terça-feira, 14 de maio de 2013

Criminal Minds - 8x21 - Nanny Dearest - Meus Comentários



Esta semana tivemos outro bom episódio de Criminal Minds. Longe de ser espetacular como Carbon Copy, Restoration e Alchemy, foi um episódio para aquecer os motores para a SF. Girando em torno de babás e crianças sequestradas, o episódio foi feito para a JJ brilhar e não poderia ser diferente, já que ela é a única mãe do grupo e o vínculo afetivo emocional do caso acaba se manifestando através dela.  Já o caso propriamente dito inova em dois aspectos: o time sai em busca de resolver um caso recorrente em aberto há anos e eles têm uma vítima que sobreviveu, que será vital para a resolução do caso.

Promo Oficial



Anualmente, nos últimos cinco anos, uma babá é sequestrada junto com a criança que ela cuida, sempre na mesma data. A criança aparece vinte e quatro horas depois viva, em algum hospital ou igreja, já a babá sofre torturas e é encontrada morta alguns dias depois do rapto. Com conhecimento desta dinâmica, o grupo viaja para Los Angeles ( local dos raptos) alguns dias antes desta data , a fim de tentar descobrir algo que evite o próximo passo do assassino.

O episódio revela-se extremamente emocional em seu decorrer com a entrevista dos pais da criança sequestrada ( onde Hotch descobre que a menina sofre de uma caso grave de asma e precisa ser medicada) e a tentativa de obter novas informações da única vítima que escapou com vida. Episódios que lidam com crianças e mães normalmente seguem este caminho. 


Enquanto os demais agentes tentam informações diversas, JJ e Morgan seguem para Seattle para tentar convencer a sobrevivente a ajudar nas investigações. Ela recusa-se a voltar ao pesadelo de reviver o passado, mas autoriza os agentes a conversarem com seu psiquiatra para saber mais sobre ela. Dele, JJ e Morgan ouvem que ela é uma pessoa totalmente traumatizada, que apenas depois de passados dois anos é que começa apresentar sinais de melhora e, que ele não aconselha-os a insistirem com ela, sob o risco de regredir em seu tratamento.


Neste meio tempo, vemos o unsub maltratar a babá e a mesma implorar para que seu algoz permita que a criança faça uso da medicação. Intercaladas a essas imagens, vemos flashbacks do passado do unsub, de forma a entendermos que a babá o maltratava. Neste ponto a fotografia e a iluminação ganham destaque, em uma mescla de imagens esfumaçadas, ora pelo cigarro da suposta antiga babá, ora pela fumaça vinda da água quente depositada em uma banheira, que na frente, descobriremos ser o motivo principal do seu ódio pelas babás.


Passam-se as vinte e quatro horas e a criança não é encontrada em nenhum lugar como nos outros casos e sem quaisquer outras pistas, eles resolvem fazer uma coletiva pedindo ajuda ao público. Neste ponto eu faço uma observação pessoal. Não gostei do fato de fazerem a coletiva em grupo na porta da delegacia. Coletivas são dadas por um membro da equipe, não por um grupo de pessoas. Eu entendo que para passar o perfil nas delegacias para os policiais todos eles podem dar alguma informação, pois isto acontece de forma mais casual ( e, normalmente, por motivos práticos, já que cada ator ou atriz tem que ter sua fatia no bolo na participação do episódio), mas na coletiva isto não me pareceu ser coerente. A meu ver um deles ( poderia ser o próprio Hotch ) deveria ser o porta voz e depois chamar os pais da criança para fazerem um apelo.


A coletiva e o apelo dos pais da criança sensibilizam a vítima sobrevivente a ponto de ela resolver tentar superar seus traumas e ajudar os agentes na resolução do caso. Eles optam por um método de entrevista cognitiva que inclui a utilização de luzes em sequência para tentar “acordar” as memórias antigas, fazendo com que o processo desencadeie várias informações das quais ela sequer se lembrava ter presenciado.


Com as informações da vítima, um retrato falado, um perfil geográfico – cortesia do Reid -  e a ajuda da Garcia ( ainda bem que apelaram para clientes em veterinárias e não para pessoas que cadastram licenças para ter cães – algumas informações são por demais inverossímeis) eles chegam ao endereço do unsub e é justamente JJ quem o atinge fatalmente, não sem antes descobrirmos que o mesmo culpava sua antiga babá pela morte de sua irmã, afogada acidentalmente na banheira aos dois anos, quando ele tinha apenas sete anos de idade. Em seus delírios ele buscava substituir a irmã perdida pela criança raptada, já que esta, como sua irmã, também sofria de asma e, de quebra, vingar-se da responsável pela morte da menina.




