quinta-feira, 14 de março de 2019

Quando Nosso País Vai Parar De Produzir Vítimas Que Morrem E Que Matam?





Em primeiro lugar, se você é aquele sujeito que acha que se professores e funcionários estivessem armados dentro da escola o número de vítimas seria menor, faça um favor a nós dois e encerre sua leitura por aqui. O que eu penso não é para você.


Cada novo caso registrado de mortes por atiradores solitários, cujo objetivo é apenas o maior número de danos possíveis, mais claro me parece que vivemos uma epidemia local, quiçá mundial, de maus tratos aos ser humano. Salvo se, em algum momento, algum médico da área de medicina psiquiátrica possa afirmar categoricamente a existência de algum transtorno mental claramente definido, o que presenciamos hoje novamente não se trata de mocinhos e bandidos. Se trata de educação ( ou a falta dela), de inclusão, de compreensão, da presença efetiva de famílias, que hoje não podem contar com os serviços básicos que o estado deveria oferecer: empregos fixos, creches, salários dignos, saneamento básico, informação e, acima de tudo, assistência social.


É fácil cair na tentação de culpar jogos de videgame como fez esta tarde o Vice Presidente Mourão e alguns comentaristas no Estúdio I na Globo. Mourão chegou a afirmar que brincava saudavelmente na rua, de bola, de queimada, ou algo assim. Pois é, também estou perto dos 60 anos e lembro-me bem de brincar, além de bola ou do pega-pega, de mocinho e bandido. Também haviam as arminhas de brinquedo e eu vivia matando alguém ( nem lembro mais quem eram os bandidos da época, mas lembro que matei um bocado de gente…..). Para melhorar, meu avô me deu em certa época uma espingarda de chumbinho, que hoje seria considerado um brinquedo pra lá de politicamente incorreto. Nem por isto, saí matando ninguém por aí quando cresci, tampouco meu filho seguiu pelos caminhos do crime por ceifar várias cabeças em Residente Evil, Assassins Creeds e diversos outros jogos. Pelo contrário. Hoje ele dá aulas de Programação e Análise de Sistemas em ensino médio e superior como concursado de uma Escola Técnica.


Os jogos, como qualquer outra atividade cumprem um papel catártico, pedagógico e de criatividade que, se usados na medida certa, podem ser de grande valia na educação infanto juvenil e não sou eu que digo isto, são inúmeras pesquisas, nacionais e internacionais.


No entanto, outro fantasma nos assombra. O fantasma da intolerância, da impaciência, da incapacidade de ouvir o outro e por ele sentir empatia. O fantasma de um estado que não sabe ainda como lidar com os casos de bulling, que não sabe como orientar pais a respeito do assunto, que tem pouco tempo, dinheiro e recurso humano capacitado para lidar com isto. Junte-se à isso uma permissividade para ser incorreto, vindo à cabo de um entendimento errôneo de que não haverá mais punição para nada, a ideia de que tudo se resolve armado hoje em dia, de que a vida humana não vale mais que um chocolate e chegamos a um maléfico coquetel para o extermínio, em escolas, igrejas, parques, ou em um simples assalto.


O que ouve hoje foi muito, muito triste. Inominável. Adultos e crianças tiveram suas vidas interrompidas sem motivo algum. Mas, com o intuito de se evitar novos casos, cabe à sociedade entender o que levou dois jovens a cometerem tal chacina. Porque eles não levantaram de manhã, felizes da vida, cheios de alegria e amor pela escola, família e amigos e apenas decidiram sair matando só porque não tinham nada melhor para fazer . Há toda uma construção por trás destas decisões. E é isso que cabe agora ser esclarecido.


Para além destes esclarecimentos, deixo aqui minhas impressões sobre o assunto. Bulling é coisa a ser levada muito a sério. Se isto tivesse sido discutido na minha geração quando jovem, não teríamos hoje tantos filhos desajustados, isto é fato pesquisado. Já passou da hora de mudarmos o nome de “politicamente correto” para apenas “correto”. Minha geração já viveu o suficiente para saber a diferença entre o mimimi e a falta de responsabilidade social. O mundo inteiro mudou, uma população vota pelo Brexit, outra se manifesta contra a construção de um muro que separe um país de seus imigrantes. As Coreias voltaram a se falar. Então você, amiguinho, não vai morrer se tiver que morder a língua para não fazer aquela piada de mau gosto sobre homossexuais no encontro de funcionários da empresa ou tiver que parabenizar a mulher que ocupa agora um cargo maior que o seu na sua empresa. São estes novos ventos que temos que ensinar em nossas casas. Para os nossos filhos. Ensinar que o mundo mudou. Que 2 mais 2 nem sempre será 4 e que família pode ter mãe, irmão e 2 cachorros que será o mesmo que 2 pais e um filho, desde que haja amor, carinho e responsabilidade.


Não sei exatamente se foi todo este ódio de quem nunca se reconheceu que levou a matar 8 pessoas, mais suas próprias vidas, hoje na escola em Suzano. Mas, senão foi ( e ainda acho que foi), que fique a dica. Vamos ensinar nossos filhos, netos, sobrinhos, filhos de amigos, amigos, vamos aprender, enfim, a amar. Vamos para com esta idiotice de fla-flu odioso que se instalou neste país, e que serve de desculpa para que passemos alfinetando uns aos outros o tempo todo.


