. Minha infância traz lembranças nítidas de um pai bêbado deixando um copo de uma bebida qualquer cair balcão abaixo em uma varanda em Santos porque mamãe estava na praia de óculos escuros ( e podia estar olhando outros homens - contem ironia), até o momento em que, no final do segundo grau, "arranjei um estágio qualquer", que justificava eu pegar minha máquina de escrever Olivetti portátil, ganha do meu avô, colocar em uma sacola e tomar diversos ônibus até o Jardim Botânico, onde eu escrevia artigos que eu achava que seriam aceitos pela Folha da Vila Prudente. porque haviam sido escritos no orquidário da cidade. Eles aceitaram um. Tenho orgulho disto até hoje. Falava sobre a estação de metrô que iria derrubar nossa antiga casa na Emboaçava. Foi o único artigo que consegui publicar ( gratutitamtente, diga-se de passagem). A biblioteca virou meu refúgio. Quando percebi que ele tinha orgulho de uma aluna nota dez, passei a ir à bibilioteca, da Vila Prudente e do Distrital sempre que me sentia ameaçada. Hoje me sinto uma covarde, por ter deixado meus irmãos e minha mãe à mercê das suas bebedeiras. Mas, tive meus lucros. Com quinze anos ja tinha lido Madame Bovary, Guerra e Paz, todos os livros de Jorge Amado, tudo de Machado e muito, muito mais. Li em quatro anos o que quase se leva uma vida para ler. Metamorfose de Kafka,O Principe de Maquiavel, Aluísio Azevedo, e tantos outros. Quando li Angélica ( de Mdme Duprat) para falar a verdade, sequer entendi seu significado. Apenas depois de alguns anos, fui entender o que era uma prostituta. Quando li Zero, de Loyola Brandão fui tentar entender o que eram as ditaduras. Eu meio que aprendi na marra, sem querer. Para fugir das bebedeiras do eu pai eu lia. Lia o que era bom, o que recomendavam, o que era ruim também. Nem sempre tinha discernimento, naquela época, para saber o que era bom ou era ruim. Lembro da Dona Shirley. Era bibliotecária da Vila Prudente. Deve ter morrido há muitos anos. Mas era ótima para indicar livros. Agradeço a ela postumamente a me indicar Machado e Kafka.Jorge Amado e Emilé Zolá, entre muitos outros. Li entre os quatorze e os dezessete anos mais que qualquer auto didata. Ela era um farol, me indicando livros. Que Deus a tenha em um excelente lugar. Curiosamente, quase não me lembro da feições dela. Me lembro da voz. Poderosa, indicativa: - "você vai adorar isto!" Cada um deve influenciar de uma forma, imagino.Me lembro dela me indicando a Divina Comédia, de Dante. Ela me disse, talvez você não entenda agora, mas vai entender em algum momento. Ler e me esconder um uma biblioteca foi meu refúgio covarde. Larguei mão da minha mãe, dos meus irmãos, e me escondi.Confesso, tinha dificuldades em encara-lo. O Estudo era minha desculpa e minha forma de me esconder. Eu sabia, que ser uma aluna nota dez era seu calcanhar de Aquiles. E abusava dele. Uma forma covarde de viver um tempo mais longe da bebedeira, das ameaças, das injúrias. Quando ele ficou doente para valer, quando o médico proibiu a bebida, quando ele tomou um pouco de juízo ( só um pouco ), eu o perdoei. E fui escurraçada por isto. Sei que minha mae não me perdoa por isto, minha irmã também também não. Mas, gosto de pensar naquele ditado que quando a gente quer for se vingar é melhor cavar duas covas. Tive dó ele. Do que ele perdeu. Do que ele poderia ter sido. Esta sou eu. Pago por isto até hoje. Sei que boa parte das coisas que carrego vem dos traumas do meu pai. A morte da mãe dele,o medo de dececioná-lo, o medo de morrer pelas mãos dele, são apenas algumas das coisas que vivi. Mas, também sei que boa parte do que divide esta família, entre eu e minha irmá é o fato dela não ter vivido o que eu e o meu irmão vivemos. Não sei bem como o meu irmão lidou com isto, é como um assunto proibido emm casa, mas eu tenho certeza que em mim deixou muitas marcas.Hoje, fazendo terapia, percebo que cada coisa que a gente vive deixa uma marca na gente, de alguma forma. Eu vivi muitas. Meu irmão adora meu pai, e talvez tenha deixado de lado seus defeitos Eu tento, mas não consigo. Eu sou a soma de todas as experiencias boas e ruins desta época. Quero crer que , de alguma forma isto me moldou. Por exemplo, o controle que quero exercer sobre as coisas. A dificuldade que eu tenho para conversar sobre o meu pai com meus irmãos depois que eu casei. O fato de eu ter me mudado para outro estado enquanto eles ainda lidavam com ele. Acho que tem tanta ferida por baixo dos panos, tem tanto rescentimento, tanta dor, porque eu o perdoei. E eles não. Eu não comsegui reagir, quando ele já estava com parkinson delirando, eu não consegui me mover na casa da minha mãe, quando ele caiu da cama, ninguém o tirou de lá até o amanhecer. Nunca vou conseguir me perdoar por isto. Tem tantan história na minha hitória...... No fundo , eu só queria acabar como o o Chuck, do filme. Queria desligr e acabar.Como um fio que você tira da tomada e não pode religar. É o que mais desejo. Apesar das saudades, não quero rever meu pai, meu marido, nem niguém. Só queria um fio que se rompe e acaba com a dor que a gente sente. Porque com tanta história, dói demais viver.....Tem muita hiswtória para consertar. E não sei se estou disposta a isto. Queria aquele frio, do filme do Chuck, que só desliga a gente para sempre.... É Egoísmo? Pode ser, mas não tenho hoje forças para começar tudo de novo.....

quarta-feira, 22 de abril de 2026

SAUDADE..........