Mais do que o exercício do perfil, o episódio explora a dor em todas as suas formas. A dor da mãe, que não entende como o FBI pode estar ajudando em alguma coisa no caso, de dentro da delegacia ( a cena no elevador, além de ter uma tomada inusitada, diferente das convencionais – destaque para os números no visor mostrando a descida do décimo segundo andar para o térreo durante a conversa é apenas um detalhe que pouca gente pode reparar, mas que traz verossimilhança ao momento – mostra um Hotch desconcertado frente ao desespero da mulher ao mesmo tempo que busca o discutível distanciamento necessário para continuar a desenvolver bem seu trabalho), a dor da vítima que sobreviveu ao sequestro, à tortura, mas vive presa aos seus traumas e tem dificuldade para seguir com sua vida – brilhante a cena final onde Tara pede à JJ para ver seu algoz morto, como um encerramento, como se ver fosse necessário para acreditar que poderia seguir em frente. Emocionante também, o abraço em forma de agradecimento da mãe em Tara. Merecida recompensa para quem superou suas dificuldades para ajudar uma pessoa desconhecida. Temos também a dor da babá raptada, que sofre com a agonia da criança pela qual era responsável e por fim, a dor da JJ, que como mulher e mãe, melhor do que ninguém, pode avaliar todas as outras dores ( a cena onde ela diz para Tara que seu filho naquele momento também estava sob os cuidados de uma babá reflete a agonia diária de quem tem filhos – é uma culpa irracional com a qual, até a mulher mais bem resolvida do planeta parece conviver, a de não poder estar à disposição de seus filhos para poder cuidar deles em tempo integral, de preferência até eles fazerem cinquenta ou sessenta anos....).

Enfim, outro episódio muito bom, de qualidade técnica excelente e com ótimas interpretações de atores convidados, em especial a atriz que fez Tara Rios ( Yara Martinez ), que soube passar na medida certa a dor e a superação em nome de um bem maior.


Algumas observações que não posso deixar de fazer:


- Nota dez para a naturalidade da cena entre o casal gay no parque. Bem escrita e bem interpretada. E parabéns pelos agentes não terem esboçado qualquer reação a respeito, ou seja, mostrando que aquilo para eles – como deveria ser para todo mundo – é uma coisa normal.


- Ótima a reação discreta, mas efetiva do Morgan quando a JJ promete à Tara pegar o assassino, não precisou dizer uma palavra, com um olhar Shemar disse tudo.


- Nem preciso dizer que as cenas inicial e final com a JJ, Will e Henry foram curtas, mas excelentes. No início, a diversão e a necessidade de explicar sua ausência por alguns dias para seu filho ( não há mãe que trabalhe fora que já não tenha passado por isso) e ao final, todo o alívio de chegar em casa, depois de um caso como este e encontrar seu filho são e salvo, a segurança de seu lar e os braços do seu marido à sua espera. Muito bom.


- Não pude deixar de rir quando a Garcia diz que ela descobriu uma promoção chegando. Junte-se ao diálogo do episódio passado, onde ela diz que merece um aumento, e mais a situação das atrizes com aumento negado na renovação e eu acabei achando que virou uma piada interna entre eles. Coincidência ou não, a associação foi imediata.


- Bom ver que alguém que só tinha uns minutos para se arrumar para ir trabalhar e estava com o cabelo preso em um coque não chegou ao escritório com uma escova progressiva que levaria uma hora para fazer. O cabelo da JJ me faz sentir um pouco mais normal.


- E para continuar em cabelos, Hotch exibindo alguns poucos primeiros cabelos brancos ( o personagem, o ator os tem faz tempo). Será um sinal que teremos um Hotch grisalho daqui para frente?


Então é isso, daqui para frente esquentando os motores para a reta final. E não posso encerrar sem dizer que não poderia, para nós, fãs da série, haver melhor notícia do que a renovação de Criminal Minds por mais um ano ( talvez dois, já que a maioria dos atores renovaram por mais dois anos). E a certeza de que teremos um episódio “200” pela frente. Bom demais, não é?


Até o próximo episódio!


sábado, 4 de maio de 2013

Criminal Minds - 8x20 - Alchemy - Meus Comentários




Sei que estou me tornando cansativa, mas é inevitável repetir a frase: episódio sensacional!
 