Não estou dizendo que não devemos ter posições políticas. As minhas são bem claras e eu nunca as abandonarei. Apenas não perco meu tempo caçoando e diminuindo quem não votou como eu. Ignoro, nem respondo. Quando eu tiver que protestar, estarei na rua, bandeira em punho, defendendo minha causa, justificando minha luta. Mas, não vou perder meu rico e precioso tempo discutindo, ofendendo, depreciando quem não quer enxergar o óbvio. Este desgaste não é meu. Assim como ensinei meu filho a ignorar os comentários maliciosos, o bulling maldoso e desnecessário, que hoje recebe como resposta o fato dele ter se tornado alguém na vida, enquanto alguns dos que o maltratavam sequer conseguiram uma carreira…. Ok, isto deve soar muito errado, vocês vão dizer, mas devia ter chiado, reclamado…


Então, foi chiado, reclamado, eu era aquela mãe que vivia na secretaria, registrando queixas. Mas, aí você descobre que não é do interesse da escola levar esta discussão à frente. Então, você passa a ensinar a seu filho sobrevivência. Acho isto muito parecido com os dias de hoje. Suas pautas não parecem ser respeitadas, ai você ensina seu filho a cortar os pulsos ou a sobreviver isto? A sobreviver, sempre a sobreviver!!!!


Não acho que o mundo tenha mudado tanto. Acho apenas que esta geração não aprendeu a se defender dos insultos, das diferenças, das exclusividades, como as gerações passadas. Alguns, no entanto, tempos atrás tiveram a exclusividade de ter pais com algum conhecimento, o que os ajudou a sofrer um tanto menos. Outros, sem qualquer apoio, saem matando a esmo, como se estivessem brincando com a espingardadinha de chumbinho de meu avô, como se tivessem aprendido que morrer lutando seria heroico, porque ouviram dizer que isso era bonito ou a única solução. Ou, apenas porque tiveram medo do que viria pela frente com uma prisão…..


Uma coisa é muito certa. Precisamos unificar nossos discursos. Sendo de esquerda ou de direita, contra ou a favor de certas liberdades civis, precisamos aprender a lutar pelas nossas opiniões. E respeitar a opinião do próximo. Apenas assim chegaremos a um patamar civilizado, onde haverá espaço para discussões, sem ofensas, sem ameaças, sem medo. Enquanto permanecer no país o clima de fla-flu, de “nós odiamos vocês”, de “vocês não de direito de fala”, nada irá mudar. Nesta escola, na escola vizinha, na reunião do condomínio, no almoço entre amigos, no café da tarde entre familiares, na cama entre marido e mulher….


Por Deus, abandonem estas armas! Desarmem-se dos punhais, dos 38, dos fuzis, das facas e das ofensas. Desarmem-se daquilo que mata o próximo, mas não te traz vitória alguma. Que as mortes nesta escola de Suzano nos façam lembrar que a morte é definitiva, cruel, irreversível. Que tirar outra vida é algo que não nos cabe e que cabe à Segurança Pública garantir nosso bem estar e não a nós decidirmos quem vive e quem morre. Armar a população é delegar a ela um serviço pelo qual efetivo do Estado já é remunerado para fazer. Não cabe à população sair atirando em nome da defesa própria!


Que os falecidos de hoje sejam sempre lembrados por terem sido mortos pelas mãos de quem possuía armas de forma ilegal e irresponsável. E que suas mortes não tenham sido em vão!!!


Chega de violência!!! Pelo fim das armas no país!!!!



sábado, 2 de março de 2019

Sobre O Hino E A Moralidade





Estou aqui me lembrando da minha época de escola primária e ginasial, em que a gente fazia fila para cantar o Hino Nacional no pátio da escola, deixando um braço de distância do companheiro da frente. Vou dizer o que ninguém ousa dizer: como a maioria das coisas que fazíamos por lá, nem sabíamos porque fazíamos. Fazíamos porque a professora mandava, a diretora mandava, o bedel mandava, a mãe e o pai mandava a gente obedecer, o amiguinho cutucava a gente e dizia que tinha alguém olhando e nós iríamos parar na sala da diretora senão fizéssemos e era isso.


Ninguém nunca me ensinou que a gente tinha que cantar um hino porque tinha orgulho ( no mais amplo sentido da palavra) do nosso país. Ninguém nunca me ensinou o que era era orgulho do nosso país. Nas aulas de Educação, Moral e Cívica, que no antigo ginásio viraram OSPB ( Organização Social Política Brasileira) a gente decorava tudo. Os cargos dos 3 poderes, os nomes dos ministros, o que significava as cores da bandeira, o hino do…. “cisne branco em noite de lua...”. Mas, não se despertava o patriotismo pela admiração, mas pela obrigação de decorar para não perder a nota e, na pior das hipóteses, repetir de ano.