Oi, eu sou a Débora. Alguns me conhecem como a tia das festas, outros pela mãe do Bruno, um tanto pela mãezona do ESFILES. Alguns lembram de mim como aluna do Liceu Santa Cruz, outras como formanda da Metodista e muita gente apenas lembra de mim como quem faz os enxovais de bebê ou os panos de prato. Mas, também tenho sorte de ser lembrada como filha, irmã e amiga de muita gente. A vó torta do Vicente, a esposa do falecido Afonso ou simplesmente a síndica do Julieta. Muita gente acha que minha luz se apagou quando perdi meu marido, a luz da minha vida. Não deixa de ser verdade. Já faz mais de um ano e ainda não consegui me reerguer, me reinventar. Nas noites mais sombrias sem ele me lembro do tanto de gente que apostou que, por causa da diferença de idade, não duraria mais que um ano nosso casamento. Meu pai, inclusive. Durou quarenta e tantos, contando namoro e noivado. Teria durado mais se ele não tivesse partido. Até o padre que recusou abençoar nossas alianças por ele ser um homem divorciado disse que nosso casamento estava fadado ao fracasso aos olhos de Deus. Ainda bem que o Deus em que eu acredito não deve ser o mesmo que o guiou negando abençoar nossas alianças. Minha vida começou a mudar antes do Afonso ter o primeiro AVC. Recebi um precoce diagnóstico de Parkinson, não com muita surpresa, mas com muita frustração, já que papai morreu em decorrência de complicações da mesma doença. Depois veio a Covid, que para desespero meu e do meu amado, a doença tirou-lhe aquilo que ele mais prezava: o paladar. Só quem conheceu meu marido a fundo pode entender o que era para o Afonso perder o paladar. Um apreciador de alimentos. Um ótimo cozinheiro. Alguém que amava saborear. Foi o primeiro passo para a derrocada. Depois o primeiro AVC. Quatro meses de UTI, foi desenganado por médicos mais de uma vez, várias infecções, sepse,quase seis meses meses de recuperação em casa, antes do segundo AVC. Outro tanto de UTI, uma cirurgia para lhe colocar stents, outro tanto de sofrimento e enfim, uma recuperação parcial, que vista hoje em perspectiva, mais me parecia que ele vivia apenas para que eu não tivesse que sofrer com sua perda. Então o terceiro AVC o levou. Em casa. Depois de um dia maravilhoso de passeio que quase já não fazíamos e conversas no dia anterior cheio de lembranças, recordações e carinhos. Se eu tivesse que escolher uma memória para guardar antes de morrer, seria a dele, levantando com todo o sacrifício do sofá, para me cobrir o joelho, mal coberto por uma colcha, quando, pela exaustão, peguei no sono no sofá, dias antes de sua partida. Quando percebi , ele disse: não quero que você fique gelada….nunca consegui lavar aquela colcha…. Então, após sua partida, quase um ano depois, perdi um amigo querido, o Marcos, da época da escola, um músico incrível, aos cinquenta e poucos anos. Perdi uma amiga aos sessenta e oito de Covid e outra aos setenta com um enfarto fulminante. E agora estou lidando com uma parente muito querida com câncer, a mãe de uma destas minhas amigas que são como filha com uma doença que a levou a uma UTI e um outro ente querido com um tumor que pode ou não ser maligno. Fico me perguntando se isso é o que me restou. Ver quem eu amo ir embora, enquanto eu perco minha independência para uma doença que não tem cura. Tem coisas boas? Sim, claro. Vicente está cada vez mais lindo e esperto, mas eu já não tenho a saúde que deveria ter para carregá-lo no colo, correr atrás dele. Vejo amigas realizarem sonhos, parentes felizes, mas também vejo meu filho se afundar cada vez mais em trabalho e envelhecer um ano por mês, talvez por culpa minha, que repetia sem parar o mantra de seu avô Antonio, que dizia que o trabalho enobrece. Talvez porque ele precise apenas pagar suas contas e meu avô, coitado, não tenha nada a ver com isto. Mas eu e Afonso ensinamos a ele a nunca deixar a peteca cair, e, na verdade, hoje, não sei se fizemos o certo. Estou cansada de pessoas que dizem que tenho que seguir em frente, que tenho que fazer trabalho voluntário ( eu tenho dois trabalhos, por falta de um, nenhum voluntário porque tenho que pagar as contas ) , que eu tenho que rezar, que eu tenho que ser grata ( e sou muito, pois poucas pessoas têm a rede de apoio que eu tenho, em todos os sentidos), que eu não posso esmorecer e que eu já devia ter superado. Sábado meu time jogou mal e só o que eu queria era virar para ele e dizer: “que jogo de merda!”, mas ele não estava aqui. Depois, no dia seguinte, o time dele perdeu e eu queria dizer exatamente a mesma coisa, que é o que ele diria. Mas, ele não está aqui para ouvir ou falar. E tudo meio que perde o sentido, embora eu converse com seus retratos espalhados pela casa o tempo todo. Sábado fui a um aniversário e me peguei na frente de sua foto, perguntando se eu estava bem para o gosto dele, se não tinha baton demais….. Parece coisa de gente doida, mas não é. É o hábito. E todos sabem que o hábito faz o monge. O ser racional sabe de tudo isto. Que a morte faz parte da vida, que temos que seguir em frente, que sofrer não vai trazer ele de volta. Que ele odiaria saber que estou sofrendo assim. Mas, na maior parte do tempo, não é meu lado racional pensando, é meu lado emocional, aquele que chora, que sente saudades, que não quer enxergar uma vida sem prazeres, sem ele. ‘ Eu sei que hoje tem um monte de nomes para uma vida de “dependência, influencia”, ou qualquer outra expressão legal da moda. Mas, não é isso. Ele nunca mandou em mim ( se isso existiu, foi o contrário), nunca me definiu, nunca me moldou. Apenas havia uma parceria. Difícil hoje em dia. Destas em que a gente combina nunca dormir zangado um com o outro de jeito nenhum antes de resolver o problema. E, podem apostar, eu criava mais problemas do que ele, podem ter certeza. Ele era mais velho, mas eu era a mais ciumenta. Era eu que definia tudo e ele topava ou contornava tudo a tal ponto a me fazer crer que tinha sido ideia minha. Eu tinha gênio difícil, minha sogra nunca esteve errada, mas ele sabia como lidar comigo. Ele sabia como me levar. De repente, eu perdi tudo. Um concurso. Meu filho casou, mudou-se para longe, meu marido adoeceu, meu filho voltou, mas não para tão perto quanto eu precisaria. Eu perdi amigas na Covid, eu perdi meu marido logo depois. Meu filho já não tinha a disponibilidade de quando Afonso estava doente. Minha melhor amiga engravidou, quero crer que de tanto que eu rezei para isto acontecer, mas isto teve um preço. Eu já paguei este preço trinta e oito anos e pouco lá atrás. Outras amigas sempre estão presentes de alguma forma, mas, não é a mesma coisa. Sei que algumas não sabem mais o que fazer para me trazer alegria, mas nada ajuda. Por maior que seja o amor que elas tenham por mim, sou eu quem se deita a noite sozinha e diz boa noite para alguém que não está lá; são os pés dele que os meus procuram por baixo da colcha, é mão dele que eu não encontro quando quero me acalmar. Desisti de explicar. Continuo rezando e fazendo promessa para outra amiga engravidar. Mas, já não faço promessas para entender o que foi perder o Afonso. Todos dizem que tenho que aceitar e eu obedientemente tento. Acredito piamente que minha amiga vai engravidar (no sentido mais amplo da palavra) e ter o filho que sempre sonhou, mas já não consigo acreditar que posso viver, ser feliz, ter tesão pela vida ( também no sentido mais amplo da palavra), sem o Afonso. É como brincar num parquinho quando se é criança,,você acredita, acredita, acredita, até que não acredita mais. É mais ou menos isto. E você tem que reconstruir sua vida de quarenta e tantos anos sem sua alma gêmea, sem o cara que te dizia: tá errado, ou te dizia: vai em frente. Na verdade, sem ninguém. Seu filho tá cheio de outros problemas e você não quer atrapalhar, suas amigas, todas tem uma vida para gerenciar, e você também não quer atrapalhar. Sua família viveu tanto tempo longe de você, vivenciando sua existência através de posts e emojis, que eles mal te conhecem de verdade. Na verdade é difícil viver o luto quando você só tem sua psicóloga, disposta a ajudar quando for necessário. Ela ajuda, e como, mas não pode estar nas horas que você mais precisa, a noite, quando a maioria está dormindo e você está presa ao passado. Quando vai jantar e sem querer pisa no local onde Afonso caiu morto, Eu peço desculpas. Não é racional, mas eu peço. A maioria das coisas que eu faço não são racionais, mas eu faço. O luto das pessoas não é igual. Para alguns é mais fácil, para outros bem mais difícil. Talvez algumas pessoas não sintam tanta saudade, não tenham boas lembranças do casamento. Para outras o casamento talvez tenha sido uma benção, sem ninguém saber o porquê. Eu sempre tive a sensação de ter ganho na loteria. Todas ao mesmo tempo. Tive um marido à frente do seu tempo, que me ajudou horrores na maternidade, ( quando isto não era moda),que aceitou meu trabalho fora dos padrões, que respeitou meus desejos, que me ajudou enquanto pode e embarcou nas minhas loucuras. Ajudou na criação do meu filho quando eu não podia estar presente. Achava lindo tudo o que eu pintava e dava palpites na cor das fraldinhas quando podia. Este era o Afonso. A gente sempre discordava concordando. Ou concordava discordando. Mas, eu o respeitava. E ele a mim. Se eu voltasse no tempo, não exitaria em casar com ele novamente. Porque não existe esta coisa de alma gêmea. Existe respeito. Existe diálogo. Muitas vezes muito difícil. Muitas vezes quase impossível de haver. Mas, quando há amor, há. Você faz quase tudo quando há amor. Eu sei. Eu fiz. Ele também. E eu nunca esquecerei disto. É muito difícil passar por isto sozinha. Pouca gente te entende. Ir à praia ou ao teatro não muda teu sentimento de luto, de perda. Muda o local, não muda o que você sente. Você sorri, aquele sorriso que todos esperam de você, mas que não reflete teu sentimento. Você não quer desagradar quem te acompanhou, mas não quer dizer que você está feliz. E o que me deixa puta, é que pouquíssimas pessoas entendem o que estou sentindo. A maioria pensa: que legal, ela está seguindo em frente….. Não, eu não estou seguindo em frente. Eu estou tentando sobreviver. Um dia depois do outro. Por favor, parem de dizer que ele está melhor agora, que eu não estou vendo ele sofrer, que nós vivemos o que Deus achou que era o tempo certo. Parem de dizer que foi melhor assim, que eu fiz o que podia. Isto só me atormenta mais. Me deixem chorar quando eu tenho vontade, quando sinto saudades, me deixem lamentar a ida dele, sem a culpa de : “ele sofre lá em cima quando estou sofrendo aqui embaixo” Não sei o que tem lá em cima ou lá embaixo, mas não quero carregar a culpa dele estar sofrendo porque sinto sua falta. Meu Deus, aquele em que eu creio piamente, não vai punir meu amor porque sinto falta dele. Meu Deus, aquele por quem eu rogo, não vai puni-lo porque eu não aprendi ainda a viver sem meu Afonso. Não é nisto que eu creio. Meu marido há de estar descansando em paz, mesmo que eu ainda sinta falta dele, da sua carne, do seu espírito. Nem consigo imaginar o tanto de gente que vai me recriminar por tudo o que estou escrevendo, mas afinal, escrever acho que é meu único canal de desabafo. Lê quem quer. Quem não gosta ou não concorda, mude de leitura. Preciso por para fora toda esta tristeza,, que todos dizem que faz mal a ele, preciso por para fora toda esta solidão, toda esta falta de sentido que virou minha vida. Quer saber, danem-se os que não concordam, danem-se os que acham que estou errada, nenhum deles está passando o que estou passando sozinha agora. Danem-se! O Deus em que eu creio não me julga como os homens, o Deus em que eu creio é misericordioso, e há de me entender e não há de punir meu marido porque sinto falta dele. E se tiver que punir, que puna a mim, e não e ele..Eu não vou virar uma religiosa fanática aos sessenta e quatro anos. Eu vou continuar acreditando no que sempre acreditei: num Deus justo e honesto, que acredita no amor, que nos julga por nossos atos na Terra, que crê na caridade, na compaixão, no amor ao próximo, na planta que plantamos e regamos até virar uma árvore frondosa de amor e prosperidade. Foi nisto que sempre acreditei. Não vou mudar agora, porque perdi o amor da minha vida. Nós dois plantamos uma árvore frondosa e caridosa, amamos o próximo, fizemos o bem, dentro de todas as nossas possibilidades. Eu diria até demais .Deus há de entener a falta que sinto dele e ele deve estar no melhor lugar que for possível, pois foi um pai de quatro filhos incrível, foi um marido exemplar, um provedor sem questionamentos. Foi caridoso, mais até que a maioria, foi humano, como todo todo ser que habita este planeta. E eu sinto sim, falta dele. Me julguem. Se eu tiver que pagar, eu pago. Mas, não vou pagar de mártir, dizendo para todo mundo que não sinto falta dele porque isto não deixa ele evoluir. Sinto muito amor, se eu estiver errada, mas você sempre soube em que eu acreditava. Sinceramente, espero que você esteja bem, em um lugar de muita luz e paz, rindo das coisas muito absurdas que nós fizemos juntos para a maioria das pessoas ( como aquele piquenique com vinho nas taças e formigas no nosso entorno ou a escorregada na cachoeira que te fez perder os óculos...ou mesmo encher a piscina na varanda para o Bruno poder brincar…). Espero que se lembre das coisas boas. D Mesmo as coisas boas me fazem chorar. Você me conhece, eu sou assim. Pular a janela do quarto do hotel para o Bruno encontrar o fantasma, eu fazer empadinhas para 50 pessoas quando só nós íamos comer, mordermos a cenoura para o Bruno achar que o coelhinho tinha passado por lá, a saia cinza na noite de natal, o chapéu de flores no meu aniversário……….. Quanto mais escrevo, mais eu choro, então, vou parar por aqui. No meu mundo, você vqai ler isto aqui e vai acrescentar outra dúzia de cisas…..Espero estar certa. Eu me recuso a estar viúva. Você apenas foi viajar e não fomos juntos, como outras vezes. E não vai demorar a te reencontrar novamente. Tenho fé que você vai vir me buscar em breve. Saudades imensas, sem medo de você estar sofrendo. Louca para te reencontrar! Sempre te amei, te amo, sempre te amarei…. Dé