Talvez o grande pecado da série em seu início tenha sido não explorar melhor os dramas vividos pelos seus agentes de forma mais pessoal, coisas que no passado eram apenas levemente mencionadas, como o problema do Reid com drogas, as dificuldades do Hotch em seu casamento, seu luto claramente mal explorado após a perda da ex esposa como consequência de seu trabalho, entre outras várias coisas. Por outro lado, sempre que tentavam explorar melhor um assunto pessoal relacionado à alguém da equipe, o episódio saía perdendo em conteúdo no que dizia respeito ao caso da semana, acabava faltando espaço para informações, as coisas ficavam mal resolvidas ou resolvidas com muita rapidez ( isto, em minha opinião ficou evidente, por exemplo, no episódio Big Sea ( 6x23) onde a resolução do caso disputou espaço com cenas do Morgan e sua tia que buscava a filha desaparecida). São em média quarenta e cinco minutos para serem distribuídos entre as duas coisas. E um dos  lados sempre saía perdendo algo, em detrimento do outro.


O roteiro preciso de Sharon Lee Watson e a direção brilhante de Mattheu Gray Gluber parecem ter resolvido este problema. De forma cirúrgica eles encaixam as duas situações, sem que qualquer delas fique mal explicada, usando uma como pano de fundo para a outra.

Promo Oficial



O tema principal do episódio é a dor do luto ou, melhor dizendo, o luto mal resolvido. Toda perda é dolorosa, mas a forma como lidamos com ela é o que determina como seguiremos em frente.

Reid, em uma evidente busca por encher-se de trabalho para compensar o fato de não saber como lidar com seus sentimentos, encontra elementos suficientes para convencer a equipe de que há um novo serial killer agindo e espalhando corpos em uma reserva indígena. Como não há tempo suficiente para lidar com cenas que virão a seguir tratando do luto de Spencer, de forma inteligente o roteiro opta por substituir as longas cenas em necrotérios com legistas ou cenas de crime, por diálogos rápidos, cheios de informação, onde fica muito claro o método para se traçar um perfil (  esta temporada voltou, depois de muito tempo a valorizar isto, o desenrolar do raciocínio dos agentes havia dado espaço para cenas que apenas mostravam o modus operandi dos unsubs ).




Não demora muito para a equipe notar a ansiedade e o aparente descontrole de Reid e cabe ao Rossi confrontá-lo, como era de se esperar, de forma muito paternal e ajudá-lo a lidar com o luto. É um embate de dois atores dando o seu melhor em um texto inspirado, em uma cena comovente, principalmente para pessoas que já perderam alguém próximo.


Paralelamente, o caso vai tomando forma e descobrimos que a dor é também a motivação maior para uma assassina que, ao final do episódio, descobrimos ser também, de certa forma, vítima de um sociopata, que  claramente a manipulou e fez uso de sua dor para dar vazão aos seus instintos assassinos. A forma como o caso ganha uma reviravolta no final do episódio é muito interessante, pois embora para os mais atentos os sinais estivessem todos lá ( a empregada curiosa, o funcionário ignorando suas perguntas e aconselhando-a a ignorar tudo o que se passava no Chalé, o olho espiando a mulher agindo, entre outras coisas), a motivação para os crimes acaba tomando uma dimensão muito maior do que nós espectadores podíamos imaginar.




Matthew faz uso de cores sóbrias, pouca iluminação e decoração retrô nas cenas com a unsub no Chalé, bem como nas cenas com Reid expressando seus sentimentos, em contraponto ao restante do episódio, o que valoriza amplamente a trama. De todos os episódios que ele dirigiu este é o mais sensível, e o primeiro que fala de seu próprio personagem, acho que deve ter sido muito especial para ele. O diretor também gosta muito de tomadas diferenciadas, ângulos que fujam do lugar comum e sai-se muito bem na tarefa ( a cena da porta na saída do Hotch da delegacia da reserva e a girada incrível de câmera na cena do sonho são bons exemplos disto).


Cabe ao final, alguns comentários especiais:

- Gosto muito quando os roteiristas introduzem no episódio elementos que nos lembram que eles são humanos: a cena onde JJ, Morgan e Blake debatem sobre o perfil enquanto fazem um lanche, o Rossi flertando com a prostituta e fazendo piada disto com a JJ, Reid bebendo café no avião, além do toque humorístico da Garcia, contrariada por não poder concluir seu comentário para lá de quente sobre Morgan. São pequenas distrações que suavizam o tema sempre pesado da série.


- Matthew parece gostar de filmar cenas que beiram ao terror ou ao sobrenatural e sabe valorizá-las como tal. Elas sempre aparecem em seus episódios ( menos em Lauren, pois o assunto não lhe dava esta abertura) e isto está virando uma espécie de assinatura em sua direção ( aqui ele usa o mesmo tom onírico que usou em Heathridge Manor ( 7x19 ), explorando as alucinações e sonhos ).