Crescer, entrar para uma faculdade, amadurecer, envelhecer. Foi o tempo que me ensinou porque se admira uma bandeira. Um hino. Um país. Sim, nossa bandeira é muito bonita e nosso hino um dos mais bonitos que já conheci. Mas, achá-lo lindo e ter orgulho de nosso país são coisas diferentes, muito diferentes. Nosso país tem alguns dos lugares mais maravilhosos do mundo, uma terra fértil, rios abundantes, um por do sol de cair o queixo onde moro. Mas, não tem um povo do qual me orgulho de olhos fechados. Muitas pessoas que habitam esta terra merecem meu respeito. Pessoas que enfrentam adversidades, que se superam mesmo diante do imponderável, pessoas que dedicam suas vidas para melhorar a vida de outras pessoas, que botam a cara a tapa para defender outras que nem conhecem. Mas, é pouco diante de um país desta dimensão.


Empatia é um vocábulo que deveria a ser estudado a fundo no currículo do ensino fundamental. Não vejo fundamento ensinar a ter compaixão por tartarugas marinhas ( sim, elas são importantes, não tenho NADA contra a espécie, é só um exemplo, pelo amor de Deus!!!!!) e não ter compaixão pelo próximo. Não vejo porque ensinar que os pandas ou as araras azuis não podem ser extintos, mas não enfatizar que é um crime crianças e adultos terem que catar suas refeições nas latas de lixo mais próximas ( sem fazer sujeira, caso contrário nem os lixeiros podem limpar o estrago).


Por favor, se você pensou em meritocracia, pare de ler meu texto por aqui. Você só vai perder seu tempo. Há méritos para quem os merece? Claro! Meu filho é exemplo disto. Dedicação, trabalho, esforço. Mas, para falar em uma linguagem popular, você sabe quantos dedicados existem para cada Neymar? Para cada Marta? Pois é. É muito pouco. Inúmeros vão ficando pelo caminho porque têm fome, porque têm que sustentar família, porque ou trabalham ou estudam, porque pegam leptospirose ou febre amarela por falta de saneamento básico. Só para ficar nos exemplos mais comuns. E se você vai começar a desfiar o rosário dizendo que o PT não fez isto ou aquilo também pare de ler. Há quinhentos e tantos anos ninguém faz nada pelo país. O PT não inaugurou a corrupção. Ele só escancarou.


Para além das dificuldades financeiras existe hoje um outro problema. Como me orgulhar de um país que tem um povo que deseja a morte de um presidente ( mesmo que ele não me represente – e não representa) ou comemore a morte de uma criança de sete anos, porque ela é neta de um sujeito que supostamente é responsável por todas as desgraças do país? Como acreditar que nosso hino representa um país onde as pessoas parecem odiar umas às outras, onde o que pessoas fazem na cama passou a importar mais que o caráter, onde a cor determina a índole antes do crime, onde o julgamento é fácil, porque é feito à distância de um toque no teclado?


Pois é, está difícil ter orgulho de cantar nosso hino! Não pela letra, nem pela melodia, mas porque talvez este país não o mereça. Podem mil ministros obrigar-nos a cantar todos os seus versos, estrofe por estrofe, mas talvez, antes disto precisemos lavar a boca com sabão, como dizia minha avó em sua sabedoria, antes de merecê-lo. Precisamos voltar a ser humanos antes de postarmos que cantávamos o hino na escola. Claro, todos cantávamos como disse antes, sem nem saber porquê. Isto não é patriotismo. É decoreba. Pura e simples. Há de se amar o país antes de se exaltá-lo. Há de se amar o próximo antes de se amar o país. Há de se amar a si mesmo antes de amar ao próximo. Há de se entender que sem a caridade, a compaixão, a humanidade não há existência que valha a pena. Há de se entender porque estamos aqui antes de tudo. Ou não fará a menor diferença cantar o Hino Nacional ou a dança da garrafa ou a dança da cordinha. Serão só palavras. Sem significado real. Sem fundamento. Sem razão de ser. Apenas palavras repetidas por pessoas que não sabem bem o que significam. Como há cinquenta anos atrás………..

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Meu Filho: Boa Sorte E Obrigada Por Ser Você!

(Nossa última foto antes da sua viagem!)

No carnaval de 1989, quando você tinha pouco mais de um mês, eu te levei para a praia, quando a maioria das mães nesta situação ainda mantinham seus bebês enrolados em cueiros e fechados dentro de casa. Seus avós e tios tinham vindo passar o feriado em casa e eu recebi 6 pessoas dentro do nosso apartamento. Você passou de mão em mão, mamou no peito na beira do mar, não teve muito sossego e eu não me importei. Eu nunca fui uma mãe convencional e apesar de te amar incondicionalmente, nunca fui adepta a poupar, mimar, enfeitar, controlar ou cobrar demais (seu quarto é testemunha!). O pediatra falou que você só poderia tomar leite de cabra. Eu imaginei como seria triste sua vida sem bolos de chocolate e desobedeci o médico. O ortopedista disse que você teria que usar bota ortopédica e eu pensei em como seria passar o dia inteiro de bota em verões de 37 graus. Você foi criado descalço ou no máximo de chinelinho, pé na areia, pé na grama, pé no piso de casa.  Depois você foi crescendo e a gente foi te ensinando tanto que o dinheiro era difícil de ganhar que eu brincava dizendo que meu filho era o cara que atravessava a piscina com um Sonrisal intacto na mão fechada..  A cada decisão o pavor de estar errando, mas sempre imaginando que na vida a gente tem que ser como bambu: enverga às vezes até o chão, mas não quebra.