domingo, 7 de dezembro de 2025

Jay Kelly - Ler o Filme Além do Galã

Assisti hoje na Netlix o tão criticado Jay Kelly, com George Clooney e Ben Stiller. Eu entendo que superficialmente pareça uma história de pobre menino rico, pois é a leitura primaria e mais óbvia. A Academia não gosta de histórias assim. Ela prefere histórias de superação, onde alguém, do nada, chega ao pico, dando enfase à meritocracia. Entendo esta visão. Dá muito ibope, porque dá enfase à superacao, incentiva a corrida ao impossivel e faz quem assiste sentir-se herói também, ja que se o personagem conseguiu, ele, telespectador, também pode. Ocorre que Jay Kelly nos da margem para outra interpretação também. Uma interpretação que me fez refletir e chorar ao final da exibição. Mais do que falar do bonitão cheio de dinheiro, sucesso e extremamente dependente de sua "entourage" até para amarrar os sapatos, o filme toca em um ponto muito comum a todos nós:o peso de nossas decisões tomadas em uma parte da vida que irá refletir futuramente, quando chegam os arrependimentos e nada do que possamos fazer pode mudar o que foi construido. Se Jay quis aproveitar a oportunidadede de sucesso quando ela se apresentou para ele e que ele agarrou com unhas e dentes, deixou para trás a oportunidade de ver suas filhas crescerem, afastou-se de seu pai e de bons amigos, sempre emendando um trabalho no outro. Com as filhas crescidas e donas de suas próprias vidas, o pai perto da finitude e empregados que cansaram- se de se dedicar a ele e suas exigências e necessidades, Jay se depara com as consequências de suas decisoes de vinte e tantos anos atrás.Está se sentindo sozinho, com ninguém íntimo o suficiente para dividir suas glórias. Interessante que seu empresário, o único que realmente é fiel e amigo a ponto de continuar ao seu lado, provavelmente estará vivendo o mesmo dilema futuramente, já que fica claro que ele também esta abrindo mão de sua familia em prol do amigo cuja imagem ele ajudou a construir. Ao final, ele observa como um presente, os fãs que assistem trechos de sua obra com um fascínio que serve de contra ponto às suas decisoes.Ele afinal, sacrificou muitas coisas em sua vida, mas, como dizia a saudosa Rita Lee, fez um monte de gente, que ele nem sabe quem é, feliz. O filme me fez refletir sobre minhas próprias decisoes, quando mudei-me de Estado e vim fazer minha vida em Vitorinha. Meu marido morreu, meu filho foi morar com a esposa em outra cidade, perdi o crecer dos meus sobrinhos, uma maior convivência com minha mãe e irmãos. Mas, curiosamente semana passada encontrei no Jardim da Penha a mãe de uma criança de quem eu fiz todas as festas de aniversario com meu pequeno buffet. Depois de saudosos abraços ela me mostrou a fota da Vitoria, hoje com vinte e nove anos e me disse que foram festas inesqueciveis (tanto que ela me contratou por dez anos seguidos). E nós despedimos, comigo tendo uma sensação de dever cumprido, de ter pertencido a alguma coisa na vida de alguém com meu trabalho. Por isto entendi tao claramente a sensação que Jay sentiu ao observar seus fãs, absortos naquela homenagem. Todo feito tem um preço e às vezes ele é pesado demais para carregar e impossivel de mudar suas consequências.Pena que boa parte da crítica só conseguiu absorver o lado "pobre menino rico" de George Clooney. Porque na vida real todos somos Jay Kelly! Ps.:nunca pensei que fosse dizer isto, mas Ben Stiller está cada vez melhor como atorde drama.Ele da um show como o empresário fiel e quase melhor amigo de George Clooney.

