segunda-feira, 25 de maio de 2020

Duas Varandas




Eu moro há 31 anos no mesmo edifício. Nele, estaciono meu carro na mesma vaga, pelo mesmo tempo. Do meu carro de hoje ou da antiga perua escort sw, ao estacionar e descer do carro a mesma visão: as diversas varandas dos apartamentos de fundos do Julieta. Em uma delas, frequentemente a mesma visão: a de um sorriso sempre aberto e sincero. Sempre um bom dia! Uma boa tarde! Muitas vezes uma boa noite!

De quando eu estava grávida, vinham desta varanda, conselhos sobre tomar sol, oferecimentos de ajuda caso se fizesse necessário, desejos de um bom parto em São Paulo. Já com o Bruno nascido e de volta à Vitória, adorava encantar-se com ele (como se ninguém soubesse o quanto ela amava crianças). Foram tantos encantos, chamegos com meu filho e os outros bebes do edifício, de uma geração que foi se formando para encantá-la: Flávia, Wantuil, Bruno, Lorena, Guilherme, Victor, Aline, Júlio (que depois de tantos anos acabou se tornando seu médico de imagens), Júnia, Maria Victória, Caio, Fabiana, Fabíola, Fred, Luíza, Bianca, Gustavo e tantas outras crianças cujo nome vou esquecer. E não sei se eles cresceram com ela e seu “Mozão” ou se ela é que cresceu com eles. Ela sempre foi uma espécie de imã para atrair crianças.

O Bruno foi para a escola e eu abri meu buffet. Eu já não tinha tempo para curtir toda a vizinhança, mas ao descer do meu carro, daquela varanda não cessavam os avisos para que eu não trabalhasse demais, de que as caixas estavam muito pesadas para minha coluna e, a parte mais divertida era sempre ela me perguntando com cara de menina levada se tinha sobrado salgadinhos e brigadeiros de fim de festa, sempre com a desculpa de que eram para o Mozão. E, inevitavelmente eu fazia uma parada estratégica no primeiro andar para deixar um pratinho.. e seus olhos brilhavam: até aí ela era mais criança, como gostava de um brigadeiro, de um pedaço de bolo. Daquela varanda também vieram alguns dos melhores elogios ao meu menino, sobre como ele educado, estudioso, bem comportado.

Mas, aí a vida, sempre ela, acontece e nos desvia das coisas que mais gostamos de fazer. O buffet foi crescendo, os trabalhos em finais de semana iam até a madrugada, eu só entrava em casa correndo e saia mais correndo ainda. As festinhas nas escolas de segunda a sexta e o fim de semana corrido, só me permitiam tempo para meu filho e meu marido. E assim, descuidando de quem cuidava de mim, nossos encontros eram apenas para deixar o salgado ou o bolo com ela, às vezes dentro do elevador. Não me pude permitir viver muita coisa ao seu lado até que seu Mozão já estivesse muito doente, e nem saber que ela sofria calada sua doença para que seu grande amor se fosse, sem o sofrimento de vê-la doente também. Que outra mulher calaria seu câncer por tantos meses, só para se dedicar integralmente ao marido, por quem tinha adoração, e que já não guardava esperanças de recuperação? Somente a dona daquela varanda…

Foi somente aós sua cirurgia que voltamos a nos aproximar. Eu fechei meu buffet e passei a trabalhar em casa com pintura de enxovais. Meu tempo passou a ser mais flexível e ela adorava ver meu filho subindo ou descendo o elevador e perguntar sobre ele, saber de sua banda, ficar louca com o cabelo comprido dele, vê-lo ir ao primeiro estágio, ao primeiro emprego.

E foi sua doença, a tristeza do luto, as ocupações de meu filho e as minhas pinturas que me aproximaram novamente da dona daquela varanda. Agora eu podia acompanhá-la mais para um café e um pedaço de bolo. E quando a doença e a quimio voltaram, tive a sorte de poder estar ao seu lado. Eu digo sorte, porque eu aprendi mais com ela nestes últimos seis ou sete anos do que em boa parte da vida.


Ela ia para as consultas, os exames, as químios, com o mesmo sorriso no rosto com que ia comigo tomar café no Shopping Jardins ou Centro da Praia e não perdoava o fato de eu convidá-la para um café e tomar água ou suco. Eu era a sua amiga de ir tomar café que não tomava café. Ela ria com isto. E era nestas horas, ou nas que eu ia em sua casa, que eu ficava ouvindo suas inúmeras histórias sobre sua família, seus pais, seus irmãos, a casa em Milho Verde, a afilhada do coração, os seus tempos de banco, de fazer hora extra sem receber para ajudar uma colega, de adorar esparramar brinquedos no chão para brincar com os netos das amigas. Gostava de contar também sobre quando fez psicologia, do que aprendeu, de como era ser a mais velha da turma. Ainda queria ficar boa de vez para trabalhar como voluntária, onde dela precisassem.


A dona desta varanda falava de tudo e fazia tudo com intensidade, com alegria, com energia. Mesmo diante de resultados de exames nada animadores, ela levava em seu coração a certeza de que era só mais uma fase a ser superada. Tinha uma fé inabalável e uma vontade de viver inacreditável. E se eu fizesse cara de preocupada, tinha a cara de pau de me chantagear: se for para se preocupar não deixo você ir mais ao médico comigo! Não te conto mais nada!!

A dona daquela varanda que eu vejo logo que desço do carro dizia que queria morrer andando na rua. Caminhando no sol, carregando algum pacotinho de supermercado, de preferência com alguma boa oferta dentro dele. Como uma atriz a morrer no palco atuando. Mas, a pandemia não deixou.

A varanda ao lado da sua, pertencente a outra grande amiga por muitos anos, está ocupada a pouco tempo por outra moça que nós também aprendemos a amar. Gentil, amiga, atenciosa e linda, foram suas primeiras palavras para descrever a nova vizinha sempre pronta ajudá-la se fosse necessário. E então, esta moça se casou. Do começo deste ano para cá, a dona da varanda tornou-se ainda mais fã de sua varanda ao lado. A moça se casou e trouxe para o andar o convívio com um jovem alegre, solícito, simpático e músico.

Este rapaz fez da dona da varanda à direita a mulher mais feliz e apaixonada e da dona da varanda à esquerda uma nova mãe, como ele gostava de chamá-la Adorava cozinhar e levar para ela “um tantinho” para ela experimentar. Uma carninha, uma polenta, sempre um mimo e um largo sorriso, tentando poupar qualquer esforço desnecessário vindo da nova “mãe”. Fez até uma serenata para ela, que presa em casa pela pandemia, ficou encantada com o gesto, que encantou a muitos outros moradores também, isolados neste momento.