Passaram-se 30 anos daquele carnaval até este, que você vai encarar sozinho em Paragominas. Você passou por muita coisa e a vida até que foi generosa. Você comeu inúmeros brigadeiros sem ter tido grandes problemas até o organismo aceitar e você parar de ter refluxo e adora usar chinelos até hoje. Tem uma saúde de ferro, uma inteligência que eu admiro, excelente bom senso e uma determinação inigualável. Ah, tem também uma graduação em Ciência da Computação, uma Pós, um Mestrado, artigos, uma patente de softwere sendo aprovada, um projeto para jogo educacional com uma outra grande profissional em andamento, com financiamento federal, outro de livro com mais 2 profissionais… sei lá mais o quê.. às vezes fica difícil te acompanhar, ehehe…


Você sempre amou aprender. E ensinar. A mim, ao seu pai, à sua avó. Eu lembro quando você vinha do seu primeiro estágio e me contava como era ensinar adultos a usarem o computador lá no Sindalimentação de Vila Velha e como era interessante vê-los aprender. Depois foi dar aulas em Nazaré e você continuava entusiasmado. Não que você não tenha trabalhado em empresas na sua área e até foi feliz nelas, mas foi quando passou para ser professor substituto no IFES de Santa Teresa que vi seus olhos brilharem de verdade. Apesar de todas as adversidades do local, morar num lugar pouco adequado, abrir mão de tantas coisas, ficar longe da noiva, da família, do conforto, você tornou-se querido e respeitado pelos professores e pelos alunos, que mesmo sabendo que não havia a possibilidade de abrirem uma vaga efetiva, usavam a hastag #FicaBruno e te fizeram uma despedida emocionante.


E quando você no IFES aprendeu e realizou tantas coisas, quando seu contrato estava chegando ao fim, você já sabia o que queria: ser um professor efetivo de um Instituto Federal. Como para você nada foi fácil, mesmo trabalhando e sem tempo para se preparar, você encarou como possibilidade concorrer a uma vaga no interior do Pará. Eram 409 candidatos para uma, depois duas vagas, nenhum tempo para aprender com calma sobre legislação ou sobre matérias que você não tinha familiaridade. Entre dar e corrigir provas de alunos você passou a noite no aeroporto estudando para ir direto para fazer a sua prova. Depois passou para a segunda fase e deu a melhor aula da sua vida! Entre 409 candidatos, você ficou em segundo lugar! E, de novo, vai para longe, agora sem as fugidas de final de semana para vir para casa, sem ver sua noiva e seus pais, seus cães, a gata e os bons amigos por algum tempo. Vai de novo sem saber ao certo onde vai morar, como vai ser, mas vai feliz, com um enorme sorriso no rosto e sua frase preferida na cabeça: “quero deixar um legado, fazer mais, fazer a diferença!”.


Filho, as coisas não vão ser fáceis por um tempo, mas, como eu disse e repito, a gente é como bambu: enverga, mas não quebra. Tenho certeza que nesta sua nova fase todas as adversidades serão superadas como tudo o que você já superou em sua vida: com determinação, trabalho, respeito e acima de tudo o amor que temos por você e a certeza de que você pode contar conosco sempre, para qualquer coisa.


Sobre o que estou sentindo agora? Um orgulho que esgarça a pele e não cabe dentro de mim. Como diz a vovó, quando começa a falar de você: “abram as janelas porque vou falar do meu neto e o orgulho vai ter que sair por algum lugar”, kkkk. Orgulho do homem e do profissional que você se tornou, de saber que sua busca é além do emprego, é pelo trabalho, pela vontade de deixar sua marca nesta vida para ajudar, através do seu conhecimento, outras pessoas. Com certeza vou sentir falta de nossas longas conversas com um copo de cerveja ou suco na mão, que começavam com uma piada sobre Thanos ou Star Wars, passavam por The Good Place, Nietzsche, Isaac Asimov, I.A, jogos de computador e invariavelmente terminavam, já de madrugada, em política ou em como o ser humano faz coisas inacreditáveis, para o bem e para o mal. Mas, nunca tentamos falar de tudo isto pelo Skype, quem sabe dá certo, de vez em quando para matar a saudade?


Vai na fé, filho, seja feliz e faça o que você sabe como ninguém: ser o melhor no que faz! Eu e teu pai estaremos sempre com você! Cheios de orgulho! Cheios de amor! E ao seu lado! Boa sorte na nova carreira! Te amo! 

sábado, 20 de outubro de 2018

Pobre Do Meu País, O Que fizeram de Ti Brasil?


Calada, mas inconformada, assisto há tempos ao descalabro que assombra o país em todos os sentidos, financeiro, moral, social, sem me animar em me manifestar nas redes. Muitos que bem me conhecem têm me cobrado uma posição, mas sinceramente ando cansada. Cansada do que as pessoas que se dizem brasileiras se tornaram. Me lembram personagens de Saramago em Ensaio Sobre A Cegueira. Enxergam, mas não querem ver. Ou simplesmente não se importam.

Estou cansada deste ódio virtual e virulento praticado por gente de bem e cheio de Deus no coração que se informa por whatsapp, que acha que notícia é a mesma coisa que editorial ou opinião e que sua necessidade é sempre maior que a do vizinho. Ando cheia de gente que de repente virou especialista em tudo sem nunca ter lido livros de verdade e que compartilha frases que Clarisse Lispector coraria ao saber que lhe foram atribuídas.