quinta-feira, 26 de junho de 2025

UM ANO


UM ANO



 Um ano. E ainda ouço você colocar a chave na fechadura, sinto suas mãos nas minhas, procuro seus pés para esquentar os meus nas noites mais frias. Um ano e ainda abaixo a tv achando que você vai reclamar das propagandas em tom mais alto, vou ao banheiro sem fazer barulho para não te acordar, me pego rindo quando demoro no mercado e você me dizia que eu " conversava " com a salsinha, a cebolinha. Me pego olhando se está na hora do seus remédios e não consigo pisar onde você caiu e morreu. Um ano e as pessoas falam como se tivesse passado uma década e eu tenho a sensação de que foi ontem. Esta semana, quando terminei de pintar uma fraldinha, minha primeira reação foi te procurar com os olhos e perguntar: e aí, ficou bom? e ouvir seus elogios e comentários. Não consigo falar quando mais preciso, porque tudo que tenho de novo para contar é para você! E você não está aqui para ouvir qualquer novidade, qualquer besteira, para rir de alguma patetada minha.Fico procurando o que é minha nova vida sem você e até tenho tentado aceitando convites para acompanhar a Kledina no teatro, indo visitar o Vicente, cumprindo minhas obrigações como a síndica que aprendeu tudo com você, mas é difícil no fim da noite não ter ao meu lado você implicando com algum filme, comemorando algum gol, xingando o juiz, falando do Verstaten ou me chamando para ver as enchentes de São Paulo no Datena. Até às coisas mais insuportáveis em você me fazem falta. Não sei quanto tempo leva para a tristeza virar saudade, não sei quanto tempo leva para parar de chorar, nem para parar de estender a mão para pegar na sua várias vezes ao dia. Talvez para algumas pessoas passe mais rápido. Para mim, que te amei a vida toda, que te admirei e brincava com as amigas dizendo que eu tinha casado com " o último homem bom da terra", talvez demore bem mais para passar. Mas, ontem, quando por acaso apareceu Johnny Mathis na tv cantando nossa música, nossos quarenta anos passaram pela minha mente nos quase três minutos que dura a musica. Os bailes, os inferninhos, os piqueniques, o casamento, o nascimento do Bruno, cada longa viagem feita para Sao Paulo de ônibus, depois de carro, os dias de praia, a piscina na varanda, o nosso orgulho quando o Bruno se formou na faculdade, na pós, no mestrado, tudo isto passou tao rápido, na música e nas nossas vidas. Dizem que a gente nao deve dizer isto, mas na verdade eu queria mais. Queria que voce continuasse me aquecendo a noite e eu pudesse lhe massagear mais as costas. Mas, na falta de ter mais de você ao meu lado, vou sempre agradecer por ter tido o melhor marido que uma uma mulher pode ter. Que onde voce estiver, voce possa ouvir aquele que voce gostava tanto e tanto, que me ensinou a gostar tambem! Alguém disse que a morte nao finda um relacionamento, apenas o deixa em suspenso, até que nos encontremos novamente. Rezo muito para que esta frase faça sentido. Eu, tua esposa, de minha parte continuo te amando, te admirando e sentindo muito sua falta! Com amor, Dé!

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Trump : Ninguém Está Mais Cantando na Chuva

 


Quando eu comecei a sair da infância para a adolescência me encantei com os filmes americanos, vistos no cinema ou na tv. Para mim, aquele lugar era um paraíso, eu achava que os músicos tocavam nas ruas, que as pessoas dançavam alegremente em todos os cantos, inclusive debaixo de chuva. O mundo que o cinema americano construiu na minha cabeça era mágico .

Obviamente que, ao adquirir maturidade, comecei a entender que a coisa não era beeeem assim. E filmes como Todos os Homens do Presidente, Questão de Honra, Nascido em 4 de Julho, Lincoln, entre muitos outros, me fizeram entender o orgulho que o americano, apesar de suas mazelas, tinha de seu país. Um lugar com apenas dois partidos, cuja corrupção era investigada e punida,  onde a liberdade de expressão era real, onde o povo podia escolher livremente seus representantes. Pois é, com mais maturidade ainda e muita leitura, compreendi que também não é beeeem assim. 

No Brasil, nos últimos anos, tão malhado pelas urnas eletrônicas, você aperta seus números e elege seus candidatos ( aviso aos que não me conhecem, sou avessa a teorias da conspiração, leia- se fraude em urnas). Nos EUA, nao é assim que funciona.

Em 2016, por exemplo, Hillary Clinton ganhou as eleições no número de votos populares. Ganhou, mas não levou. Porque, na prática, os votos vão para um Colégio Eleitoral formado por outras pessoas que vão decidir Estado por Estado suas preferências. Por isto é mais importante para eles ganharem em muitos estados, mesmo com um número menor de votos.

Podem dizer o que quiser que não vão me convencer de que o voto de lá é mais democrático que o daqui.

Dito isto, chegamos ao segundo mandato do Presidente Donald Trump. Na primeira eleição ele perdeu em votos, mas tornou-se presidente porque ganhou na maioria dos Estados, mesmo com menos votos individuais. No primeiro mandato já dava para perceber que espécie de administrador ele se configurava. Um representante da extrema direita, avesso a todos os avanços que a humanidade necessita. Contra a pauta ecológica, a favor de uma energia suja que está destruindo o mundo, contra os imigrantes, as minorias, os homossexuais, e a favor de uma agenda altamente protecionista.

Protagonizando um dos episódios mais deprimentes da história recente americana, recusou-se a aceitar a vitória de Joe Biden, pediu inúmeras recontagens de votos e insuflou parte do seu eleitorado radical  a uma invasão ao Capitólio.

E agora, Donald Trump, após um fraco governo de Joe Biden, retorna à cadeira da presidência americana, desta vez ganhando de lavada, com enorme apoio popular, visto que fez promessas para seu eleitorado que foram um grande fracasso no governo anterior, como os problemas de imigração e os investimentos milionários em agendas ecológicas, por exemplo.

Um Donald Trump, contaminado por um discurso anti tudo o que é razoável, como um sistema adequado de saúde popular, anti vacinas, anti proteção climática, anti democracia ( ele proibiu a participação de jornalistas de alguns veículos de imprensa de participarem de entrevistas porque se recusam ao óbvio - renomear o Canal do Panamá sem respaldo de qualquer entidade), anti imigrantes, inclusive os que já haviam recebido a promessa do Green Card no governo anterior, anti as manifestações estudantis a favor de Gaza, entre outras bizarrices, como proibir chuveiros com timer, porque " ele adora lavar seus cabelos sem pressa".