E assim, como um furacão, o dono do coração da esposa e do coração da mãe emprestada acabou ganhando também meu coração. Nos últimos meses, ao estacionar meu velho carro e dele descer, eu já não tinha apenas um aceno da varanda, tinha dois. Neste tão pouco tempo, não raras vezes, me vendo abrir o porta-malas cheio de compras do mercado, o rapaz descia correndo para me ajudar a carregar os embrulhos até o elevador ou até a porta de casa. E aproveitava para me perguntar como estava a saúde da vizinha de varanda e se podia ajudar em qualquer outra coisa ou apenas dizer como estava apaixonado, como gostava do prédio, como era bacana o trabalho do meu marido como síndico, como os funcionários daqui eram “gente boa demais” e como a vizinhança aqui era legal.

Foi em uma sexta feira que levei a minha amiga ao pronto socorro. Não sem antes ela me apontar na mesa de entrada da casa, que havia acendido uma vela pelo meu filho por causa da pandemia no Pará. No hospital, depois dos exames, deixou comigo suas alianças e eu disse que ficariam bem guardadas, esperando por ela voltar. A última coisa que disse para ela, antes de subir de elevador para a UTI cardiológica foi: Você vai ficar bem! Te amo! Te vejo daqui a pouco e vamos sair para tomar um café! Ela já respirava com muita dificuldade, mas fez o enfermeiro parar de girar a maca para poder olhar para mim e me dizer: Claro! Pode me esperar! Ela mal podia falar..



Só pude vê-la depois disso por chamada de vídeo, mas ela talvez já não me ouvisse, nem soubesse o tanto de amigos que tinha rezando por ela. E, quase uma semana depois, só pude me despedir dela por uns poucos minutos, com uns poucos amigos e parte da família, o que foi para mim, uma destas rasteiras da vida. Não bastasse perdê-la, ainda tínhamos que fazer sua despedida sem o tanto de amigos à sua volta, logo ela, que conhecia e era querida por tantos…

Quis o destino que a dona de um largo sorriso, alegria contagiante e um coração cheio de uma bondade e caridade imensas de uma varanda e o jovem esfuziante e gentil da varanda vizinha deixassem a todos nós no mesmo dia, tornando insuportável a dor de todos os que conheciam, a um, ao outro ou ambos.

Passaram-se uns poucos dias e, com ou sem pandemia, alguns problemas ainda me obrigam a ir para a rua. Mas, dias vão se tornar semanas, as semanas, meses e outras estações irão chegar. Uma certeza fica para mim: eu nunca mais vou descer do meu carro e olhar para as duas varandas com a mesma alegria no coração. Mas, vou esperar que tanta tristeza se torne uma saudade boa, cheia de recordações incríveis e bons exemplos destas duas pessoas e sempre ser grata por ter tido a honra de cruzar seus caminhos....

domingo, 15 de março de 2020

O Último Episódio De Criminal Minds






    Sobre Como Foi, Como Deveria Ter Sido, Como Sempre
                                                                                                                        Será Em Meu Coração



Eu escrevo sobre Criminal Minds há muito tempo. Comecei fazendo reviews de episódios para blogs de séries, depois passei a postá-las em meu próprio blog, escrevi fics (nos bons tempos do orkut) onde eu enlouquecia a galera com atualizações que custavam a chegar por conta a correria da vida, mas que quando chegavam faziam a alegria de quem lia (ao menos de quem comentava). Fui da época em que os atores, atrizes e diretores respondiam nossas perguntas via twitter logo após um episódio e isso é inesquecível (assim como a Era Ed Bernero).


Depois passei a participar de podcasts semanais do CriminalMinds BR, onde através da nossa dedicada e persistente equipe conseguimos fazer contato com pessoas que nos levaram a entrevistar um consultor da série que foi do FBI, e a outro que nos explicou como era construção de cenários, cenas de crime e memoramobilia, entre outras coisas. Também entrevistamos a responsável pelos figurinos. Além, claro, de nos divertirmos toda semana com os comentários mais inusitados que eram feitos sobre uma cena ou o destino de um personagem.


Com tudo isto, Criminal Minds acabou virando por muitos anos uma extensão da minha vida. Já fiz artigo sobre a longa vida da série e suas inúmeras reviravoltas e como ela sobreviveu a tudo e se reinventou. Já fiz artigo bravo sobre como a série estava sofrendo com a opção de mudar o público-alvo. Já fiz artigo dizendo que não reconhecia mais a série que eu tinha começado a assistir com um Thomas Gibson recém saído de Dharma e Greg e um jovem descabelado que parecia ter futuro. Já fiz artigo dizendo que fazia fic Hotch/Prentiss só pra agradar a meninada, porque na real nunca tinha visto nada do que elas viam na série e achava que tudo estava no plano da imaginação mesmo.


Mas, nunca pensei em como seria escrever sobre o final de Criminal Minds. Talvez porque a série para mim tenha terminado há muito tempo. Aquela série pela qual me apaixonei de verdade deixou de existir há uns 3 ou 4 anos e eu apenas aceitei isso. Mas, somente assistindo ao último episódio pude entender o que de fato se passou comigo e que tão pouca gente entendeu.


Com raríssimas exceções, todos os últimos episódios da última temporada foram ruins. O que não chegou a ser novidade para mim, visto que não gostei da décima quarta temporada também. Os roteiros passaram a dar prioridade à vida dos nossos agentes de forma muito exagerada e alguns unsubs, com potencial para boas histórias nas mãos de roteiristas menos afetos a momentos fofos poderiam ter rendido histórias memoráveis, como a de Shelby Matesson (15x03 – Spectator Slowing) que matava porque não conseguia entender a odiosa parte da natureza humana que segue se alimentando da miséria humana (um tema interessantíssimo, por sinal) ou Kyle, o pai de Ethan Peters ( 15 x 07 - Rusty) que não pode aceitar a morte do filho decapitado em um acidente que ele próprio causou e começa então a matar em episódios de alucinação.


No entanto, a preocupação em explorar a vida pessoal dos personagens (o que foi aquele episódio com mais da metade do tempo focando entre a construção de um berço e a parceria de Rossi e Matt Simmons em um livro ou o vizinho paranóico da Emily querendo processá-la?) que, segundo a produtora Erica Messer tinha por objetivo homenagear os fãs que seguiram a série por longos quinze anos, transformou-se em quase um insulto, trazendo novamente Cat Adams para novamente atormentar Reid com uma fórmula requentada, acalentando falsas esperanças para os fãs de Emily de que ela seria promovida e assim, JJ ficaria com seu lugar e com referências aos personagens que deixaram a série apenas nos lembrando que eles fizeram tanta falta que o final só poderia ser muito amargo.