Hoje temos muitos sábios de sofá e poucos caminhantes de mocassins, cuja sabedoria indígena já dizia ser impossível julgar a caminhada sem calçá-los. Pessoas que, no conforto da sua poltrona, detonam dezenas de anos de estudos e experiências comprovadas por mestres e doutores ou fatos irrefutáveis de quem sente na pele a fome, a sede, o frio ou a indiferença.

Tanto faz. O radicalismo vem dos dois lados. Mas, é ainda pior vindo de quem ainda tem o que comer, o que vestir, como viver. Também ando brava com a queda do meu poder aquisitivo. Também ando frustrada por não poder mais comer pizza todo sábado à noite ou sair com amigos sem  primeiro saber se posso bancar o local do encontro.  Claro, sou igualzinha a toda a classe média( o que é média, cara pálida?). Quero poder a vida toda encher o tanque do carro sem me preocupar demais com o valor, comprar um presente legal para a amiga do coração, fazer uma viagem sem preocupações. 

Quero que a roubalheira acabe e que haja punição aos que roubam. Mas, quero justiça. Não quero vingança. Não estou atrás de um culpado para enforcar porque não poderei comer em um bom restaurante neste final de semana. Quero que a constituição seja respeitada e assim a lei, porque meu filho não é negro, mas muitas mães têm filhos negros e não as quero rezando para que seus filhos não sejam confundidos com bandidos por causa de sua cor e do preconceito  Hoje rezo para que meu filho não seja assaltado e ferido, mas sei que ele não será confundido com um negro e que um bandido pode feri-lo, mas que a polícia não irá confundi-lo e espancá-lo por engano.

Sempre penso nas mães. A mãe do negro, a mãe do índio, a mãe do gay, a mãe do faminto, a mãe que apanha, aquela que não quis ser mãe, a que não pode ser mãe. Ser mãe já dói tanto quando você pode dar o mínimo ao seu filho. Penso na mãe que não pode dar segurança, alimento, penso na mãe que dorme a noite achando que seu filho pode apanhar, pode chorar, pode morrer. Todos podem morrer. Mas, mães não deviam se preocupar também com isto. Não porque seus filhos estão com fome, frio, porque estão sem emprego, porque são negros, índios, gays, porque votam neste ou naquele candidato. Mães já têm coisas demais com que se preocupar.

Não fizemos absolutamente nada por anos a fio enquanto sangravam a pátria com desvios, fraudes e descalabros ( ou você é daqueles que acham que a desonestidade só passou a existir quando o PT assumiu o poder? - ou se decepcionou porque votava no PT e achava que eles não iriam ceder jamais à tentação, ingênuos...), assistimos ( se você tem a minha idade) aos desmandos da ditadura, a era Collor, a compra de votos da era Fernando Henrique ( entre tantos outros escândalos abafados do PSDB e vários outros partidos) e depois de tantos anos vale a pena destilar veneno pelo canto da boca contra quem pensa diferente de você porque agora existe internet e o grupo da família mostrou um vídeo que te deixou indignado? Vale a pena dar voz a um grupo que apoia quem acha que pode sair descontando sua raiva pessoal e suas frustrações em minorias? Que pode cravar suástica na pele de feminista, pode dar porrada em gay, pode escolher qual religião é mais relevante, pode decidir se a mulher estuprada pelo ex companheiro deve ou não carregar um bebê por nove meses no seu útero?

Vou te dizer o que é ser patriota, amigo. Ou melhor, vou te dizer o que é ser humano. Porque ser patriota é uma idiotice. Eu amo meu país e jamais sairia daqui porque imbecis o habitam. A geografia não tem culpa. A hidrografia também não. Tampouco o idioma. Ou a bandeira, ou o hino. Ser humano é pensar no amiguinho do lado. Mesmo que ele não esteja tão do lado assim. Talvez você more em uma zona mais confortável como eu, mas ainda se preocupe com aquele que tem fome, ou dor, ou não tenha onde morar. Não precisa ser comunista e dar sua casa ou deixar de ter um celular para desejar que o coleguinha não sofra e talvez você até consiga fazer alguma caridade, algo ao seu alcance, ajudar uma ONG, levar roupas usadas a um asilo, fazer roupas para crianças de rua... Não precisa ser comunista para desejar um pouquinho de paridade social. Um pouquinho menos de fome. Um pouquinho menos de frio. Um pouquinho mais de paz.

No fundo acho que todos desejamos justiça. Todos desejamos que haja menos corrupção. Todos desejamos que o dinheiro vá para onde realmente precisa ir. Mas, nem todos querem vingança. Nem todos estão p da vida porque perderam seu poder aquisitivo, nem todos querem ver sangue. Muitos querem apenas que o país ande, encontre seu rumo e cresça. Acredito que tem muita gente que não gostaria, como eu, de estar votando em A ou B neste segundo turno. Que apenas querem ver parar a sangria, a violência, a falta de oportunidade, a fome, a escuridão. Querem apenas que pessoas parem de falar em meritocracia em um país como o nosso, que boa vontade nem sempre supera uma escola paga de período integral, que é difícil agarrar oportunidades com fome ou dormindo em um quarto com goteiras. Não é vitimismo. É bom senso.