Além de desmontar sistemas que comprovadamente funcionam ( hoje soubemos que o segundo óbito de sarampo do país foi de uma criança não vacinada - como pode isso, meu Deus!), Donald Trump ambiciona destruir a reputação dos EUA como maior país democrata do mundo, perdido na mediocridade do seu ego e na não confiabilidade de sua palavra. Não acho que ele ligue muito para o que seus assessores e Secretários lhe orientem. Ele está ensandecido. Respaldado pela ampla votação, vinda muito de americanos meio sem opções, Trump um dia levantou-se achando Deus, prevendo que todos os paises do mundo iriam se curvar à sua vontade, sem não, nem porquê. " Vou anexar a Groelândia, o Canadá, vou mudar o nome do canal do Panamá, vou vender imigrantes venezuelanos para El Salvador, sejam bandidos ou não, qualquer engano não é problema meu. E vou taxar todo o mundo. A América grande outra vez! Danem- se todos no resto do planeta!

O problema de egos inflados é que eles não tem racionalidade suficiente para perceber seus erros. Quem não tem bala na agulha vai sim, lamber suas botas e negociar até os pêlos da sobrancelha. Mas, tem muito país com bala na agulha para dizer não é bem assim. E com este discurso, há dois meses Trump morde e assopra, impondo taxas e recuando, fazendo com que os mercados enlouqueçam e que  todo mundo pague o pato. Com Trump no comando é como dirigir na neblina, você nunca sabe o que está por vir à sua frente e isso desmonta a enorme confiabilidade que sempre foi característica do país que governa.

Em teoria, isto não deveria afetar a nós, réles mortais, como dizia meu antigo chefe. Mas, afeta. Ele acorda, diz que vai taxar a China em cento e tantos por cento e o mercado de ações derrete. Tá, e daí? Daí que o dólar sobe mais do que o seu já alto preço e o agro, assim como outras empresas, só trabalham com dólar. Quando o dólar sobe, sua gasolina sobe, seu pão sobe, sua carne sobe. Porque o mercado compra e vende pela base do dólar. Você vai pagar seu pão mais caro porque a farinha que o Brasil compra é paga em dólar. É mais complexo que isto, mas a explicação é suficiente para você entender porque Trump está enlouquecendo o mundo todo. 

Ah, mas e quem tem bala na agulha? Quem tem bala na agulha faz o que a China está fazendo, não voltando atrás nas retaliações, mantendo-se firme , sem negociações.

A equipe de Trump tem se apressado em afirmar que este vai e vem nas tarifas estava previsto e é estratégico. Pessoalmente, acho que a equipe está desesperada em apagar incêndios. Trump já disse que esperava retorno para negociação com a China até x horas de tal dia, depois disse que era a hora de passar a perna no adversário político e agora disse que ele e Xi Jinping são amigos e vão entrar em um acordo. Ou seja, qualquer bom entendedor sabe que ele está atirando para todos os lados. Seu ego não lhe permite admitir que errou e encontrou alguém que vai pagar para ver, sem negociação, ou, pelo menos, não sem fazê-lo suar bastante.

                


Hoje Trump anunciou que estuda suspender a distribuição cinematográfica para países que não se encaixem nos seus programas tarifários. A despeito de esquecer que um aumento inadequado de tarifas pode encarecer a vida do americano ( apenas a construção de um carro americano pode levar peças de até oito países, segundo li), Trump encaminha seu país para uma enorme recessão, uma quantidade significativa de desempregos e até os bilionários que apoiaram sua candidatura, como Elon Musk, imploram para que ele volte atrás na revisão tarifária. A globalização é um efeito sem volta. Além do mais, a enorme massa de mão de obra braçal ( para fábricas, setor hoteleiro, setor de restaurantes, entre inúmeros outros), sempre foi sustentada pelo povo que ele está mandando embora do seu país: imigrantes, na sua maioria latino americanos e asiáticos, gente acostumada a pegar no pesado dois e até três turnos por dia.

Não sei o que vai acontecer quando o americano médio tiver que suspender o consumo de morangos, abacates e melões que vem do México, ou do suco de laranja que vem da terra Brasilis. Não sei se vai prevalecer o bom senso ou o inflado ego do Presidente americano, mas sei que Trump conseguiu amedrontar as universidades ( berço das melhores mentes e grandes discussões) as grandes empresas de tecnologia, empresas de jornalismo, tudo na base da falta de incentivo econômico . Resta saber por quanto tempo estas instituições se recolherão por medo de represálias, por quanto tempo o povo americano vai engolir a recessão e se os demais países irão se reinventar em novas parcerias econômicas. O baralho não mudou suas cartas, mas os jogadores poderão dispor de suas cartas de uma forma que os americanos podem não gostar.

Quanto a suspensão das obras americanas ( filmes, séries..), se vier, vou lamentar por uma ou outra obra, mas no geral não me fará muita  diferença. Porque faz muito tempo que entendi que as orquestras nao tocam nas ruas, as pessoas não dançam nas calçadas e que presidentes acusados de assédio, corrupção e falta de responsabilidade dirigem um país que um dia admirei por uma confiabilidade que hoje já não existe mais.


Observação: a despeito de ter uma opinião política diferente da de Trump, minha crítica não vai na direção apenas na divergência de valores, mas, principalmente na discordância da condução do processo. Discordo enormemente de pessoas com opiniões radicais de direita, o que não significa não respeitar o direito a tais opiniões.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Anistia?

 


Quem me conhece sabe que sou uma pessoa de bem, estudei, trabalhei, casei, eduquei filho, pago meus impostos, continuo fazendo jus ao título de honesta, de cidadã de bem.

Agora imaginem o seguinte: eu e outra dúzia de amigas, resolvemos visitar outro estado. Lá, depois de encher a cara, porque estamos muito felizes em nosso encontro, vamos ao Museu do Ipiranga em São Paulo e conseguimos, por inépcia da segurança ou esperteza nossa, esfaquear 7 vezes o famoso quadro de Pedro Américo, Independência ou Morte. De quebra, a gente consegue quebrar espelhos, escrivaninhas e sofás de valor histórico, inestimável. Tecnicamente estamos fazendo isto porque não há ninguém nos impedindo e para nós será uma aventura inesquecível, daquelas que rendem histórias aos filhos, netos, fotos no Instagram, no Facebook e uma chamada no Jornal Nacional, onde vão dizer que amigas bêbadas e felizes destruíram patrimônio público. 

Mas, tudo bem, somos mães de família, sem histórico policial, estamos empregadas, fazemos caridade e carregamos dentro de nós os conceitos bíblicos.. Quem não vai entender que apenas nos empolgamos, extrapolamos e merecemos uma chance de sermos perdoadas?


Dito isto, o que descrevi foi fato ocorrido em 8 de janeiro de 2023. Claro que não foi em São Paulo, foi no Palácio do Planalto, o quadro mencionado não era de Pedro Américo e sim As Mulatas, de Di Cavalcanti, não foram móveis do Império destruídos, mas um relógio do século 18, poltronas, sofás, escrivaninhas cujo valor histórico também é inestimável. Além, é claro, de um rastro de destruição, sujeira e ignorância sem precedentes. E nem estou mencionando uma tentativa fracassada de golpe, que não foi à frente graças a falta de apoio maciço do Exército.

Foram gastos cerca de dois milhões e duzentos mil reais para restaurar, além do quadro de Di Cavalcanti e do relógio de mesa, uma escultura de Bruno Giorgi, outra de Marta Minujin, quadros de Oswaldo de Teixeira, Frans Krajcberg, Dario Mecatti, Clóvis Graciano, além da recomposição de vidros, pisos e outros itens danificados.

Mas, você me conhece, sou uma vovó legal que se empolgou, que não tinha ideia das consequências e acho que naquele momento eu até tinha uma Bíblia dentro da minha bolsa. E me prenderam. Tão injustamente, justo eu, mãe dedicada de família. E aí eu pergunto: você me perdoa por destruir parte da história, pela baderna que armei, pelo meu entusiasmo e descontrole, mesmo que seja do dinheiro do seu imposto que está saindo o conserto dos danos?