Para quem esperava um unsub memorável marcando o encerramento, sobrou mesmo Everett Linch, o já muito fraco personagem explorado na temporada anterior. Sem carisma, sem um grande motivo para tornar-se inesquecível, tornou-se ainda mais pífio quando nos quadros iniciais dos delírios de Spencer vemos George Foyet, talvez, se não o melhor, o mais marcante de todos os unsubs da série. A decisão de trazer de volta o ator C. Thomas Howell para ilustrar o lado negro dos pesadelos de Spencer Reid enquanto ele “decide” se vive ou morre apenas tornou mais evidente o quão fraca esta temporada foi e, escolhê-lo para homenagear os unsubs vividos em quinze anos só não foi perfeito por conta do vínculo utilizado, visto que a relação de Foyet nunca foi com nosso gênio e sim com Hotch.


Obviamente que, por qualquer que tenha sido o motivo da decisão de não trazer Thomas Gibson ao encerramento da série, George Foyet foi um dos instrumentos para reintroduzi-lo e relembrá-lo em um de seus momentos mais marcantes, a luta de punhos na morte da ex mulher. Talvez tenha sido único personagem que tenha sido lembrado com sua melhor cena na série. Quanto as demais recordações, apesar da cena de The Fisher King 1 relembrar Morgan, Gideon (ambos mereciam uma homenagem melhor e à altura de sua importância), Elle e Hotch, da aparição muito estranha da Chefe Strauss ( ou ela fez uma aparição pró bono ou pegaram ela no intervalo de alguma gravação, porque poucas vezes me lembro de ter visto a personagem tão desarrumada..) as homenagens restringiram-se à aparição de uma Maeve loira quase irreconhecível ( a produção estava sem grana até para bancar perucas?, porque assim, a gente sempre se lembra com carinho de pessoas do jeito que as conheceu, não do jeito que elas estariam hoje – o mesmo vale para Foyet e Strauss, menos descaracterizados, apenas mais velhos ) para confundir ainda mais quem primeiro achou que nosso garoto estava apaixonado eternamente por Jennifer Jareau e depois por uma simpática Max, que do nada surgiu e para o nada se foi…


Não vou entrar em detalhes na volta de Diana Reid. Nunca vi uma personagem com Alzheimer regredir tanto fisicamente para depois voltar triunfante com uma pele, postura e disposição melhor que a minha.. e Garcia ainda pedindo para ela decidir qual medida médica tomar em caso extremo.. Aliás o caso extremo do Spencer durou apenas o suficiente para suas memórias, porque ele morrendo acordou do nada e a médica achou normal, então está bom….


Para podermos ter vários minutos de festa, com todos os atores se despedindo e dançando Heroes de David Bowie (esta sim, uma tremenda referência), o vilão raptou a atual Sra. Rossi, tivemos uma cena de troca meio boba em um aeroporto onde ninguém consegue atirar em Everetty Linch, apenas para termos uma cena de Duro de Matar com um resíduo de gasolina explodindo o avião nos ares!


Talvez o problema do episódio final (inclusive de toda esta temporada) tenha sido querer fazer o dr. Reid sofrer até os últimos instantes, porque isto sempre agrada os fãs do rapaz. Talvez tenha sido a falta de uma base sólida com um bom unsub para sustentar um final inesquecível. Talvez tenha sido porque já vimos festas demais no bom e velho jardim da casa do agente sênior. Talvez porque tenhamos nós todos dado nossos finais a velhos conhecidos.


Foi por isto que eu, apesar de tanta frustração e desapontamento chorei nos momentos finais do episódio. Caiu para mim a ficha de que cada personagem já tinha um destino, aquele que eu gostaria de ter dado, de ter escrito, e que talvez só tivesse sentido para mim. Caiu a ficha do fim de uma história de amor de quinze anos, que foi o motivo de ter conhecido tanta gente bacana, ter feito amizades que transcenderam o universo das séries, ter falado de Jennifer, Aaron ou Morgan com quem os conhece, como se eles fossem nossos amigos também. De ter aprendido a escrever reviews, de ter entendido para que serve e como se faz um podcast, de ter me apaixonado por um submundo que hoje é meio modinha mas, que quando começou para mim lá com Arquivo X era coisa de gente esquisita, ver série americana, falar dela, escrever sobre ela).


Não, não foi um final de série decente. Mas, eu meio que não esperava um final decente para a série. Em algum momento nestes últimos anos eu achei que a série que eu amava tinha terminado e tudo o que viesse seria apenas um conforto para estar sempre falando dela com os amigos que eu fiz, com quem passou a fazer parte da minha vida por causa de Criminal Minds e ficou por vários outros motivos.


Então sim, eu chorei quando lembrei que aquela seria a última festa na casa do Rossi. Com as memórias deles que se confundiram com as minhas. Com o final de alguma coisa que, como tantas outras nesta vida, não têm saído como eu imaginava.. Mesmo que não tenha sido o episódio que eu gostaria que fosse, eu chorei por me emocionar com tudo o que Criminal e aqueles atores e aquela equipe trouxe de bom para a minha vida. Eu sinceramente acredito que, apesar de todas as burradas feitas ao longo desta temporada eles realmente tentaram agradar aos fãs, ainda que não tenham conseguido. Acho que o desgaste de tantas saídas foi grande demais para não se refletir com o tempo e a vontade de “ouvir” o público pagou seu preço. Então, não consegui sentir toda esta raiva que era esperada por ter sido uma season finale ruim. Talvez porque eu esteja em uma fase de agradecer o que há de bom, porque francamente a vida anda dura demais para que eu fique brava com a Penélope….


Que fique o que houve de melhor de Criminal Minds em nossas vidas e, principalmente quem veio de melhor para nós por causa dela! Os amigos!


Beijos especiais cheios de carinho à equipe da página CriminalMindsBrasil e ao pessoal do podcast! Vocês sabem quem são!!!


E Beijos para quem ainda lê o que eu ainda escrevo! Vocês são demais!!!


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

A Empatia Que Eu Achava Que Você Tinha… (pode ser também: que merda, você me decepcionou,mas, deixa pra lá….)



Não entendo como alguém pode passar por outra pessoa que lhe diz que está com fome e ignorar um pedido de ajuda. Não dou dinheiro a pedintes, mas não consigo negar um pedaço de pão. É comum em minha vida negar esmolas, mas acabar alimentando alguém. Não se deveria ignorar a fome.

Foi com este mote que iniciei-me em inúmeras discussões com amigos, na verdade, pessoas que eu achava conhecer muito bem, mas que ao final da discussão descobri serem pessoas que eu jamais deveria ter conhecido.