Então não meu importa seu voto. Nós já perdemos. Perdemos quando descobrimos que alguém acreditou nas mamadeiras com bicos em forma de pênis ou que gays passaram a andar ainda com mais medo nas ruas. Perdemos quando queimaram a história e disseram que Hittler era comunista, quando disseram que não temos uma divida histórica com negros, perdemos quando a imprensa passou a valer o mesmo que uma mensagem de whatsapp de um grupo  qualquer. Perdemos. Mesmo se ganharmos, perdemos. Perdemos o respeito pelo próximo, pela opinião alheia, pela liberdade de discordarmos. Todos perdemos.

Pensando bem, nem todos. Irão ganhar aqueles cujo apego ao vil metal impera. Irão vencer os de sempre. Os que sempre vencem. Aqueles que estão do lado forte da corda, os que vendem a mãe, os que se importam mais com a cotação da bolsa do que com um poema ou o beijo do filho no final da noite. Aqueles que pouco se importam com quantos irão morrer com balas zunindo pela noite, pois estarão no conforto de seus palacetes, onde sempre estiveram. Impassíveis. Acreditando-se impolutos. Dando entrevistas cheias de justificativas para cada fato negativo, como sempre fazem, como sempre fizeram.

E então, aqueles que os puseram no poder terão que se decidir: ou se afogam em amargura e direcionam seu ódio a outro alvo ou percebem que o inimigo é outro. Não é quem tem fome, não é o índio que estava aqui há quinhentos anos, não é o nordestino cuja terra os governantes parecem fazer questão de esquecer. Não é a mulher pobre que aborta porque não pode sustentar o filho que o ex companheiro fez e abandonou ( porque a mulher rica a gente sabe que aborta em lugar seguro amigo, você aprovando ou não), não é o imigrante que vem de um país que você odeia tirar o seu emprego ( porque quando você tira o emprego de alguém nos EUA, você nem liga). O inimigo é aquele que não se importa com mais nada. Somente com ele próprio.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Tempo de Construir Memórias..



Houve um tempo de ir comprar coco ralado na hora na Doceira Modelo e ir buscar fios de ovos no Di Cunto. Houve um tempo de decidir se a mesa devia ficar na garagem ou cozinha e escolher quem  ia subir no banquinho para pegar as taças, sempre no último andar do armário. Houve um tempo de discutir se os presentes do Bruno iam ficar na porta de casa ou nos fundos do quintal quando a gente gritasse para ele que o Papai Noel estava passando e neste tempo todos se apressavam em correr atrás dele para não perder a cena. Houve um tempo de se torcer por sol na manhã de Natal para ver o vovô montando a balança embaixo do pé de jasmim e esticando a rede nos ganchos enquanto o cheiro da comida caseira e reconfortante tomava cada canto da casa. Houve o tempo do filho pequeno e depois dos sobrinhos pequenos. O tempo de alguém que trocava  o amigo secreto e bagunçava tudo, do pai que nunca gelava a cerveja o suficiente e o tio barulhento que transformava qualquer reunião em uma festa e quando a coisa apertava gritava: - Manaaaaa!

Houve um tempo de formar memórias. Porque em última análise é disto que se trata viver: aprender, crescer, ensinar. E, se tudo der certo, viver para sempre na memória cheia de carinho de alguém que nunca vai esquecer de você. Houve tempo para tantas coisas diferentes e sempre todas iguais todos os anos. Nem todas as memórias são boas, mas me reservo ao direito de só me lembrar das melhores porque a esta altura da vida posso me permitir tal seletividade.

Por isso aprendi a colecionar lembranças e construir memórias. Por isto tirei tantas fotos e pacientemente cantei cada música de Natal com a letra errada com minha avó. Por isto enchi da comida predileta de cada um, cada pratinho de avô, de pai, de tio que já não estão mais aqui entre nós. Hoje, com muito menos pessoas à mesa, sem nenhuma gritaria e longe dos que estão à distância de um telefonema e que ainda assim eu os queria tão mais perto, nós não iremos estar tão sozinhos. Vamos estar rodeados de lembranças daqueles que já se foram e daqueles que mesmo entre nós eu não pude ter comigo neste Natal. E vou me lembrar de todo aquele barulho, de toda aquela divertida confusão. E quando estiver lembrando  de outros Natais que foram tão diferentes, eu também estarei construindo novas memórias. Memórias de histórias contadas na mesa, entre risos e uma ceia nada tradicional com o marido e o filho adulto ( faltou a norinha desta vez, fez falta...)  e as inúmeras lâmpadas de Natal das quais ainda não abro mão. Afinal, é Natal e até as lâmpadas coloridas me trazem memórias felizes.....


Feliz Natal a todos! 

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

DE VOLTA ÀS RUAS




Há muito tempo eu não ia a uma passeata. A última foi na época da saída do Collor. Não saí às ruas para pedir a saída da Dilma porque por intuição ou experiência eu tinha certeza que a alternativa seria pior. Nem fui aos últimos protestos contra a corrupção, pois sem objetivos claros e definidos, os apelos misturavam-se a intervenção militar e conservadorismo e longe de mim querer apoiar qualquer uma destas opções.