- A cena final de Alchemy é um primor. Além de muito  bem filmada, resolve o assunto de forma definitiva, deixando claro que Reid optou por seguir em frente. Além disto ela oferece aos fãs aquilo que eles não puderam ver acontecer de verdade: uma cena que selasse o amor de ambos, uma lembrança de um amor que existiu, mas não foi consumado. E ainda tem a frase dita pela Maeve: "- Vamos dançar, antes que eu seja um fantasma em suas memórias". Uma sensível e eficiente forma de dizer a ele: "- Agora você já pode e deve seguir em frente!"


De forma geral, a oitava temporada tem tido excelentes episódios, optando por mesclar o Replicador, casos com unsubs muito interessantes e o desenrolar da vida pessoal dos agentes. Alchemy sem dúvida é um conjunto primoroso de roteiro, direção, detalhes técnicos e interpretações que vai entrar para a estória de Criminal Minds como um episódio inesquecível.


Esperando agora por um desfecho perfeito para uma ótima temporada! 


Até o próximo!

domingo, 28 de abril de 2013

Lembranças De Uma Savana – Meus Comentários



Leio muito desde sempre. Aos doze anos já era rato de biblioteca, primeiro da biblioteca regional da Vila Prudente, depois da regional da Móoca, ambas na cidade de São Paulo. Mais tarde entrei para o Clube do Livro, e assim tem sido durante minha vida toda. Foram nas mágicas páginas dos livros mais diversos que sempre viajei para o passado, para o futuro, para o sertão nordestino ou para a Europa medieval. Em brochura ou volume encadernado conheci a poesia de Drummond, embarquei em um trem para o Expresso do Oriente, chorei a Morte e Vida Severina. Ler é sempre prazeroso. Mais ainda se for um bom livro.

O que me leva a Lembranças de Uma Savana escrito por Caio Vieira Reis de Camargo ( Editora Multifoco - RJ). Não conheço o autor pessoalmente, mas tive o prazer de trocar informações e comentários com ele diversas vezes em uma comunidade do Orkut em que participo ativamente. Ao longo destes três anos e pouco, tive o privilégio de encontrar alguém que, como eu, semanalmente deixava na comunidade suas impressões gerais sobre o teor e a realização de episódios de uma série policial. A maioria das pessoas que participam destas comunidades deixam observações básicas, contendo apenas a sua impressão pessoal. Me chamava a atenção o fato de Caio sempre escrever um texto bem completo, cheio de observações pontuais e relevantes, normalmente muito semelhante ao que eu pensava ou, eventualmente, escreveria também.

Com o passar do tempo, ler seus comentários passou a ser delicioso ( obviamente ler todos os comentários sempre é muito gostoso, pois é uma forma de observar vários pontos de vista acerca de um assunto, mas não posso negar que seus comentários estão sempre entre os mais esperados por mim). Dito isto, posso dizer que quando soube que ele houvera escrito um livro, fiquei muito curiosa e, de certa forma, tinha certeza de que gostaria da obra.

O livro tem dois momentos muito distintos para mim. O primeiro, durante a apresentação do personagem principal, por motivos pessoais – pois nasci e vivi por 26 anos em São Paulo, cidade que ele usa como cenário inicial para sua estória – levou-me um pouco de volta à minha juventude, à época em que eu mesma cursava faculdade nesta cidade, e vivi um pouco desta estória também. O segundo, claramente fictício, é o momento em que decorre a maior parte da trama e julgo, tenha sido o mais difícil de escrever. 

A estória gira basicamente em torno de um jovem que deixa o conforto do lar, da família e a segurança de seu emprego para viver durante trinta dias uma experiência quase surreal, em um país desconhecido para ele, com uma cultura avessa à que foi criado, em meio a uma guerra civil  sangrenta e injusta e ele, em meio ao caos que se forma é obrigado a tomar uma decisão que mudará sua vida para sempre. O autor permite-se do início ao fim construir personagens periféricos ricos em detalhes, o que torna a leitura bastante interessante, mesmo antes de atingir seu ápice. Gosto de livros ricos em informações, eles me dão elementos suficientes para fazer-me embarcar de corpo e alma na aventura proposta. O jovem professor universitário de língua e história grega, apegado à família e às suas obrigações familiares se dispõe a representar a universidade em que ministra aulas em um projeto humanitário promovido pela ONU em uma comunidade do Sudão como suplente e acaba de última hora sendo convocado para viajar, uma vez que o professor titular adoece.

Antes mesmo de viajar, o autor já nos fornece uma gama de personagens bem descritos, que embora apareçam pouco ou quase nada, ajudam a compor o dia a dia do personagem principal.

No entanto, é no convívio com outros voluntários de vários países já no Sudão que a trama fica mais interessante. Para leitores que gostam de ir direto ao assunto não recomendo a leitura. A trama envolve inúmeros personagens detalhadamente construídos e explora ao máximo as relações pessoais do elemento principal com seus coadjuvantes. O professor, que viaja ao Sudão com a missão de dar aulas, envolve-se amplamente com um grupo de quatorze crianças que o farão questionar-se sobre quase todas as suas convicções. A narrativa acerca destas atividades com seus pequenos alunos é ao mesmo tempo cativante e chocante, pois traz o melhor dos corações infantis unido à crueldade a que estão expostas.