Parece radical julgar pessoas pelo tipo de esmola que dão ( ou não), afinal não sou nenhum tipo de entidade superior para sair julgando pessoas. Mas, existe algo que me irrita profundamente: a certeza de estar sempre certo. Há muito tempo me reconheci um ser em constante estado de evolução. Aprender com o próximo, sair da bolha, conhecer além daquilo que se vive. Todas estas coisas fazem de você um ser mais aberto para reconhecer vivências que não são as suas, mas que poderiam ser. Aprendi a respeitar aquilo que não posso controlar. Como as marés no oceano ou furacões ou quaisquer outros fenômenos naturais. Quem disse que não posso acabar passando fome nas ruas? Que não posso acabar sem ter onde morar?

É só refletir por alguns minutos e imaginar meu apartamento indo por terra por um fenômeno natural qualquer. É só pensar que tudo o que tenho hoje é efêmero, e que por qualquer capricho tudo poderia ser consumido por chamas, por movimentos de placas tectônicas ou qualquer coisa assim.

Minha geração fixou como meta ter um carro. Um domicílio. Uma casa confortável, um lugar para chamar de seu, cheio de coisas legais, TV, som, uma churrasqueira maneira. Pois bem, foi o que conquistei na vida. Uma residência, própria, confortável, adequada a quem quer ter segurança para o resto de suas vidas. Mas, o conceito de segurança mudou nos últimos anos. Para além de ter criado um filho com as melhores possibilidades, minha geração não se preocupou muito com o que seria o amanhã. Uma boa casa, um carro, um filho com o melhor que a educação pode proporcionar. E só. E a aposentadoria. Sim, a famigerada aposentadoria. Aquela remuneração que nos traria alguma segurança quando não pudéssemos mais trabalhar.

Então, vou contar para vocês... a aposentadoria não dá para nada.. nem pensem em contar com ela no final de suas vidas… A idade traz a necessidade de medicações que não ficam mais baratas enquanto você envelhece. Se os ossos estão com pouca vitamina D ou você não toma sol suficiente, problema seu. Se a vista já não enxerga como deveria, o governo não tem nada a ver com isto, e por aí vai. E, agradeça se no percurso você não tiver um câncer ou outra doença que demande muito de outros além de sua boa vontade.

Parece um retrato cruel e é. De alguém que trabalhou a vida inteira, que se dedicou, que se doou, e ao final precisará escolher entre ir no final do mês ao aniversário da amiga no Outback ou comprar aquele remédio que dizem ser fundamental para quem tem osteoporose. Parece coisa escrita por alguém querendo fazer graça, mas não é. É bem deste tipo. Nem todo mundo conseguiu guardar algum dinheiro enquanto estava sobrevivendo.

E então, sou julgada por alimentar com um pão com manteiga aquele que diz ter fome. Me chamam de tola, cega, idiota e comunista. Só peço que não me falte quem me dê um pão se um dia as coisas mudarem….. Minha geração parece não compreender a necessidade das gerações atuais e não compreende mesmo. Porque eu ainda olho para os lados. Ainda me comove cruzar com uma criança na rua pedindo por comida. Lembro do que abrimos mão para meu filho não estar na mesma situação. E agradeço por ter sido privilegiada ao ponto de podermos ter dado a ele além de alimento, educação, cultura e aportes para que ele se tornasse o adulto que se tornou.

É triste descobrir que você passou a vida lutando por justiça social e encontrou-se com pessoas queridas te chamando de comunista ( sem nem ao certo saber o que isto significa). Humberto Eco disse que a internet deu voz a uma legião de imbecis, que antes apenas bebiam uma taça de vinho e esbravejavam sem ter grande valia sentados em bancos de bar. Hoje, pessoas que acham que te conhecem te massacram porque você supostamente não corresponde a aquilo que deveria ser a expectativa delas.

É um retrato cruel? Claro que é. Daqueles que pouca gente tem coragem de assumir. A vida não é vista aqui pelos filtros coloridos que o Instagram oferece. No dia a dia não dá para disfarçar sua falta de vontade de ajudar o próximo, sua preocupação maior consigo do que com aquele que vai dormir em sua calçada. A vida não é um uma rede social, com certeza não é. Não dá para fazer média com ela e sair bonito na foto, se não puder colocar a cabeça no travesseiro certo de que fez a sua parte. Você, e só você vai ter que optar. Não importa qual sua opção, mas vai ter que dormir com ela em sua consciência.

Pessoalmente eu prefiro dormir bem. Achar que fiz alguma coisa, por menor que seja. Nenhum gesto meu vai resolver os problemas do mundo, mas qualquer coisa que eu faça sem vaidade, para ajudar alguém, acho que está valendo. Vou alimentar alguém que me peça um pão, comprar presentes para o Natal de uma criança que mandou cartinha para papai noel dos correios, achar emprego para um ex funcionário do edifício onde moro, doar roupas que não uso para alguém que precisa, direcionar o óleo usado para uma comunidade que faz disto sabão e vive disto para sustentar suas famílias. É uma gota no oceano. Mas, imagine se cada um em sua casa fizesse só metade do que eu me proponho….

Ah, e se quiser me chamar de comunista por causa disto, dane-se! Não sou eu quem vai perder tempo ensinando história para você. Nem vou te dizer que acredito na lei do retorno, porque você não vale isto. Sei que, sorreteiro, você vai ler o que eu escrevi aqui e pensar que eu sou uma grande decepção. Problema é seu. Já passei da idade de querer agradar a todos. Se agradar a mim mesma antes de dormir, já me dou por satisfeita.

O mundo não foi feito para a gente agradar ninguém, a menos que você possa dormir com um sorriso nos lábios……...e hoje vou dormir gargalhando…..











quinta-feira, 14 de março de 2019

Quando Nosso País Vai Parar De Produzir Vítimas Que Morrem E Que Matam?





Em primeiro lugar, se você é aquele sujeito que acha que se professores e funcionários estivessem armados dentro da escola o número de vítimas seria menor, faça um favor a nós dois e encerre sua leitura por aqui. O que eu penso não é para você.


Cada novo caso registrado de mortes por atiradores solitários, cujo objetivo é apenas o maior número de danos possíveis, mais claro me parece que vivemos uma epidemia local, quiçá mundial, de maus tratos aos ser humano. Salvo se, em algum momento, algum médico da área de medicina psiquiátrica possa afirmar categoricamente a existência de algum transtorno mental claramente definido, o que presenciamos hoje novamente não se trata de mocinhos e bandidos. Se trata de educação ( ou a falta dela), de inclusão, de compreensão, da presença efetiva de famílias, que hoje não podem contar com os serviços básicos que o estado deveria oferecer: empregos fixos, creches, salários dignos, saneamento básico, informação e, acima de tudo, assistência social.