Hoje eu voltei às ruas. Um amigo em um grupo me chamou e eu não pensei duas vezes. Meu marido me perguntou por que eu estava indo, já que era prevista uma adesão bem pequena. Na hora eu apenas disse que era o que eu queria fazer e como ele não quis me acompanhar, fui sozinha.

Fui meio sem jeito, meio sem rumo, durante o caminho todo querendo responder a pergunta que meu marido havia me feito. E mesmo ao chegar, ainda não sabia bem a resposta. Havia de fato pouca gente. Esperava muito mais estudantes, visto que estávamos em frente à Universidade Federal.

Juntei-me ao meu amigo, fomos conversando e fui observando tudo ao meu redor. Haviam muitas pessoas já não tão jovens. Haviam muitas  mulheres. Sozinhas ou em grupo. Havia um avô com dois netos que esperava pela passeata na esquina do FINDES com uma bandeira de Fora Temer na mão. Havia um casal de namorados que se juntou a nós no meio do caminho. Eu prestava a atenção ao que um dos homem dizia do alto do carro, mas não conseguia deixar de observar também a mulher ao meu lado, trinta e sete, trinta e oito anos, calça jeans, uma blusa branca, agarrada à bolsa meio grande demais para um lugar daqueles, ela  dava a impressão de ter saído do trabalho e ido direto para lá.

Quando passamos por alguns edifícios as pessoas saíram nas sacadas e acenderam e apagaram as luzes como se isso fosse um sinal de apoio. Foram aplaudidas por quem estava na rua.

Haviam muitos gritos de protesto, palavras de ordem, discursos, mas eu queria mesmo chorar. Tive que segurar as lágrimas mais de uma vez para não parecer uma idiota tendo que explicar para todos o que estava sentindo. Porque eu estava triste. Triste por ver aonde o país que a geração dos meus pais e a minha lutaram tanto para ser livre chegara. Triste por ver tantas conquistas jogadas no lixo. Triste por ver uma democracia tão recente fracassar. Triste por perceber que as pessoas estão perdendo a esperança em um país que poderia se tornar um exemplo em educação, em saúde, em segurança, em ciência, em desenvolvimento, em políticas sociais, em tantas outras coisas e está se tornando apenas o melhor em corrupção e no favorecimento de poucos em detrimento do sofrimento de muitos. Triste porque as pessoas não percebem que isto já não tem a ver com partidos políticos, com esquerda ou direita, tem a ver com não acabar com o que sobrou do nosso país.

Mas, caminhar me fez bem. Ver aquele avô com seus netos me fez bem. Ver aquelas pessoas pedindo para terem seus direitos garantidos me fez bem. Tinha uma senhorinha de uns setenta anos andando com certa dificuldade. Várias vezes ela sentou-se.Duas moças a ajudavam o tempo todo. Meu amigo me disse que ela ajuda outras pessoas sem moradia há cinqüenta anos. Cinqüenta  anos. Ouvi algumas histórias ali. Quando resolvi vir embora, pouco antes de terminar, porque já estava tarde da noite  e eu estava sozinha e tinha longa caminhada de volta pela frente, me despedi do meu amigo e, antes de ir embora, fui me despedir daquela mulher que durante toda a caminhada esteve ao meu lado, segurando a bolsa com força. Perguntei a ela como ela iria embora e ela me disse que voltaria de ônibus. Estava dizendo até logo, quando resolvi perguntar a ela porque ela tinha ido ate lá. No meio de todo aquele falatório de tantas pessoas, eu ouvi três palavras que não vou esquecer tão cedo: “ - Eu Apenas Precisava”. Ela sorriu e eu agradeci.

Voltei para casa mais leve. Talvez as passeatas que ainda virão não passem apenas de passeatas de trezentos ou quinhentos  sonhadores,um tanto em cada canto do país, pessoas que acham que podem desejar um Brasil melhor. Talvez mais pessoas passem a acreditar nisto e venham para a rua também. E talvez então, um dia deixará de ser sonho, e os dias voltarão a ser felizes.  Os tempos estão difíceis, mas se desistirmos, eles vencem.

Seja como for, agora já tenho a resposta que não soube dar a mim mesma quando saí de casa:


             Hoje eu voltei às ruas apenas porque é preciso!

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Estamos Nos Indignando Pelos Motivos Certos?


( E O Que É Certo Afinal?..)


Com tanta polêmica em torno do corpo de um homem nu em um museu, a única pergunta que não me abandonou estes dias foi: estamos nos indignando pelos motivos certos?

Um corpo nu deveria ser apenas um corpo nu. E é isto o que deveríamos ensinar a nossas crianças. Um corpo nu é aquilo que somos quando nascemos e é aquilo que servirá de adubo para a natureza quando partirmos. Apenas um corpo. Não deveríamos demonizar a nudez e menos ainda o sexo. Quando tratamos o assunto como um tabu a criança sente e o passa a tratar como tal. Claro que é difícil agir com naturalidade em uma sociedade pouco acostumada com aquilo que deveria ser óbvio, mas não é impossível.  