Sabemos que o interesse na anistia não está em tirar a vovó Débora da cadeia porque foi irresponsável e inconsequente. No caso do 8 de janeiro a preocupação está em anistiar os medalhões, é evitar a prisão do ex presidente da República e seus asseclas. Os homens e mulheres de bem que roubaram de nós nossa bandeira para fazer dela parte desta palhaçada, fizeram isto a nós, que independente do partido ou preferência politica aceitamos o resultado das urnas e nos resignamos a torcer pelo país em qualquer cenário, porque temos filhos, netos,sobrinhos e afilhados por quem torcemos para que vivam em um Brasil mais justo, mais honesto, já que, claro, o futuro a eles pertence.

Há trinta e seis anos atrás eu estava na mesa de parto muito brava com as enfermeiras que, entre uma contração e outra, discutiam quem tinha matado Odete Roitman. O Bruno nasceu, para desespero da equipe, quase na hora da revelação. Ontem a novela estreou um remake discutindo preceitos éticos do povo brasileiro, seja do malandro que parece boa gente ao ricaço de uma elite muito especifica. O momento em que a novela estreia é muito oportuno. Nosso Congresso está sendo pressionado a aprovar a anistia a todos os envolvidos no episódio do golpe que não deu certo, e o povo mostrou, em passeatas de direita e de esquerda ocorridas nas últimas semanas que não está nem aí para o que vai acontecer. Com o preço do ovo e do café nas alturas, anistia não é pauta para o brasileiro neste momento. A grande maioria nem sabe sobre o que é anistiar alguém que fez algo muito errado. Com pouco dinheiro no bolso, o medo de lhe levarem o celular ( ou a vida) em um assalto, ou não conseguirem limpar o nome para lhe restaurar o crédito, é muito oportuno voltar a perguntar: vale qualquer coisa por dinheiro, status e poder?

Pelo caminhar da carruagem na Câmara e no Senado, esta pergunta tem a resposta de sempre, já vai para quinhentos e vinte e cinco anos... e contando..... 

E você, meu amigo, minha amiga, mandaria a vovó Débora para o xilindró por algum tempo? Se você é mesmo meu amigo, eu espero que sim, porque é um sinal de esperança ter um amigo ou amiga que pense assim... 


quarta-feira, 26 de março de 2025

Ressignificâncias

 


Estive há coisa de um mês e meio atrás com meus amigos Elaine, Jordano e o intrépido e sempre disposto a correr para qualquer lado Vicente, uma luz na minha vida de menos de dois anos de idade, no Convento da Penha, em Vila Velha. Ate o pé do convento pode-se ir de carro (embora muita gente suba pé), mas para chegar ao convento propriamente dito há uma enorme escadaria, de cerca de trezentos e sessenta e cinco degraus. Já prevendo isso, levei minha bengala, pois minha perna já não está me ajudando.

Subi, aproveitei para tirar fotos incríveis que são de tirar o fôlego dos turistas nos trezentos e sessenta graus de vista, assisti a missa no convento onde há muitos anos não ia e assim foi uma deliciosa manhã.

Semana passada, vindo da casa da Elaine onde comemoramos meus 6.3 anos de caminhada pela vida, ela comentou como tinha se arrependido de me convidar para aquele passeio, dadas as minhas condições físicas. Não sei se ela se convenceu, mas fui sincera em dizer que o passeio foi delicioso e que não sei quantas outras oportunidades terei para voltar lá.

Ontem, mexendo nas fotos que tiramos, para organiza-las no outro celular, olhei cada foto que eu tirei e que o Jordano tirou de nós. E fiquei pensando nas ressignificâncias que a vida nos propõe. 

Desde que vim morar em Vitorinha, há trinta e cinco anos atrás, perdi a conta das vezes que vim até o Convento com o Afonso, e, depois com o Bruno, fosse para admirar a vista, fosse para trazer um parente ou amigo para conhecer um lugar.

Quando nós mudamos para cá, tudo era novidade. Todos os parentes, meus pais, meus sogros, meus avós,  meus irmãos,  prováveis cunhados, tios, padrinhos, amigos, todos queriam nos visitar, saber que lugar meio fora do mapa era aquele para onde tínhamos nos mudado. Se hoje os capixabas ainda reclamam que quase não mencionam o Espírito Santo para nada, imaginem há mais de trinta anos atrás. Sim, Vitoria era uma capital, mas quase ninguém (meio como hoje) sabia onde era, como era. 



Eu saí de São Paulo após ser assaltada três vezes ( estes assaltos um dia vão render outra postagem), mas quando cheguei aqui em Vitoria tinha muito mato antes de se chegar até a areia e a gente deixava o carro aberto para pegar pão na padaria, entre outras pérolas. Eu entrava no mar as nove da noite sem medo de ser assaltada. Tinha uma faixa de meio metro ou menos entre o calçamento e o mar na Curva da Jurema e tenho foto para provar. Vitoria não o tinha destaque no mapa e viver em Vitoria era barato. Com o equivalente a sessenta reais você passava o dia na praia, almoçava peroá e tomava a cerveja mais gelada do universo. A gente ia na barraca do Batman, cara, quantas lembranças...

Mas, quando vinha visita, era roteiro obrigatório, Convento, peroá na Jurema ou no Batman, ver um navio no porto ao lado do carro na Beira Mar, visitar a ilha do Boi , pedir para o concierge do Hotel Senac deixar o "parente turista" tirar uma foto da praia privada e ir ao pier de Yemanjá para mais fotos. Para visitas mais íntimas, o roteiro incluía as três praias ( que dizem, foi privatizada), Setiba ou Guarapari. A depender da situação financeira, a gente ia a Meaípe comer moqueca (capixaba) com pé na areia do restaurante Meaípe ou comer só bolinho de aipim com carne seca na Tia Maria, que era o que dava para pagar. Aí entrava o famoso isopor com lanchinhos feitos em casa.

Não sei quantas fotos tenho tiradas do Convento da Penha. Com pais, avós, sogros, amigos, irmãos... Mas, estas tiradas com a Elaine, Jordano e Vicente há um mês foram especiais. 

Quando a novidade da nossa mudança passou, veio a vida. Meus parentes, os dele e amigos já conheciam tudo e só vinham matar saudades. Almoço em casa, ida ao supermercado para ajudar na despesa, levar o Bruno na escola, me ver de longe trabalhando com as crianças, montando as festas e salvando um punhado de coxinhas e brigadeiros para o final da tarde, depois da janta assistindo um filme enquanto eu fechava os saquinhos das lembrancinhas da festa do dia seguinte. O Bruno foi crescendo e já não vinha tanta gente assim visitar a gente. Viajar foi ficando mais caro e só minha mãe se atrevia a vir todo ano. E vinha para nós ver. Com o tempo foi ficando mais barato ir na praia meio quarteirão à frente e almoçar em casa. 

E assim acontece a vida, e sem imaginar, mesmo que com algum sacrifício, voltar ao Convento com Elaine e família resgatou-me lembranças que pensei serem impossíveis de resgatar. Ressignificâncias. Outro contexto, quase outra vida. Sem mais meu marido ao meu lado, longe do Bruno por força da distância, mas com um novo significado. Ao lado da amiga por quem a vida toda torci, junto do cara que ela escolheu para seguir sua jornada ( e pessoalmente acho que ela escolheu muito bem), junto do terremoto chamado Vicente com quem posso reviver todas as brincadeiras que fazia com meu filho e sobrinhos eu voltei a um lugar que achei que nunca mais visitaria.