É fácil cair na tentação de culpar jogos de videgame como fez esta tarde o Vice Presidente Mourão e alguns comentaristas no Estúdio I na Globo. Mourão chegou a afirmar que brincava saudavelmente na rua, de bola, de queimada, ou algo assim. Pois é, também estou perto dos 60 anos e lembro-me bem de brincar, além de bola ou do pega-pega, de mocinho e bandido. Também haviam as arminhas de brinquedo e eu vivia matando alguém ( nem lembro mais quem eram os bandidos da época, mas lembro que matei um bocado de gente…..). Para melhorar, meu avô me deu em certa época uma espingarda de chumbinho, que hoje seria considerado um brinquedo pra lá de politicamente incorreto. Nem por isto, saí matando ninguém por aí quando cresci, tampouco meu filho seguiu pelos caminhos do crime por ceifar várias cabeças em Residente Evil, Assassins Creeds e diversos outros jogos. Pelo contrário. Hoje ele dá aulas de Programação e Análise de Sistemas em ensino médio e superior como concursado de uma Escola Técnica.


Os jogos, como qualquer outra atividade cumprem um papel catártico, pedagógico e de criatividade que, se usados na medida certa, podem ser de grande valia na educação infanto juvenil e não sou eu que digo isto, são inúmeras pesquisas, nacionais e internacionais.


No entanto, outro fantasma nos assombra. O fantasma da intolerância, da impaciência, da incapacidade de ouvir o outro e por ele sentir empatia. O fantasma de um estado que não sabe ainda como lidar com os casos de bulling, que não sabe como orientar pais a respeito do assunto, que tem pouco tempo, dinheiro e recurso humano capacitado para lidar com isto. Junte-se à isso uma permissividade para ser incorreto, vindo à cabo de um entendimento errôneo de que não haverá mais punição para nada, a ideia de que tudo se resolve armado hoje em dia, de que a vida humana não vale mais que um chocolate e chegamos a um maléfico coquetel para o extermínio, em escolas, igrejas, parques, ou em um simples assalto.


O que ouve hoje foi muito, muito triste. Inominável. Adultos e crianças tiveram suas vidas interrompidas sem motivo algum. Mas, com o intuito de se evitar novos casos, cabe à sociedade entender o que levou dois jovens a cometerem tal chacina. Porque eles não levantaram de manhã, felizes da vida, cheios de alegria e amor pela escola, família e amigos e apenas decidiram sair matando só porque não tinham nada melhor para fazer . Há toda uma construção por trás destas decisões. E é isso que cabe agora ser esclarecido.


Para além destes esclarecimentos, deixo aqui minhas impressões sobre o assunto. Bulling é coisa a ser levada muito a sério. Se isto tivesse sido discutido na minha geração quando jovem, não teríamos hoje tantos filhos desajustados, isto é fato pesquisado. Já passou da hora de mudarmos o nome de “politicamente correto” para apenas “correto”. Minha geração já viveu o suficiente para saber a diferença entre o mimimi e a falta de responsabilidade social. O mundo inteiro mudou, uma população vota pelo Brexit, outra se manifesta contra a construção de um muro que separe um país de seus imigrantes. As Coreias voltaram a se falar. Então você, amiguinho, não vai morrer se tiver que morder a língua para não fazer aquela piada de mau gosto sobre homossexuais no encontro de funcionários da empresa ou tiver que parabenizar a mulher que ocupa agora um cargo maior que o seu na sua empresa. São estes novos ventos que temos que ensinar em nossas casas. Para os nossos filhos. Ensinar que o mundo mudou. Que 2 mais 2 nem sempre será 4 e que família pode ter mãe, irmão e 2 cachorros que será o mesmo que 2 pais e um filho, desde que haja amor, carinho e responsabilidade.


Não sei exatamente se foi todo este ódio de quem nunca se reconheceu que levou a matar 8 pessoas, mais suas próprias vidas, hoje na escola em Suzano. Mas, senão foi ( e ainda acho que foi), que fique a dica. Vamos ensinar nossos filhos, netos, sobrinhos, filhos de amigos, amigos, vamos aprender, enfim, a amar. Vamos para com esta idiotice de fla-flu odioso que se instalou neste país, e que serve de desculpa para que passemos alfinetando uns aos outros o tempo todo.


Não estou dizendo que não devemos ter posições políticas. As minhas são bem claras e eu nunca as abandonarei. Apenas não perco meu tempo caçoando e diminuindo quem não votou como eu. Ignoro, nem respondo. Quando eu tiver que protestar, estarei na rua, bandeira em punho, defendendo minha causa, justificando minha luta. Mas, não vou perder meu rico e precioso tempo discutindo, ofendendo, depreciando quem não quer enxergar o óbvio. Este desgaste não é meu. Assim como ensinei meu filho a ignorar os comentários maliciosos, o bulling maldoso e desnecessário, que hoje recebe como resposta o fato dele ter se tornado alguém na vida, enquanto alguns dos que o maltratavam sequer conseguiram uma carreira…. Ok, isto deve soar muito errado, vocês vão dizer, mas devia ter chiado, reclamado…


Então, foi chiado, reclamado, eu era aquela mãe que vivia na secretaria, registrando queixas. Mas, aí você descobre que não é do interesse da escola levar esta discussão à frente. Então, você passa a ensinar a seu filho sobrevivência. Acho isto muito parecido com os dias de hoje. Suas pautas não parecem ser respeitadas, ai você ensina seu filho a cortar os pulsos ou a sobreviver isto? A sobreviver, sempre a sobreviver!!!!


Não acho que o mundo tenha mudado tanto. Acho apenas que esta geração não aprendeu a se defender dos insultos, das diferenças, das exclusividades, como as gerações passadas. Alguns, no entanto, tempos atrás tiveram a exclusividade de ter pais com algum conhecimento, o que os ajudou a sofrer um tanto menos. Outros, sem qualquer apoio, saem matando a esmo, como se estivessem brincando com a espingardadinha de chumbinho de meu avô, como se tivessem aprendido que morrer lutando seria heroico, porque ouviram dizer que isso era bonito ou a única solução. Ou, apenas porque tiveram medo do que viria pela frente com uma prisão…..


Uma coisa é muito certa. Precisamos unificar nossos discursos. Sendo de esquerda ou de direita, contra ou a favor de certas liberdades civis, precisamos aprender a lutar pelas nossas opiniões. E respeitar a opinião do próximo. Apenas assim chegaremos a um patamar civilizado, onde haverá espaço para discussões, sem ofensas, sem ameaças, sem medo. Enquanto permanecer no país o clima de fla-flu, de “nós odiamos vocês”, de “vocês não de direito de fala”, nada irá mudar. Nesta escola, na escola vizinha, na reunião do condomínio, no almoço entre amigos, no café da tarde entre familiares, na cama entre marido e mulher….