Excelente também é a dinâmica estabelecida pelo médico e a enfermeira do projeto com o professor. Bryan O’Hara, o médico irlandês faz um excelente contraponto à timidez do contido Gabriel, nosso herói na estória. Companheiros de dormitório, Bryan trará no decorrer dos capítulos um pouco de humor e leveza para o árduo tema tratado. O entrosamento dos dois voluntários vai se sedimentando aos poucos, visto que são expostos a situações assustadoras e isso só os fará mais fortes. Alice por sua vez, encarrega-se do lado suave e quase romântico, tornando o triângulo ( não amoroso) ainda mais interessante.

Sobre as milícias e grupos separatistas eu imagino que a pesquisa tenha sido intensa, pois traz um relato desta espécie de "limpeza étnica" que acontece já há tempos e seus extermínios vergonhosos em Darfur e região( também no Sudão), onde milhares de vidas já foram ceifadas em nome da raça ou da religião. Obviamente que existem as licenças poéticas necessárias para tornar o enredo e o desfecho mais interessantes, mas o que importa mesmo é que, durante a leitura me vi envolvida pelas crianças e torcendo por um desfecho feliz. Claro que em se tratando do tema abordado seria hipocrisia demais um final feliz por completo e senti um nó na garganta com o desenlace de estórias como a de Chuki, entre outros personagens, mas o autor encontra uma solução emocionante, mesmo que nem tão crível, para deixar em nossos corações plantada uma semente de esperança: apesar dos pesares, nem tudo está perdido.

É difícil escrever sobre um livro sem acabar fazendo comentários que tirarão o prazer da surpresa de quem lê o que escrevo. Pessoalmente, com os livros, ao contrário do que acontece com as séries que acompanho, não gosto de muita informação. Mas posso afirmar que é um livro muito interessante, que enfatiza o quão longe de conhecer a realidade mundial a maioria das pessoas está ( ler nos jornais sobre a miséria e os conflitos na África está longe de nos dar a dimensão exata do que isto significa) e que deixa clara a bagagem emocional que uma pessoa adquire quando enfrenta uma situação destas de perto. É um livro de ficção, mas nada distante de uma realidade que todos sabemos existir. O grande problema é que na maioria das vezes nós nos sentimos comovidos e incomodados pelos quatro ou cinco minutos que dura a notícia na televisão e seguimos em frente, para lamentarmos a notícia local, a inflação ou o resultado do jogo do nosso time favorito. Visto desta forma, o livro presta uma enorme homenagem às pessoas que abrem mão de seu conforto, suas vidas pessoais e outros bens para ajudar o próximo, para levar a quem precisa, instrução, saúde, nutrição ou mesmo consolo para quem perdeu tudo. No livro o personagem é um jovem universitário, mas sabemos do belo trabalho que é feito pelos Médicos Sem Fronteiras e outras organizações não governamentais que atuam de forma parecida. 

Ao autor, a quem considero um amigo, peço que releve meu jeito meio informal de relatar minha experiência lendo sua obra, pois estou muito longe de ter conhecimento acadêmico para algo mais elaborado e deixo meu incentivo para que continue nos contando belas e boas estórias, pois você é ainda muito jovem, tem muito o que aprender e ensinar. Fico no aguardo do próximo livro,  da próxima dedicatória e de um próximo Abayomi para ganhar meu coração!


Um grande abraço,


Débora

terça-feira, 2 de abril de 2013

FIC - ETERNO - Capítulo 2





"PARA QUEM AMA, NÃO SERÁ A AUSÊNCIA A MAIS CERTA, A MAIS EFICAZ, A MAIS INTENSA, A MAIS INDESTRUTÍVEL, A MAIS FIEL DAS PRESENÇAS?"
 
Marcel Proust


- Puxa, foi uma coisa tão emocionante, JJ certamente não esperava por tudo aquilo, foi uma cerimônia linda de se assistir, imagine para ela, que foi pega de surpresa! E a casa de David Rossi, nossa, que coisa mais incrível, aquele jardim, as flores.... Tudo estava tão lindo.....

Ele não conseguia acompanhar nada do que Beth estava dizendo. Ainda sentia o perfume dela, se lembrava do sorriso dela, ouvia o silêncio dela. Segurava o volante com as mesmas mãos que enlaçaram seu corpo horas antes. O corpo quente, macio. E fechava a mão em torno do volante roliço, como se conseguisse manter na memoria a maciez daquela mão. Até então, Emily Prentiss sempre fora um desejo inatingível, uma compulsão não permitida, que existia apenas entre todas aquelas outras coisas que desejava ter tido, ter sido, e não tivera, tampouco fora. 