Seja pela religião, seja por motivos antropológicos, temos que entender que somos nós, adultos, que vendemos para a criança este rótulo de proibido, de errado, de demonizado que há na nudez, no toque, no sexo. Do meu ponto de vista, mais importante do que condenar a nudez ou o sexo é mostrar a importância do respeito ao corpo do outro, do entender o não, seja para o seu corpo ou para o corpo alheio. Respeito é mais importante que vergonha. Respeito é mais importante que pecado. Respeito é mais importante que qualquer outra palavra que a criança precise conhecer no que diz respeito a corpo e a sexo. Entendendo isto, fica mais fácil fazê-la entender que ninguém pode tocá-la, por exemplo.

E aí, volto a me perguntar, porque tanto barulho por um corpo nú, se não vejo ninguém escrevendo longos textos lamentando a miséria em que vivem tantas crianças neste nosso país, crianças vendendo balas nos semáforos, cujo dinheiro vai para pais se entupindo de drogas, crianças vendendo seus corpos nas paradas nas estradas em troca de comida, crianças perdendo uma infância enquanto batem carteiras ou pedem esmolas nas praças, ou pior, ficam secando a gente enquanto devoramos nossos lanches enormes e cheios de molhos e queijos, salivando e desejando que sobre ao menos uma remela que ele possa lamber do papel da embalagem jogada fora.... que país cruel este em que vivemos..

Há um menino assim aqui perto de casa. Um menino remelento, com cara de poucos amigos, oito ou nove anos, pasmem, ele não tem certeza da própria idade. Vive sentado na porta da padaria que freqüento, de tudo faz um pouco, lava para brisa, oferece doces, carrega carrinho de compras... Não tem uma cara muito simpática. Nem deveria ter. Seu nome é Pedro. Mas, segundo ele, todos o conhecem por Pedroca. Pedroca nunca foi à escola.  É o quarto de sete irmãos. Seu pai está preso e sua mãe trabalha lavando roupa, mas ele não sabe aonde fica, só que é lá pelos lados do morro do morro São Benedito. Mora em Jesus de Nazareth. A primeira vez que me pediu uma esmola eu lhe disse que nunca dava dinheiro, só comida. Ele me disse que tinha fome e eu lhe trouxe um lanche. Fiquei de longe observando para ver se ele não iria jogar fora, como alguns fazem, porque só querem dinheiro. Para minha surpresa ele comeu um pedaço e guardou o resto.

No dia seguinte, perguntei se ele estava com muita fome e ele me disse que sim, mas novamente ele comeu, observei de longe, apenas parte do que comprei para ele. Na terceira vez, perguntei a ele porque ele não comia o lanche inteiro. Ele ficou bravo, disse que eu estava vigiando ele e que não precisava comprar nada se não quisesse. Eu esperei ele se acalmar e perguntei porque ele estava tão bravo. Ele custou a responder. Na primeira vez que perguntei não me disse nada. Levou uns dois dias para ganhar sua confiança. Infelizmente, não era todo dia que eu podia ir encontrá-lo também. Depois de alguns dias, ele me disse que levava o que sobrava para os irmãos que eram menores do que ele.

Depois disto, passei a comprar sempre que o encontro, pão, queijo e leite para cinco pessoas. Claro que é uma despesa que não posso arcar sempre. Mas sinto pena. Empatia. Lembram o que significa? A gente se colocar no lugar do outro? Ver uma criança sentir fome, se preocupar com o irmão?

Pois é. Não sei se a mãe é honesta, se trabalha de fato ou engana o Pedroca. São coisas que não consigo avaliar. Mas, o que dá para avaliar é aquela criança que deveria estar na escola, com um enorme sorriso no rosto, bem alimentado, vivendo uma infância de direito e jamais pedindo esmola e comendo metade do lanche ganho para guardar o resto para os irmãos...  Ele não devia estar desejando os restos da embalagem do meu lanche....

É isto o que me deixa indignada. A fome me deixa indignada. A miséria me deixa indignada. A desigualdade me perturba. Não venham me dizer que deveria estar dividindo minha casa com mais vinte pessoas, que não devia estar usando um celular moderno..... Isto não tem a ver com ideologias, com socialismo, com comunismo, com ismo nenhum. Tem a ver com empatia. Tem a ver com lamentar a infelicidade de quem não teve as mesmas chances, as mesmas oportunidades. Tem a ver com se indignar pelos motivos certos...

Eu fico indignada todos os dias pelos motivos que acho certos. Pela desigualdade de oportunidades, pela fome, pelo racismo, pelo machismo, pela luta de classes, pela necessidade absurda de algumas vozes terem que berrar para se fazer ouvir. Eu fico indignada pela falta de respeito, pela falta de consideração, pela mulher que apanha calada, pela criança que é explorada, pelo dinheiro publico jogado ralo abaixo. Isto me deixa indignada. Uma criança tocando um homem nú não me preocupa se ela estiver bem orientada. Eu poderia ser esta mãe. Tranquilamente. Não fui. Mas, poderia.

Eu sei que choca ler e surpreende quem pouco me conhece. Mas, quem me conhece bem sabe que vergonha eu tenho da fome da humanidade, da ignorância a que ela é submetida, da hipocrisia que a sustenta. Pior que uma criança exposta a um corpo nu é uma criança cujo pai espera ela dormir para satisfazer seus desejos nos sites online cheios de pornografia infantil. Para isto não há perdão!