Por Deus, abandonem estas armas! Desarmem-se dos punhais, dos 38, dos fuzis, das facas e das ofensas. Desarmem-se daquilo que mata o próximo, mas não te traz vitória alguma. Que as mortes nesta escola de Suzano nos façam lembrar que a morte é definitiva, cruel, irreversível. Que tirar outra vida é algo que não nos cabe e que cabe à Segurança Pública garantir nosso bem estar e não a nós decidirmos quem vive e quem morre. Armar a população é delegar a ela um serviço pelo qual efetivo do Estado já é remunerado para fazer. Não cabe à população sair atirando em nome da defesa própria!


Que os falecidos de hoje sejam sempre lembrados por terem sido mortos pelas mãos de quem possuía armas de forma ilegal e irresponsável. E que suas mortes não tenham sido em vão!!!


Chega de violência!!! Pelo fim das armas no país!!!!



sábado, 2 de março de 2019

Sobre O Hino E A Moralidade





Estou aqui me lembrando da minha época de escola primária e ginasial, em que a gente fazia fila para cantar o Hino Nacional no pátio da escola, deixando um braço de distância do companheiro da frente. Vou dizer o que ninguém ousa dizer: como a maioria das coisas que fazíamos por lá, nem sabíamos porque fazíamos. Fazíamos porque a professora mandava, a diretora mandava, o bedel mandava, a mãe e o pai mandava a gente obedecer, o amiguinho cutucava a gente e dizia que tinha alguém olhando e nós iríamos parar na sala da diretora senão fizéssemos e era isso.


Ninguém nunca me ensinou que a gente tinha que cantar um hino porque tinha orgulho ( no mais amplo sentido da palavra) do nosso país. Ninguém nunca me ensinou o que era era orgulho do nosso país. Nas aulas de Educação, Moral e Cívica, que no antigo ginásio viraram OSPB ( Organização Social Política Brasileira) a gente decorava tudo. Os cargos dos 3 poderes, os nomes dos ministros, o que significava as cores da bandeira, o hino do…. “cisne branco em noite de lua...”. Mas, não se despertava o patriotismo pela admiração, mas pela obrigação de decorar para não perder a nota e, na pior das hipóteses, repetir de ano.


Crescer, entrar para uma faculdade, amadurecer, envelhecer. Foi o tempo que me ensinou porque se admira uma bandeira. Um hino. Um país. Sim, nossa bandeira é muito bonita e nosso hino um dos mais bonitos que já conheci. Mas, achá-lo lindo e ter orgulho de nosso país são coisas diferentes, muito diferentes. Nosso país tem alguns dos lugares mais maravilhosos do mundo, uma terra fértil, rios abundantes, um por do sol de cair o queixo onde moro. Mas, não tem um povo do qual me orgulho de olhos fechados. Muitas pessoas que habitam esta terra merecem meu respeito. Pessoas que enfrentam adversidades, que se superam mesmo diante do imponderável, pessoas que dedicam suas vidas para melhorar a vida de outras pessoas, que botam a cara a tapa para defender outras que nem conhecem. Mas, é pouco diante de um país desta dimensão.


Empatia é um vocábulo que deveria a ser estudado a fundo no currículo do ensino fundamental. Não vejo fundamento ensinar a ter compaixão por tartarugas marinhas ( sim, elas são importantes, não tenho NADA contra a espécie, é só um exemplo, pelo amor de Deus!!!!!) e não ter compaixão pelo próximo. Não vejo porque ensinar que os pandas ou as araras azuis não podem ser extintos, mas não enfatizar que é um crime crianças e adultos terem que catar suas refeições nas latas de lixo mais próximas ( sem fazer sujeira, caso contrário nem os lixeiros podem limpar o estrago).


Por favor, se você pensou em meritocracia, pare de ler meu texto por aqui. Você só vai perder seu tempo. Há méritos para quem os merece? Claro! Meu filho é exemplo disto. Dedicação, trabalho, esforço. Mas, para falar em uma linguagem popular, você sabe quantos dedicados existem para cada Neymar? Para cada Marta? Pois é. É muito pouco. Inúmeros vão ficando pelo caminho porque têm fome, porque têm que sustentar família, porque ou trabalham ou estudam, porque pegam leptospirose ou febre amarela por falta de saneamento básico. Só para ficar nos exemplos mais comuns. E se você vai começar a desfiar o rosário dizendo que o PT não fez isto ou aquilo também pare de ler. Há quinhentos e tantos anos ninguém faz nada pelo país. O PT não inaugurou a corrupção. Ele só escancarou.


Para além das dificuldades financeiras existe hoje um outro problema. Como me orgulhar de um país que tem um povo que deseja a morte de um presidente ( mesmo que ele não me represente – e não representa) ou comemore a morte de uma criança de sete anos, porque ela é neta de um sujeito que supostamente é responsável por todas as desgraças do país? Como acreditar que nosso hino representa um país onde as pessoas parecem odiar umas às outras, onde o que pessoas fazem na cama passou a importar mais que o caráter, onde a cor determina a índole antes do crime, onde o julgamento é fácil, porque é feito à distância de um toque no teclado?


Pois é, está difícil ter orgulho de cantar nosso hino! Não pela letra, nem pela melodia, mas porque talvez este país não o mereça. Podem mil ministros obrigar-nos a cantar todos os seus versos, estrofe por estrofe, mas talvez, antes disto precisemos lavar a boca com sabão, como dizia minha avó em sua sabedoria, antes de merecê-lo. Precisamos voltar a ser humanos antes de postarmos que cantávamos o hino na escola. Claro, todos cantávamos como disse antes, sem nem saber porquê. Isto não é patriotismo. É decoreba. Pura e simples. Há de se amar o país antes de se exaltá-lo. Há de se amar o próximo antes de se amar o país. Há de se amar a si mesmo antes de amar ao próximo. Há de se entender que sem a caridade, a compaixão, a humanidade não há existência que valha a pena. Há de se entender porque estamos aqui antes de tudo. Ou não fará a menor diferença cantar o Hino Nacional ou a dança da garrafa ou a dança da cordinha. Serão só palavras. Sem significado real. Sem fundamento. Sem razão de ser. Apenas palavras repetidas por pessoas que não sabem bem o que significam. Como há cinquenta anos atrás………..

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Meu Filho: Boa Sorte E Obrigada Por Ser Você!

(Nossa última foto antes da sua viagem!)