Para seu infortúnio ou sua sorte, Jack demonstrara sinais de cansaço logo após dançarem e foi a deixa para, em seguida, irem embora. Seu filho adormecera em um sofá da sala de David e foi Penélope, saindo do toalete que avisou o pai que o filho pegara no sono. David chegou a oferecer para que o menino ficasse melhor acomodado em um quarto, mas para ele, a melhor das alternativas era encerrar por ali uma noite que tivera momentos para lá de perfeitos. E, na certeza de que não poderia prolongar a perfeição, era melhor apenas não alimentá-la. 

- Aaron.... O farol abriu.... - Ela elevou a voz  -  Aaron, o farol!

Ele engatou a marcha e atravessou o cruzamento. O pensamento distante. O perfume de Emily...

- Está tudo bem?


- Está, sou estou cansado, foi um final de semana e tanto.


- Jack está dormindo pesado. Acho que você vai escapar de dormir debaixo da mesa da sala esta noite... – Ela riu sua risada mais gostosa e de forma ainda meio divertida perguntou:  - Por que está virando aqui? Não vamos para sua casa?

Ele havia esquecido. Sequer passara pela sua cabeça. O carro dela estava em sua casa. Quando Jack pediu para que ela passasse a noite com eles, sentiu certo alívio. Era muito ruim em sua idade ter encontros furtivos, esperar o filho dormir para ter sexo, fazer sua namorada sair antes do seu menino acordar. Beth tinha sido definitivamente uma coisa boa em sua vida. Ela era uma companhia divertida, brincalhona, tinha paciência com seu filho e ele havia finalmente descoberto que não precisava ser infeliz a vida toda. Ele, apesar de encher-se de culpa, sentia-se bem ao lado dela. Tomara muito cuidado para não precipitar as coisas com Jack, depois de tudo o que o menino sofrera com a perda da mãe, mas não dava para empurrar seu filho para sua cunhada toda vez que queria dormir com sua namorada. Afinal, ele não estava perdidamente apaixonado, mas era bom levar uma vida mais ou menos normal de vez em quando, ter algo para lhe distrair dos tão escuros momentos de sua vida, mesmo que Beth nunca fosse ser Emily...

- Claro, você tem razão, havia esquecido...Me desculpe....

- Hotchner, tudo isto é só cansaço? Ou há algum outro problema?

Ele ainda estranhava ser chamado assim. Ela nunca usava seu primeiro nome. Sequer usava a habitual abreviatura de seu sobrenome. Sempre Hotchner. Tão diferente do tão costumeiro Aaron que passara anos ouvindo Haley dizer... No começo ele achou engraçado. Depois, deixou de se importar. 

- Claro, por que a pergunta?

- Não sei bem, você saiu diferente da festa, há alguma coisa lhe incomodando? 

Ele poderia passar horas explicando a ela que o incomodava ter desperdiçado sua vida, que fizera tantas escolhas erradas que não sabia bem por onde começar para consertar, que sua consciência doía toda a vez que fazia amor com ela  pensando em outra mulher, que se achava um sujeito aproveitador, usando-a para satisfazer seus anseios, desejando alguém que não ela, tão boa criatura, que não merecia tamanha desonestidade. Deveria ser honrado e dizer sinceramente o quão maravilhoso era ter alguém que lhe fizesse tão bem, mas que, em seu íntimo, não era ela a mulher que amava. Canalha. Era como ele se sentia. Um covarde. Um homem de sua idade vivendo uma vida de faz de conta, temendo em suas noites ao lado dela chamar pelo nome errado, no auge do prazer gritar por um nome que não fosse o da mulher que partilhava sua cama.... Sentiu a mão pequena e quente tocar sua coxa, e quase envergonhou-se por gostar de sentir o calor que subia pela virilha. Ela não era Emily, nunca seria, mas esta escolha ele tinha feito há algum tempo, era tarde demais para lamentar-se. Ele percebeu a mão subindo e descendo sobre o tecido de gabardine escura em sua perna e seu corpo reagiu, sem qualquer pudor ou honestidade.

- Não, não há nada me incomodando.... Só.... Como eu disse, foi um longo final de semana... E, você tem razão, a cerimônia foi linda...

Ele trocou a marcha e aproveitou para colocar sua mão direita por sobre a mão de Beth em sua perna. Apesar da reação natural de seu corpo, ele não conseguia deixar de pensar naqueles poucos minutos dançando com Emily. 

- Beth...

- Você quer que eu pare?