Ressignificâncias... É o que tem para hoje! E é o que é a vida! Sou grata por ter revisitado um lugar que eu não voltaria a ver se não fosse seu convite, Elaine. Sou grata por rever esta vista linda de Vitória, vista lá de Vila Velha, de quase ver meu apartamento de lá. Sou grata pelo Vicente me permitir reviver, quase como uma avó, as doideras que vivi com meu filho. Sou grata!

Vivendo a gente aprende o significado de ressignificâncias. A gente aprende que o que passou fica em uma prateleira especial, mas que tem lugar também para o que está por vir. Que lembrar é fundamental, mas continuar construindo te mantém em pé, porque não há outra alternativa. É viver ou mau viver. Mas, viver, até segunda ordem, ou seja, até eu voltar para o Afonso, é a única opção. Ainda não encontrei o significado da minha vida pós Afonso, mas passagens como está que narrei ao lado da Elaine ajudam a me encontrar. Ter amigas como a Graci e a Klédina almoçando comigo no dia do meu aniversário também. 

Não está fácil achar este novo caminho da Débora, sem marido e com filho morando longe, mas existe uma benção chamada amigos que não nos deixam perder o rumo e vez por outra nos faz lembrar o real sentido da palavra ressignificar.

E sim, Elaine, eu subiria novamente o Convento em sua companhia. Só não me convide para escalar o Morro do Moreno. Eu te amo, mas aí já não tem joelho que aguente, hehehe!

 Obrigada amiga!



terça-feira, 18 de março de 2025

Passado E Presente

 


É engraçado, na minha idade, enxergar as coisas em perspectiva, ou melhor, sob outra perspectiva. 

Eu tenho muita dificuldade com podcasts( embora tenha feito parte de um por vários anos, em uma época em que isto não tinha virado uma febre e tudo era bem amador), tenho dificuldades em assistir vídeos no you tube, ouvir notícias em áudios de whatsapp. Comentei isto com a Elaine e a Klédina esta semana. Eu gosto de ler. A boa e velha bem escrita, com uso adequado do vernáculo. Um livro, um jornal, um editorial ou uma opinião em um veículo escrito. Eu me adaptei a tantas mudanças com os anos, justo  eu que fui do orelhão ao celular em trinta e tantos anos, que deixei de mandar cartoes de Natal, que prefiro falar a escrever no whatsapp, que fui da chave na fechadura à TAG que te abre a porta em um simples encostar do objeto no portão. Eu saí da boa e velha vitrola para o cd . Sai da máquina de escrever Olivetti para o computador, das moedas para o Pix, do táxi p o Uber ou similar. Mas, tem tres coisas que eu não consigo substituir, por mais absurdo que pareça: telefonar para um ou uma amiga no dia do aniversário, livros ou artigos escritos e ouvir música em discos e cds.

Telefonar para um aniversariante para mim não tem preço, colocar na minha entonação de voz , o meu verdadeiro prazer em desejar coisas boas para a pessoa do outro lado do aparelho é algo para o qual não encontro substituto a altura. Não me importa se a pessoa vai fazer a mesma coisa no meu aniversário, me importa eu me importar em ligar. Claro, às vezes fica impossível e mandar uma mensagem é a única alternativa. Mas, meu prazer não é o mesmo. 

Ler. Cheiro de livro novo é cheiro de céu. Faz algum tempo que não consigo comprar livros novos, ou mesmo ler um livro antigo, mas continuo ganhando alguns.. E se não são livros, são editoriais, crônicas, opiniões, prefiro ler a ouvir. Gostava de abrir o jornal e ler ele todinho. Gosto de furar bolhas e ler coisas fora do meu mundinho para ampliar minhas perspectiva de mundo. Gosto de ler sobre tudo, tipo a importância da farinha de rosca no bife a milanesa ou da chave de fenda na fórmula 1. Perdoem a brincadeira, mas a leitura mantém meu interesse pela vida vivo, ao contrário dos vídeos, onde eu não consigo "beber" cada palavra derramada no texto. O interessante é que podcasts e vídeos no Youtube dão muito mais comoções e visualizações. Ouvir é mais rápido, você pode ouvir enquanto lava louça ou dirige e também, na minha humilde opinião, o que você ouve  fica menos tempo martelando na sua cabeça. Se você lê com tempo e interesse pode digerir melhor um texto, pode amplificar seu entendimento no assunto. Mas, vivemos a era da quantidade, não da qualidade. Posso entender a lógica. A enxurrada de informações versus o tempo que temos.

Por último, usar um aplicativo de música. Começa que nem sei se o que eu gosto de ouvir eu encontraria nestes aplicativos. Sou muito eclética, mas muito exigente. Dei minha vitrola no auge dos cds e me arrependo até hoje,porque tenho discos incríveis em casa. Já, não consigo descrever o prazer de escolher um cd, uma música, sem precisar ouvir versões ou adaptações. Posso ouvir Billie Holiday, Plácido Domingo, Zeca Pagodinho, Johnny Mathis, Cartola, Os Cariocas, Chico Buarque, pegando o cd na mão, vendo a capa do cd, lendo o autor da música, o autor da letra, o ano da gravação , o ano que comprei ou ganhei e de quem  Eu sei, coisa de gente velha. Mas nunca vou descobrir se existe No Puede Ser, zarzuela espanhola na voz do Plácido no Spotify. Provavelmente não.

O fato é que envelhecer nos trás perspectivas diferentes da vida e se não acompanharmos as mudanças nos tornaremos pessoas presas a um passado que foi maravilhoso, mas que acabou. E nunca conseguiremos nos encaixar novamente no mundo. É normal achar que nossa época era mais legal, que a gente se divertia mais, que as pessoas eram mais legais. Para a gente, que viveu esta época. Se você quiser continuar pertencendo ao mundo tem que entender que a gente cresceu em um mundo misógino, homofóbico, racista e classista. E tudo bem. Foi o que nos ensinaram. Mas, o mundo hoje é outro, melhorou, as pessoas lutam para serem tratadas como iguais, porque são iguais, não porque nosso mundo era melhor, mas porque viemos de uma criação errada. Nossa época não tinha menos violência , tinha menos divulgação desta violência. As mulheres calavam quando eram agredidas ou desrespeitadas, roubavam-se os bancos, hoje roubam o celular porque é lá que o cara tem acesso ao banco. Perdi um amigo assassinado e outro para a Aids nos anos 80. Perdi outro em um racha de automóvel. Histórias q poderiam ter acontecido hoje . 

Os anos não melhoraram ou pioraram. A vida mudou. Tudo tornou-se mais público. Melhorou em vários aspectos, complicou em muitos outros. Mas é assim que a vida acontece, com mudanças, umas ótimas, outras nem tanto. Podemos nos prender ao passado, enviando pelo whatsapp vídeos com baleiros, filas para cantar o hino na escola  e banho de mangueira ou podemos apreciar as mudanças, escolhendo, enquanto nós é permitido, aceita-las ou não. 

Temos o poder de entender a história que aconteceu e a que nos foi contada. Temos o dever de saber a diferença entre o que aconteceu e o que o tiozão do WhatsApp nos quer fazer acreditar. Temos o privilégio de termos vivido uma época em que a violência era menor, mas que violência? A das ruas, nos assaltos e assassinatos ou as cometidas no Doi Codi com atrocidades e tortura por diferença de opiniões, a violência que, sempre velada era cometida contra homens e mulheres com cores de pele diferentes da minha, a violência contra o portador da Aids, a violência contra o sujeito na época chamado de travesti, a violência dos homens sobrepujando as esposas como propriedades? Será que o mundo mudou tanto assim, ou será que filtramos as lembranças que nos interessa lembrar e exaltar? 

Envelhecer, sob este ponto de vista é bom! Nos faz refletir sobre passado, presente, realidade e discurso de palanque. Ninguém aqui pode dizer que era feliz se não calçou os mocassins de quem caminhou por milhas sem fim. Simples assim....

quinta-feira, 13 de março de 2025

SOBRE AMIGOS ( MUITO) REAIS!