No carnaval de 1989, quando você tinha pouco mais de um mês, eu te levei para a praia, quando a maioria das mães nesta situação ainda mantinham seus bebês enrolados em cueiros e fechados dentro de casa. Seus avós e tios tinham vindo passar o feriado em casa e eu recebi 6 pessoas dentro do nosso apartamento. Você passou de mão em mão, mamou no peito na beira do mar, não teve muito sossego e eu não me importei. Eu nunca fui uma mãe convencional e apesar de te amar incondicionalmente, nunca fui adepta a poupar, mimar, enfeitar, controlar ou cobrar demais (seu quarto é testemunha!). O pediatra falou que você só poderia tomar leite de cabra. Eu imaginei como seria triste sua vida sem bolos de chocolate e desobedeci o médico. O ortopedista disse que você teria que usar bota ortopédica e eu pensei em como seria passar o dia inteiro de bota em verões de 37 graus. Você foi criado descalço ou no máximo de chinelinho, pé na areia, pé na grama, pé no piso de casa.  Depois você foi crescendo e a gente foi te ensinando tanto que o dinheiro era difícil de ganhar que eu brincava dizendo que meu filho era o cara que atravessava a piscina com um Sonrisal intacto na mão fechada..  A cada decisão o pavor de estar errando, mas sempre imaginando que na vida a gente tem que ser como bambu: enverga às vezes até o chão, mas não quebra.


Passaram-se 30 anos daquele carnaval até este, que você vai encarar sozinho em Paragominas. Você passou por muita coisa e a vida até que foi generosa. Você comeu inúmeros brigadeiros sem ter tido grandes problemas até o organismo aceitar e você parar de ter refluxo e adora usar chinelos até hoje. Tem uma saúde de ferro, uma inteligência que eu admiro, excelente bom senso e uma determinação inigualável. Ah, tem também uma graduação em Ciência da Computação, uma Pós, um Mestrado, artigos, uma patente de softwere sendo aprovada, um projeto para jogo educacional com uma outra grande profissional em andamento, com financiamento federal, outro de livro com mais 2 profissionais… sei lá mais o quê.. às vezes fica difícil te acompanhar, ehehe…


Você sempre amou aprender. E ensinar. A mim, ao seu pai, à sua avó. Eu lembro quando você vinha do seu primeiro estágio e me contava como era ensinar adultos a usarem o computador lá no Sindalimentação de Vila Velha e como era interessante vê-los aprender. Depois foi dar aulas em Nazaré e você continuava entusiasmado. Não que você não tenha trabalhado em empresas na sua área e até foi feliz nelas, mas foi quando passou para ser professor substituto no IFES de Santa Teresa que vi seus olhos brilharem de verdade. Apesar de todas as adversidades do local, morar num lugar pouco adequado, abrir mão de tantas coisas, ficar longe da noiva, da família, do conforto, você tornou-se querido e respeitado pelos professores e pelos alunos, que mesmo sabendo que não havia a possibilidade de abrirem uma vaga efetiva, usavam a hastag #FicaBruno e te fizeram uma despedida emocionante.


E quando você no IFES aprendeu e realizou tantas coisas, quando seu contrato estava chegando ao fim, você já sabia o que queria: ser um professor efetivo de um Instituto Federal. Como para você nada foi fácil, mesmo trabalhando e sem tempo para se preparar, você encarou como possibilidade concorrer a uma vaga no interior do Pará. Eram 409 candidatos para uma, depois duas vagas, nenhum tempo para aprender com calma sobre legislação ou sobre matérias que você não tinha familiaridade. Entre dar e corrigir provas de alunos você passou a noite no aeroporto estudando para ir direto para fazer a sua prova. Depois passou para a segunda fase e deu a melhor aula da sua vida! Entre 409 candidatos, você ficou em segundo lugar! E, de novo, vai para longe, agora sem as fugidas de final de semana para vir para casa, sem ver sua noiva e seus pais, seus cães, a gata e os bons amigos por algum tempo. Vai de novo sem saber ao certo onde vai morar, como vai ser, mas vai feliz, com um enorme sorriso no rosto e sua frase preferida na cabeça: “quero deixar um legado, fazer mais, fazer a diferença!”.


Filho, as coisas não vão ser fáceis por um tempo, mas, como eu disse e repito, a gente é como bambu: enverga, mas não quebra. Tenho certeza que nesta sua nova fase todas as adversidades serão superadas como tudo o que você já superou em sua vida: com determinação, trabalho, respeito e acima de tudo o amor que temos por você e a certeza de que você pode contar conosco sempre, para qualquer coisa.


Sobre o que estou sentindo agora? Um orgulho que esgarça a pele e não cabe dentro de mim. Como diz a vovó, quando começa a falar de você: “abram as janelas porque vou falar do meu neto e o orgulho vai ter que sair por algum lugar”, kkkk. Orgulho do homem e do profissional que você se tornou, de saber que sua busca é além do emprego, é pelo trabalho, pela vontade de deixar sua marca nesta vida para ajudar, através do seu conhecimento, outras pessoas. Com certeza vou sentir falta de nossas longas conversas com um copo de cerveja ou suco na mão, que começavam com uma piada sobre Thanos ou Star Wars, passavam por The Good Place, Nietzsche, Isaac Asimov, I.A, jogos de computador e invariavelmente terminavam, já de madrugada, em política ou em como o ser humano faz coisas inacreditáveis, para o bem e para o mal. Mas, nunca tentamos falar de tudo isto pelo Skype, quem sabe dá certo, de vez em quando para matar a saudade?


Vai na fé, filho, seja feliz e faça o que você sabe como ninguém: ser o melhor no que faz! Eu e teu pai estaremos sempre com você! Cheios de orgulho! Cheios de amor! E ao seu lado! Boa sorte na nova carreira! Te amo! 

sábado, 20 de outubro de 2018

Pobre Do Meu País, O Que fizeram de Ti Brasil?


Calada, mas inconformada, assisto há tempos ao descalabro que assombra o país em todos os sentidos, financeiro, moral, social, sem me animar em me manifestar nas redes. Muitos que bem me conhecem têm me cobrado uma posição, mas sinceramente ando cansada. Cansada do que as pessoas que se dizem brasileiras se tornaram. Me lembram personagens de Saramago em Ensaio Sobre A Cegueira. Enxergam, mas não querem ver. Ou simplesmente não se importam.

Estou cansada deste ódio virtual e virulento praticado por gente de bem e cheio de Deus no coração que se informa por whatsapp, que acha que notícia é a mesma coisa que editorial ou opinião e que sua necessidade é sempre maior que a do vizinho. Ando cheia de gente que de repente virou especialista em tudo sem nunca ter lido livros de verdade e que compartilha frases que Clarisse Lispector coraria ao saber que lhe foram atribuídas.

Hoje temos muitos sábios de sofá e poucos caminhantes de mocassins, cuja sabedoria indígena já dizia ser impossível julgar a caminhada sem calçá-los. Pessoas que, no conforto da sua poltrona, detonam dezenas de anos de estudos e experiências comprovadas por mestres e doutores ou fatos irrefutáveis de quem sente na pele a fome, a sede, o frio ou a indiferença.