- Vamos chegar em casa, sim?

Conformada, ela subiu vagarosamente a mão, permitindo-se brincar com cada centímetro de tecido encontrado pelo caminho até o braço, até alcançar sua nuca e perder seus dedos nos cabelos curtos dele, acariciando-o sutilmente, até pousar sua mão em seu ombro direito.

- David Rossi está dormindo com sua chefe?

- Como?

- David Rossi... Erin Strauss, é o nome dela, não é? Eles tem um caso?

- Como vou saber Beth? Não pergunto ao David com quem ele dorme... Por que você acha isto?

- O jeito como eles se olham... Uma mulher sabe... Tenho certeza que eles têm algo...

Ele sentiu-se intimidado pelo comentário. Ela saberia como ele olhava para Emily Prentiss? Ela teria percebido alguma coisa? Ele só queria chegar logo em casa. Era tudo o que queria. 

- Como assim, uma mulher sabe? Só por que dançaram juntos...

- Não, da forma como dançaram juntos...

- Você dançou com vários dos meus colegas esta noite e nem por isto eu vou achar que você está interessada em algum deles....

- Hotchner, você pode ser ótimo profiler para pegar bandidos, mas em termos de romance, você não entende nada.... ou faz que não entende....

Quando estacionou na vaga de garagem de seu edifício, não deixou tempo livre para mais comentários. Ela estava tentando dizer alguma coisa ou era sua consciência? Antes que ela pudesse desatar o cinto de segurança, ele já abrira a porta de trás do carro e  tomara o corpo exausto de seu filho em seu colo, cuidadosa e silenciosamente. Ela buscou em seu bolso a chave da porta e a abriu sem muito alarde. Ele ouviu-a perguntar baixinho se precisava de ajuda e balançou a cabeça negativamente. Foi direto para o quarto de Jack e na penumbra puxou a colcha que cobria a pequena cama. Seu filho, dormindo pesado, nem percebeu o pai a trocar-lhe as vestes de festa por um confortável pijama e lhe acomodar de forma aconchegante entre as cobertas forradas de estampas do Superman. Hotch ficou uns minutos a olhar para seu menino e em um instante foi inundado por inúmeras lembranças. Haley, as aulas de teatro, o seu casamento, seu menino sentindo falta de sua mãe,  as brincadeiras de Jack  com Beth no parque....

- Acha que ele vai dormir direto? - A voz vinha da porta, por trás dele, era baixa e curiosa.


- Acho que sim, ele está cansado, é tarde e ele brincou muito. – Hotch pousou carinhosamente um beijo na testa de Jack e afastou-se silenciosamente. - Venha, vamos nos deitar.

Já em seu quarto, Hotch sentou-se à beira da cama e pôs a cabeça entre as mãos. Estava cansado, confuso, frustrado. Ainda podia sentir o perfume dela no ar. A pequena mão parecia ainda estar entre seus dedos. Um encontro. Ela havia pedido um encontro. Que diabos ele achava que poderia acontecer?  Um encontro. Ele precisava pensar sobre isto. Precisava preparar-se para ouvi-la e ajudá-la no que fosse preciso, sem deixar transparecer seus sentimentos, sem fazer papel de bobo.

- Você não vai mudar de roupa para deitar-se? 

Ele deu-se conta de que ela saíra do banheiro vestindo uma camiseta branca e uma calcinha minúscula.

Beth ajoelhou-se atrás dele sobre a cama. Os braços dela o envolviam e se espalhavam por toda a parte. Lábios quentes percorriam seu pescoço e a língua brincava com o lóbulo de sua orelha. Ele levantou-se enquanto ainda tinha domínio de seu corpo.

- Volto já!

- Eu não vou a lugar algum...

Ele ergueu-se lentamente guiando-se apenas pela claridade vinda da janela, apanhou um par de roupas limpas na primeira gaveta da cômoda e seguiu para o banheiro. Fechou a porta e encostou-se nela. Vislumbrou seu rosto no espelho instalado na parede oposta e teve vergonha em mirar-se nele. Seu corpo precisava de sexo. Mas não era com Beth que ele iria fazer amor nesta noite. Em quase nenhuma noite era, mas hoje seria diferente. Indecentemente diferente. Ele daria tudo para ao abrir seus olhos ver Emily sob seu corpo faminto. Ele precisava fazer apenas tudo como sempre fazia, apenas não podia dizer o nome errado... Era tudo tão.... como sempre....

Deus, aquilo precisava ter um fim. Ele não tinha a menor ideia sobre o que Emily queria falar com ele no dia seguinte. Mas uma ideia se formava sobre o que ele queria falar com ela. Ele precisava pensar sobre tudo aquilo. Mas, certamente, aquele não era o melhor momento para isto. 