 


Eu saí com lágrimas nos olhos da sessão de terapia. Minha terapeuta só me fez lembrar o óbvio, mas ainda assim, para mim é tão difícil me sentir merecedora! Desde uns vinte anos atrás, mais ou menos, desde o texto do Meu Natal Em Julho, eu sei que criamos um grupo sólido e real de amigos, um dia imaginários, mas sempre muito reais.Foram muitos bifes a parmigiana ( minha mãe nunca me deixa esquecer que eram quarenta e seis bifes em assadeiras nos sofás da minha casa esperando por molho e forno), foram muitos faróis vermelhos ultrapassados para chegar antes do ônibus, foram travesseiros comprados para atender as visitas, foram cajuzinhos sem fim e brigadeiros de perder a conta, pavês de limão na madrugada, amigas chegando na noite sem eu ter nada na geladeira para oferecer, óculos consertado com durex, foram muitas as loucuras que fiz por estas meninas, ainda meninas, enquanto eu, de idade bem mais avançada, já mãe de um quase adolescente, ficava tentando convencer  meu marido que não seríamos assaltados por pessoas que eu só conhecia por computador.

Cada experiência fascinante que eu vivi com cada uma delas e deles!! Brincadeiras, fofocas, micos, risadas sem fim, comilança, choro, fotos que lotariam um pen drive hoje com uma facilidade incrível. E que houvesse assunto que nunca cabia em um encontro só! Decisões profissionais, perdas pessoais, grana, namorados, problemas pessoais, decisões, tudo passou pelos meus ouvidos, de um jeito ou de outro. Eu era a que ouvia, aconselhava, orientava, sem sequer imaginar o quanto eu dependeria de todas e todos eles para parar em pé um dia!

A vida é um moinho, dizia Cartola. E é mesmo! Sem qualquer pudor a vida me fez entender que eu, frente a tantos problemas inesperados precisasse, de um jeito ou de outro de cada uma daquelas pessoas, para conselhos, chacoalhões, ajuda financeira, carinhos, afetos, para me manter em pé!

A família está presente. O filho, a mãe, os irmãos, os cunhados e sobrinhos. Mas é aquele grupinho íntimo, que fez churrasco em dia de copa do mundo na casa do Fabiano, que comemorou aniversário da Marke no Outback, que me levou, combinado com Afonso para Coqueiral para fazer um niver surpresa ( surpresa mesmo  com direito até a chapeuzinho),que me trouxe uma banheira transparente  de sabonetes de presente que está até hoje no meu banheiro, para quem eu fazia bolo de coco molinho no meio porque ela gostava assim, para quem eu queimava a pestana para cozinhar sem leite por causa da intolerância, e quem eu chamava para trabalhar comigo, fazendo loucuras com as crianças e hoje me enche de orgulho pelo tanto que estudou e passou em tantos vestibulares, para quem eu fiz preces para engravidar, entre inúmeros outros causos que não mencionei aqui, são vocês que me fazem levantar pela manhã e seguir em frente. Sério! Sem demagogia alguma!

É quando eu me lembro daqueles memes dizendo que amigo você só reconhece quando tem dinheiro ou influência que eu sei que tenho que levantar pela manhã e seguir em frente. Não só pelo que o meu amado gostaria que eu fizesse, e por ele eu também seguiria em frente. Mas, dadas as circunstâncias, eu preciso de mais. Porque, desculpem a sinceridade, vivendo na casa onde vivemos por quase quarenta anos, onde Afonso está em cada cantinho, fazendo o trabalho que era dele como síndica, sentada na cadeira dele, usando o computador que ele usava para tomar as decisões que ele tomava, ouvindo frequentemente que: com o seu Afonso era diferente..., sinceramente, eu preciso de mais... eu preciso saber que se entrar em pânico eu tenho para quem ligar que não vai achar frescura, eu preciso saber que eu tenho para onde correr, eu vejo vida valendo a pena no sorriso do Vicente ou na graça do Ben, duas das fotos que se entrelaçam na minha cabeceira, junto com fotos do Afonso e do Bruno, porque estes dois meninos me lembram porque estou aqui.

Eu saí sim com lágrimas nos olhos da sessão, lembrando que dois dos meus últimos aniversários eu passei no hospital com o Afonso e um terceiro eu passei com minha amiga, o marido e Vicente, doido pela velinha que brilhava e não apagava. E Afonso se esforçando para parecer não estar sentindo dor, ou vontade de partir....

Este ano, as amigas que moram aqui toparam de primeira almoçarmos fora e depois tomarmos café na casa da mamãe de primeira viagem e Vicente com certeza vai apagar alguma velinha.

Tenho uma amiga, a quem tenho a honra de chamar de irmã há quarenta e cinco anos, a Solange. Somos meio alma gêmeas, mesmo que a gente fique meio ano sem se falar. Ela é um farol na escuridão.  Tenho outros amigos fora deste grupo alucinado do ESFILES a quem eu devo muito carinho e consideração, o Caio, o Javert, o Luis Antonio, o Carlos Eduardo, a Mariana, a Itamara, a Andréa, a Ana Paula, a Graça, a Paty, a Silvinha, a Cátia de Uruguaiana, não vou lembrar de todos, mas cada um do seu jeito, me ajuda a ter um motivo para sair da cama pela manhã. 

E sempre acho que não mereço amigos assim. Amizade é uma via de mão dupla e eu sempre acho que fiz pouco para receber tanto. Minha terapeuta sabe ( e ela vai ler isto) que é o que eu acho.

Todos me ajudaram, de um jeito ou de outro. Não foi apenas uma perda. Foram três anos cuidando com todas as minhas forças do homem que eu amo. Dedicando toda a atenção possível àquele que foi meu companheiro maior, nos bons e principalmente nos maus momentos. Fazendo tudo o que eu fiz e faria mais mil vezes de novo, porque ao contrário do que muitos podem pensar, ele era minha paixão e fez tudo o que podia por mim. Não é pouca coisa, nos dias de hoje, dizer que tive um ótimo casamento, com um marido maravilhoso e que me faz falta todos os dias.

Então, sim, eu me pergunto porque tenho os melhores amigos. Os de muito perto, os mais distantes, os que ajudaram me levando um Big Mac à meia noite no hospital porque eu não tinha saído para comer (nunca vou esquecer disto garota, você sabe quem você é), os que deixavam mensagens que eu não conseguia responder, os que me ajudavam com a sopa dele quando eu não dava conta, nossa, não dá para enumerar tantos agrados e ajudas.

As orações, ah, as orações! Juro que podia sentir as orações como algo palpável no quarto quando mais precisei delas. Em qualquer que fosse o credo, eu as senti. E elas mantiveram  o Afonso ao meu lado por mais três anos, disto tenho absoluta certeza.

Não sei explicar isto. Merecer tantas bençãos por ter amigos tão verdadeiros. Não se trata de sair bem na foto. Se trata de estender a mão quando me encontrei em um abismo.  E eu tive isto mais do que qualquer ser humano possa desejar. Mesmo que eu ache que minha conta está no vermelho com tanta gente eu faço minha prece e agradeço. Se não foi nesta vida, em alguma vida devo ter merecido tanto apoio. Só posso agradecer. Mil vezes agradecer. E pensar em formas de retribuir ao mundo todo o carinho que me cercou nos últimos quatro anos. Deus permita que eu consiga! 

Obrigada a cada um, em especial àquela turminha que se escondia atrás dos carros com o saleiro e um guardanapo na mão. Vocês sabem do que estou falando! E um enorme obrigada á minha família, meu filho @Bruno e a querida @Carla, que nunca me faltaram!

Amo todos vocês! Do fundo do me coração!