Tanto faz. O radicalismo vem dos dois lados. Mas, é ainda pior vindo de quem ainda tem o que comer, o que vestir, como viver. Também ando brava com a queda do meu poder aquisitivo. Também ando frustrada por não poder mais comer pizza todo sábado à noite ou sair com amigos sem  primeiro saber se posso bancar o local do encontro.  Claro, sou igualzinha a toda a classe média( o que é média, cara pálida?). Quero poder a vida toda encher o tanque do carro sem me preocupar demais com o valor, comprar um presente legal para a amiga do coração, fazer uma viagem sem preocupações. 

Quero que a roubalheira acabe e que haja punição aos que roubam. Mas, quero justiça. Não quero vingança. Não estou atrás de um culpado para enforcar porque não poderei comer em um bom restaurante neste final de semana. Quero que a constituição seja respeitada e assim a lei, porque meu filho não é negro, mas muitas mães têm filhos negros e não as quero rezando para que seus filhos não sejam confundidos com bandidos por causa de sua cor e do preconceito  Hoje rezo para que meu filho não seja assaltado e ferido, mas sei que ele não será confundido com um negro e que um bandido pode feri-lo, mas que a polícia não irá confundi-lo e espancá-lo por engano.

Sempre penso nas mães. A mãe do negro, a mãe do índio, a mãe do gay, a mãe do faminto, a mãe que apanha, aquela que não quis ser mãe, a que não pode ser mãe. Ser mãe já dói tanto quando você pode dar o mínimo ao seu filho. Penso na mãe que não pode dar segurança, alimento, penso na mãe que dorme a noite achando que seu filho pode apanhar, pode chorar, pode morrer. Todos podem morrer. Mas, mães não deviam se preocupar também com isto. Não porque seus filhos estão com fome, frio, porque estão sem emprego, porque são negros, índios, gays, porque votam neste ou naquele candidato. Mães já têm coisas demais com que se preocupar.

Não fizemos absolutamente nada por anos a fio enquanto sangravam a pátria com desvios, fraudes e descalabros ( ou você é daqueles que acham que a desonestidade só passou a existir quando o PT assumiu o poder? - ou se decepcionou porque votava no PT e achava que eles não iriam ceder jamais à tentação, ingênuos...), assistimos ( se você tem a minha idade) aos desmandos da ditadura, a era Collor, a compra de votos da era Fernando Henrique ( entre tantos outros escândalos abafados do PSDB e vários outros partidos) e depois de tantos anos vale a pena destilar veneno pelo canto da boca contra quem pensa diferente de você porque agora existe internet e o grupo da família mostrou um vídeo que te deixou indignado? Vale a pena dar voz a um grupo que apoia quem acha que pode sair descontando sua raiva pessoal e suas frustrações em minorias? Que pode cravar suástica na pele de feminista, pode dar porrada em gay, pode escolher qual religião é mais relevante, pode decidir se a mulher estuprada pelo ex companheiro deve ou não carregar um bebê por nove meses no seu útero?

Vou te dizer o que é ser patriota, amigo. Ou melhor, vou te dizer o que é ser humano. Porque ser patriota é uma idiotice. Eu amo meu país e jamais sairia daqui porque imbecis o habitam. A geografia não tem culpa. A hidrografia também não. Tampouco o idioma. Ou a bandeira, ou o hino. Ser humano é pensar no amiguinho do lado. Mesmo que ele não esteja tão do lado assim. Talvez você more em uma zona mais confortável como eu, mas ainda se preocupe com aquele que tem fome, ou dor, ou não tenha onde morar. Não precisa ser comunista e dar sua casa ou deixar de ter um celular para desejar que o coleguinha não sofra e talvez você até consiga fazer alguma caridade, algo ao seu alcance, ajudar uma ONG, levar roupas usadas a um asilo, fazer roupas para crianças de rua... Não precisa ser comunista para desejar um pouquinho de paridade social. Um pouquinho menos de fome. Um pouquinho menos de frio. Um pouquinho mais de paz.

No fundo acho que todos desejamos justiça. Todos desejamos que haja menos corrupção. Todos desejamos que o dinheiro vá para onde realmente precisa ir. Mas, nem todos querem vingança. Nem todos estão p da vida porque perderam seu poder aquisitivo, nem todos querem ver sangue. Muitos querem apenas que o país ande, encontre seu rumo e cresça. Acredito que tem muita gente que não gostaria, como eu, de estar votando em A ou B neste segundo turno. Que apenas querem ver parar a sangria, a violência, a falta de oportunidade, a fome, a escuridão. Querem apenas que pessoas parem de falar em meritocracia em um país como o nosso, que boa vontade nem sempre supera uma escola paga de período integral, que é difícil agarrar oportunidades com fome ou dormindo em um quarto com goteiras. Não é vitimismo. É bom senso.

Então não meu importa seu voto. Nós já perdemos. Perdemos quando descobrimos que alguém acreditou nas mamadeiras com bicos em forma de pênis ou que gays passaram a andar ainda com mais medo nas ruas. Perdemos quando queimaram a história e disseram que Hittler era comunista, quando disseram que não temos uma divida histórica com negros, perdemos quando a imprensa passou a valer o mesmo que uma mensagem de whatsapp de um grupo  qualquer. Perdemos. Mesmo se ganharmos, perdemos. Perdemos o respeito pelo próximo, pela opinião alheia, pela liberdade de discordarmos. Todos perdemos.

Pensando bem, nem todos. Irão ganhar aqueles cujo apego ao vil metal impera. Irão vencer os de sempre. Os que sempre vencem. Aqueles que estão do lado forte da corda, os que vendem a mãe, os que se importam mais com a cotação da bolsa do que com um poema ou o beijo do filho no final da noite. Aqueles que pouco se importam com quantos irão morrer com balas zunindo pela noite, pois estarão no conforto de seus palacetes, onde sempre estiveram. Impassíveis. Acreditando-se impolutos. Dando entrevistas cheias de justificativas para cada fato negativo, como sempre fazem, como sempre fizeram.

E então, aqueles que os puseram no poder terão que se decidir: ou se afogam em amargura e direcionam seu ódio a outro alvo ou percebem que o inimigo é outro. Não é quem tem fome, não é o índio que estava aqui há quinhentos anos, não é o nordestino cuja terra os governantes parecem fazer questão de esquecer. Não é a mulher pobre que aborta porque não pode sustentar o filho que o ex companheiro fez e abandonou ( porque a mulher rica a gente sabe que aborta em lugar seguro amigo, você aprovando ou não), não é o imigrante que vem de um país que você odeia tirar o seu emprego ( porque quando você tira o emprego de alguém nos EUA, você nem liga). O inimigo é aquele que não se importa com mais nada. Somente com ele próprio.