Após terminar tudo o que fora fazer no banheiro, voltou para a cama e enfiou-se embaixo dos lençóis. Não demorou para que as mãos ávidas de Beth explorassem seu corpo como se fossem propriedade de direito. Ele virou-se e a abraçou carinhosamente, mas cheio de fome. Seus lábios estavam por toda a parte, e não demorou para que seu corpo reagisse como o esperado. Quando ele a penetrou, podia jurar que tentou manter-se honesto, mas sabia, bem lá no fundo, no pouco de razão que lhe sobrava, que estava fazendo amor com a mulher com quem partilhara um silêncio eterno naquela noite. Mais do que todas as noites, por tantos anos em sua vida, aquela noite, era Emily chamando por seu nome, não importava o quanto a razão lhe negasse a verdade.

Ambos alcançaram o prazer que buscavam. Ele só conseguia pensar no quanto estava sendo egoísta.

Ela só conseguia pensar por quanto tempo mais ela teria paciência. Afinal, ela nunca seria Emily....

**************************

Emily foi uma das últimas pessoas a sair da casa de David Rossi, como se quisesse aproveitar todos aqueles momentos o máximo que fosse possível. Graças a Deus tinha amigos incrivelmente divertidos. Dançar várias vezes com Reid, Kevin, Morgan e até com Rossi aplacou um pouco a dor de ver com seus próprios olhos aquilo que se recusava a crer. O homem que amara desde sempre estava formando uma nova família, estava feliz, e não era ela, novamente, a responsável por isto. Se por um lado ficava feliz por vê-lo bem disposto e mais amigável, por outro doía demais e ela estava cansada de sentir dor. Tudo o que passou com Doyle, ter suas feridas e seu passado expostos e escancarados, o exílio, o luto dos amigos, as explicações em sua volta, tudo aquilo sugara dela o que ela sempre tivera de melhor: sua capacidade de sobreviver a tudo, de superar, cedo aprendida pela necessidade de se adaptar a uma vida quase cigana, sem raízes profundas, à mercê do desejo de seus pais.

Não tinha mais vinte anos, não bastava mais um corte de cabelo rebelde, fumar escondido, afrontar e desafiar. Foi-se o tempo em que bater de frente era a solução para todos os seus problemas, ainda que criasse outros ainda maiores por isto. Estava cansada. Era hora de render-se e aceitar que morrera no dia em que Doyle a feriu. Com ela para Paris, partiu a confiança que seus melhores amigos tinham nela, partiu a estória que havia consolidado na Unidade de Análise Comportamental, partiu tudo o que havia pouco a pouco construído para aproximar-se de Aaron, sendo a presença discreta que o apoiava, quando ele nem sabia ao certo que precisava de apoio.

Ela tirou os sapatos de salto alto, atirou o vestido na poltrona ao lado da janela do quarto e jogou-se na cama. Sérgio enroscou-se nela, como festejando sua volta ao lar.

- Então, amigo, o  que você acha de Londres? Um recomeço, novas oportunidades profissionais, quem sabe um novo amor. Gatos tem problemas com fuso horário? Não, aposto que não. O que você acha da ideia?

O gato continuou a enroscar-se nela mais e mais em troca dos carinhos que ela lhe fazia. A proposta de Clyde era realmente irrecusável e vinha no mais oportuno dos momentos. E Londres não era exatamente do outro lado do planeta. Bem, mais ou menos. Mas não era exatamente disto que se tratava? De distanciar-se?  De criar uma segunda chance? David havia lhe advertido para que pesasse tudo com calma e ouvisse seu coração. Era disto que se tratava. Seu coração lhe dizia para sair correndo dali porque não iria sobreviver de sonhos. Não poderia trabalhar diariamente com o homem de sua vida, ali, tão ao seu alcance e tão distante. Bastava. Bastava de interpretar como esperança cada sorriso discreto, cada aceno gentil, cada frase educada, como a que ele lhe dissera naquela noite. Bastava. Pela manhã, ela comunicaria a ele seu afastamento. Nada a faria voltar atrás.

Mas, até lá, sonharia com o abrigo daqueles braços, onde poderia viver uma vida inteira. Até lá, dançaria em seus sonhos a noite toda e ouviria mil vezes ele dizer a ela em tom baixo que ela estava linda ou algo assim. Faria amor com ele, como em quase todas as noites acontecia nos seus sonhos acordada. Enquanto não amanhecesse ele seria dela, seus lábios murmurariam coisas sem sentido algum, sua pele arderia sob o seu toque e no momento certo, ela gritaria seu nome. Até o amanhecer, ela se perderia no silêncio daquele momento tão perfeito que deveria ser eterno. Só até o amanhecer....